Sinto a noite crespar-se no meu peito E alongar seus dedos dolorosos Por meus cabelos já esbranquiçados E por meus ossos, trêmulos, de vidro. Sinto a noite, seu ósculo gelado Selando a clara e morna tarde de estio E atrás de si, seus cavaleiros Virem, a tropel, em seus cavalos negros Arrancar de mim os seus despojos.
Sinto a noite crescer na solidão Da velha casa abandonada do meu coração, Roendo as paredes cobertas de lodo, Os velhos retratos que o tempo Teve o devido cuidado De deixar somente as lembranças, As duras linhas onde eu escrevi Os primeiros poemas, Meus livros - a porta sempre aberta Para o refúgio de ideias e palavras, Sinto a noite roer meus paradigmas, Minha infância, meu primeiro beijo, Tímido e amedrontado, Meus sonhos, minhas crenças E tudo que não possa ser vendido Ou sequer trocado.
Sinto a noite apagar meus pensamentos, A longa trilha dos meus devaneios, Sinto a noite apagar a minha história Enquanto multiplica meus aniversários, E como consequência de tal sequestro Já não me reconheço para além desta angústia. Sinto a noite apagar meus anseios, Meu amor, minha vontade de viver. Somente essa saudade não se apaga, Essa saudade de tudo que não foi.
407
ENTARDECER
Nada de novo canta a voz do vento Uma velha canção Que já encontrou seu tema
Nada é tão duro quanto o tempo - Um bicho que vem Da profundeza das eras Rumando em trilhos obscuros
De que me nasce esta saudade? Pássaro de ferro que não conhece nada a não ser a cor do mar se dissolvendo em pedras.
Quisera não ser fraco, não ter o chão de vidro quisera ter a força das árvores que desfalecem em pé
E os dias seguem ruminando tudo pintando as minhas têmporas com o gris das mágoas As minhas têmporas... querem sentir o sabor de uma pistola.
375
A UM SUICIDA
'Ele apenas acordou do sonho da existência'
(Shelley)
'Não vás tão gentilmente nessa noite linda'
(Dylan Thomas)
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste encarar
A infinita imensidão do Nada.
Eu poderia
Chamar-te fraco
Mas o que sei sobre a força
Quando mal consigo
Suportar o peso das lágrimas?
Só tu conheces tua dor
E ela ficou cerrada em teu esquife
Muda como uma esfinge
Misteriosa como um bruxo
Cortaste as veias
Como a navalha da aurora
Corta a madrugada
O que pensaste nesse instante?
Se a esperança te levou
Ou se por ela foste abandonado
Nunca saberemos
Sei que me abandonaste
Neste mundo cruel e sem sentido
Sendo refém do tempo
Que dissolve todas as alegrias
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste engrossar
As fileiras dos suicidas
Não apertaste contra as têmporas
O estampido rouco de um gatilho
Nem como Sócrates
Ingeriste veneno
Mas te rendeste
À magnética atração do Nada.
410
A MENINA DOS PÁSSAROS
Quem sabe o que existe além Desta esfera, que asa nenhuma ousa atravessar? Talvez o tesouro de algum deus incauto Ou quem sabe o brilho que fere e mortifica.
Aonde hão de nos levar esses carinhos Que a mão etérea ensaia em pensamentos? Alguns sonhos são como flores espinhosas, Forjados no coração de fogo das estrelas, Crescendo no peito inebriado de dor.
Eu gostaria de dizer que vou seguindo Mas os meus olhos estão abertos E o meu amor é triste como a onda Que inutilmente se atira nos rochedos Ou como os portos sombrios onde os barcos Sempre partem cobertos de silêncio.
No entanto uma menina emerge da neblina E há nos seus olhos a dor do entardecer: A esperança é uma explosão de negros pássaros Que seguem recordando a triste luz do ocaso.
479
AUTO-ANAMNESE
Descobri Que não sabia escrever Quando percebi Que não sabia rimar Amor com dor.
Descobri Que não sabia viver Quando percebi Que não sabia sofrer Nem sabia sonhar.
Descobri, enfim Que não sabia amar Quando percebi Que não sabia rimar Solidão com amor.
415
AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS
Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina. Amo o pássaro que abandona o bando para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos. Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada. Amo os barcos que partem na escuridão, antes que as casas despertem do seu sono. Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta, tendo por companheira somente a própria sombra. Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim. Amo o lobo que se afasta da matilha para se embriagar com as luzes do luar. Amo a estrela que mantem-se acesa Antes de ser despedaçada pela escuridão. Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda. Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço Sua torrente de cores e movimentações. Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento E amo a vela temerária que desafia a tempestade. Amo o silêncio da enorme noite cósmica Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos. Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia. Amo o vulto silente que passa nos campos desolados e que se alegra e ri consigo mesmo. Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta, o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada, o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza. Só amo a estrela que se reconhece estrela e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar. Só amo aqueles que amam a própria solidão.
