O Libertar das Sombras

O Libertar das Sombras

2026

Honoré DuCasse, além de um pseudónimo, é também um heterónimo, uma personagem literária imaginária com uma personalidade demarcada e muito própria. "O Libertar das Sombras", mais que uma antologia, é o deixar a "nu" a sua intimidade enquanto poeta.

A noite

Tudo passa,

O amor,

O poema

O futuro,

A noite,

E a paixão de uma vida escassa

Tudo passa em sombras

Quando o tempo se esquece

Até o céu

E a lua

E as minhas lágrimas no teu rosto

O beijo à meia luz

Sem ti,

Tantas vezes morri

No meu desgosto

A nossa pele

Toco-te a medo

Pelo olhar

A pele que nos une

Para que nesse interlúdio

O silêncio nos seja memória

 

 

A Tua Fonte

 

 

O gosto do beijo

Que bebo da tua fonte

Tem o travo do mar

E o arrepio das ondas

A fome da tua boca

É um soneto em Neruda

Faço poemas nos teus

Lábios meus

Porque te sinto

Tal como um vulcão

Se exaspera nas entranhas

 

 

Abraço

Não sei o que o mar sente

Quando a lua se ausenta

Não sei de cor é o céu

Quando habita a tormenta

Sei que a noite pesa

Para além da idade

Sei que o silêncio

Se gosta para além dos dias

Sei que o amor se basta

Num singelo e sincero

abraço

Abraços

Há poemas que nos escrevem a vida
E palavras que nos rasgam os poemas
Há dor que não cabe no poema
Quando as lágrimas nos escorrem dentro
Há desilusões que nos beijam
Quando o amor nos foge
Há abraços que desatam
Quando no sonho
Não atam

Abrigo

Se soubesses como o tempo nos fenece

E a chuva nos demora

Seríamos abrigo num canto qualquer

Da aurora ao crepúsculo

Toda uma vida

Numa só pele

Acosto sem nome

Arpoa em mar revolto

Segue convicto

Batelão destemido

Deixa no arrasto

Prosa vencida

Fragas disformes

E acosto sem nome

Aforismo

Somos todos iguais na diferença.
Mas é isso que nos separa no preconceito
e nos une na mortalidade

Aguaceiro

Não fosse o tempo
Abrigar-se
Em aguaceiro destemido
Nunca a prosa
Me choveria nos tristes
Dedos,
Nem o céu teria
A cor
Do que sinto

Alquimia do Silêncio

Há mãos que se dão

porque na memória ficaram

Há mãos que esperam

Que se olhem no toque

Há conexões que se formam

Porque no olhar se tocaram

Há palavras que não se escrevem

Porque já foram lidas

Há vidas que se tocam

Porque as almas

já se uniram

Amarras

Não me falta o anoitecer
Porque o amanhecer já não me espera
Deixei de acontecer
Porque as manhãs me pesam
Restam-me as escarpas por promessa
E a cobardia das amarras
Que não desatam
Já não sei quem sou
Nem de que poema me faço
Morri no tempo
Porque o tempo também me morreu
Estou cansado de estar cansado
Nem sei se grite ou se rasgue a página
Se declamo ou se parto
Porque este poema
Se um dia for lido
É porque estarei fora do tempo,
Esquecido
Deixado aos livros

Amor dos teus olhos

Não te apaixones pelos olhos das bocas que falam

Porque as manhãs são impuras

e o acordar

o fim de uma promessa

Apaixona-te pelo amor dos teus olhos

E pelo sorriso da criança que passa

Apaixona-te pelos dias que se dão à vida

E pela incerteza do momento

Ama a dúvida e o sonho

Jamais a noite das bocas que beijam

e

dos lábios que aos teus olhos te falam

Anoitecer

A história de um homem

Faz-se ao anoitecer

Quando as sombras quedam

E a cegueira se faz ao caminho

 


