Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

n. 0000-00-00, Teresina - PI

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

43

O TEU LUGAR

Para Kalinina Sampaio


Divago sobre teu perfil, mas não te encontro
Na violenta agitação do mar.
Encontrei-te impressa nessas pedras
Que onda nenhuma consegue perfurar.

Escuto a tua voz, mas não consigo
Achá-la nesses campos tortuosos
Onde as cores desvanecem com um aceno
E se desmontam com os primeiros raios da alvorada.

Tu não estás no vendaval
Que sai decapitando as roseiras, nem tampouco
Na corrente do rio que tudo afoga.

Em vão rasgaria o tecido do espaço
E inclinaria o olhar para a casa dos deuses:
Veria berços vazios e covas lotadas,
Um relógio vomitado pelo acaso,
Astros que seguem caminhando sem guia...
Tu não estás lá.

Não te encontras no rol das estrelas de gelo
Nem das flores de fogo, que são filhas do tempo.
Não estás neste solo que piso
Como fosse de vidro, ou de nuvens, talvez.

Teu lugar é ali, onde os números reinam.
Na dimensão dos átomos sem massa,
Nas margens do curso do tempo,
Entre a página onze e doze da Odisseia.

Teu nome está escrito com uma tinta indelével
Na parte mais profunda do meu coração
333

NECROFILIA

Leitores vasculham cemitérios,
Livros são lápides eloqüentes,
levam resíduos de poeta nos dentes.
Leitores vasculham bibliotecas,
comem defuntos com os olhos,
vomitam versos de outrora.

Poetas amam a vida, bebem a vida.
Tem olhos voltados para frente,
abrem caminho no escuro.
Poetas amam a vida, bebem a vida.
Comem defuntos
ocasionalmente.


625

MADRIGAL II

Anjo exilado do celeste abrigo,
Que à Terra trouxe o teu sublime encanto,
Ouve as palavras deste pobre amigo
Que te admira e que te adora tanto.

As noites passo a cismar sozinho
Se há no mundo alguma coisa bela
Que merecesse a flor do meu carinho
E eu merecesse a do carinho dela.

Aceita os pobres versos de presente
Que foram escritos com ternura tanta.
São explosões que surgem de repente
Das confissões que guardo na garganta.

Difícil é crer que há no mundo alguém
Tão linda e tão perfeita quanto és.
O astro mais belo que o céu retém
Nem mesmo chega-te ao dedão dos pés.

Se eu ver-te assim, a caminhar na areia,
Tão graciosa na beira do mar,
Diria se tratar de uma sereia
Que a terra seca veio visitar.

És mais bela que os raios da manhã
Quando desperta o Sol do seu sono profundo.
Maior que Michelangelo e Rodin
É o escultor que te plasmou no mundo.

Que ágeis mãos teu corpo deram forma?
Quem foi o teu augusto artesão?
De quais modelos, qual padrão, qual norma
Foi imitada a tua perfeição?

As roseiras de ti sentem ciúme,
As estrelas invejam teu sorriso,
A beleza em teu rosto se resume,
És pedaço fatal do Paraíso.

Não é mais bela a joia mais brilhante
Do que teus olhos, posso assegurar.
Até mesmo o mais caro diamante
Não brilha como brilha teu olhar.

O olhar, quando te encontra, se demora.
Diante de ti o ocaso se intimida.
Mesmo a Lua, tão bela e encantadora,
Lamentaria, se tivesse vida.

Pra essa beleza já não há rival
Entre os seres criados e incriados.
Na cristalina esfera celestial
Pendem anjos por ti enamorados.

No entanto, eu nada tenho a oferecer-te
Em paga aos sentimentos que despertas.
Tenho apenas a lira, a mão inerte,
E um peito cheio de chagas abertas.

Anjo exilado da celeste altura,
Aceite os versos de doçura e fel,
Que os leia e pense neles com ternura
E lembre do teu triste menestrel.


460

O MARTELO DAS BRUXAS

Não hei de ser um boi
Perdido no campo
Do antes e agora

Quem sabe mais antes
O pão de quimera
Com trigo de vento

Põe a prosa no saco
E foge ao teu encontro
Aperta os dentes
No sorriso

Orfeu está morto!
Não há nem pra que
Beijar estrelas
E plantar mariposas...

Será que o remorso
Resume a figura
Dos ossos falantes
Que outrora roemos?

Pão de verso na mesa
Escorre na rima da boca
Um segredo sem roupas

Não hei de ser um boi!
Melhor é ser castor gigante
E roer as bordas do tempo...
330

SEGREDOS

Quantos versos já tive que impedir
A caneta, imprudente, de escrever?
Nesses versos eu quase me traí
Revelando o que tinha que esquecer.

Quantas vezes, num esforço desumano,
Meus lábios eu mantive contraídos
Pra que esses versos, mesmo por engano,
Sussurrados não fossem aos teus ouvidos.

Vontade de dizer-te, em verso e rima,
Todo carinho que a minha alma anima,
Toda a saudade que lhe faz penar.

Quero teu corpo, teus abraços, beijos...
Mas no meu peito guardo esses desejos
Que nem em versos ouso confessar.
362

MOÇA DOS OLHOS DE CHUVA

Para Amanda Santos


Moça dos olhos de chuva,
Pra onde levas, assim, meu coração?
Fardo cruel que trago no peito
E que carrego por caminhos onde a luz jamais pisou.
Para onde o levas? Que obscuros mistérios
Movem de tal forma tua mão involuntária?

Moça dos olhos de chuva, do rosto de neve,
Por mil noites vaguei na sombra silenciosa do tempo
E ouvi a voz austera do vento de Março
Soprando pelos corredores da mansão do medo
Para onde me arrastas. Rumino, a um canto, a conclusão:
Minha alma não paga esse sequestro...

