A noite
Tudo passa,
O amor,
O poema
O futuro,
A noite,
E a paixão de uma vida escassa
Tudo passa em sombras
Quando o tempo se esquece
Até o céu
E a lua
E as minhas lágrimas no teu rosto
O beijo à meia luz
Sem ti,
Tantas vezes morri
No meu desgosto
Honoré DuCasse, além de um pseudónimo, é também um heterónimo, uma personagem literária imaginária com uma personalidade demarcada e muito própria. "O Libertar das Sombras", mais que uma antologia, é o deixar a "nu" a sua intimidade enquanto poeta.
Tudo passa,
O amor,
O poema
O futuro,
A noite,
E a paixão de uma vida escassa
Tudo passa em sombras
Quando o tempo se esquece
Até o céu
E a lua
E as minhas lágrimas no teu rosto
O beijo à meia luz
Sem ti,
Tantas vezes morri
No meu desgosto
Toco-te a medo
Pelo olhar
A pele que nos une
Para que nesse interlúdio
O silêncio nos seja memória
O gosto do beijo
Que bebo da tua fonte
Tem o travo do mar
E o arrepio das ondas
A fome da tua boca
É um soneto em Neruda
Faço poemas nos teus
Lábios meus
Porque te sinto
Tal como um vulcão
Se exaspera nas entranhas
Não sei o que o mar sente
Quando a lua se ausenta
Não sei de cor é o céu
Quando habita a tormenta
Sei que a noite pesa
Para além da idade
Sei que o silêncio
Se gosta para além dos dias
Sei que o amor se basta
Num singelo e sincero
abraço
Há mãos que se dão
porque na memória ficaram
Há mãos que esperam
Que se olhem no toque
Há conexões que se formam
Porque no olhar se tocaram
Há palavras que não se escrevem
Porque já foram lidas
Há vidas que se tocam
Porque as almas
já se uniram
Olha como o pôr-do-sol nos leva a mácula
Que o nascer do dia debrua
Vê como o silêncio no olhar irrompe
E devolve à noite
O que os dias não curam
Sente que a noite te abraça
Sempre que os corpos falam
Ouve o que a pele te diz
Ao arrepio do toque
Imagina o que os corpos
Dançam
Quando da noite se faz música
Beijo-te
A tua insana
Minha boca
Alvorada meia lua
Ao arrepio
Sentes-te louca
Mordes o cio
E a nudez
Das nossas bocas
Gostava de poder imprimir
Os sonhos que se evadem
Ao ritmo da chuva
E das pedras seculares
Cultivo a dissidência da vida
Com a força de um poema
Na boca trago os cravos flamejantes
De uma aventura com o teu nome,
Por mote
Por entre dedos trémulos
Que te olham
Só um poema te deixa na boca,
o que sinto
Bebi-te num rio numa manhã de degelo
Tacteavas a pedra polida
Como se tivesses lábios de desejo
Percorrias as entranhas nos fiordes
Num frenesim sensual
Derretias os prados fumegantes
Mitigavas-me o anseio ardente
Nos teus lábios quentes
Mordias o verde até ser rio
Morrias-me na foz até ser gente
Disseste o meu nome
ao desaguar na foz
Disse o teu à nascente
Como se dois rios se encontrassem
E dessem as mãos
Em leito estreito
e
Nessa torrente
De desejo
Partimos em busca do sal
Do arrepio
Desse gesto
De nos olharmos por dentro
Percorrendo as margens do tempo
Colhendo o nosso vento
Sou uma manhã que se arrepende
Sempre que a aurora toma a forma do medo
E da janela do meu tempo se escondam
dois olhos em súplica
Como se fossem o epílogo anunciado
De uma alma que não lhes pertence
Há um poema
Que me lembra
O vento das vozes cansadas
E das noites a fio
à espera das madrugadas
Na reclusão das eras
E no ermitério das idades
No teu deserto
Habitam formas em sonhos
Olhares nocturnos
O antes e o depois
Como se a expectativa
Nos fosse um afago maior
O poema desobedece
Sempre que o corpo adoece
E se torna refém da vida
Há um caminho
Percorrer nas letras
O que falta aos dias
E deixar por legado
O que na memória
Adormece
Como só tu soubesses
Onde escondo o pôr-do-sol
E a lua pela vida
É como se a noite
Me emprestasse o saber
Entre o verso e a alvorada
O desejo e a eternidade
Eras manhã,
De um verão qualquer
Ainda a madrugada preguiçava
Quando o beijo nos demorou
Como se fosse o prelúdio