Ao Arrepio do Toque

Olha como o pôr-do-sol nos leva a mácula

Que o nascer do dia debrua

Vê como o silêncio no olhar irrompe

E devolve à noite

O que os dias não curam

Sente que a noite te abraça

Sempre que os corpos falam

Ouve o que a pele te diz

Ao arrepio do toque

Imagina o que os corpos

Dançam

Quando da noite se faz música

Arrepio

Beijo-te

A tua insana

Minha boca

Alvorada meia lua

Ao arrepio

Sentes-te louca

Mordes o cio

E a nudez

Das nossas bocas

Asas do teu sorriso

Se o teu nome ainda se escreve poema
é porque o sonho acorda tarde
e o beijo se demora em ti
e as asas do teu sorriso
são os anjos dos dias
por te escrever

Axiomas do Tempo

Perco a voz em cada esquina
Levo nos passos os axiomas do tempo
E, nos olhos,
todos os mares por chorar

Azul

O mar fica-te tão bem
quando vestes de azul
Não sei ao certo de que estrela
nasceu o teu encanto
se do teu sorriso
se das manhãs de Orfeu

Bátega

Deixa que o céu te acorde

ou adormeça 

quando o estio se finda

e a bátega começa

Deixa que o vento uive no beiral

enquanto os rios  se soltam

na ira sazonal

Deixa que o tempo desfaça 

tudo aquilo que não passa

e as memórias te sejam nuvens

como a chuva numa vidraça

Causas incertas

Deixo-te nas mãos as causas incertas
E no olhar o apedrejar dos tempos gastos
és morfina inglória,
Beijo-te ao acaso,
Enquanto um véu semântico
Tombado na tua fonte
Sacia a minha sede
Até ao infinito das eras

Choro-te

Choro-te

Sem que percebas que definhei 

Naquela sombra lânguida 

Que morreu para lá dos ciprestes,

Oca,

Sem o teu sussurro ter

Claridade

Já a noite cai madura,

Do alto daquela estrela

Trovam os poetas

No mar da liberdade

A claridade soa perto

Solta as aves do paraíso

Nas guitarras da Mouraria

Fundem-se abraços

Entre amantes improváveis

Meu cravinho vermelho

teu rosto no mar

Estes são os artistas,

Os homens

E os amigos,

No palco da vida

(Poema dedicado à memória de Mário Piçarra 1947-2019, músico e poeta, inspirado
no seu último CD - Claridade)


 

Como se faz a lua

 

Se souberes como se faz a lua

Deixa-a brilhar sobre o rio

Ouve a música dos peixes

E das estrelas adormecidas

Confinamento

Confina o medo

Depura as estrelas

Deixa que a viagem te ausente

E sintas o cheiro da vida

Pinta hoje o teu dia

Dá-lhe a cor do amor

Faz das sombras um poema

E em cada nascer do sol

Abraça-o

E sê tu

Uma vez mais

Coração empedernido

Quando a lágrima
se substitui ao verbo
e o verbo jaz
em coração empedernido
não há intento onírico
que afague a montanha
nem nuvem
que beije a encosta

Cravos Flamejantes

Gostava de poder imprimir

Os sonhos que se evadem

Ao ritmo da chuva

E das pedras seculares

Cultivo a dissidência da vida

Com a força de um poema

Na boca trago os cravos flamejantes

De uma aventura com o teu nome,

Por mote

Degelo

Bebi-te num rio numa manhã de degelo

Tacteavas a pedra polida

Como se tivesses lábios de desejo

Percorrias as entranhas nos fiordes

Num frenesim sensual

Derretias os prados fumegantes

Mitigavas-me o anseio ardente

Nos teus lábios quentes

Mordias o verde até ser rio

Morrias-me na foz até ser gente

Depois dos 50

Depois dos cinquenta
Os dias ficam tímidos
Agigantam-se as noites
E a ilusão
Do tamanho do crepúsculo
 
Depois dos cinquenta
Pesa-nos o passado
Vivem-se pretéritos
Nem sempre perfeitos
Somam-se capítulos
À vida
De alguns parágrafos
Desfeitos
 
Depois dos cinquenta
Escuta-se a voz
Começa a contagem
Vira-se a folha
Bebem-se os anos
E os instantes
dessa viagem

