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AMOR ONÍRICO

Em pequenas palavras exponho meu mundo,
Transbordado de graça, ao ver-te chegar.
Com efêmero riso em sal me inundo,
Ouvindo a porta, ao teu ir, se fechar.

Recorro aos meus sonhos pra te reencontrar,
E no onírico ponto eu quero estancar;
Pois não quero, jamais, que teu único amante
Pereça de enfado a te esperar.

Itamar F S

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Biografia
'' Por mais que eu me esforce a vida será apenas uma breve lembrança de tudo aquilo que na verdade gostaria de viver.'' _ Itamar FS

Poemas

50

ULTIMA DEIXA

Um dia, quando minh'alma decidir morrer,
Assim, um pouco mais do que já morri... ,
Que as pedras da infância, onde eu corri,
Permaneçam pra outros também correr.

E quando esses meus passos nunca dados
Percorrer aquelas ruas num cortejo,
Que as saudades guiem todo o solfejo
Dos choros sobejais dos encarnados.

Por fim, quando me porem no estrado
Para velar-me, à beira da velha capela,
E Chárõn ressurtir pra ser meu guia;

Que o Nada que eu tenho seja o pago;
Que eu fique para trás e, ao pé da vela,
Encontre meu final na lousa fria.

Itamar FS
307

MEU INFERNO

Pelas janelas oculares do meu crânio,
Percebo contos, desencontros e encontros.
Pelas veredas de saudades que eu ando,
Deixo pra trás, poemas, versos e encantos.

Só não persisto em entender esse meu pranto,
O qual me fez acreditar num céu bonito.
Sem harmonia e com tristeza leve, canto:
- Eu vou fazer do meu inferno um paraíso!

Itamar FS
375

ESPELHO


Ao ver-te assentar em minha porta,
Com essas penas e dessa forma,
Animo-me em receber tua visita.

Não penses que não sei de tua história,
És só mais um, que na memória
Sentiu o horror da despedida.

Entra, assenta perto desse louco,
Diz se o que vês é só agouro
Ou se é só mal da solidão.

Nota que o teu medo não é novo,
Também sou eu, um mesmo entojo,
Não és tu, só, a Escuridão.

Então, o que viestes aqui fazer;
Viestes pra me ver morrer
Ou só pra não ficar sozinho?

Conheço bem esse desejo de querer
Olhar nos outros o sofrer
E aliviar o próprio caminho...

Quando o nosso Pai te disse: filho,
Guarda o teu mal ao teu juízo -
O que levou a tua queda?

Foi o segredo que devera não ser dito;
O querer mais descabido;
Ou estava cheio aquela terra?

Ó, inquilino miserável, vens a mim
Como um culpado, assim,
Querendo meu conselho!?

Nunca o terás, Hediondo Querubim,
Somos um só, e pronto, em fim:
Duas faces, um espelho...

Logo tu, que em cima d'uma macieira
Fez-nos saber da verdadeira
Razão de nossa existência;

Por que, Diabo, tua sina derradeira
É tão igual a nossa, e deixa-
Nos iguais na penitencia!?

Dúvida minha, é apenas parcimônia 
Que teima queimar, ness'acrimônia 
- Doudo desejo. Fomos vencidos...

Tu és meu sono e eu tua insônia,
Festins d'antiga Babilônia:
No fim, seremos esquecidos

Em tão cruel tentação de'star ferido
E agonizar, cego, perdido
À procurar um céu aberto...

Por isso tudo que eu sou levo comigo,
Somos um só, e, igual, Amigo:
Ardemo-nos no mesmo inferno! 


Itamar FS

330

AUTOPSICOGRAFIA

Cansado de sonhar, acordei!
Mas o sono, este que um dia amei,
Ainda cospe em meus olhos
Fantasias maravilhosas, amores,
Daqueles que amamos, senhores;
Desses, trancados em ferrolhos.

Quis eu não sonhar por amor!
Por amor a mim, pobre sofredor,
Que cego dormia, mas agora vê
Essa ilusão mundana que é sonhar.
Que utopia desleal é se ufanar
Das alegorias que criamos... por quê!? 


Quem poderia saber!? Ninguém o sabe...
A realidade é dura, mas é a verdade.
Não há mais lugar para fugir de mim!

Itamar FS
311

CANSAÇO


Eu amo com todas as minhas forças,
mas eu não tenho força;
Eu sinto com todos os meus sentidos,
mas eu não tenho sentido;
Me salgo com todas as minhas lágrimas,
mas nunca houve um  gosto -

É só cansaço, cansaço e cansaço!

Eu grito com todos os meus medos,
mas só eu escuto;
Eu peço com toda minha fé,
mas eu não tenho um deus;
Existo pra ocupar espaço,
porque eu já não vivo -

É só cansaço, cansaço e cansaço!
Mas nada fiz...

Itamar FS
318

PORTA- RETRATO

Empoeirado está o meu sorriso
Nesse túmulo de madeira e vidro;
Desse exílio tenho o meu castigo:
Gritar, somente, ao meu própri'ouvido.

Cristalizado está o meu olhar,
Como um eclipse cegando o luar.
Herdando apenas um vago lembrar
De um passado presente - Abismo Vulgar.

Mas aceito a punição, ó meu carrasco,
Já que o preço do amor é o seu pecado.
Estendo-me sobre o caso e o acaso... :
_ Que seja minha cela seu porta-retrato!

Itamar FS
321

ASTROS

Astros de brilho e cor, oriundo
Dos olhos almos dos deuses;
Essas luzes, na noite, por vezes,
Colorem os pecados do mundo.

Num rio de sonhos, em rútilo 
Percorrem os nossos desejos...
Poetas, astrônomos, gregos;
Se doam ao seu âmago bruto.

E agora, vendo-as assim, cristalinas
A pulsar nesse cosmo, incólumes, fiel
A regência das cousas divinas -

Passo a imaginar: que pecado cruel
Produziu nossas carnes actinas,
Para ter nos tirado do céu?

Itamar FS

597

INSÔNIA

Grita ao meu ouvido esse monstro -
Me desperto; é noite, já é tarde,
Algo me observa, então, covarde,
Eu finjo sono, mas não o encontro.

Cubro-me, e agora estando absconso
Penso: fora só sonho que agora evade, 
Não há segredos, nem há conclave;
Somente eu, sorrindo insonso...

Em vão, me deito... Vou refletir: 
Que besta é essa, sempre a surgir
Quand’olhos fecho, quando descanso?! 

Porque que o sono eu não alcanço?!
E a besta sempre a me exaurir...
Aconteceu que amanheceu e eu não dormi!

Itamar FS
334

SER FORTE

⁠Ser forte é mais que segurar o próprio corpo,
é ser capaz de abraçar a si mesmo,
mesmo sem sua camisa de força.


Itamar FS

599

ANA


Se espalha como um câncer a memória que a muito tento esquecer:
Ela foi-se como uma brisa fria, ignorada pelos insetos em luzes de neon.
Tão pouco se soube sobre ela, como tão pouco se soube quando partiria...
Ela perdeu a vontade de tentar, a vontade d'insistir, a vontade de acordar.

__Acredito que o sono nunca foi tão bem-vindo para um viajante cansado
quanto a morte foi para ela...

Itamar FS

377

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