Quando ele estende A negra envergadura Sobre a face do abismo E o gosto das alturas Definha no seu peito, É hora de dizer adeus.
Quando a noite não traz Na fria face de breu A recôndita ausência Dos males do mundo. É hora de dizer adeus.
Quando ele vê brotar No coração afeito à luta Uma dor maior que o suportável E vê rolar na face A lágrima de ferro, É hora de dizer adeus...
Quando até mesmo o céu Lhe nega o refrigério Que, malogrado, desistiu De procurar na terra, É hora de dizer adeus...
Mas não! É cedo! Inda nem desmaiou a luz do dia... Mas quando até mesmo os corvos choram, Querida, é hora de dizer adeus.
436
O TEU AMOR
Para Jociane Macedo
De tantas coisas quantas há no mundo Ou que sonharam antigos visionários, De tantos entes quantos há no Empíreo Ou substantivos que há nos dicionários,
De tantas coisas que, no tédio infindo De Deus tiveram sua criação, De tantas coisas que, nos seus esforços Alcançar possa a imaginação,
De tantas coisas que em mistérios dormem E as palavras não podem nomear Somente o teu amor é meu anseio E em teu abraço posso descansar.
Se tudo isso a mim fosse ofertado E eu não tivesse o teu amor comigo De nada serviriam tais agrados Seria como eu me tornar mendigo
Mas mesmo que eu não tenha nada disso Se eu tiver ao meu lado o teu amor Nenhum estoico é mais feliz que eu E nenhum rei mais rico do que eu sou.
454
NÃO FAÇO VERSO EM VÃO
Não faço verso em vão. O poema é um pássaro preso numa folha em branco. Eu fendo a folha, o verso se liberta E beije a luz. É preciso escutá-lo e saber se quer sair.
A vida é dura, o amor é pouco e a alegria Raramente tem me visitado. Isso é deveras desesperador, Mas não é motivo para versejar.
Existem os bares, os livros, o abraço dos amigos, O beijo dos amores fugidios. Existe a noite e existe a chuva Onde consigo esconder meus prantos. Fazer versos pra que?
Os poemas não nascem quando quero. Ele fica aqui dentro em silêncio Germinado quando estou a cismar. A dor que sinto a cada instante É a dor de suas asas crescendo.
Eu escuto... ele chora. Bate com as asas de ferro Nas paredes do meu peito. Ele cresce. Traço, um risco, uma letra... ele explode. Ele se livra e me liberta.
405
SEGREDOS
Quantos versos já tive que impedir A caneta, imprudente, de escrever? Nesses versos eu quase me traí Revelando o que tinha que esquecer.
Quantas vezes, num esforço desumano, Meus lábios eu mantive contraídos Pra que esses versos, mesmo por engano, Sussurrados não fossem aos teus ouvidos.
Vontade de dizer-te, em verso e rima, Todo carinho que a minha alma anima, Toda a saudade que lhe faz penar.
Quero teu corpo, teus abraços, beijos... Mas no meu peito guardo esses desejos Que nem em versos ouso confessar.
359
NICOTINA
'Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos'
(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)
Preso em meus dedos um cigarro ameno
- Tragos de tédio e brasas de desejo,
Destilando o cilíndrico veneno,
Tendo a morte e o prazer no mesmo beijo.
Se adelgaça no ar o doce fumo
Como fosse uma etérea serpentina
Nada importa, se agora me consumo.
Em minhas veias corre nicotina.
'Tu morrerás!', 'E eu não duvido', digo.
'Tão triste é perder novo um grande amigo'
E eu me disperso nesse lento crime...
Nada mais justo, minha doce irmã,
Trocar uns dias de uma vida vã
Por uns minutos de prazer sublime
446
NÃO HEI DE ALARDEAR O MEU AMOR
Não hei de alardear o meu amor Nem o divulgarei pelos jornais. Pois meu amor é meu tesouro oculto Que eu mantenho bem longe dos chacais.
Não vou gritá-lo aos quatro ventos, não, Não vou pichá-lo nas paredes nuas. Só no meu peito é que ele encontra alento E nos meus versos é que beija a glória.
O meu amor é meu, de mais ninguém. Ostentem os seus, como se fossem adorno De uma vida vazia e sem sentido.
