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AMOR ONÍRICO

Em pequenas palavras exponho meu mundo,
Transbordado de graça, ao ver-te chegar.
Com efêmero riso em sal me inundo,
Ouvindo a porta, ao teu ir, se fechar.

Recorro aos meus sonhos pra te reencontrar,
E no onírico ponto eu quero estancar;
Pois não quero, jamais, que teu único amante
Pereça de enfado a te esperar.

Itamar F S

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Biografia
'' Por mais que eu me esforce a vida será apenas uma breve lembrança de tudo aquilo que na verdade gostaria de viver.'' _ Itamar FS

Poemas

50

ANA


Se espalha como um câncer a memória que a muito tento esquecer:
Ela foi-se como uma brisa fria, ignorada pelos insetos em luzes de neon.
Tão pouco se soube sobre ela, como tão pouco se soube quando partiria...
Ela perdeu a vontade de tentar, a vontade d'insistir, a vontade de acordar.

__Acredito que o sono nunca foi tão bem-vindo para um viajante cansado
quanto a morte foi para ela...

Itamar FS

374

INSÔNIA

Grita ao meu ouvido esse monstro -
Me desperto; é noite, já é tarde,
Algo me observa, então, covarde,
Eu finjo sono, mas não o encontro.

Cubro-me, e agora estando absconso
Penso: fora só sonho que agora evade, 
Não há segredos, nem há conclave;
Somente eu, sorrindo insonso...

Em vão, me deito... Vou refletir: 
Que besta é essa, sempre a surgir
Quand’olhos fecho, quando descanso?! 

Porque que o sono eu não alcanço?!
E a besta sempre a me exaurir...
Aconteceu que amanheceu e eu não dormi!

Itamar FS
333

PSICOGRAFIA DE UM EX SOFISTA

Se então morrer refém do eleatismo,
Não te alardes com o novo mundo
Tão transcendente, sem o Pseudoprumo
Que t'encontravas n'antropomorfismo.

Pensava eu: durar igual ao dólmen,
tão abstrato no espaço-tempo;
É só afago ao descontentamento
Ou silogismos das prisões do homem?!

Foi só na morte - esta mulher amarga -
Que da matéria receia-se e a apodrece
Em tudo, e dela não se escapa;

Que encontrei a minha forma inata
Na existência do EU, que excede
O próprio céu e inferno que herdara.

Itamar FS

 
348

CANSAÇO


Eu amo com todas as minhas forças,
mas eu não tenho força;
Eu sinto com todos os meus sentidos,
mas eu não tenho sentido;
Me salgo com todas as minhas lágrimas,
mas nunca houve um  gosto -

É só cansaço, cansaço e cansaço!

Eu grito com todos os meus medos,
mas só eu escuto;
Eu peço com toda minha fé,
mas eu não tenho um deus;
Existo pra ocupar espaço,
porque eu já não vivo -

É só cansaço, cansaço e cansaço!
Mas nada fiz...

Itamar FS
316

PÉTALAS MORTAS

Contorcem num abraço frio essas pétalas
Tristes, sozinhas, e afogadas sem razão
Num jarro fútil, símile ao amor na solidão
Que jaz à amar, sozinho, tísicas sépalas.

Essas rosas que, antes vivas, decoravam
O jardim das fantasias dos poetas...
Hoje ornam as saudades mais profetas;
Aquelas que os olhos postulavam...

Agora, fenecendo-as, vão as horas;
Assim como fenecem a um sonhador,
Quando este é condenado a não dormir...

No esquálido estalado dessas rosas
A vida se resume  e,  nesse odor,
Um dia tudo que floresce há de sumir...

Itamar FS

371

LÁGRIMA

Derrama-se densa, em lenta pena,
Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.
Outrora à âncora, comprimida e alenta,
Demorava-se a brilhar encantadora.

Vai-se à beira do torpor da rubra face,
Maviosa, fenecida e sem alarde,
Salgar-te à memória, à dor do encrave,
Com seus fúnebres contos de saudade.

Embora tu, ausente do infirme eco do engano,
Possas pensar que basta a ti, um simples pano,
Para que o orvalho trivial possas secar; _

Vais abrandar, frigidamente, somente o tanto
Que tuas mãos tão decadentes em seu pranto
Poderiam tenuemente alcançar.

Itamar FS
369

AUTOPSICOGRAFIA

Cansado de sonhar, acordei!
Mas o sono, este que um dia amei,
Ainda cospe em meus olhos
Fantasias maravilhosas, amores,
Daqueles que amamos, senhores;
Desses, trancados em ferrolhos.

Quis eu não sonhar por amor!
Por amor a mim, pobre sofredor,
Que cego dormia, mas agora vê
Essa ilusão mundana que é sonhar.
Que utopia desleal é se ufanar
Das alegorias que criamos... por quê!? 


Quem poderia saber!? Ninguém o sabe...
A realidade é dura, mas é a verdade.
Não há mais lugar para fugir de mim!

Itamar FS
310

PORTA- RETRATO

Empoeirado está o meu sorriso
Nesse túmulo de madeira e vidro;
Desse exílio tenho o meu castigo:
Gritar, somente, ao meu própri'ouvido.

Cristalizado está o meu olhar,
Como um eclipse cegando o luar.
Herdando apenas um vago lembrar
De um passado presente - Abismo Vulgar.

Mas aceito a punição, ó meu carrasco,
Já que o preço do amor é o seu pecado.
Estendo-me sobre o caso e o acaso... :
_ Que seja minha cela seu porta-retrato!

Itamar FS
319

MEU INFERNO

Pelas janelas oculares do meu crânio,
Percebo contos, desencontros e encontros.
Pelas veredas de saudades que eu ando,
Deixo pra trás, poemas, versos e encantos.

Só não persisto em entender esse meu pranto,
O qual me fez acreditar num céu bonito.
Sem harmonia e com tristeza leve, canto:
- Eu vou fazer do meu inferno um paraíso!

Itamar FS
373

SÃO SÓ PALAVRAS ...

Está vendo essa folha branca;
adstrita, ilustrada com falácias
de amor frugal e de audácias
nódoas que o peito abranda?! 

Esta folha referta, tão claustral; 
Tempera, apenas, não sacia 
O tolo, réu da idiossincrasia  
Que ufana, sob o próprio mal...

- São só palavras, desgraça apenas,
Que os poetas comem e cospem
Aos famintos ébrios, o resto.

-São só palavras, tão vis fosfenas 
À iludir os olhos, que dormem,
No sonhar d'um coração funesto.

Itamar FS

317

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