Igor Roosevelt

Igor Roosevelt

n. 0000-00-00, Teresina - PI

Perfil
16 759 Visualizações

OS MORTOS

Em que os mortos pensam, nessa noite

Sem fim em que se deitam e que se perdem?

A quem os mortos amam nos seus sonhos

Isentos de sentido e de sabores?

A morte priva os mortos de carpir

Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.

Se os mortos não tem boca pra sorrir

Também lhes faltam olhos pra chorar.

Os mortos não entendem ontologia

Os mortos não vasculham bibliotecas

E nem recitam versos ao luar

O coração dos mortos é um castelo

Sem hóspedes e sem anfitrião

Onde a saudade nunca pode entrar.

Ler poema completo

Poemas

43

MADRIGAL III

O teu sorriso é lindo como a aurora
Que fende a noite qual dourada espada,
Como a esperança que eu tivera outrora
Mas que deixei nalgum lugar da estrada.

O teu sorriso é lindo como o Sol
Quando dispersa as sombras de manhã
E espalha as rubras luzes do arrebol
Iluminando a minha vida vã.

O teu sorriso é lindo como a rosa
Que, na clara manhã de primavera
Desata as rubras pétalas, viçosa,
Enchendo de beleza a atmosfera.

O teu sorriso é como a primavera
Cobrindo o mundo de perfume e cores
E por teu riso assim se prolifera
Todas as ânsias de sutis amores.

Quisera eu ser razão de tal sorriso.
Tudo faria por esse troféu.
Eu poderia, sem pesar nem siso,
Descer ao inferno ou escalar o céu.

463

DUELO

Aqui nós estamos
Armados somente
Com a espada do olhar
Em nosso diálogo
Envolto em silêncio
Travamos duelo
Clarões de relâmpagos
Na escuridão

Quem perde, quem ganha,
Jamais saberemos
Olhares são armas
Que ferem por dentro
E fica o soldado
Sorriso no rosto
Sentindo sua alma
Esquartejada
497

A MENINA DOS PÁSSAROS

Quem sabe o que existe além
Desta esfera, que asa nenhuma ousa atravessar?
Talvez o tesouro de algum deus incauto
Ou quem sabe o brilho que fere e mortifica.

Aonde hão de nos levar esses carinhos
Que a mão etérea ensaia em pensamentos?
Alguns sonhos são como flores espinhosas,
Forjados no coração de fogo das estrelas,
Crescendo no peito inebriado de dor.

Eu gostaria de dizer que vou seguindo
Mas os meus olhos estão abertos
E o meu amor é triste como a onda
Que inutilmente se atira nos rochedos
Ou como os portos sombrios onde os barcos
Sempre partem cobertos de silêncio.

No entanto uma menina emerge da neblina
E há nos seus olhos a dor do entardecer:
A esperança é uma explosão de negros pássaros
Que seguem recordando a triste luz do ocaso.
482

AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS

Amo as almas solitárias, os espíritos livres, as aves de rapina.
Amo o pássaro que abandona o bando
para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos.
Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada.
Amo os barcos que partem na escuridão,
antes que as casas despertem do seu sono.
Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta,
tendo por companheira somente a própria sombra.
Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim.
Amo o lobo que se afasta da matilha
para se embriagar com as luzes do luar.
Amo a estrela que mantem-se acesa
Antes de ser despedaçada pela escuridão.
Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo
Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda.
Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa
E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço
Sua torrente de cores e movimentações.
Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento
E amo a vela temerária que desafia a tempestade.
Amo o silêncio da enorme noite cósmica
Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos.
Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos
e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia.
Amo o vulto silente que passa nos campos desolados
e que se alegra e ri consigo mesmo.
Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta,
o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada,
o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza.
Só amo a estrela que se reconhece estrela
e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar.
Só amo aqueles que amam a própria solidão.
465

O TEU AMOR

Para Jociane Macedo

De tantas coisas quantas há no mundo
Ou que sonharam antigos visionários,
De tantos entes quantos há no Empíreo
Ou substantivos que há nos dicionários,

De tantas coisas que, no tédio infindo
De Deus tiveram sua criação,
De tantas coisas que, nos seus esforços
Alcançar possa a imaginação,

De tantas coisas que em mistérios dormem
E as palavras não podem nomear
Somente o teu amor é meu anseio
E em teu abraço posso descansar.

Se tudo isso a mim fosse ofertado
E eu não tivesse o teu amor comigo
De nada serviriam tais agrados
Seria como eu me tornar mendigo

Mas mesmo que eu não tenha nada disso
Se eu tiver ao meu lado o teu amor
Nenhum estoico é mais feliz que eu
E nenhum rei mais rico do que eu sou.
456

BALADA PÓS-ROMÂNTICA

Para Rafaela Duccini


Ela chegou de repente
Onde há tempos estava
Expulsando a sujeira
E o vazio da casa

Só vivia escondida
Nesses cantos da vida
E sofrendo calada
E chorando sozinha

A menina era bela
E estes olhos sabiam
Mas não olhavam pra ela
Como deveriam

E ela andava na noite
E cantava e sorria
Sua rara alegria
Qual se fosse madura

Como tudo era breve
Mais que a brisa mais leve
Seu amor tão escasso
Era breve também.