O meu amor é minha estrela errante, Ave, suspiro, vinho delirante, Mais linda flor do meu jardim secreto.
443
A LENDA
Reza dos gregos uma antiga lenda De que no Monte Hélicon vivia O Pégaso, mais bela e mais selvagem Das alimárias que no mundo havia
Belerofonte, para o seu intento De derrotar Quimera, monstro horrendo, Tivera que domar o cavalo alado Que a ninguém jamais obedecia.
A única coisa com poder bastante De fazer Pégaso obedecer alguém Eram arreios mágicos, dourados, Que Atena para o herói oferecera.
Doce menina, escuta o que eu de digo: Meu coração é um Pégaso selvagem. Teus cabelos, dourados como o Sol, São os arreios que podem domina-lo.
Evolve, pois, meu corpo nos teus laços. O meu amor encerra em tuas mãos. Qual Pégaso e Belerofonte voaremos Ao ponto mais distante da amplidão.
366
MADRIGAL II
Anjo exilado do celeste abrigo, Que à Terra trouxe o teu sublime encanto, Ouve as palavras deste pobre amigo Que te admira e que te adora tanto.
As noites passo a cismar sozinho Se há no mundo alguma coisa bela Que merecesse a flor do meu carinho E eu merecesse a do carinho dela.
Aceita os pobres versos de presente Que foram escritos com ternura tanta. São explosões que surgem de repente Das confissões que guardo na garganta.
Difícil é crer que há no mundo alguém Tão linda e tão perfeita quanto és. O astro mais belo que o céu retém Nem mesmo chega-te ao dedão dos pés.
Se eu ver-te assim, a caminhar na areia, Tão graciosa na beira do mar, Diria se tratar de uma sereia Que a terra seca veio visitar.
És mais bela que os raios da manhã Quando desperta o Sol do seu sono profundo. Maior que Michelangelo e Rodin É o escultor que te plasmou no mundo.
Que ágeis mãos teu corpo deram forma? Quem foi o teu augusto artesão? De quais modelos, qual padrão, qual norma Foi imitada a tua perfeição?
As roseiras de ti sentem ciúme, As estrelas invejam teu sorriso, A beleza em teu rosto se resume, És pedaço fatal do Paraíso.
Não é mais bela a joia mais brilhante Do que teus olhos, posso assegurar. Até mesmo o mais caro diamante Não brilha como brilha teu olhar.
O olhar, quando te encontra, se demora. Diante de ti o ocaso se intimida. Mesmo a Lua, tão bela e encantadora, Lamentaria, se tivesse vida.
Pra essa beleza já não há rival Entre os seres criados e incriados. Na cristalina esfera celestial Pendem anjos por ti enamorados.
No entanto, eu nada tenho a oferecer-te Em paga aos sentimentos que despertas. Tenho apenas a lira, a mão inerte, E um peito cheio de chagas abertas.
Anjo exilado da celeste altura, Aceite os versos de doçura e fel, Que os leia e pense neles com ternura E lembre do teu triste menestrel.
458
DON JUAN
Permita apresentar-me, bela senhorita. Eu venho de outros tempos, de terras inauditas. Sou filho da chama mais quente que existe. A noite é minha irmã, sublime, mas tão triste.
Trago na boca o gosto dos mares onde vivo, As vagas escalando, deles sou cativo Como um fantasma vagando pelos portos, Mas trago em mim uma porção de dias mortos.
Quando o pulso febril no corpo arde E o Sol desfaz-se em sangue no final da tarde, Espalhando no mundo a solidão e o frio, Amaldiçoo a minha sina e o mar bravio.
Nessas horas cruéis o que minh’alma quer É apenas tua forma linda de mulher. Quando a angústia crescer minh’alma sente Meu coração deseja a tua boca ardente.
Tal como o beija-flor do néctar suculento Da tua beleza vivo e dela me alimento E como fosse o fôlego da vida humana Eu sorvo a luz que o teu olhar emana.
Direi-te, então, o nome de quem fala-te com ardor. Me chamam Don Juan: teu servo e teu Senhor.
438
O POETA-ESCULTOR
A pedra é nobre mas a mente é pobre... Cinzel na mão vazia, martelo de chumbo. Triste de ti, Pigmalião. Olha pra dentro buscando inspiração... Eureca! A tua Galatéia tem cara de escrementos!