Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

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OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

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Poemas

43

O MARTELO DAS BRUXAS

Não hei de ser um boi
Perdido no campo
Do antes e agora

Quem sabe mais antes
O pão de quimera
Com trigo de vento

Põe a prosa no saco
E foge ao teu encontro
Aperta os dentes
No sorriso

Orfeu está morto!
Não há nem pra que
Beijar estrelas
E plantar mariposas...

Será que o remorso
Resume a figura
Dos ossos falantes
Que outrora roemos?

Pão de verso na mesa
Escorre na rima da boca
Um segredo sem roupas

Não hei de ser um boi!
Melhor é ser castor gigante
E roer as bordas do tempo...
332

NÃO FAÇO VERSO EM VÃO

Não faço verso em vão.
O poema é um pássaro preso numa folha em branco.
Eu fendo a folha, o verso se liberta
E beije a luz.
É preciso escutá-lo e saber se quer sair.

A vida é dura, o amor é pouco e a alegria
Raramente tem me visitado.
Isso é deveras desesperador,
Mas não é motivo para versejar.

Existem os bares, os livros, o abraço dos amigos,
O beijo dos amores fugidios.
Existe a noite e existe a chuva
Onde consigo esconder meus prantos.
Fazer versos pra que?

Os poemas não nascem quando quero.
Ele fica aqui dentro em silêncio
Germinado quando estou a cismar.
A dor que sinto a cada instante
É a dor de suas asas crescendo.

Eu escuto... ele chora.
Bate com as asas de ferro
Nas paredes do meu peito.
Ele cresce. Traço, um risco, uma letra... ele explode.
Ele se livra e me liberta.
409

SONETO 666

Anjo caído da suprema altura,
Gênio das artes, da Sabedoria,
Invoco o esplendor da tua figura,
Enchei minha caveira de Poesia.

Anjo exilado, Pai da Rebeldia,
Somos iguais, Irmãos na Desventura.
Eu, que oscilo entre a vida tão vazia
E a solidão atroz da sepultura.

Anjo de luz e de clarões sidéreos,
Conheces os mais íntimos mistérios
Que encerram as fronteiras do Universo,

Mostra o caminho para eu ir além...
A inspiração que só de Ti provém...
Dai o toque de Midas no meu verso.
471

SONETO

Tem palavras que são tão carinhosas
Que quase as sinto me tocando a face
Com dedos tímidos e adolescentes
Percorrendo, medrosas, minha tez.

Tem palavras que o vento não carrega
Mas mesmo impressas tem o mesmo efeito
De um lânguido sussurro ao pé do ouvido
Ou de um olhar sincero e imaculado

Tem palavras tão ternas quanto o afago
Da mão, que sequiosa de desejos,
Tem que conter-se em escrever poemas.

Quando pousares teu olhar nas minhas
Quero que as leia como fosse um abraço
Quero que as sinta como fosse um beijo.
498

NICOTINA

'Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos'

(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)



Preso em meus dedos um cigarro ameno

- Tragos de tédio e brasas de desejo,

Destilando o cilíndrico veneno,

Tendo a morte e o prazer no mesmo beijo.


Se adelgaça no ar o doce fumo

Como fosse uma etérea serpentina

Nada importa, se agora me consumo.

Em minhas veias corre nicotina.


'Tu morrerás!', 'E eu não duvido', digo.

'Tão triste é perder novo um grande amigo'

E eu me disperso nesse lento crime...


Nada mais justo, minha doce irmã,

Trocar uns dias de uma vida vã

Por uns minutos de prazer sublime

450

MADRIGAL III

O teu sorriso é lindo como a aurora
Que fende a noite qual dourada espada,
Como a esperança que eu tivera outrora
Mas que deixei nalgum lugar da estrada.

O teu sorriso é lindo como o Sol
Quando dispersa as sombras de manhã
E espalha as rubras luzes do arrebol
Iluminando a minha vida vã.

O teu sorriso é lindo como a rosa
Que, na clara manhã de primavera
Desata as rubras pétalas, viçosa,
Enchendo de beleza a atmosfera.

O teu sorriso é como a primavera
Cobrindo o mundo de perfume e cores
E por teu riso assim se prolifera
Todas as ânsias de sutis amores.

Quisera eu ser razão de tal sorriso.
Tudo faria por esse troféu.
Eu poderia, sem pesar nem siso,
Descer ao inferno ou escalar o céu.

464

O TEU AMOR

Para Jociane Macedo

De tantas coisas quantas há no mundo
Ou que sonharam antigos visionários,
De tantos entes quantos há no Empíreo
Ou substantivos que há nos dicionários,

De tantas coisas que, no tédio infindo
De Deus tiveram sua criação,
De tantas coisas que, nos seus esforços
Alcançar possa a imaginação,

De tantas coisas que em mistérios dormem
E as palavras não podem nomear
Somente o teu amor é meu anseio
E em teu abraço posso descansar.

Se tudo isso a mim fosse ofertado
E eu não tivesse o teu amor comigo
De nada serviriam tais agrados
Seria como eu me tornar mendigo

Mas mesmo que eu não tenha nada disso
Se eu tiver ao meu lado o teu amor
Nenhum estoico é mais feliz que eu
E nenhum rei mais rico do que eu sou.
457

SEGREDOS

Quantos versos já tive que impedir
A caneta, imprudente, de escrever?
Nesses versos eu quase me traí
Revelando o que tinha que esquecer.

Quantas vezes, num esforço desumano,
Meus lábios eu mantive contraídos
Pra que esses versos, mesmo por engano,
Sussurrados não fossem aos teus ouvidos.

Vontade de dizer-te, em verso e rima,
Todo carinho que a minha alma anima,
Toda a saudade que lhe faz penar.

Quero teu corpo, teus abraços, beijos...
Mas no meu peito guardo esses desejos
Que nem em versos ouso confessar.
364

QUANDO OS CORVOS CHORAM

Quando ele estende
A negra envergadura
Sobre a face do abismo
E o gosto das alturas
Definha no seu peito,
É hora de dizer adeus.

Quando a noite não traz
Na fria face de breu
A recôndita ausência
Dos males do mundo.
É hora de dizer adeus.

Quando ele vê brotar
No coração afeito à luta
Uma dor maior que o suportável
E vê rolar na face
A lágrima de ferro,
É hora de dizer adeus...

Quando até mesmo o céu
Lhe nega o refrigério
Que, malogrado, desistiu
De procurar na terra,
É hora de dizer adeus...

Mas não! É cedo!
Inda nem desmaiou a luz do dia...
Mas quando até mesmo os corvos choram,
Querida, é hora de dizer adeus.
439

NECROFILIA

Leitores vasculham cemitérios,
Livros são lápides eloqüentes,
levam resíduos de poeta nos dentes.
Leitores vasculham bibliotecas,
comem defuntos com os olhos,
vomitam versos de outrora.

Poetas amam a vida, bebem a vida.
Tem olhos voltados para frente,
abrem caminho no escuro.
Poetas amam a vida, bebem a vida.
Comem defuntos
ocasionalmente.


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