Lista de Poemas

SÃO SÓ PALAVRAS ...

Está vendo essa folha branca;
adstrita, ilustrada com falácias
de amor frugal e de audácias
nódoas que o peito abranda?! 

Esta folha referta, tão claustral; 
Tempera, apenas, não sacia 
O tolo, réu da idiossincrasia  
Que ufana, sob o próprio mal...

- São só palavras, desgraça apenas,
Que os poetas comem e cospem
Aos famintos ébrios, o resto.

-São só palavras, tão vis fosfenas 
À iludir os olhos, que dormem,
No sonhar d'um coração funesto.

Itamar FS

308

ULTIMA DEIXA

Um dia, quando minh'alma decidir morrer,
Assim, um pouco mais do que já morri... ,
Que as pedras da infância, onde eu corri,
Permaneçam pra outros também correr.

E quando esses meus passos nunca dados
Percorrer aquelas ruas num cortejo,
Que as saudades guiem todo o solfejo
Dos choros sobejais dos encarnados.

Por fim, quando me porem no estrado
Para velar-me, à beira da velha capela,
E Chárõn ressurtir pra ser meu guia;

Que o Nada que eu tenho seja o pago;
Que eu fique para trás e, ao pé da vela,
Encontre meu final na lousa fria.

Itamar FS
296

MEU INFERNO

Pelas janelas oculares do meu crânio,
Percebo contos, desencontros e encontros.
Pelas veredas de saudades que eu ando,
Deixo pra trás, poemas, versos e encantos.

Só não persisto em entender esse meu pranto,
O qual me fez acreditar num céu bonito.
Sem harmonia e com tristeza leve, canto:
- Eu vou fazer do meu inferno um paraíso!

Itamar FS
364

PORTA- RETRATO

Empoeirado está o meu sorriso
Nesse túmulo de madeira e vidro;
Desse exílio tenho o meu castigo:
Gritar, somente, ao meu própri'ouvido.

Cristalizado está o meu olhar,
Como um eclipse cegando o luar.
Herdando apenas um vago lembrar
De um passado presente - Abismo Vulgar.

Mas aceito a punição, ó meu carrasco,
Já que o preço do amor é o seu pecado.
Estendo-me sobre o caso e o acaso... :
_ Que seja minha cela seu porta-retrato!

Itamar FS
310

AO SERVIÇAL ABUTRE

Voa, mesquinho serviçal de asa umbrosa!
Segue o destino tão banal de tua sina,
Banqueteando-se em vil carnificina,
Desse entulho bestial que decompora.

Chama o rebanho esfomeado, dá seus gritos
Para pousar com frêmito arquejo gutural;
Põe-me as entranhas estendidas, invital,
Há de servir de inspiração para teus filhos!

Ave negreira, irrevogável pestilenta,
Vem espalhar o teu turíbulo necroso,
Fazer do ar nossa memória agourenta...

Mostra a brancura desse ser choruminoso
Sobre o contraste sepulcral de tua pena,
E dá-lhe a chance de brilhar ao sol, de novo!

Itamar FS
314

INSÔNIA

Grita ao meu ouvido esse monstro -
Me desperto; é noite, já é tarde,
Algo me observa, então, covarde,
Eu finjo sono, mas não o encontro.

Cubro-me, e agora estando absconso
Penso: fora só sonho que agora evade, 
Não há segredos, nem há conclave;
Somente eu, sorrindo insonso...

Em vão, me deito... Vou refletir: 
Que besta é essa, sempre a surgir
Quand’olhos fecho, quando descanso?! 

Porque que o sono eu não alcanço?!
E a besta sempre a me exaurir...
Aconteceu que amanheceu e eu não dormi!

Itamar FS
322

ANA


Se espalha como um câncer a memória que a muito tento esquecer:
Ela foi-se como uma brisa fria, ignorada pelos insetos em luzes de neon.
Tão pouco se soube sobre ela, como tão pouco se soube quando partiria...
Ela perdeu a vontade de tentar, a vontade d'insistir, a vontade de acordar.

__Acredito que o sono nunca foi tão bem-vindo para um viajante cansado
quanto a morte foi para ela...

Itamar FS

365

PSICOGRAFIA DE UM EX SOFISTA

Se então morrer refém do eleatismo,
Não te alardes com o novo mundo
Tão transcendente, sem o Pseudoprumo
Que t'encontravas n'antropomorfismo.

Pensava eu: durar igual ao dólmen,
tão abstrato no espaço-tempo;
É só afago ao descontentamento
Ou silogismos das prisões do homem?!

Foi só na morte - esta mulher amarga -
Que da matéria receia-se e a apodrece
Em tudo, e dela não se escapa;

Que encontrei a minha forma inata
Na existência do EU, que excede
O próprio céu e inferno que herdara.

Itamar FS

 
336

LÁGRIMA

Derrama-se densa, em lenta pena,
Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.
Outrora à âncora, comprimida e alenta,
Demorava-se a brilhar encantadora.

Vai-se à beira do torpor da rubra face,
Maviosa, fenecida e sem alarde,
Salgar-te à memória, à dor do encrave,
Com seus fúnebres contos de saudade.

Embora tu, ausente do infirme eco do engano,
Possas pensar que basta a ti, um simples pano,
Para que o orvalho trivial possas secar; _

Vais abrandar, frigidamente, somente o tanto
Que tuas mãos tão decadentes em seu pranto
Poderiam tenuemente alcançar.

Itamar FS
359

PÉTALAS MORTAS

Contorcem num abraço frio essas pétalas
Tristes, sozinhas, e afogadas sem razão
Num jarro fútil, símile ao amor na solidão
Que jaz à amar, sozinho, tísicas sépalas.

Essas rosas que, antes vivas, decoravam
O jardim das fantasias dos poetas...
Hoje ornam as saudades mais profetas;
Aquelas que os olhos postulavam...

Agora, fenecendo-as, vão as horas;
Assim como fenecem a um sonhador,
Quando este é condenado a não dormir...

No esquálido estalado dessas rosas
A vida se resume  e,  nesse odor,
Um dia tudo que floresce há de sumir...

Itamar FS

364

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'' Por mais que eu me esforce a vida será apenas uma breve lembrança de tudo aquilo que na verdade gostaria de viver.'' _ Itamar FS