Lista de Poemas

ESPELHO


Ao ver-te assentar em minha porta,
Com essas penas e dessa forma,
Animo-me em receber tua visita.

Não penses que não sei de tua história,
És só mais um, que na memória
Sentiu o horror da despedida.

Entra, assenta perto desse louco,
Diz se o que vês é só agouro
Ou se é só mal da solidão.

Nota que o teu medo não é novo,
Também sou eu, um mesmo entojo,
Não és tu, só, a Escuridão.

Então, o que viestes aqui fazer;
Viestes pra me ver morrer
Ou só pra não ficar sozinho?

Conheço bem esse desejo de querer
Olhar nos outros o sofrer
E aliviar o próprio caminho...

Quando o nosso Pai te disse: filho,
Guarda o teu mal ao teu juízo -
O que levou a tua queda?

Foi o segredo que devera não ser dito;
O querer mais descabido;
Ou estava cheio aquela terra?

Ó, inquilino miserável, vens a mim
Como um culpado, assim,
Querendo meu conselho!?

Nunca o terás, Hediondo Querubim,
Somos um só, e pronto, em fim:
Duas faces, um espelho...

Logo tu, que em cima d'uma macieira
Fez-nos saber da verdadeira
Razão de nossa existência;

Por que, Diabo, tua sina derradeira
É tão igual a nossa, e deixa-
Nos iguais na penitencia!?

Dúvida minha, é apenas parcimônia 
Que teima queimar, ness'acrimônia 
- Doudo desejo. Fomos vencidos...

Tu és meu sono e eu tua insônia,
Festins d'antiga Babilônia:
No fim, seremos esquecidos

Em tão cruel tentação de'star ferido
E agonizar, cego, perdido
À procurar um céu aberto...

Por isso tudo que eu sou levo comigo,
Somos um só, e, igual, Amigo:
Ardemo-nos no mesmo inferno! 


Itamar FS

317

SER FORTE

⁠Ser forte é mais que segurar o próprio corpo,
é ser capaz de abraçar a si mesmo,
mesmo sem sua camisa de força.


Itamar FS

586

MORTE

Como ousas invadir a minha história, 
Gentileza dos vadios? Me encontrasse
Desprezível, e com terra amordaçasse  
O meu amor, meu vazio e minha glória.

Majestosa orquestra rubra, Natureza,
Porque devora-me a mão e minha alma
Se tua sede não sacia e nem acalma
Tua fome, tua dor, tua tristeza?

Quantos amantes o teu peito inda corteja, 
Ó criatura espantosa, carniceira;
Para ser pai de tua cria verminal?

Quantos ainda arrastarás para igreja
Para ouvir teus votos, dama derradeira,
E decompor em tua cama nupcial? 

Itamar FS
468

O DIA QUE EU MAIS CHOREI

Quando embalsamei o meu corpo
No elixir sagrado - Vinho Panteístico
Que os deuses sorvem do ''místico''
Rebanho - Salguei-me; In Assorto! 

Chovia em todo meu ser, navalhas,
Perfurando-me o peito e os olhos;
E o mar, que chocalhava-me os ossos,
Chocalhava também as minhas falhas...

E só, no se ir das ondas, eu naufraguei
Meu barco nos corais: tanta beleza
Tinha no olhar, tanta sede; - Afundei

No azul de um céu que encontrei...
E ao beber de minha própria profundeza,
M'embriaguei, Tornei-me Deus, e me afoguei!

Itamar FS
486

À SOMBRA

Filho das vicissitudes, presado claustrofóbico, 
Que luta para escapar das eternas sombras, 
Mal sabe, pois, que nessas mesmas sombras
Descansará seu corpo tredo - vil Esciofóbico;

Da agonia do inevitável à podridão das horas...
Ah! A podridão, essa megera perfumada que beija- 
Nos as mãos, as mesmas que com afinco arqueja
À salgar as bicharias com o festim das sobras...

Da decomposição fria da vazia alma...
Da cruel impassibilidade da arcária lágrima 
Que se balança, tremula, pelas frestas oculares...

Descanse-mo-nos, sós, dessa vida amarga;
Sem luz, sem som, sem dor, sem nada,
No torpor etereal dessas perpetuas grades.

Itamar FS
504

JERUSALÉM

Metrópole clandestina, império dos caídos,
Tuas ruas: tantas cruzes, tantas dores,
Congestionam-se; o matizar de tuas flores
Inda tenta arfar ao breu dos esquecidos.

Ah! Jerusalém, Brasão de todos os vencidos,
Herança imácula, capsula ígnea de odores,
Tua gênese abstrata purga-nos de horrores
Na broca bruta de teus filhos exauridos.

Ó, morada eterna, passagem auriu de paraísos:
Exila, aparta, expira, agrilha, apaga
Os lamentos de minhas dores ancestrais...

E assim, no abraço douro de teus cristos,
Que possa, em fim, a minha podre alma autófaga, 
Dormir em paz no céu do deus do Nunca Mais.

Itamar FS
398

LÁGRIMA

Derrama-se densa, em lenta pena,
Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.
Outrora à âncora, comprimida e alenta,
demorava-se a brilhar encantadora.

Vai-se à beira do torpor da rubra face,
Maviosa, fenecida e sem alarde,
Salgar-te à memória, à dor do encrave,
Com seus fúnebres contos de saudade.

Embora tu, ausente do infirme eco do engano,
Possas pensar que basta a ti, um simples pano,
Para que o orvalho trivial possas secar; _

Vais abrandar, frigidamente, somente o tanto
que tuas mãos tão decadentes em seu pranto
poderiam tenuemente alcançar.

Itamar FS

528

EXÍLIO

Quando eu estou trancado,  
Sou apenas um homem, 
Preso em seu próprio mundo. 

Quando eu abro a porta, 
Sou apenas um homem em um mundo 
Ocupado demais para ser livre...

Itamar FS
430

QUE EU POSSA, POR FIM, MINHA DOR ESQUECER

Atrofia, fatídico, o meu paralitico cérebro,
Sufocando-me à ruína do que sobrou de mim,
O tempo - baldia ciência - lei que define o fim:
 _Aparta-me, logo, o SER, condane-me a Érebo!

Ah! Miserável existência - essência das odisseias -
Obriga-me a não te querer, porque eu te renego!
E afrontando-te, ao calor de tua trama, me entrego
Ao vazio do êxodo das nossas ideias...

Ah! Quando o grito ecoar na casca do que um dia fui:
Que não sobre memorias - razão para sofrer;
Que não reste mentiras - mal que à alma polui!

Que o manto insalubre me abrace e, ao fazer,
me liberte do inferno, que a larva conclui... 
_Que eu possa, por fim, minha dor esquecer!

Itamar FS

616

O VERME

Existe um verme em meu coração,
Roendo minha vida; na broca bruta
De sua fome insaciável, perco a luta,
E ofereço-lhe os olhos - Campeão!

Vencedor de todo homem! Embrião
Que cresce insone, surge abrupta
Como larva, logo nasce, absoluta,
E nunca, nunca morre - Solidão!

Dilacera minhas tripas, morde o fígado,
Faz seu ninho bacanal em meu pulmão,
E orquestras infernais em meu ouvido.

Sorve as artérias, deixa seco o coração;
E quando a noite, saciado, sai do ninho,
O canibal vem defecar em minha mão...

Itamar FS
497

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'' Por mais que eu me esforce a vida será apenas uma breve lembrança de tudo aquilo que na verdade gostaria de viver.'' _ Itamar FS