461
EU NUNCA DISSE QUE TE AMO
Eu nunca disse que te amo Mas muita força as prende aqui Domá-las como um bicho Prendê-las antes que desaguem No intervalo de um beijo Rumo ao mar amargo do remorso.
Eu nunca disse, mas talvez não saiba O preço que se paga pelo apego Substantivamente as mãos procuram No escuro, a doce fantasia Do afago proibido
Este é o caminho sem volta E nunca a mesma chuva Lava o solo queimado de sol E nunca o mesmo nunca Pousa no ouvido sempre virgem.
Eu nunca disse, mas talvez não saiba O nome desse pulso febril que me enfraquece Sinto apenas no ardor desta manhã Uma tristeza e uma dor crepuscular Como quem segue viagem logo cedo Com saudade e sem pressa de chegar.
393
BALADA PÓS-MODERNA
Fiquei sabendo que você era rockeira desejei-te a vida inteira essa é a hora de tentar.
Eu joguei fora meus cd's de Fábio Júnior levo o Ozzy no meu punho só pra te impressionar.
Só uso preto se tornou meu pesadelo ter que cortar o cabelo ou usar uma outra cor.
Comprei um disco desse tal de Sex Pistols meu ouvido não suporta mas meu coração gostou.
Tomei uísque tomei pinga, tomei vinho transformei o meu caminho onde o vinho me conduz.
Virei ateu, virei gnóstico, budista, só não quis deixar na vista que meu nome era Jesus.
Fiquei com medo de escrever-te uma poesia pois tão grande é a agonia que me causa teu amor.
Roubei uns versos de Carlos Drummond de Andrade e disse que era na verdade Dylan Thomas e Rimbaud.
Fiquei sabendo que você curte cinema e pra melhorar o esquema muita coisa eu assisti.
Eu vi Carlitos mesmo mudo causar riso, vi 'Cinema Paradiso' e Glauber Rocha eu não entendi.
Fiquei pensando as coincidências que não temos li 'A Era dos Extremos' só pra gente debater.
E depois disso tatuei todo o meu braço, dei uns tapas no barato mesmo sem sentir prazer...
Não fiz a barba pra virar socialista fiz pose de guitarrista pra você olhar pra mim.
Pintei uns quadros pra expor na galeria mas você sequer os via. Por que as coisas são assim?
Comprei uns livros de ciências, de magia, de história e filosofia pra poder te emprestar.
Eu fiz uns versos, inventei uma paranóia, tentei dar uma de Goya, fiz sonatas ao luar.
Eu tive amigos, tive fãs e seguidores, tive amores, tive dores, mas você nunca terei.
Eu já sabia meu destino era maldito já dizia Raulzito: Sou cowboy fora da lei.
443
DUELO
Aqui nós estamos Armados somente Com a espada do olhar Em nosso diálogo Envolto em silêncio Travamos duelo Clarões de relâmpagos Na escuridão
Quem perde, quem ganha, Jamais saberemos Olhares são armas Que ferem por dentro E fica o soldado Sorriso no rosto Sentindo sua alma Esquartejada
493
O TEU LUGAR
Para Kalinina Sampaio
Divago sobre teu perfil, mas não te encontro Na violenta agitação do mar. Encontrei-te impressa nessas pedras Que onda nenhuma consegue perfurar.
Escuto a tua voz, mas não consigo Achá-la nesses campos tortuosos Onde as cores desvanecem com um aceno E se desmontam com os primeiros raios da alvorada.
Tu não estás no vendaval Que sai decapitando as roseiras, nem tampouco Na corrente do rio que tudo afoga.
Em vão rasgaria o tecido do espaço E inclinaria o olhar para a casa dos deuses: Veria berços vazios e covas lotadas, Um relógio vomitado pelo acaso, Astros que seguem caminhando sem guia... Tu não estás lá.
Não te encontras no rol das estrelas de gelo Nem das flores de fogo, que são filhas do tempo. Não estás neste solo que piso Como fosse de vidro, ou de nuvens, talvez.
Teu lugar é ali, onde os números reinam. Na dimensão dos átomos sem massa, Nas margens do curso do tempo, Entre a página onze e doze da Odisseia.
Teu nome está escrito com uma tinta indelével Na parte mais profunda do meu coração