PÉTALAS MORTAS
Contorcem num abraço frio essas pétalasTristes, sozinhas, e afogadas sem razãoNum jarro fútil, símile ao amor na solidãoQue jaz à amar, sozinho, tísicas sépalas.Essas rosas que, antes vivas, decoravamO jardim das fantasias dos poetas...Hoje ornam as saudades mais profetas;Aquelas que os olhos postulavam...Agora, fenecendo-as, vão as horas;Assim como fenecem a um sonhador,Quando este é condenado a não dormir...No esquálido estalado dessas rosasA vida se resume e, nesse odor,Um dia tudo que floresce há de sumir...Itamar FS

LÁGRIMA
Derrama-se densa, em lenta pena,Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.Outrora à âncora, comprimida e alenta,demorava-se a brilhar encantadora.Vai-se à beira do torpor da rubra face,Maviosa, fenecida e sem alarde,Salgar-te à memória, à dor do encrave,Com seus fúnebres contos de saudade.Embora tu, ausente do infirme eco do engano,Possas pensar que basta a ti, um simples pano,Para que o orvalho trivial possas secar; _Vais abrandar, frigidamente, somente o tantoque tuas mãos tão decadentes em seu prantopoderiam tenuemente alcançar.Itamar FS

À SOMBRA
Filho das vicissitudes, presado claustrofóbico,
Que luta para escapar das eternas sombras,
Mal sabe, pois, que nessas mesmas sombras
Descansará seu corpo tredo - vil Esciofóbico;
Da agonia do inevitável à podridão das horas...
Ah! A podridão, essa megera perfumada que beija-
Nos as mãos, as mesmas que com afinco arqueja
À salgar as bicharias com o festim das sobras...
Da decomposição fria da vazia alma...
Da cruel impassibilidade da arcária lágrima
Que se balança, tremula, pelas frestas oculares...
Descanse-mo-nos, sós, dessa vida amarga;
Sem luz, sem som, sem dor, sem nada,
No torpor etereal dessas perpetuas grades.
Itamar FS
QUE EU POSSA, POR FIM, MINHA DOR ESQUECER
Atrofia, fatídico, o meu paralitico cérebro,
Sufocando-me à ruína do que sobrou de mim,
O tempo - baldia ciência - lei que define o fim:
_Aparta-me, logo, o SER, condane-me a Érebo!
Ah! Miserável existência - essência das odisseias -
Obriga-me a não te querer, porque eu te renego!
E afrontando-te, ao calor de tua trama, me entrego
Ao vazio do êxodo das nossas ideias...
Ah! Quando o grito ecoar na casca do que um dia fui:
Que não sobre memorias - razão para sofrer;
Que não reste mentiras - mal que à alma polui!
Que o manto insalubre me abrace e, ao fazer,
me liberte do inferno, que a larva conclui...
_Que eu possa, por fim, minha dor esquecer!
Itamar FS
MORTE
Como ousas invadir a minha história,
Gentileza dos vadios? Me encontrasse
Desprezível, e com terra amordaçasse
O meu amor, meu vazio e minha glória.
Majestosa orquestra rubra, Natureza,
Porque devora-me a mão e minha alma
Se tua sede não sacia e nem acalma
Tua fome, tua dor, tua tristeza?
Quantos amantes o teu peito inda corteja,
Ó criatura espantosa, carniceira;
Para ser pai de tua cria verminal?
Quantos ainda arrastarás para igreja
Para ouvir teus votos, dama derradeira,
E decompor em tua cama nupcial?
Itamar FS
O VERME
Existe um verme em meu coração,
Roendo minha vida; na broca bruta
De sua fome insaciável, perco a luta,
E ofereço-lhe os olhos - Campeão!
Vencedor de todo homem! Embrião
Que cresce insone, surge abrupta
Como larva, logo nasce, absoluta,
E nunca, nunca morre - Solidão!
Dilacera minhas tripas, morde o fígado,
Faz seu ninho bacanal em meu pulmão,
E orquestras infernais em meu ouvido.
Sorve as artérias, deixa seco o coração;
E quando a noite, saciado, sai do ninho,
O canibal vem defecar em minha mão...
Itamar FS
JERUSALÉM
Metrópole clandestina, império dos caídos,
Tuas ruas: tantas cruzes, tantas dores,
Congestionam-se; o matizar de tuas flores
Inda tenta arfar ao breu dos esquecidos.
Ah! Jerusalém, Brasão de todos os vencidos,
Herança imácula, capsula ígnea de odores,
Tua gênese abstrata purga-nos de horrores
Na broca bruta de teus filhos exauridos.
Ó, morada eterna, passagem auriu de paraísos:
Exila, aparta, expira, agrilha, apaga
Os lamentos de minhas dores ancestrais...
E assim, no abraço douro de teus cristos,
Que possa, em fim, a minha podre alma autófaga,
Dormir em paz no céu do deus do Nunca Mais.
Itamar FS
LÁGRIMA
Derrama-se densa, em lenta pena,Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.Outrora à âncora, comprimida e alenta,Demorava-se a brilhar encantadora.Vai-se à beira do torpor da rubra face,Maviosa, fenecida e sem alarde,Salgar-te à memória, à dor do encrave,Com seus fúnebres contos de saudade.Embora tu, ausente do infirme eco do engano,Possas pensar que basta a ti, um simples pano,Para que o orvalho trivial possas secar; _Vais abrandar, frigidamente, somente o tantoQue tuas mãos tão decadentes em seu prantoPoderiam tenuemente alcançar.Itamar FS
O DIA QUE EU MAIS CHOREI
Quando embalsamei o meu corpo
No elixir sagrado - Vinho Panteístico
Que os deuses sorvem do ''místico''
Rebanho - Salguei-me; In Assorto!
Chovia em todo meu ser, navalhas,
Perfurando-me o peito e os olhos;
E o mar, que chocalhava-me os ossos,
Chocalhava também as minhas falhas...
E só, no se ir das ondas, eu naufraguei
Meu barco nos corais: tanta beleza
Tinha no olhar, tanta sede; - Afundei
No azul de um céu que encontrei...
E ao beber de minha própria profundeza,
M'embriaguei, Tornei-me Deus, e me afoguei!
Itamar FS
EXÍLIO
Quando eu estou trancado,
Sou apenas um homem,
Preso em seu próprio mundo.
Quando eu abro a porta,
Sou apenas um homem em um mundo
Ocupado demais para ser livre...
Itamar FS