Dois Rios

Disseste o meu nome 

ao desaguar na foz

Disse o teu à nascente

Como se dois rios se encontrassem

E dessem as mãos

Em leito estreito

e

Nessa torrente

De desejo

Partimos em busca do sal

Do arrepio

Desse gesto

De nos olharmos por dentro

Percorrendo as margens do tempo

Colhendo o nosso vento

Em mim

Carrego em mim

Corações desmedidos

Olhares que se gostam

e

Abraços sem tempo

Em ti

Do teu rosto

Sobra-me um momento a sós

E nesse instante

Percorro-te uma vida

Tacteando o passado

Decalcado no teu corpo

Em ti,

Jamais esquecerei onde se abrigam os tesouros

E para onde confluem as marés

Do teu rosto

Cai-me uma pedra de sal

Da qual

Bebo sôfrego o teu mar

Envelhecer

Há cada vez menos lugares para envelhecer

Sem passado

Ou memória

Que nos fazem esquecer

Nem no poema queremos ficar

Com medo de o acabar

Estranho significado este

Que a vida tem

Onde não nos demoramos para não envelhecer

Como se a velhice fosse o começar

De um lugar

Onde não queremos chegar

 

Epílogo

Sou uma manhã que se arrepende

Sempre que a aurora toma a forma do medo

E da janela do meu tempo se escondam

dois olhos em súplica

Como se fossem o epílogo anunciado

De uma alma que não lhes pertence

Ermitério

Há um poema

Que me lembra

O vento das vozes cansadas

E das noites a fio

à espera das madrugadas

Na reclusão das eras

E no ermitério das idades

Farol solitário

Quanto melhor conheço a humanidade

Mais me apraz habitar um farol

Não um farol qualquer

Mas daqueles que emergem do mar

Habitam as vagas

e

No silêncio

Escrevem o marulhar das ondas

 

Filosofia do amor

Não sei se o amor será a espiritualização

Da sensualidade em Nietzsche

ou uma ave a tremer nas mãos de uma criança

para Eugénio de Andrade

Amor pode ser um acto involuntário de poesia

Resgatado de uma emoção

Amor poderá ainda ser quando a paz se instala

Sem que os dias acabem

Amor é, por certo, onde precisamos chegar

Num qualquer canto da vida

Para que o encanto dela

Se possa alcançar

Floresta

é na floresta
que habito o mundo
onde o sonho se agiganta
e o trevo se adensa

Forma alada

Morro na lenta agonia 
que me sobra
Até o sono não ter voz
O amor é o que me resta
Depois do poema
Ergo-me na forma alada
O corpo incinerado já não dói
Apenas o choro de preto
Daqueles que abalam
E o olhar queimado
Das cinzas que ficam

Formas em sonhos

No teu deserto

Habitam formas em sonhos

Olhares nocturnos

O antes e o depois

Como se a expectativa

Nos fosse um afago maior

Grito Profuso

À força do nome
Ergue-se o grito profuso
Da dor já morta
Um corpo em chamas
Clama pela chuva que não chega
Enquanto a talha corrói os dias lentos
E na carne se soltam os opróbrios
De uma vida que já não ouve

Há um caminho

O poema desobedece

Sempre que o corpo adoece

E se torna refém da vida

Há um caminho

Percorrer nas letras

O que falta aos dias

E deixar por legado

O que na memória

Adormece

Humanidade nua

Saudades de te oscular o nome
e perder-me na lenta curva do teu rosto
Há muito que o sorriso nos perdeu
e os olhos se olham,
sem se verem
como se estes fossem a verdade
assustada e crua
de toda a humanidade nua

Idade do beijo

Abraça as tuas primaveras

Escuta a idade do beijo

E das borboletas que nos habitavam

Existo no poema

Para que te olhe os anos

E em cada aniversário

Te sinta

As manhãs de Dezembro

E a aurora de uma vida inteira

Idade do tempo

Se me demoro em mim

Para além da idade

É porque os anos já não esperam

E as noites ficaram maiores do que os dias

Lua pela vida

Como só tu soubesses

Onde escondo o pôr-do-sol

E a lua pela vida

É como se a noite

Me emprestasse o saber

Entre o verso e a alvorada

O desejo e a eternidade

Luas

Há tantas luas
Que não me sorrias
Que as rugas te tornaram bela e eterna
Nestes meus
teus olhos idosos
Que não te perderam a idade
Nem a forma
Nem o gosto
Nem a chuva que nos calava
Nem a chama que nos perdurava

