ANA
Se espalha como um câncer a memória que a muito tento esquecer:
Ela foi-se como uma brisa fria, ignorada pelos insetos em luzes de neon.
Tão pouco se soube sobre ela, como tão pouco se soube quando partiria...
Ela perdeu a vontade de tentar, a vontade d'insistir, a vontade de acordar.
__Acredito que o sono nunca foi tão bem-vindo para um viajante cansado
quanto a morte foi para ela...
Itamar FS

INSÔNIA
Grita ao meu ouvido esse monstro -
Me desperto; é noite, já é tarde,
Algo me observa, então, covarde,
Eu finjo sono, mas não o encontro.
Cubro-me, e agora estando absconso
Penso: fora só sonho que agora evade,
Não há segredos, nem há conclave;
Somente eu, sorrindo insonso...
Em vão, me deito... Vou refletir:
Que besta é essa, sempre a surgir
Quand’olhos fecho, quando descanso?!
Porque que o sono eu não alcanço?!
E a besta sempre a me exaurir...
Aconteceu que amanheceu e eu não dormi!
Itamar FS
PSICOGRAFIA DE UM EX SOFISTA
Se então morrer refém do eleatismo,Não te alardes com o novo mundoTão transcendente, sem o PseudoprumoQue t'encontravas n'antropomorfismo.Pensava eu: durar igual ao dólmen,tão abstrato no espaço-tempo;É só afago ao descontentamentoOu silogismos das prisões do homem?!Foi só na morte - esta mulher amarga -Que da matéria receia-se e a apodreceEm tudo, e dela não se escapa;Que encontrei a minha forma inataNa existência do EU, que excedeO próprio céu e inferno que herdara.Itamar FS
CANSAÇO
Eu amo com todas as minhas forças,
mas eu não tenho força;
Eu sinto com todos os meus sentidos,
mas eu não tenho sentido;
Me salgo com todas as minhas lágrimas,
mas nunca houve um gosto -
É só cansaço, cansaço e cansaço!
Eu grito com todos os meus medos,
mas só eu escuto;
Eu peço com toda minha fé,
mas eu não tenho um deus;
Existo pra ocupar espaço,
porque eu já não vivo -
É só cansaço, cansaço e cansaço!
Mas nada fiz...
Itamar FS
PÉTALAS MORTAS
Contorcem num abraço frio essas pétalasTristes, sozinhas, e afogadas sem razãoNum jarro fútil, símile ao amor na solidãoQue jaz à amar, sozinho, tísicas sépalas.Essas rosas que, antes vivas, decoravamO jardim das fantasias dos poetas...Hoje ornam as saudades mais profetas;Aquelas que os olhos postulavam...Agora, fenecendo-as, vão as horas;Assim como fenecem a um sonhador,Quando este é condenado a não dormir...No esquálido estalado dessas rosasA vida se resume e, nesse odor,Um dia tudo que floresce há de sumir...Itamar FS

LÁGRIMA
Derrama-se densa, em lenta pena,Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.Outrora à âncora, comprimida e alenta,Demorava-se a brilhar encantadora.Vai-se à beira do torpor da rubra face,Maviosa, fenecida e sem alarde,Salgar-te à memória, à dor do encrave,Com seus fúnebres contos de saudade.Embora tu, ausente do infirme eco do engano,Possas pensar que basta a ti, um simples pano,Para que o orvalho trivial possas secar; _Vais abrandar, frigidamente, somente o tantoQue tuas mãos tão decadentes em seu prantoPoderiam tenuemente alcançar.Itamar FS
AUTOPSICOGRAFIA
Cansado de sonhar, acordei!
Mas o sono, este que um dia amei,
Ainda cospe em meus olhos
Fantasias maravilhosas, amores,
Daqueles que amamos, senhores;
Desses, trancados em ferrolhos.
Quis eu não sonhar por amor!
Por amor a mim, pobre sofredor,
Que cego dormia, mas agora vê
Essa ilusão mundana que é sonhar.
Que utopia desleal é se ufanar
Das alegorias que criamos... por quê!?
Quem poderia saber!? Ninguém o sabe...
A realidade é dura, mas é a verdade.
Não há mais lugar para fugir de mim!
Itamar FS
PORTA- RETRATO
Empoeirado está o meu sorriso
Nesse túmulo de madeira e vidro;
Desse exílio tenho o meu castigo:
Gritar, somente, ao meu própri'ouvido.
Cristalizado está o meu olhar,
Como um eclipse cegando o luar.
Herdando apenas um vago lembrar
De um passado presente - Abismo Vulgar.
Mas aceito a punição, ó meu carrasco,
Já que o preço do amor é o seu pecado.
Estendo-me sobre o caso e o acaso... :
_ Que seja minha cela seu porta-retrato!
Itamar FS
MEU INFERNO
Pelas janelas oculares do meu crânio,
Percebo contos, desencontros e encontros.
Pelas veredas de saudades que eu ando,
Deixo pra trás, poemas, versos e encantos.
Só não persisto em entender esse meu pranto,
O qual me fez acreditar num céu bonito.
Sem harmonia e com tristeza leve, canto:
- Eu vou fazer do meu inferno um paraíso!
Itamar FS
SÃO SÓ PALAVRAS ...
Está vendo essa folha branca;adstrita, ilustrada com faláciasde amor frugal e de audáciasnódoas que o peito abranda?! Esta folha referta, tão claustral; Tempera, apenas, não sacia O tolo, réu da idiossincrasia Que ufana, sob o próprio mal...- São só palavras, desgraça apenas,Que os poetas comem e cospemAos famintos ébrios, o resto.-São só palavras, tão vis fosfenas À iludir os olhos, que dormem,No sonhar d'um coração funesto.Itamar FS
