Sinto a noite crespar-se no meu peito E alongar seus dedos dolorosos Por meus cabelos já esbranquiçados E por meus ossos, trêmulos, de vidro. Sinto a noite, seu ósculo gelado Selando a clara e morna tarde de estio E atrás de si, seus cavaleiros Virem, a tropel, em seus cavalos negros Arrancar de mim os seus despojos.
Sinto a noite crescer na solidão Da velha casa abandonada do meu coração, Roendo as paredes cobertas de lodo, Os velhos retratos que o tempo Teve o devido cuidado De deixar somente as lembranças, As duras linhas onde eu escrevi Os primeiros poemas, Meus livros - a porta sempre aberta Para o refúgio de ideias e palavras, Sinto a noite roer meus paradigmas, Minha infância, meu primeiro beijo, Tímido e amedrontado, Meus sonhos, minhas crenças E tudo que não possa ser vendido Ou sequer trocado.
Sinto a noite apagar meus pensamentos, A longa trilha dos meus devaneios, Sinto a noite apagar a minha história Enquanto multiplica meus aniversários, E como consequência de tal sequestro Já não me reconheço para além desta angústia. Sinto a noite apagar meus anseios, Meu amor, minha vontade de viver. Somente essa saudade não se apaga, Essa saudade de tudo que não foi.
410
DON JUAN
Permita apresentar-me, bela senhorita. Eu venho de outros tempos, de terras inauditas. Sou filho da chama mais quente que existe. A noite é minha irmã, sublime, mas tão triste.
Trago na boca o gosto dos mares onde vivo, As vagas escalando, deles sou cativo Como um fantasma vagando pelos portos, Mas trago em mim uma porção de dias mortos.
Quando o pulso febril no corpo arde E o Sol desfaz-se em sangue no final da tarde, Espalhando no mundo a solidão e o frio, Amaldiçoo a minha sina e o mar bravio.
Nessas horas cruéis o que minh’alma quer É apenas tua forma linda de mulher. Quando a angústia crescer minh’alma sente Meu coração deseja a tua boca ardente.
Tal como o beija-flor do néctar suculento Da tua beleza vivo e dela me alimento E como fosse o fôlego da vida humana Eu sorvo a luz que o teu olhar emana.
Direi-te, então, o nome de quem fala-te com ardor. Me chamam Don Juan: teu servo e teu Senhor.
441
AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS
Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina. Amo o pássaro que abandona o bando para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos. Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada. Amo os barcos que partem na escuridão, antes que as casas despertem do seu sono. Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta, tendo por companheira somente a própria sombra. Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim. Amo o lobo que se afasta da matilha para se embriagar com as luzes do luar. Amo a estrela que mantem-se acesa Antes de ser despedaçada pela escuridão. Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda. Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço Sua torrente de cores e movimentações. Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento E amo a vela temerária que desafia a tempestade. Amo o silêncio da enorme noite cósmica Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos. Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia. Amo o vulto silente que passa nos campos desolados e que se alegra e ri consigo mesmo. Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta, o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada, o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza. Só amo a estrela que se reconhece estrela e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar. Só amo aqueles que amam a própria solidão.
466
BALADA PÓS-ROMÂNTICA
Para Rafaela Duccini
Ela chegou de repente Onde há tempos estava Expulsando a sujeira E o vazio da casa
Só vivia escondida Nesses cantos da vida E sofrendo calada E chorando sozinha
A menina era bela E estes olhos sabiam Mas não olhavam pra ela Como deveriam
E ela andava na noite E cantava e sorria Sua rara alegria Qual se fosse madura
Como tudo era breve Mais que a brisa mais leve Seu amor tão escasso Era breve também.
Não sei como eu sabia Que da força do dia Vinha um raio mais claro Me fazendo ir além
Da distância tão grande, Das florestas, dos montes E de mil horizontes Que zombavam de mim.
Ela era tão linda E estes olhos sabiam Que era assas perigoso Encara-la nos olhos.
Como a chuva que chega Numa tarde de sol, Como um barco que avista De repente um farol,
Assim foi que ela veio Onde há tempos estava, Libertando minha alma De tristezas escrava.
Mas uma coisa ficou Nos seus olhos sombrios: Seu coração é um porto alegre Onde só cabem dois navios.
Mas ela era tão linda E meu coração sabia Quem sem ela por perto Eu não mais viveria.