Não sei como eu sabia
Que da força do dia
Vinha um raio mais claro
Me fazendo ir além

Da distância tão grande,
Das florestas, dos montes
E de mil horizontes
Que zombavam de mim.

Ela era tão linda
E estes olhos sabiam
Que era assas perigoso
Encara-la nos olhos.

Como a chuva que chega
Numa tarde de sol,
Como um barco que avista
De repente um farol,

Assim foi que ela veio
Onde há tempos estava,
Libertando minha alma
De tristezas escrava.

Mas uma coisa ficou
Nos seus olhos sombrios:
Seu coração é um porto alegre
Onde só cabem dois navios.

Mas ela era tão linda
E meu coração sabia
Quem sem ela por perto
Eu não mais viveria.

Mesmo estando tão triste
Como um rio sem leito
A lembrança no peito
Concedeu-me o perdão.

Ela foi se aninhando
Onde nada restava,
Anulando a tristeza
E o vazio da alma.

Ela é um receio
Que me torna mais forte.
Ela é minha vida
E também minha morte.

Ela é minhas asas
Quando pairo no ar...
Ela é, ela foi,
Ela sempre será.

Mas uma coisa ficou
Em mim sem ela saber:
Seu abraço é a terra
Onde eu hei de morrer...
471

MADRIGAL II

Anjo exilado do celeste abrigo,
Que à Terra trouxe o teu sublime encanto,
Ouve as palavras deste pobre amigo
Que te admira e que te adora tanto.

As noites passo a cismar sozinho
Se há no mundo alguma coisa bela
Que merecesse a flor do meu carinho
E eu merecesse a do carinho dela.

Aceita os pobres versos de presente
Que foram escritos com ternura tanta.
São explosões que surgem de repente
Das confissões que guardo na garganta.

Difícil é crer que há no mundo alguém
Tão linda e tão perfeita quanto és.
O astro mais belo que o céu retém
Nem mesmo chega-te ao dedão dos pés.

Se eu ver-te assim, a caminhar na areia,
Tão graciosa na beira do mar,
Diria se tratar de uma sereia
Que a terra seca veio visitar.

És mais bela que os raios da manhã
Quando desperta o Sol do seu sono profundo.
Maior que Michelangelo e Rodin
É o escultor que te plasmou no mundo.

Que ágeis mãos teu corpo deram forma?
Quem foi o teu augusto artesão?
De quais modelos, qual padrão, qual norma
Foi imitada a tua perfeição?

As roseiras de ti sentem ciúme,
As estrelas invejam teu sorriso,
A beleza em teu rosto se resume,
És pedaço fatal do Paraíso.

Não é mais bela a joia mais brilhante
Do que teus olhos, posso assegurar.
Até mesmo o mais caro diamante
Não brilha como brilha teu olhar.

O olhar, quando te encontra, se demora.
Diante de ti o ocaso se intimida.
Mesmo a Lua, tão bela e encantadora,
Lamentaria, se tivesse vida.

Pra essa beleza já não há rival
Entre os seres criados e incriados.
Na cristalina esfera celestial
Pendem anjos por ti enamorados.

No entanto, eu nada tenho a oferecer-te
Em paga aos sentimentos que despertas.
Tenho apenas a lira, a mão inerte,
E um peito cheio de chagas abertas.

Anjo exilado da celeste altura,
Aceite os versos de doçura e fel,
Que os leia e pense neles com ternura
E lembre do teu triste menestrel.


461

AUTO-ANAMNESE

Descobri
Que não sabia escrever
Quando percebi
Que não sabia rimar
Amor com dor.

Descobri
Que não sabia viver
Quando percebi
Que não sabia sofrer
Nem sabia sonhar.

Descobri, enfim
Que não sabia amar
Quando percebi
Que não sabia rimar
Solidão com amor.
419

SONETO DO AMOR VAGABUNDO

'Meu coração vagabundo

Quer guardar o mundo em mim'

(Caetano Veloso)


Tão grande é o meu amor para entregá-lo

A uma pessoa só no vasto mundo.

Não pode do luar o branco halo

Esgotar a si próprio num segundo,


Nem pode o grande Sol iluminar

Na Terra inteira um único vivente,

Tampouco poderia ser o mar

De apenas uma nau benemerente.


Não chame o meu amor de falsidade

Pois nunca ouvirá maior verdade

De alguma outra pessoa neste mundo.


Por isso que esta noite eu te dedico,

Nos versos de um soneto impudico,

Meu coração, embora vagabundo.

606

EU NUNCA DISSE QUE TE AMO

Eu nunca disse que te amo
Mas muita força as prende aqui
Domá-las como um bicho
Prendê-las antes que desaguem
No intervalo de um beijo
Rumo ao mar amargo do remorso.

Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O preço que se paga pelo apego
Substantivamente as mãos procuram
No escuro, a doce fantasia
Do afago proibido

Este é o caminho sem volta
E nunca a mesma chuva
Lava o solo queimado de sol
E nunca o mesmo nunca
Pousa no ouvido sempre virgem.

Eu nunca disse, mas talvez não saiba
O nome desse pulso febril que me enfraquece
Sinto apenas no ardor desta manhã
Uma tristeza e uma dor crepuscular
Como quem segue viagem logo cedo
Com saudade e sem pressa de chegar.
395

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.