Manhã de Verão

Eras manhã,

De um verão qualquer

Ainda a madrugada preguiçava

Quando o beijo nos demorou

Como se fosse o prelúdio

De um romance inacabado

Manhãs de Outono

Nada se compara ao espreguiçar 

Das manhãs de Outono

Ao murmúrio das aves sonantes

À poesia das folhas dormentes

E ao romper dourado 

Da aurora crescente

Mar e Tempo

Não sei que céu ou lua me habita
Ou de que estrofe sou feito
Se fui escrito no ocaso
Ou no barlavento
Quiçá mar e tempo
Entre antítese e aforismo
Sou vento
Se grito ou lamento
Somente no poema
Encontro alento

Mar Revolto

Como só tu soubesses

Como as naus nómadas te aportam

Não há mar revolto que temas

Que não te caiba

Numa tela qualquer

Marés

Diz-me, quantas luas te habitam,

Sem que a noite se dê conta?

Que margens te sobram depois das fragas?

Entre marés e rugas desenhadas pelo tempo

Deixaste partir a idade ao vento

Na maresia de ontem

Morta, ao degelo

Sem alento

Meia Lua

Meia lua incompleta
A noite ergue-se, profusa
Deambulo uma candeia
O corpo suporta-me
na tua ausência, meia maré
Sonho-te sem rosto
desde que és,
Arrasto o passo, beijo-te a sombra
Abandono-me ao ermitério
E aos dias gastos

Memória Distante

Quando a minha existência

for apenas uma memória distante

verás que, para além do poema,

nada mais subsiste

que a dor imensa de o ter escrito

Murmúrio incerto

Sente o vento

Que gela a sombra na palavra

Deixa que o olhar se demore

para além do instante

Há muito que me deixei partir

Sobra a leve memória

E o murmúrio incerto das arribas

E dos dias gastos

Que deram à costa

Na Intimidade de um Poema

Na intimidade de um poema

Desnudo-te a voz e os

Abraços inconfessáveis

Na intimidade de um poema

Cabem todas as palavras mudas,

Os olhares cegos

E as madrugadas de uma vida

Na intimidade de um poema

Escreve-se a noite

E o beijo demorado,

O olhar nu

E o verso involuntário

Dos amantes que rimam

Na meia - idade

Na meia-idade

Despem-se as cores do tempo

Ouvem-se os tons da natureza

Promovem-se as pausas

Agigantam-se os silêncios

O futuro habita no presente

Torna o passado refúgio

Regressa-se ao interior

Num caminho já feito

Que se sabe seguro

Consolidado

Longe das amuradas

E das tormentas

Na meia-idade

Voamos mais alto

Ganha-se outra perspectiva

Não há deslumbre

Nem mágoa que se padeça

Olha-se de cima o futuro

Sem bater asa

Retiramo-nos em silêncio

Para que na morte

A vida aconteça

Naquela janela

Vejo-me naquela janela

Que se olha por dentro

Sentado no tempo

Voei para longe

Empurrado pelo vento

E quanto mais vejo

Mais longe me leva o vento

Para lá da memória

Ao sabor do barlavento

 

Neblina

Há palavras que desiludem

e olhares que seduzem

tal como a neblina

calada

esconde na voz

o que sobra à noite

Nereidas

Lembro-me do tempo
em que eras mais bela que as Nereidas
Tocava-te a medo
Tal como a gloce beija a pétala
E nesse olhar fugidio
Cabiam todos os sonhos
E os passeios à chuva
Sempre as madrugadas
Começavam pelo teu nome

Noite ao céu

Cala-se ao noite ao céu
o frio debrua o rosto
a cada passo
o lento avançar da idade
e a certeza que o chão 
me sabe firme

O Beijo

Osculo-te devagar
no acabar do tempo

Deixa que o olhar te demore
sem que desfaça o silêncio

Fala-me do céu e dos rios que correm
das manhãs floridas
e da pele que vicia
das mãos que sobram
ao degelo da vida

Sente a penumbra que seduz
e a boca que anoitece
o perfume curvo
e os corpos que amanhecem





