Se escrever fosse ser
Estou escrevendo as pressas
As pressas e aos prantos
Aos trancos e barrancos
Com medo de você sair dessa
Eu sou uma emboscada
Eu lhe faço mal, percebe?
Eu lhe faço bem, percebe?
Posso beijar-te ainda vendada
Tenho que escrever rápido
Pra te trazer ao meu lado
Tenho que subir essa montanha
Pra chegar ao pico, me sujarei de lama
Posso escrever rápido, não quero
Devo, e vou
Mas não queria, tolero
Eu quero escrever o que você quer que eu escreva, não vou
Jardim de Asfalto
Milhões de estruturas alicerçadas
Não com afeto
Criam prisões disfarçadas
Com muita massa e contreto
Prédios tortos se erguem
Eles caem, e denovo se erguem
Pessoas morrem, eles procedem
Uns deixam histórias
Outros deixam dores
Maria, o onze do sete mandou flores
O mundo tenta
Eu tento
Como pequenas casas
Que procuram luxo
E se resumem ao lixo
Desgaste da parede que uma hora vai cair
Desgaste da pele que uma hora irá se cortar
Desgaste da alma que uma hora irá me deixar
Astrom Statum
Instantaneamente acontece, o tempo, ele começa, de uma vez, derrubando qualquer fronteira e atravessando todas as distâncias possíveis, ele é grande, na verdade, ele é maior que qualquer coisa que nele já existiu, o tempo não tem barreiras, não conhece limites. Ele destrói tudo que está em seu caminho pouco a pouco, lentamente qualquer coisa por ele tocada é destruída, devorada, esquecida e largada, o tempo é como um assassino em massa, um totalmente discriminador, que para te matar basta somente, você ter existido.
Só há uma maneira, a única e inevitável, que diferencia ele de você, o poder de ser esquecido, a árdua maldição de ser totalmente esquecido, somente isso, ficar só, assim como era antes de você existir, mas realmente não existe um antes, o seu tempo começa nesse meio, a vida é como um meio de uma história que simplesmente acaba, sem revisão, sem publicação, porque em algum momento, todos esqueceram de você menos ele, pois ele sempre esteve lá, com outros nomes ou qualquer coisa que tivesse há mera dignidade de representa-lo, mesmo que depois, esta representação também será esquecida.
Podemos lembrar até certo ponto o que aconteceu, e porque estamos aqui, más até onde vai essa retrospectiva, o que ocorreu antes de antes, antes daquele ponto de disparo. O ponto inicial é um marco para o tempo, ou é apenas outra coisa que por ele já tenha passado? Sabemos que ele é frio, imperdoável e imprevisível, ele é o melhor no que faz, avançar. O tempo ele simplesmente faz, ele não perdoa, mata tudo e simplesmente esquece, isso o torna o assassino mais frio, de qualquer local seja ele conhecido ou não.
Ser bondoso e legal não ajudará, ser mal e cruel não farão efeito algum, ele te esquecerá. Você pode tentar entende-lo, mas quando o fizesse, seria tarde demais, ele já teria te alcançado e te esquartejado lenta e friamente, estaria disfarçado, como qualquer coisa, ele é silencioso, fatal e imoral. Ele é um obstáculo, o começo, o meio, mesmo sendo também o.
Sinto por não sentir nada
Poesia afagada
Poesia amarga
Não nutro paixão pela sua farda
Você poeta sente amor na palavra?
Não, não sinto
Não, não sinto nada
Então qual o sentido em fazer isso?
Só o faço porque preciso
Qual o sentido em tudo isso?
O sentido em tudo isso, não sou eu
Sinto por não sentir nada
Lamento por não chorar a sua ou a minha perda
A perca, ela não é minha inimiga
Por isso não sinto ódio
Sim isso tem total sentido
Sinto por não sentir nada, na verdade é educação
Sou pessoa antes de poeta, e minha pessoa veio sem qualquer emoção
Peço desculpas a todos, amigos ou inimigos
Não sinto ódio nem prazer, sem quaisquer vinculos
Tão quais os sentimentos estes, para mim, são sem sentido
Seus textos são maravilhosos! s2