De um romance inacabado
Nada se compara ao espreguiçar
Das manhãs de Outono
Ao murmúrio das aves sonantes
À poesia das folhas dormentes
E ao romper dourado
Da aurora crescente
Quando a minha existência
for apenas uma memória distante
verás que, para além do poema,
nada mais subsiste
que a dor imensa de o ter escrito
Sente o vento
Que gela a sombra na palavra
Deixa que o olhar se demore
para além do instante
Há muito que me deixei partir
Sobra a leve memória
E o murmúrio incerto das arribas
E dos dias gastos
Que deram à costa
Na intimidade de um poema
Desnudo-te a voz e os
Abraços inconfessáveis
Na intimidade de um poema
Cabem todas as palavras mudas,
Os olhares cegos
E as madrugadas de uma vida
Na intimidade de um poema
Escreve-se a noite
E o beijo demorado,
O olhar nu
E o verso involuntário
Dos amantes que rimam
Na meia-idade
Despem-se as cores do tempo
Ouvem-se os tons da natureza
Promovem-se as pausas
Agigantam-se os silêncios
O futuro habita no presente
Torna o passado refúgio
Regressa-se ao interior
Num caminho já feito
Que se sabe seguro
Consolidado
Longe das amuradas
E das tormentas
Na meia-idade
Voamos mais alto
Ganha-se outra perspectiva
Não há deslumbre
Nem mágoa que se padeça
Olha-se de cima o futuro
Sem bater asa
Retiramo-nos em silêncio
Para que na morte
A vida aconteça
Metade do teu olhar
É quanto me basta
Para que o dia
Me doa menos
E a noite
Me seja clara
Gosto das palavras com sentimentos
Emoções com gestos
Gosto da chuva sem vento
E das conversas sem tempo
Gosto dos invernos à meia-luz
E dos abraços que não se pedem
Gosto de olhares marcantes
Quando os nossos corpos se perdem
Gosto dos dias a acabar
E da noite por dizer
Gosto de amar
E do por do sol
Junto ao mar
Há um poema que me deixa a meio
O de sentir que a palavra me foge
Para as noites da nossa pele
Prefiro o voo das aves
À indiferença da palavra
Prefiro a insanidade
À distância que dói
Prefiro a cicatriz que lembra
À memória que fere
Prefiro o abraço que demora
Ao beijo que foge
Prefiro o poema que sente
Ao verso sem voz
Prefiro o suicídio no poema
Ao sonho que acorda
A poesia é o que se dá à vida
Antes da palavra
É seiva inconformada
Substância que adoça o palato
Cala os dias
Inspira as madrugadas
É a doce forma
Que insana a voz
É tornar a arte de esculpir o homem
A mais nobre da sua essência
Hoje vi-te naquela amurada de prata
Eras céu de Janeiro
Já lá vai tanto tempo que fomos mar e céu
Estavas linda naquela manhã de Inverno
O teu andar voava elegante
Perante a nudez dos meus olhos
Como se não tivesses chão
Nem porto onde me ancorar
Eras poesia nos teus cabelos
Que de vento eram feitos
Os sonhos não cabiam em nós
Nem neste mundo
Amei-te sem saberes
Que a lua também chora à noite
Após tantos invernos sofridos
Só agora percebo que a primavera eras tu
E o sonho era meu
És da primavera
A mais longa promessa esquecida
O teu amor tem a finitude
De um beijo
E das ruas sem nome
A tua ausência é um cais que parte
Nas primeiras chuvas de outono
O que me consome não é a saudade
Mas, sim,
os poemas que te procuram
É rasgo
É tudo
É momento
Teu abraço devoluto
É nuvem incerta
Que seduz o vento
Dilúvio enfermo
Céu que flameja
Deixa a descoberto
As entranhas do tempo
Dias a fio
Escuto a voz incessante
Deste rio
Assombro molhado
No chão cansado
Olho descalço
O vento irado
As noites frias
Do inverno demorado
Onde incerto, abrigo
Sobrevivo acordado
E se contigo
O verbo falasse
Num tempo que não existe,
Só nosso,
Ausente dos dias e da incerteza
Conjugado no olhar
Sem reticências ou
Predicados que nos assombrem?
Quando adentro pela natureza
Deleito-me com a vida
Que nasce debaixo dos pés
O verde orvalho
É uma memória
Uma infância distante
O doce cheiro dos afectos
E da terra molhada
Os dias pequenos
E o crepitar manso
Da chuva cansada