Olhares marcantes

Gosto das palavras com sentimentos

Emoções com gestos

Gosto da chuva sem vento

E das conversas sem tempo

Gosto dos invernos à meia-luz

E dos abraços que não se pedem

Gosto de olhares marcantes

Quando os nossos corpos se perdem

Gosto dos dias a acabar

E da noite por dizer

Gosto de amar

E do por do sol

Junto ao mar

Orgulho

Estás perdoada
Se é o não que temes
Sempre aqui estive
Desde que a Primavera era flôr
Não sei quantos mais Invernos irei estar
Talvez enquanto o teu abraço ainda tiver cheiro
Do teu pedestal feneces calada
Afogaste o amor e osculaste o orgulho
De olhos vendados 
Abraças-me em sonhos
De olhos calados
Sonegas-me o corpo
E tudo para seres forte
Aos olhos de muita gente
Quando tens carne e sangue que sente
Na dor maior
Quando ao coração se mente

Palavras soltas

Um beijo que sabe a tudo
Dito pelas nossas bocas
Falado pelo olhar
Sentido nas palavras soltas
O teu corpo é prosa
Escrevo-o na sede do momento
Rimas em silêncio ditas ao acaso
Num respirar cego
Poetamos naquele bocejo de alvorada
Como se o mundo fosses tu
E não houvesse mais nada

Poema maior

Há um poema que me deixa a meio

O de sentir que a palavra me foge

Para as noites da nossa pele

Poema que sente

Prefiro o voo das aves

À indiferença da palavra

Prefiro a insanidade

À distância que dói

Prefiro a cicatriz que lembra

À memória que fere

Prefiro o abraço que demora

Ao beijo que foge

Prefiro o poema que sente

Ao verso sem voz

Prefiro o suicídio no poema

Ao sonho que acorda

Poema sem nome

O meu corpo jaz no teu passado
é desse frio que me alimento
e por ter morrido nas pérfidas
juras de amor
é que eu me lamento 
São roxos, 
os lábios que te escrevem,
agora mudos,
porque não te merecem
gritam dálias
numa palavra oca,
porque à cova, 
descem surdos, os poemas
na tua boca

Poente

Adoro a música em ti
que as nuvens fazem ao entardecer
Escrevem paisagens de lume
Nos teus cabelos a poente
Enquanto o olhar anoitece
Deixas-me um sorriso por promessa
E o sentir que os dias gastos
escrevem a tua idade
quando já nem no tempo
te pertenço

Poesia

A poesia é o que se dá à vida

Antes da palavra

É seiva inconformada

Substância que adoça o palato

Cala os dias

Inspira as madrugadas

É a doce forma

Que insana a voz

É tornar a arte de esculpir o homem

A mais nobre da sua essência

Poesia nos teus cabelos

Hoje vi-te naquela amurada de prata

Eras céu de Janeiro

Já lá vai tanto tempo que fomos mar e céu

Estavas linda naquela manhã de Inverno

O teu andar voava elegante

Perante a nudez dos meus olhos

Como se não tivesses chão

Nem porto onde me ancorar

Eras poesia nos teus cabelos

Que de vento eram feitos

Os sonhos não cabiam em nós

Nem neste mundo

Amei-te sem saberes

Que a lua também chora à noite

 

Prados

Sempre que te vejo
há uma pedra em lava
que me trilha incandescente
a memória doce do teu sorriso
e de um beijo por te dar
sempre que te vejo
ardem prados verdejantes
que as saudades não querem apagar
 

Primavera

Após tantos invernos sofridos

Só agora percebo que a primavera eras tu

E o sonho era meu

Procuro-te...

Por onde andas, amor

Que te perdi a voz

Polímnia do meu encanto

Traço breve,

Mão que te debrua o rosto


Regresso

Foi ao meu corpo que regressei 
quando fragmentos do meu sentir prescreveram
sem que a primavera tivesse acontecido

 

Rio

Sei de um rio alado

Para lá do tempo

Que se escreve de longe

Como se fosse vento

É nele que amanheço

A vida inteira

E

Nas suas margens cansadas

Me abrigo

Sonho

E envelheço

Rosas

Não tinhas nome
quando as rosas nasceram
rosa, já tu eras
quando no céu pus a tua estrela
e te segurei a mão

Ruas Ausentes

O teu amor tem a finitude

De um beijo

E das ruas sem nome

A tua ausência é um cais que parte

Nas primeiras chuvas de outono

O que me consome não é a saudade

Mas, sim,

os poemas que te procuram

Sem o saberes...

