Lista de Poemas
Para lá do horizonte

Cheia de matreirice a noite floreia a
Face do tempo que insinuante perfuma
Aquela maresia colorida e tão apaziguante
Para lá do horizonte antevejo um aguaceiro
Que chegará contagiante, regando a terra que
Ávida se embebeda desta chuva tão excitante
No cortejo da solidão badala uma hora ofegante
Dormita aconchegada a uma sombra caiada de
Silêncios coreografados por este lamento agora saciado
Frederico de Castro
179
Na penumbra da solidão
Na penumbra da minha solidão pernoita
Um silêncio tão desapontado
Engole a noite que seduzida jorra sua
Escuridão, tão amordaçada, tão atarantada
Assim lânguida a saudade cinzela as sombras
Da tristeza que pousam ao longo de muitos
Labirínticos silêncios que amedrontados
Regam o céu com tantos aguaceiros tão saciados
Traz-nos a manhã que chega uma lembrança
Palpitante tatuando cada gomo de luz que desabotoa
Febrilmente uma caricia ou um afago…ah tão exorbitante
Na crónica dos meus silêncios sintetizo a solidão que
Me é ainda tão relutante, porque a consumo assim exultante
E dela me sacio no aconchego de um lamento mais sonante
Frederico de Castro
189
Duas lágrimas

Pudesse eu enxugar-te estas lágrimas juvenis
Para com poesia depois afagar-te a alma que
Se queda faminta, onde cada silêncio se requinta
No limiar dos tempos enfeitaria um verso trajado
De esperança e muita cortesia e até deixaria uma brisa
Debruar a tristeza que um descolorido olhar sacia
Rolam duas lágrimas pela face abaixo
Desencontram-se no divã da solidão e pernoitam
Suspirando, indubitavelmente complacentes
E se pudesse encenava no silêncio um cântico inebriante
Qual sol radioso feito antidoto para iluminar a tristeza que
Além solfeja amadurecida…tão mitigante…quase cativante
Frederico de Castro
123
Vai...e mergulha

Vai e mergulha…neste oceano de
Luminescências quase espaciais
Navega naquela brisa que imponente
Se confunde na maresia deveras tão conivente
Vai e mergulha…nesta vagabunda solidão que
Se recosta no sofá dos sussurros dementes
Oh insustentável ilusão diametralmente saliente
Que além mergulha numa onda inexoravelmente eloquente
Frederico de Castro
131
Poente fecundo

De súbito a noite castrou a escuridão que
Bêbeda se refastelou num longo breu danado
Sorveu do silêncio todos os ecos capitaneando
A solidão desmazelada, absurdamente rebelada
Milhentas brisas vagueiam em pleno céu que
Domesticado, irrompe qual aguaceiro pacificado
Bons presságios navegando a bordo de muitos
Beijos coniventes, reincidentes, tão empolgados
As manhãs suspensas na haste do tempo brotam
Esbaforidas, expurgando da alma qualquer lamento
Confinado a uma indelével rima quase aturdida
Rebentam as águas da solidão que se afoga
Entre a placenta dos sentidos mais vagabundos
E todo este silêncio lambendo cada ávido desejo tão fecundo
Frederico de Castro
199
Perpendicular ao tempo

Treme o poente vendo a noite chegar
E cada gomo de sol ilustra bem a solidão
Pousada além no parapeito de um fotográfico
Silêncio quase, quase caindo desamparado
Perpendicular ao tempo que conspira
Desfasado a escuridão chegará paralisada
Lambendo uma hora que se esvai opulenta
Quais réstias de uma promissora caricia suculenta
Frederico de Castro
137
Fomos ver o por do sol

- para a Carla
Cada vez mais vazio o dia esfuma-se
Numa hora sempre mui graciosa
Amarinha juntinho ao poente que inebriado
Exala num derradeiro gomo de luz extasiado
Entrelaçada à noite que chega de mansinho
Uma caricia inebriada, trinca um eco embriagado
Seduz a escuridão que graciosa e apaparicada
Desliza docemente neste horizonte tão purificado
Frederico de Castro
203
À beira da solidão

A manhã solta uma ventania de solidões agrestes
Flui dentro daquela hora estatelada num segundo
Diria quase funesto, para depois se perder desintegrada
À beira de uma temível emoção tão depauperada
Lacrimeja o dia sombrio, numa enorme comoção
Embriaga-se de tantas lágrimas quase dilaceradas
Fica mudo e quedo ostentando só uma tentação
Refastelada na guarita de muitas ilusões desesperadas
Sem interrogações, exclamações e outras considerações
Seduzo a memória repleta de saudades obsoletas,
Oh, abençoada rima trajada com palavras inspiradas e irrequietas
Onde se acasalam estes silêncios que um eco viril depois espoleta
Frederico de Castro
237
À beira Tejo
- ao Tejo imenso, amado e bem navegado
À beira Tejo repousa uma canoa
Convertida numa caricia comprometida
Estira-se além numa maré feliz e redimida
Entre as margens do silêncio desagua
De mansinho um doce afago que inadvertido
Traveste cada sonho naufragando tão combalido
Frederico de Castro
196
Debaixo da ponte

Debaixo da ponte esconde-se o silêncio
Vergado a uma escuridão tão benevolente
Ampara esta maresia perfumada e excedente
Debaixo da ponte vagueia uma maré coincidente
Afoga cada lamento que desamparado colide com
Os pilares do tempo além no oceano encarcerados
Debaixo da ponte a solidão sucumbe, aliciada por uma
Hora em pânico, deixando em calafrios a noite que chega
Vestida com um poente desalmado, quase conformado
Frederico de Castro
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