Lista de Poemas
Cem dias de solidão

Fragmentos de ecos assustadores ameaçam este silêncio
Pandémico, invisível, aniquilador e ferozmente inquisidor
Deixaram um vírus à solta naufragando neste tempo demolidor
Ouço uma turba de lamentos a choramingar desaventurados
A solidão prostrada tenebrosa e absolutamente assombrosa
Debilita a fronteira entre a vida e a morte chegando em polvorosa
No leito engelhado e enfermo alimentam-se cem dias de solidão
Queixa-se uma minúscula esperança ainda a soar beligerante
Jaz entre os lençóis desalentados deste silêncio tão dissonante
Frederico de Castro
145
À tona

Acomodada a solidão ressurge dissimulada
Deixa na beira do tempo um disruptivo eco
Navegando à tona de cada palavra capitulada
Doces beijos afogam-se na maresia imaculada
Encarceram uma hora tão amante, tão estrangulada
São caricias serpenteando a alma agora e sempre bajulada
Frederico de Castro
136
寂靜之丘 – Morro silencioso

Os morros silenciosos além dormitando dispersados
Embarcam numa coreografia de palavras apaixonadas
Plagiam até a saudade escrita, transbordando deslumbrada
O poente quase encabulado vigia a solidão arreliada
Esboroa-se enlouquecido num eco tão complacente
Põe-se à garupa de um sonho cavalgando mais efervescente
Sem remorsos o tempo deglute uma hora endodérmica
Incorpora um encefálico silêncio felpudo e endémico
Causa à memória um sururu de emoções quase blasfémicas
Frederico de Castro
149
Momento poente

Içando uma solidão ígnea e quase indescritível
A maresia feliz adormece desatinada e intangível
Bolina numa brisa prestes a desmaiar quase inaudível
É o momento poente infinitamente ilustríssimo
Apazigua as dores do tempo imerso num sorriso miscível
Confunde-se no leito do silêncio onde mora um eco inamovível
Frederico de Castro
192
Além da liberdade

Além da liberdade que ali ressuscita elegante
Mordisca a alma toda esta gargalhada empolgante
Alucinará todas as emoções flutuando insufladas
Por uma soberba alegria vadiando por ali agigantada
Além da liberdade flerta-se a esperança ofegante
Arregaça-se as mangas e alimenta-se a fé exuberante
Povoam-se orações com palavras sempre inesgotáveis
Fecunda-se a vida embriagada de ilusões tão inescrutáveis
Frederico de Castro
153
Onda de afectos

Peneirenta e elegante lá vai uma onda intumescida
Submerge ao longo deste imenso oceano desconhecido
Resfolega e marulha oculta num fluidificante eco aturdido
No frescor da maresia ambulante sedosa e esplêndida
Degusta-se o perfume de muitas marés persuadidas
Onde toda ela, todinha… adormece feliz e surpreendida
Frederico de Castro
181
Memorial dos silêncios

Sobre uma serena sombra repousam os claustros
Deste silêncio contemplativo…tão intensivo
Pressurizam até aquele eco fluindo ostensivo
O tempo expedito e incansável apascenta a
Manhã vergada por uma poderosa ilusão sensitiva
Incide nesta solidão contida numa rima tão passiva
Após se desembaraçar de uma hora intrusiva
As memórias dinâmicas, eficazes mas erosivas
Resguardam tantas redentoras saudades expressivas
Frederico de Castro
183
O tempo quis ser livre

O tempo também quis ser livre
Patenteou cada hora que fluía em liberdade
Passarinhou entre mim e o silêncio sempre
Com esta imensa aliada cumplicidade
Quando o tempo quis ser livre a manhã
Mais vulnerável ardia sedada, quase obcecada
Mascarou minha solidão que estrebuchava
Enjaulada nesta panóplia de emoções em debandada
Frederico de Castro
166
Entre cada hora...

Entre cada hora fútil o silêncio esvai-se tão expansivo
Pormenoriza a quadratura do tempo que fenece inactivo
Castra cada segundo diluído nesta emoção gradativa
Cobiça a memória amaldiçoada por uma estrofe tão permissiva
A solidão ainda que disforme desenha no espaço um
Abúlico lamento ansioso e indubitavelmente capcioso
Degenera numa luminescência dopada por um eco sinuoso
Destila este consternado tédio grosseiro, aflito e tão vigoroso
Frederico de Castro
178
Odores da primavera

Depois de parir tantas pétalas deste silêncio colorido
A manhã ginga ansiosa entre cada gomo de luz sem alarido
São odores da primavera destilando perfumes tão desabridos
Num suave e doce burburinho a solidão irrompe expectante
Empresta à esperança uma conhecida oração sempre crepitante
Rechaça cada eco vivido nesta fracção de segundo palpitante
Frederico de Castro
167
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