ULTIMA DEIXA
Um dia, quando minh'alma decidir morrer,
Assim, um pouco mais do que já morri... ,
Que as pedras da infância, onde eu corri,
Permaneçam pra outros também correr.
E quando esses meus passos nunca dados
Percorrer aquelas ruas num cortejo,
Que as saudades guiem todo o solfejo
Dos choros sobejais dos encarnados.
Por fim, quando me porem no estrado
Para velar-me, à beira da velha capela,
E Chárõn ressurtir pra ser meu guia;
Que o Nada que eu tenho seja o pago;
Que eu fique para trás e, ao pé da vela,
Encontre meu final na lousa fria.
Itamar FS
MEU INFERNO
Pelas janelas oculares do meu crânio,
Percebo contos, desencontros e encontros.
Pelas veredas de saudades que eu ando,
Deixo pra trás, poemas, versos e encantos.
Só não persisto em entender esse meu pranto,
O qual me fez acreditar num céu bonito.
Sem harmonia e com tristeza leve, canto:
- Eu vou fazer do meu inferno um paraíso!
Itamar FS
ESPELHO
Ao ver-te assentar em minha porta,Com essas penas e dessa forma,Animo-me em receber tua visita.Não penses que não sei de tua história,És só mais um, que na memóriaSentiu o horror da despedida.Entra, assenta perto desse louco,Diz se o que vês é só agouroOu se é só mal da solidão.Nota que o teu medo não é novo,Também sou eu, um mesmo entojo,Não és tu, só, a Escuridão.Então, o que viestes aqui fazer;Viestes pra me ver morrerOu só pra não ficar sozinho?Conheço bem esse desejo de quererOlhar nos outros o sofrerE aliviar o próprio caminho...Quando o nosso Pai te disse: filho,Guarda o teu mal ao teu juízo -O que levou a tua queda?Foi o segredo que devera não ser dito;O querer mais descabido;Ou estava cheio aquela terra?Ó, inquilino miserável, vens a mimComo um culpado, assim,Querendo meu conselho!?Nunca o terás, Hediondo Querubim,Somos um só, e pronto, em fim:Duas faces, um espelho...Logo tu, que em cima d'uma macieiraFez-nos saber da verdadeiraRazão de nossa existência;Por que, Diabo, tua sina derradeiraÉ tão igual a nossa, e deixa-Nos iguais na penitencia!?Dúvida minha, é apenas parcimônia Que teima queimar, ness'acrimônia - Doudo desejo. Fomos vencidos...Tu és meu sono e eu tua insônia,Festins d'antiga Babilônia:No fim, seremos esquecidosEm tão cruel tentação de'star feridoE agonizar, cego, perdidoÀ procurar um céu aberto...Por isso tudo que eu sou levo comigo,Somos um só, e, igual, Amigo:Ardemo-nos no mesmo inferno! Itamar FS

AUTOPSICOGRAFIA
Cansado de sonhar, acordei!
Mas o sono, este que um dia amei,
Ainda cospe em meus olhos
Fantasias maravilhosas, amores,
Daqueles que amamos, senhores;
Desses, trancados em ferrolhos.
Quis eu não sonhar por amor!
Por amor a mim, pobre sofredor,
Que cego dormia, mas agora vê
Essa ilusão mundana que é sonhar.
Que utopia desleal é se ufanar
Das alegorias que criamos... por quê!?
Quem poderia saber!? Ninguém o sabe...
A realidade é dura, mas é a verdade.
Não há mais lugar para fugir de mim!
Itamar FS
CANSAÇO
Eu amo com todas as minhas forças,
mas eu não tenho força;
Eu sinto com todos os meus sentidos,
mas eu não tenho sentido;
Me salgo com todas as minhas lágrimas,
mas nunca houve um gosto -
É só cansaço, cansaço e cansaço!
Eu grito com todos os meus medos,
mas só eu escuto;
Eu peço com toda minha fé,
mas eu não tenho um deus;
Existo pra ocupar espaço,
porque eu já não vivo -
É só cansaço, cansaço e cansaço!
Mas nada fiz...
Itamar FS
PORTA- RETRATO
Empoeirado está o meu sorriso
Nesse túmulo de madeira e vidro;
Desse exílio tenho o meu castigo:
Gritar, somente, ao meu própri'ouvido.
Cristalizado está o meu olhar,
Como um eclipse cegando o luar.
Herdando apenas um vago lembrar
De um passado presente - Abismo Vulgar.
Mas aceito a punição, ó meu carrasco,
Já que o preço do amor é o seu pecado.
Estendo-me sobre o caso e o acaso... :
_ Que seja minha cela seu porta-retrato!
Itamar FS
ASTROS
Astros de brilho e cor, oriundoDos olhos almos dos deuses;Essas luzes, na noite, por vezes,Colorem os pecados do mundo.Num rio de sonhos, em rútilo Percorrem os nossos desejos...Poetas, astrônomos, gregos;Se doam ao seu âmago bruto.E agora, vendo-as assim, cristalinasA pulsar nesse cosmo, incólumes, fielA regência das cousas divinas -Passo a imaginar: que pecado cruelProduziu nossas carnes actinas,Para ter nos tirado do céu?Itamar FS

INSÔNIA
Grita ao meu ouvido esse monstro -
Me desperto; é noite, já é tarde,
Algo me observa, então, covarde,
Eu finjo sono, mas não o encontro.
Cubro-me, e agora estando absconso
Penso: fora só sonho que agora evade,
Não há segredos, nem há conclave;
Somente eu, sorrindo insonso...
Em vão, me deito... Vou refletir:
Que besta é essa, sempre a surgir
Quand’olhos fecho, quando descanso?!
Porque que o sono eu não alcanço?!
E a besta sempre a me exaurir...
Aconteceu que amanheceu e eu não dormi!
Itamar FS
SER FORTE
Ser forte é mais que segurar o próprio corpo,
é ser capaz de abraçar a si mesmo,
mesmo sem sua camisa de força.
Itamar FS
ANA
Se espalha como um câncer a memória que a muito tento esquecer:
Ela foi-se como uma brisa fria, ignorada pelos insetos em luzes de neon.
Tão pouco se soube sobre ela, como tão pouco se soube quando partiria...
Ela perdeu a vontade de tentar, a vontade d'insistir, a vontade de acordar.
__Acredito que o sono nunca foi tão bem-vindo para um viajante cansado
quanto a morte foi para ela...
Itamar FS
