Aforismo
Mas é isso que nos separa no preconceito
e nos une na mortalidade
Honoré DuCasse, além de um pseudónimo, é também um heterónimo, uma personagem literária imaginária com uma personalidade demarcada e muito própria. "O Libertar das Sombras", mais que uma antologia, é o deixar a "nu" a sua intimidade enquanto poeta.
n. 1799-06-29, Paris
Ontem escrevi um poema
Não tinha nome
Não tinha mote
Tinha sentimentos
E falava de morte
Do meu nascer
Antes de te conhecer
Ontem escrevi um poema
Falava de dor
Que não tinha
Falava de amor
Quando não te tinha
Hoje escrevo este poema
Não por te ter
Porque no olhar já nos temos
Escrevo por escrever
À espera de um dia
Te ver amanhecer
Toco-te a medo
Pelo olhar
A pele que nos une
Para que nesse interlúdio
O silêncio nos seja memória
Metade do teu olhar
É quanto me basta
Para que o dia
Me doa menos
E a noite
Me seja clara
Há mãos que se dão
porque na memória ficaram
Há mãos que esperam
Que se olhem no toque
Há conexões que se formam
Porque no olhar se tocaram
Há palavras que não se escrevem
Porque já foram lidas
Há vidas que se tocam
Porque as almas
já se uniram
Beijo-te
A tua insana
Minha boca
Alvorada meia lua
Ao arrepio
Sentes-te louca
Mordes o cio
E a nudez
Das nossas bocas
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