MEU INFERNO
Pelas janelas oculares do meu crânio,
Percebo contos, desencontros e encontros.
Pelas veredas de saudades que eu ando,
Deixo pra trás, poemas, versos e encantos.
Só não persisto em entender esse meu pranto,
O qual me fez acreditar num céu bonito.
Sem harmonia e com tristeza leve, canto:
- Eu vou fazer do meu inferno um paraíso!
Itamar FS
PSICOGRAFIA DE UM EX SOFISTA
Se então morrer refém do eleatismo,Não te alardes com o novo mundoTão transcendente, sem o PseudoprumoQue t'encontravas n'antropomorfismo.Pensava eu: durar igual ao dólmen,tão abstrato no espaço-tempo;É só afago ao descontentamentoOu silogismos das prisões do homem?!Foi só na morte - esta mulher amarga -Que da matéria receia-se e a apodreceEm tudo, e dela não se escapa;Que encontrei a minha forma inataNa existência do EU, que excedeO próprio céu e inferno que herdara.Itamar FS
EXÍLIO
Quando eu estou trancado,
Sou apenas um homem,
Preso em seu próprio mundo.
Quando eu abro a porta,
Sou apenas um homem em um mundo
Ocupado demais para ser livre...
Itamar FS
AO SERVIÇAL ABUTRE
Voa, mesquinho serviçal de asa umbrosa!
Segue o destino tão banal de tua sina,
Banqueteando-se em vil carnificina,
Desse entulho bestial que decompora.
Chama o rebanho esfomeado, dá seus gritos
Para pousar com frêmito arquejo gutural;
Põe-me as entranhas estendidas, invital,
Há de servir de inspiração para teus filhos!
Ave negreira, irrevogável pestilenta,
Vem espalhar o teu turíbulo necroso,
Fazer do ar nossa memória agourenta...
Mostra a brancura desse ser choruminoso
Sobre o contraste sepulcral de tua pena,
E dá-lhe a chance de brilhar ao sol, de novo!
Itamar FS
PORTA- RETRATO
Empoeirado está o meu sorriso
Nesse túmulo de madeira e vidro;
Desse exílio tenho o meu castigo:
Gritar, somente, ao meu própri'ouvido.
Cristalizado está o meu olhar,
Como um eclipse cegando o luar.
Herdando apenas um vago lembrar
De um passado presente - Abismo Vulgar.
Mas aceito a punição, ó meu carrasco,
Já que o preço do amor é o seu pecado.
Estendo-me sobre o caso e o acaso... :
_ Que seja minha cela seu porta-retrato!
Itamar FS
MORTE
Como ousas invadir a minha história,
Gentileza dos vadios? Me encontrasse
Desprezível, e com terra amordaçasse
O meu amor, meu vazio e minha glória.
Majestosa orquestra rubra, Natureza,
Porque devora-me a mão e minha alma
Se tua sede não sacia e nem acalma
Tua fome, tua dor, tua tristeza?
Quantos amantes o teu peito inda corteja,
Ó criatura espantosa, carniceira;
Para ser pai de tua cria verminal?
Quantos ainda arrastarás para igreja
Para ouvir teus votos, dama derradeira,
E decompor em tua cama nupcial?
Itamar FS
LÁGRIMA
Derrama-se densa, em lenta pena,Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.Outrora à âncora, comprimida e alenta,Demorava-se a brilhar encantadora.Vai-se à beira do torpor da rubra face,Maviosa, fenecida e sem alarde,Salgar-te à memória, à dor do encrave,Com seus fúnebres contos de saudade.Embora tu, ausente do infirme eco do engano,Possas pensar que basta a ti, um simples pano,Para que o orvalho trivial possas secar; _Vais abrandar, frigidamente, somente o tantoQue tuas mãos tão decadentes em seu prantoPoderiam tenuemente alcançar.Itamar FS
O VERME
Existe um verme em meu coração,
Roendo minha vida; na broca bruta
De sua fome insaciável, perco a luta,
E ofereço-lhe os olhos - Campeão!
Vencedor de todo homem! Embrião
Que cresce insone, surge abrupta
Como larva, logo nasce, absoluta,
E nunca, nunca morre - Solidão!
Dilacera minhas tripas, morde o fígado,
Faz seu ninho bacanal em meu pulmão,
E orquestras infernais em meu ouvido.
Sorve as artérias, deixa seco o coração;
E quando a noite, saciado, sai do ninho,
O canibal vem defecar em minha mão...
Itamar FS
LÁGRIMA
Derrama-se densa, em lenta pena,Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.Outrora à âncora, comprimida e alenta,demorava-se a brilhar encantadora.Vai-se à beira do torpor da rubra face,Maviosa, fenecida e sem alarde,Salgar-te à memória, à dor do encrave,Com seus fúnebres contos de saudade.Embora tu, ausente do infirme eco do engano,Possas pensar que basta a ti, um simples pano,Para que o orvalho trivial possas secar; _Vais abrandar, frigidamente, somente o tantoque tuas mãos tão decadentes em seu prantopoderiam tenuemente alcançar.Itamar FS

O DIA QUE EU MAIS CHOREI
Quando embalsamei o meu corpo
No elixir sagrado - Vinho Panteístico
Que os deuses sorvem do ''místico''
Rebanho - Salguei-me; In Assorto!
Chovia em todo meu ser, navalhas,
Perfurando-me o peito e os olhos;
E o mar, que chocalhava-me os ossos,
Chocalhava também as minhas falhas...
E só, no se ir das ondas, eu naufraguei
Meu barco nos corais: tanta beleza
Tinha no olhar, tanta sede; - Afundei
No azul de um céu que encontrei...
E ao beber de minha própria profundeza,
M'embriaguei, Tornei-me Deus, e me afoguei!
Itamar FS