Mesmo estando tão triste Como um rio sem leito A lembrança no peito Concedeu-me o perdão.
Ela foi se aninhando Onde nada restava, Anulando a tristeza E o vazio da alma.
Ela é um receio Que me torna mais forte. Ela é minha vida E também minha morte.
Ela é minhas asas Quando pairo no ar... Ela é, ela foi, Ela sempre será.
Mas uma coisa ficou Em mim sem ela saber: Seu abraço é a terra Onde eu hei de morrer...
473
DUELO
Aqui nós estamos Armados somente Com a espada do olhar Em nosso diálogo Envolto em silêncio Travamos duelo Clarões de relâmpagos Na escuridão
Quem perde, quem ganha, Jamais saberemos Olhares são armas Que ferem por dentro E fica o soldado Sorriso no rosto Sentindo sua alma Esquartejada
498
BALADA PÓS-MODERNA
Fiquei sabendo que você era rockeira desejei-te a vida inteira essa é a hora de tentar.
Eu joguei fora meus cd's de Fábio Júnior levo o Ozzy no meu punho só pra te impressionar.
Só uso preto se tornou meu pesadelo ter que cortar o cabelo ou usar uma outra cor.
Comprei um disco desse tal de Sex Pistols meu ouvido não suporta mas meu coração gostou.
Tomei uísque tomei pinga, tomei vinho transformei o meu caminho onde o vinho me conduz.
Virei ateu, virei gnóstico, budista, só não quis deixar na vista que meu nome era Jesus.
Fiquei com medo de escrever-te uma poesia pois tão grande é a agonia que me causa teu amor.
Roubei uns versos de Carlos Drummond de Andrade e disse que era na verdade Dylan Thomas e Rimbaud.
Fiquei sabendo que você curte cinema e pra melhorar o esquema muita coisa eu assisti.
Eu vi Carlitos mesmo mudo causar riso, vi 'Cinema Paradiso' e Glauber Rocha eu não entendi.
Fiquei pensando as coincidências que não temos li 'A Era dos Extremos' só pra gente debater.
E depois disso tatuei todo o meu braço, dei uns tapas no barato mesmo sem sentir prazer...
Não fiz a barba pra virar socialista fiz pose de guitarrista pra você olhar pra mim.
Pintei uns quadros pra expor na galeria mas você sequer os via. Por que as coisas são assim?
Comprei uns livros de ciências, de magia, de história e filosofia pra poder te emprestar.
Eu fiz uns versos, inventei uma paranóia, tentei dar uma de Goya, fiz sonatas ao luar.
Eu tive amigos, tive fãs e seguidores, tive amores, tive dores, mas você nunca terei.
Eu já sabia meu destino era maldito já dizia Raulzito: Sou cowboy fora da lei.
445
SONETO DO AMOR VAGABUNDO
'Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim'
(Caetano Veloso)
Tão grande é o meu amor para entregá-lo
A uma pessoa só no vasto mundo.
Não pode do luar o branco halo
Esgotar a si próprio num segundo,
Nem pode o grande Sol iluminar
Na Terra inteira um único vivente,
Tampouco poderia ser o mar
De apenas uma nau benemerente.
Não chame o meu amor de falsidade
Pois nunca ouvirá maior verdade
De alguma outra pessoa neste mundo.
Por isso que esta noite eu te dedico,
Nos versos de um soneto impudico,
Meu coração, embora vagabundo.
607
O POETA-ESCULTOR
A pedra é nobre mas a mente é pobre... Cinzel na mão vazia, martelo de chumbo. Triste de ti, Pigmalião. Olha pra dentro buscando inspiração... Eureca! A tua Galatéia tem cara de escrementos!
389
NÃO HEI DE ALARDEAR O MEU AMOR
Não hei de alardear o meu amor Nem o divulgarei pelos jornais. Pois meu amor é meu tesouro oculto Que eu mantenho bem longe dos chacais.
Não vou gritá-lo aos quatro ventos, não, Não vou pichá-lo nas paredes nuas. Só no meu peito é que ele encontra alento E nos meus versos é que beija a glória.
O meu amor é meu, de mais ninguém. Ostentem os seus, como se fossem adorno De uma vida vazia e sem sentido.
O meu amor é minha estrela errante, Ave, suspiro, vinho delirante, Mais linda flor do meu jardim secreto.