Já passa da meia noite
E ainda não te amei
Talvez por ser domingo
De uma vida inteira
Já é noite, faz tempo
A lua desceu sobre nós
Esta dor que não me larga
A solidão dos ossos
E o cruel silêncio das sombras
Não ando,
Arrasto-me nos dias,
Mato-me em pequenas doses diárias
Para que amanheça à noite
e te veja dormir
Já passa da meia noite
E ainda não te amei
Porque sem o saberes
Já te amava
Muito antes de te saber

Sem Rosto

Era uma vez um sorriso sem rosto
De olhar assustado
Atrás de uma máscara
Triste e calado
São os tempos do contratempo
Que nos tiraram o tempo
Num mundo desumanizado
Estranho,
Preso no seu tempo
Ausente no pensamento
Desconfiado,
Que olha para dentro,
Deixando o abraço em confinamento
Os dias ao acaso,
E a morte sem lamento
 

Sino que chove

Dissolvo-me na noite 

E na bruma perene

Choram almas e rostos ausentes

Como um sino que chove

 

A morte é logo ali

Por detrás da lágrima errante

E do grito submerso

 

Sinto-me estranho

Nesta forma ausente

De querer estar 

Onde não há gente

 

Só o branco da tua boca

Me afaga o rosto

Quando de negro a minha alma 

Se veste

 

Do rio que passa,

Uma flecha de sangue

Trespassa a solidão

E o olhar insone

De um torso que dorme,

Não de sono,

Mas porque ter escrito

A própria morte

Solitude

Não sei se eleve ou releve

A sórdida condição de alienação humana

Estar só é olhar-se

Ser-se na solitude

É caminhar o infinito

Desfazer montanhas imaginárias

Calcorrear bermas adormecidas

E num só gesto

Expiar o sentimento ímpio

Tornando mais alto

O nome dos homens

Sombras sem vida

Choro‑te,
sem que percebas
que definhei naquela sombra lânguida
que morreu para lá dos ciprestes,
oca,
sem o teu sussurro ter

Sorriso tímido

Não nos osculámos
Mas em sonhos
Tanto que te beijei
Esse sorriso tímido
De olhar penetrante
Fui esquecendo as tardes
E a prosa que nos escrevia
Sobrevivo às noites
E aos dias vazios de ti
Porque do teu abraço
Me ficou um sonho
A promessa de uma vida
Com um castelo dentro

Tardes de ouro

Lá dentro,

Do vento

Tinhas a cor do desbulho

E das tardes de ouro

O cabelo adivinhava-te,

Corpo desnudo

A queimar o raiar

Sem saberes

Fazias arte

Numa primavera

Qualquer

 


Teu abraço devoluto

É rasgo

É tudo

É momento

Teu abraço devoluto

É nuvem incerta

Que seduz o vento

Dilúvio enfermo

Céu que flameja

Deixa a descoberto

As entranhas do tempo

Timidez

Quero habitar o teu olhar

Para que o sono me seja leve

Quero a timidez

Para que os olhos se beijem

Quero a tua mão

Para que o poema se escreva

Quero o teu coração

Para que a vida nos sonhe

Tormenta

Dias a fio

Escuto a voz incessante

Deste rio

Assombro molhado

No chão cansado

Olho descalço

O vento irado

As noites frias

Do inverno demorado

Onde incerto, abrigo

Sobrevivo acordado

 

Verbo

E se contigo

O verbo falasse

Num tempo que não existe,

Só nosso,

Ausente dos dias e da incerteza

Conjugado no olhar

Sem reticências ou

Predicados que nos assombrem?

Verde Orvalho

Quando adentro pela natureza

Deleito-me com a vida

Que nasce debaixo dos pés

O verde orvalho

É uma memória

Uma infância distante

O doce cheiro dos afectos

E da terra molhada

Os dias pequenos

E o crepitar manso

Da chuva cansada

O Libertar das Sombras · Honoré DuCasse · 2026
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