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AMOR ONÍRICO

Em pequenas palavras exponho meu mundo,
Transbordado de graça, ao ver-te chegar.
Com efêmero riso em sal me inundo,
Ouvindo a porta, ao teu ir, se fechar.

Recorro aos meus sonhos pra te reencontrar,
E no onírico ponto eu quero estancar;
Pois não quero, jamais, que teu único amante
Pereça de enfado a te esperar.

Itamar F S

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Biografia
'' Por mais que eu me esforce a vida será apenas uma breve lembrança de tudo aquilo que na verdade gostaria de viver.'' _ Itamar FS

Poemas

50

JERUSALÉM

Metrópole clandestina, império dos caídos,
Tuas ruas: tantas cruzes, tantas dores,
Congestionam-se; o matizar de tuas flores
Inda tenta arfar ao breu dos esquecidos.

Ah! Jerusalém, Brasão de todos os vencidos,
Herança imácula, capsula ígnea de odores,
Tua gênese abstrata purga-nos de horrores
Na broca bruta de teus filhos exauridos.

Ó, morada eterna, passagem auriu de paraísos:
Exila, aparta, expira, agrilha, apaga
Os lamentos de minhas dores ancestrais...

E assim, no abraço douro de teus cristos,
Que possa, em fim, a minha podre alma autófaga, 
Dormir em paz no céu do deus do Nunca Mais.

Itamar FS
412

QUE EU POSSA, POR FIM, MINHA DOR ESQUECER

Atrofia, fatídico, o meu paralitico cérebro,
Sufocando-me à ruína do que sobrou de mim,
O tempo - baldia ciência - lei que define o fim:
 _Aparta-me, logo, o SER, condane-me a Érebo!

Ah! Miserável existência - essência das odisseias -
Obriga-me a não te querer, porque eu te renego!
E afrontando-te, ao calor de tua trama, me entrego
Ao vazio do êxodo das nossas ideias...

Ah! Quando o grito ecoar na casca do que um dia fui:
Que não sobre memorias - razão para sofrer;
Que não reste mentiras - mal que à alma polui!

Que o manto insalubre me abrace e, ao fazer,
me liberte do inferno, que a larva conclui... 
_Que eu possa, por fim, minha dor esquecer!

Itamar FS

630

AUTOPSICOGRAFIA

Cansado de sonhar, acordei!
Mas o sono, este que um dia amei,
Ainda cospe em meus olhos
Fantasias maravilhosas, amores,
Daqueles que amamos, senhores;
Desses, trancados em ferrolhos.

Quis eu não sonhar por amor!
Por amor a mim, pobre sofredor,
Que cego dormia, mas agora vê
Essa ilusão mundana que é sonhar.
Que utopia desleal é se ufanar
Das alegorias que criamos... por quê!? 


Quem poderia saber!? Ninguém o sabe...
A realidade é dura, mas é a verdade.
Não há mais lugar para fugir de mim!

Itamar FS
315

ESPELHO


Ao ver-te assentar em minha porta,
Com essas penas e dessa forma,
Animo-me em receber tua visita.

Não penses que não sei de tua história,
És só mais um, que na memória
Sentiu o horror da despedida.

Entra, assenta perto desse louco,
Diz se o que vês é só agouro
Ou se é só mal da solidão.

Nota que o teu medo não é novo,
Também sou eu, um mesmo entojo,
Não és tu, só, a Escuridão.

Então, o que viestes aqui fazer;
Viestes pra me ver morrer
Ou só pra não ficar sozinho?

Conheço bem esse desejo de querer
Olhar nos outros o sofrer
E aliviar o próprio caminho...

Quando o nosso Pai te disse: filho,
Guarda o teu mal ao teu juízo -
O que levou a tua queda?

Foi o segredo que devera não ser dito;
O querer mais descabido;
Ou estava cheio aquela terra?

Ó, inquilino miserável, vens a mim
Como um culpado, assim,
Querendo meu conselho!?

Nunca o terás, Hediondo Querubim,
Somos um só, e pronto, em fim:
Duas faces, um espelho...

Logo tu, que em cima d'uma macieira
Fez-nos saber da verdadeira
Razão de nossa existência;

Por que, Diabo, tua sina derradeira
É tão igual a nossa, e deixa-
Nos iguais na penitencia!?