Moça dos olhos de chuva e do sorriso de Sol,
O mundo inteiro jaz no simples gesto
De derramar nos meus ouvidos lassos
A doce canção da tua voz. No entanto
A paz é fuzilada. Caminha, tropeça, morre
Nos campos onde sempre é dia de finados.

Moça dos olhos de chuva, dos olhos imensos,
Profundos como o céu e repletos de perigo
Como as entranhas dos vastos oceanos.
Quero por eles lançar minhas velas em chamas
Mesmo que o naufrágio seja a única promessa.
O mundo inteiro jaz no teu sorriso...

Moça dos olhos de chuva, a tempestade anuncia
A completa ruína das muralhas de outrora.
A tristeza das horas fica gravada pelo gesto frio
De entalhar teu nome nas pedras do tempo
Enquanto observo teu vulto se distanciando
Como uma ave que se dissolve em pleno voo.

Moça dos olhos de chuva, derrame sobre o campo
Onde plantei a semente da minha ternura
Esses raios de luz do teu olhar
Que atravessam meu peito como flechas de saudade.
374

DON JUAN

Permita apresentar-me, bela senhorita.
Eu venho de outros tempos, de terras inauditas.
Sou filho da chama mais quente que existe.
A noite é minha irmã, sublime, mas tão triste.

Trago na boca o gosto dos mares onde vivo,
As vagas escalando, deles sou cativo
Como um fantasma vagando pelos portos,
Mas trago em mim uma porção de dias mortos.

Quando o pulso febril no corpo arde
E o Sol desfaz-se em sangue no final da tarde,
Espalhando no mundo a solidão e o frio,
Amaldiçoo a minha sina e o mar bravio.

Nessas horas cruéis o que minh’alma quer
É apenas tua forma linda de mulher.
Quando a angústia crescer minh’alma sente
Meu coração deseja a tua boca ardente.

Tal como o beija-flor do néctar suculento
Da tua beleza vivo e dela me alimento
E como fosse o fôlego da vida humana
Eu sorvo a luz que o teu olhar emana.

Direi-te, então, o nome de quem fala-te com ardor.
Me chamam Don Juan: teu servo e teu Senhor.
439

A MENINA DOS PÁSSAROS

Quem sabe o que existe além
Desta esfera, que asa nenhuma ousa atravessar?
Talvez o tesouro de algum deus incauto
Ou quem sabe o brilho que fere e mortifica.

Aonde hão de nos levar esses carinhos
Que a mão etérea ensaia em pensamentos?
Alguns sonhos são como flores espinhosas,
Forjados no coração de fogo das estrelas,
Crescendo no peito inebriado de dor.

Eu gostaria de dizer que vou seguindo
Mas os meus olhos estão abertos
E o meu amor é triste como a onda
Que inutilmente se atira nos rochedos
Ou como os portos sombrios onde os barcos
Sempre partem cobertos de silêncio.

No entanto uma menina emerge da neblina
E há nos seus olhos a dor do entardecer:
A esperança é uma explosão de negros pássaros
Que seguem recordando a triste luz do ocaso.
481

SONETO 666

Anjo caído da suprema altura,
Gênio das artes, da Sabedoria,
Invoco o esplendor da tua figura,
Enchei minha caveira de Poesia.

Anjo exilado, Pai da Rebeldia,
Somos iguais, Irmãos na Desventura.
Eu, que oscilo entre a vida tão vazia
E a solidão atroz da sepultura.

Anjo de luz e de clarões sidéreos,
Conheces os mais íntimos mistérios
Que encerram as fronteiras do Universo,

Mostra o caminho para eu ir além...
A inspiração que só de Ti provém...
Dai o toque de Midas no meu verso.
468

BALADA PÓS-ROMÂNTICA

Para Rafaela Duccini


Ela chegou de repente
Onde há tempos estava
Expulsando a sujeira
E o vazio da casa

Só vivia escondida
Nesses cantos da vida
E sofrendo calada
E chorando sozinha

A menina era bela
E estes olhos sabiam
Mas não olhavam pra ela
Como deveriam

E ela andava na noite
E cantava e sorria
Sua rara alegria
Qual se fosse madura

Como tudo era breve
Mais que a brisa mais leve
Seu amor tão escasso
Era breve também.

Não sei como eu sabia
Que da força do dia
Vinha um raio mais claro
Me fazendo ir além

Da distância tão grande,
Das florestas, dos montes
E de mil horizontes
Que zombavam de mim.

Ela era tão linda
E estes olhos sabiam
Que era assas perigoso
Encara-la nos olhos.

Como a chuva que chega
Numa tarde de sol,
Como um barco que avista
De repente um farol,

Assim foi que ela veio
Onde há tempos estava,
Libertando minha alma
De tristezas escrava.

Mas uma coisa ficou
Nos seus olhos sombrios:
Seu coração é um porto alegre
Onde só cabem dois navios.

Mas ela era tão linda
E meu coração sabia
Quem sem ela por perto
Eu não mais viveria.

Mesmo estando tão triste
Como um rio sem leito
A lembrança no peito
Concedeu-me o perdão.

Ela foi se aninhando
Onde nada restava,
Anulando a tristeza
E o vazio da alma.

Ela é um receio
Que me torna mais forte.
Ela é minha vida
E também minha morte.

Ela é minhas asas
Quando pairo no ar...
Ela é, ela foi,
Ela sempre será.

Mas uma coisa ficou
Em mim sem ela saber:
Seu abraço é a terra
Onde eu hei de morrer...
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