Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

n. 0000-00-00, Teresina - PI

Perfil
16 709 Visualizações

OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

Ler poema completo

Poemas

43

A LENDA

Reza dos gregos uma antiga lenda
De que no Monte Hélicon vivia
O Pégaso, mais bela e mais selvagem
Das alimárias que no mundo havia

Belerofonte, para o seu intento
De derrotar Quimera, monstro horrendo,
Tivera que domar o cavalo alado
Que a ninguém jamais obedecia.

A única coisa com poder bastante
De fazer Pégaso obedecer alguém
Eram arreios mágicos, dourados,
Que Atena para o herói oferecera.

Doce menina, escuta o que eu de digo:
Meu coração é um Pégaso selvagem.
Teus cabelos, dourados como o Sol,
São os arreios que podem domina-lo.

Evolve, pois, meu corpo nos teus laços.
O meu amor encerra em tuas mãos.
Qual Pégaso e Belerofonte voaremos
Ao ponto mais distante da amplidão.
367

O MARTELO DAS BRUXAS

Não hei de ser um boi
Perdido no campo
Do antes e agora

Quem sabe mais antes
O pão de quimera
Com trigo de vento

Põe a prosa no saco
E foge ao teu encontro
Aperta os dentes
No sorriso

Orfeu está morto!
Não há nem pra que
Beijar estrelas
E plantar mariposas...

Será que o remorso
Resume a figura
Dos ossos falantes
Que outrora roemos?

Pão de verso na mesa
Escorre na rima da boca
Um segredo sem roupas

Não hei de ser um boi!
Melhor é ser castor gigante
E roer as bordas do tempo...
330

BALADA PÓS-ROMÂNTICA

Para Rafaela Duccini


Ela chegou de repente
Onde há tempos estava
Expulsando a sujeira
E o vazio da casa

Só vivia escondida
Nesses cantos da vida
E sofrendo calada
E chorando sozinha

A menina era bela
E estes olhos sabiam
Mas não olhavam pra ela
Como deveriam

E ela andava na noite
E cantava e sorria
Sua rara alegria
Qual se fosse madura

Como tudo era breve
Mais que a brisa mais leve
Seu amor tão escasso
Era breve também.

Não sei como eu sabia
Que da força do dia
Vinha um raio mais claro
Me fazendo ir além

Da distância tão grande,
Das florestas, dos montes
E de mil horizontes
Que zombavam de mim.

Ela era tão linda
E estes olhos sabiam
Que era assas perigoso
Encara-la nos olhos.

Como a chuva que chega
Numa tarde de sol,
Como um barco que avista
De repente um farol,

Assim foi que ela veio
Onde há tempos estava,
Libertando minha alma
De tristezas escrava.

Mas uma coisa ficou
Nos seus olhos sombrios:
Seu coração é um porto alegre
Onde só cabem dois navios.

Mas ela era tão linda
E meu coração sabia
Quem sem ela por perto
Eu não mais viveria.

Mesmo estando tão triste
Como um rio sem leito
A lembrança no peito
Concedeu-me o perdão.

Ela foi se aninhando
Onde nada restava,
Anulando a tristeza
E o vazio da alma.

Ela é um receio
Que me torna mais forte.
Ela é minha vida
E também minha morte.

Ela é minhas asas
Quando pairo no ar...
Ela é, ela foi,
Ela sempre será.

Mas uma coisa ficou
Em mim sem ela saber:
Seu abraço é a terra
Onde eu hei de morrer...
470

NÃO FAÇO VERSO EM VÃO

Não faço verso em vão.
O poema é um pássaro preso numa folha em branco.
Eu fendo a folha, o verso se liberta
E beije a luz.
É preciso escutá-lo e saber se quer sair.

A vida é dura, o amor é pouco e a alegria
Raramente tem me visitado.
Isso é deveras desesperador,
Mas não é motivo para versejar.

Existem os bares, os livros, o abraço dos amigos,
O beijo dos amores fugidios.
Existe a noite e existe a chuva
Onde consigo esconder meus prantos.
Fazer versos pra que?

Os poemas não nascem quando quero.
Ele fica aqui dentro em silêncio
Germinado quando estou a cismar.
A dor que sinto a cada instante
É a dor de suas asas crescendo.

Eu escuto... ele chora.
Bate com as asas de ferro
Nas paredes do meu peito.
Ele cresce. Traço, um risco, uma letra... ele explode.
Ele se livra e me liberta.
406

SONETO DO AMOR VAGABUNDO

'Meu coração vagabundo

Quer guardar o mundo em mim'

(Caetano Veloso)


Tão grande é o meu amor para entregá-lo

A uma pessoa só no vasto mundo.

