Não faço verso em vão. O poema é um pássaro preso numa folha em branco. Eu fendo a folha, o verso se liberta E beije a luz. É preciso escutá-lo e saber se quer sair.
A vida é dura, o amor é pouco e a alegria Raramente tem me visitado. Isso é deveras desesperador, Mas não é motivo para versejar.
Existem os bares, os livros, o abraço dos amigos, O beijo dos amores fugidios. Existe a noite e existe a chuva Onde consigo esconder meus prantos. Fazer versos pra que?
Os poemas não nascem quando quero. Ele fica aqui dentro em silêncio Germinado quando estou a cismar. A dor que sinto a cada instante É a dor de suas asas crescendo.
Eu escuto... ele chora. Bate com as asas de ferro Nas paredes do meu peito. Ele cresce. Traço, um risco, uma letra... ele explode. Ele se livra e me liberta.
407
O MARTELO DAS BRUXAS
Não hei de ser um boi Perdido no campo Do antes e agora
Quem sabe mais antes O pão de quimera Com trigo de vento
Põe a prosa no saco E foge ao teu encontro Aperta os dentes No sorriso
Orfeu está morto! Não há nem pra que Beijar estrelas E plantar mariposas...
Será que o remorso Resume a figura Dos ossos falantes Que outrora roemos?
Pão de verso na mesa Escorre na rima da boca Um segredo sem roupas
Não hei de ser um boi! Melhor é ser castor gigante E roer as bordas do tempo...
331
A UM SUICIDA
'Ele apenas acordou do sonho da existência'
(Shelley)
'Não vás tão gentilmente nessa noite linda'
(Dylan Thomas)
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste encarar
A infinita imensidão do Nada.
Eu poderia
Chamar-te fraco
Mas o que sei sobre a força
Quando mal consigo
Suportar o peso das lágrimas?
Só tu conheces tua dor
E ela ficou cerrada em teu esquife
Muda como uma esfinge
Misteriosa como um bruxo
Cortaste as veias
Como a navalha da aurora
Corta a madrugada
O que pensaste nesse instante?
Se a esperança te levou
Ou se por ela foste abandonado
Nunca saberemos
Sei que me abandonaste
Neste mundo cruel e sem sentido
Sendo refém do tempo
Que dissolve todas as alegrias
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste engrossar
As fileiras dos suicidas
Não apertaste contra as têmporas
O estampido rouco de um gatilho
Nem como Sócrates
Ingeriste veneno
Mas te rendeste
À magnética atração do Nada.
414
SEGREDOS
Quantos versos já tive que impedir A caneta, imprudente, de escrever? Nesses versos eu quase me traí Revelando o que tinha que esquecer.
Quantas vezes, num esforço desumano, Meus lábios eu mantive contraídos Pra que esses versos, mesmo por engano, Sussurrados não fossem aos teus ouvidos.
Vontade de dizer-te, em verso e rima, Todo carinho que a minha alma anima, Toda a saudade que lhe faz penar.
Quero teu corpo, teus abraços, beijos... Mas no meu peito guardo esses desejos Que nem em versos ouso confessar.
363
TRISTEZA
Ando ferido de mortal tristeza. De uma tristeza funda e sem sentido Como se no meu peito dolorido Um punhal se cravasse com frieza.
A tua mão é bálsamo e alento Para a minha alma triste e angustiada, Quando, sozinha, ela sonha o Nada, Querendo as lajes ao sabor do vento.
Minha tristeza é noite que se esfuma E dilacera as fibras, uma a uma, De um coração que vive insatisfeito.
Mas teu amor é luz imaculada, É faca que degola a madrugada, Alvorada que explode no meu peito.
394
DON JUAN
Permita apresentar-me, bela senhorita. Eu venho de outros tempos, de terras inauditas. Sou filho da chama mais quente que existe. A noite é minha irmã, sublime, mas tão triste.
Trago na boca o gosto dos mares onde vivo, As vagas escalando, deles sou cativo Como um fantasma vagando pelos portos, Mas trago em mim uma porção de dias mortos.
Quando o pulso febril no corpo arde E o Sol desfaz-se em sangue no final da tarde, Espalhando no mundo a solidão e o frio, Amaldiçoo a minha sina e o mar bravio.
Nessas horas cruéis o que minh’alma quer É apenas tua forma linda de mulher. Quando a angústia crescer minh’alma sente Meu coração deseja a tua boca ardente.
Tal como o beija-flor do néctar suculento Da tua beleza vivo e dela me alimento E como fosse o fôlego da vida humana Eu sorvo a luz que o teu olhar emana.
Direi-te, então, o nome de quem fala-te com ardor. Me chamam Don Juan: teu servo e teu Senhor.
440
EU NÃO TE AMO!
Se amar é desejar o tempo inteiro A presença real do ser amado. Se é sentir no afago derradeiro O seio para sempre magoado.
Se é dar suspiros tristes ao luar Pela flor morta a estremecer num ramo. Se é uma outra alma escravizar Então, sinceramente, eu não te amo!
Porque o que sinto é muito mais que isso. Não é manter teu coração submisso E nem gravar em mim esta ferida.
Se é desejar felicidade plena, Mesmo que a minha seja tão pequena, Outra pessoa nunca amei na vida.
516
SILÊNCIO
As estrelas São gotas de tristeza No céu
Os versos São marcas de silêncio No papel.
358
NÃO HEI DE ALARDEAR O MEU AMOR
Não hei de alardear o meu amor Nem o divulgarei pelos jornais. Pois meu amor é meu tesouro oculto Que eu mantenho bem longe dos chacais.
Não vou gritá-lo aos quatro ventos, não, Não vou pichá-lo nas paredes nuas. Só no meu peito é que ele encontra alento E nos meus versos é que beija a glória.
O meu amor é meu, de mais ninguém. Ostentem os seus, como se fossem adorno De uma vida vazia e sem sentido.
O meu amor é minha estrela errante, Ave, suspiro, vinho delirante, Mais linda flor do meu jardim secreto.
446
A NOITE
Sinto a noite crespar-se no meu peito E alongar seus dedos dolorosos Por meus cabelos já esbranquiçados E por meus ossos, trêmulos, de vidro. Sinto a noite, seu ósculo gelado Selando a clara e morna tarde de estio E atrás de si, seus cavaleiros Virem, a tropel, em seus cavalos negros Arrancar de mim os seus despojos.
Sinto a noite crescer na solidão Da velha casa abandonada do meu coração, Roendo as paredes cobertas de lodo, Os velhos retratos que o tempo Teve o devido cuidado De deixar somente as lembranças, As duras linhas onde eu escrevi Os primeiros poemas, Meus livros - a porta sempre aberta Para o refúgio de ideias e palavras, Sinto a noite roer meus paradigmas, Minha infância, meu primeiro beijo, Tímido e amedrontado, Meus sonhos, minhas crenças E tudo que não possa ser vendido Ou sequer trocado.
Sinto a noite apagar meus pensamentos, A longa trilha dos meus devaneios, Sinto a noite apagar a minha história Enquanto multiplica meus aniversários, E como consequência de tal sequestro Já não me reconheço para além desta angústia. Sinto a noite apagar meus anseios, Meu amor, minha vontade de viver. Somente essa saudade não se apaga, Essa saudade de tudo que não foi.