Dúvida minha, é apenas parcimônia 
Que teima queimar, ness'acrimônia 
- Doudo desejo. Fomos vencidos...

Tu és meu sono e eu tua insônia,
Festins d'antiga Babilônia:
No fim, seremos esquecidos

Em tão cruel tentação de'star ferido
E agonizar, cego, perdido
À procurar um céu aberto...

Por isso tudo que eu sou levo comigo,
Somos um só, e, igual, Amigo:
Ardemo-nos no mesmo inferno! 


Itamar FS

335

ANA


Se espalha como um câncer a memória que a muito tento esquecer:
Ela foi-se como uma brisa fria, ignorada pelos insetos em luzes de neon.
Tão pouco se soube sobre ela, como tão pouco se soube quando partiria...
Ela perdeu a vontade de tentar, a vontade d'insistir, a vontade de acordar.

__Acredito que o sono nunca foi tão bem-vindo para um viajante cansado
quanto a morte foi para ela...

Itamar FS

380

ULTIMA DEIXA

Um dia, quando minh'alma decidir morrer,
Assim, um pouco mais do que já morri... ,
Que as pedras da infância, onde eu corri,
Permaneçam pra outros também correr.

E quando esses meus passos nunca dados
Percorrer aquelas ruas num cortejo,
Que as saudades guiem todo o solfejo
Dos choros sobejais dos encarnados.

Por fim, quando me porem no estrado
Para velar-me, à beira da velha capela,
E Chárõn ressurtir pra ser meu guia;

Que o Nada que eu tenho seja o pago;
Que eu fique para trás e, ao pé da vela,
Encontre meu final na lousa fria.

Itamar FS
309

CANSAÇO


Eu amo com todas as minhas forças,
mas eu não tenho força;
Eu sinto com todos os meus sentidos,
mas eu não tenho sentido;
Me salgo com todas as minhas lágrimas,
mas nunca houve um  gosto -

É só cansaço, cansaço e cansaço!

Eu grito com todos os meus medos,
mas só eu escuto;
Eu peço com toda minha fé,
mas eu não tenho um deus;
Existo pra ocupar espaço,
porque eu já não vivo -

É só cansaço, cansaço e cansaço!
Mas nada fiz...

Itamar FS
318

À SOMBRA

Filho das vicissitudes, presado claustrofóbico, 
Que luta para escapar das eternas sombras, 
Mal sabe, pois, que nessas mesmas sombras
Descansará seu corpo tredo - vil Esciofóbico;

Da agonia do inevitável à podridão das horas...
Ah! A podridão, essa megera perfumada que beija- 
Nos as mãos, as mesmas que com afinco arqueja
À salgar as bicharias com o festim das sobras...

Da decomposição fria da vazia alma...
Da cruel impassibilidade da arcária lágrima 
Que se balança, tremula, pelas frestas oculares...

Descanse-mo-nos, sós, dessa vida amarga;
Sem luz, sem som, sem dor, sem nada,
No torpor etereal dessas perpetuas grades.

Itamar FS
519

SÃO SÓ PALAVRAS ...

Está vendo essa folha branca;
adstrita, ilustrada com falácias
de amor frugal e de audácias
nódoas que o peito abranda?! 

Esta folha referta, tão claustral; 
Tempera, apenas, não sacia 
O tolo, réu da idiossincrasia  
Que ufana, sob o próprio mal...

- São só palavras, desgraça apenas,
Que os poetas comem e cospem
Aos famintos ébrios, o resto.

-São só palavras, tão vis fosfenas 
À iludir os olhos, que dormem,
No sonhar d'um coração funesto.

Itamar FS

322

PÉTALAS MORTAS

Contorcem num abraço frio essas pétalas
Tristes, sozinhas, e afogadas sem razão
Num jarro fútil, símile ao amor na solidão
Que jaz à amar, sozinho, tísicas sépalas.

Essas rosas que, antes vivas, decoravam
O jardim das fantasias dos poetas...
Hoje ornam as saudades mais profetas;
Aquelas que os olhos postulavam...

Agora, fenecendo-as, vão as horas;
Assim como fenecem a um sonhador,
Quando este é condenado a não dormir...

No esquálido estalado dessas rosas
A vida se resume  e,  nesse odor,
Um dia tudo que floresce há de sumir...

Itamar FS

377

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