Não pode do luar o branco halo

Esgotar a si próprio num segundo,


Nem pode o grande Sol iluminar

Na Terra inteira um único vivente,

Tampouco poderia ser o mar

De apenas uma nau benemerente.


Não chame o meu amor de falsidade

Pois nunca ouvirá maior verdade

De alguma outra pessoa neste mundo.


Por isso que esta noite eu te dedico,

Nos versos de um soneto impudico,

Meu coração, embora vagabundo.

606

NICOTINA

'Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos'

(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)



Preso em meus dedos um cigarro ameno

- Tragos de tédio e brasas de desejo,

Destilando o cilíndrico veneno,

Tendo a morte e o prazer no mesmo beijo.


Se adelgaça no ar o doce fumo

Como fosse uma etérea serpentina

Nada importa, se agora me consumo.

Em minhas veias corre nicotina.


'Tu morrerás!', 'E eu não duvido', digo.

'Tão triste é perder novo um grande amigo'

E eu me disperso nesse lento crime...


Nada mais justo, minha doce irmã,

Trocar uns dias de uma vida vã

Por uns minutos de prazer sublime

447

NECROFILIA

Leitores vasculham cemitérios,
Livros são lápides eloqüentes,
levam resíduos de poeta nos dentes.
Leitores vasculham bibliotecas,
comem defuntos com os olhos,
vomitam versos de outrora.

Poetas amam a vida, bebem a vida.
Tem olhos voltados para frente,
abrem caminho no escuro.
Poetas amam a vida, bebem a vida.
Comem defuntos
ocasionalmente.


625

BALADA PÓS-MODERNA

Fiquei sabendo
que você era rockeira
desejei-te a vida inteira
essa é a hora de tentar.

Eu joguei fora
meus cd's de Fábio Júnior
levo o Ozzy no meu punho
só pra te impressionar.

Só uso preto
se tornou meu pesadelo
ter que cortar o cabelo
ou usar uma outra cor.

Comprei um disco
desse tal de Sex Pistols
meu ouvido não suporta
mas meu coração gostou.

Tomei uísque
tomei pinga, tomei vinho
transformei o meu caminho
onde o vinho me conduz.

Virei ateu,
virei gnóstico, budista,
só não quis deixar na vista
que meu nome era Jesus.

Fiquei com medo
de escrever-te uma poesia
pois tão grande é a agonia
que me causa teu amor.

Roubei uns versos
de Carlos Drummond de Andrade
e disse que era na verdade
Dylan Thomas e Rimbaud.

Fiquei sabendo
que você curte cinema
e pra melhorar o esquema
muita coisa eu assisti.

Eu vi Carlitos
mesmo mudo causar riso,
vi 'Cinema Paradiso'
e Glauber Rocha eu não entendi.

Fiquei pensando
as coincidências que não temos
li 'A Era dos Extremos'
só pra gente debater.

E depois disso
tatuei todo o meu braço,
dei uns tapas no barato
mesmo sem sentir prazer...

Não fiz a barba
pra virar socialista
fiz pose de guitarrista
pra você olhar pra mim.

Pintei uns quadros
pra expor na galeria
mas você sequer os via.
Por que as coisas são assim?

Comprei uns livros
de ciências, de magia,
de história e filosofia
pra poder te emprestar.

Eu fiz uns versos,
inventei uma paranóia,
tentei dar uma de Goya,
fiz sonatas ao luar.

Eu tive amigos,
tive fãs e seguidores,
tive amores, tive dores,
mas você nunca terei.

Eu já sabia
meu destino era maldito
já dizia Raulzito:
Sou cowboy fora da lei.
444

EU NÃO TE AMO!

Se amar é desejar o tempo inteiro
A presença real do ser amado.
Se é sentir no afago derradeiro
O seio para sempre magoado.

Se é dar suspiros tristes ao luar
Pela flor morta a estremecer num ramo.
Se é uma outra alma escravizar
Então, sinceramente, eu não te amo!

Porque o que sinto é muito mais que isso.
Não é manter teu coração submisso
E nem gravar em mim esta ferida.

Se é desejar felicidade plena,
Mesmo que a minha seja tão pequena,
Outra pessoa nunca amei na vida.
515

SILÊNCIO

As estrelas
São gotas de tristeza
No céu

Os versos
São marcas de silêncio
No papel.
358

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.