ivchristianmarrs

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Músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.

Perfil
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Eclipses

Tenho as minhas vontades ligadas
Aos mais pagãos ambientes do céu
Se está escuro, sou como o breu.
Se faz sol? Sou outro eu.
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Biografia
Nascido nos Países Baixos e de ascendência portuguesa, sou músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.

Poemas

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Eclipses

Tenho as minhas vontades ligadas
Aos mais pagãos ambientes do céu
Se está escuro, sou como o breu.
Se faz sol? Sou outro eu.
214

Deambulatório

Por vaguear
Questiono o que estas pedras já terão visto
Se não sendo pedras de todo
Algo mais nobre teriam previsto.
Se viram corpos, se viram asas
Se todo o firmamento nas suas amarras
Se águas dúvidas fundaram
E todavia nada lavaram
Por todos os campos de calçada
Me arremesso, deambulante.

Se és casado com a solidão
Basta seres triste para ficares só
Podes gostar de não gostar
Pagar ouro por mero pó.
As pedras têm com as aves
A perversa intimidade
Umas observam-nos altivos
Enquanto outras nos vêem de alto
Pelos meandros de calçada
Navego, deambulante.

Leio nos meus pensamentos
Mais do que quero noutro alguém
Foram estas mesmas rochas
Morada de outrora, do além
Mais rapidamente se veste um livro
Do que um rasgo de tecido
Um rasto indeciso
Na rapina do tempo omisso
Pelo flutuar da calçada
Num solilóquio deambulante.

Na dúvida exausta
Empilhamos ares de outras trovas
Bairros fazemos de nossas casas
Fazemos de velho coisas novas.
Fugimos do ardor
De entre quem do amor terá seu luto
Gosto de pouca gente
E de pouca gente gosto muito.
Por todos os campos de calçada
Sigo, deambulante.
155

Ambigrama

Na urbe rugem ideias
Nos campos só gente rude
Porém, em aldeias, vi mentes cheias!
E cidades vácuas de virtude.

Se a silhueta ainda engana
Já o Valor, esse não ilude
Se disto tudo nada entendes
Então, por hoje é tudo!
201

avoN zuL

Hoje acordei no que pressinto
Num dia bastante convicto
Se amanhã for dia novo
Coisas novas logo sinto

Por hoje, se tudo se confirma
E se afirma pelo bem
Sem a força dos que rodeiam
Não sei chamar por ninguém.

Que não faça um novo retalho
Do que prometeu desvanecer
Para que nada de velho faça
Ser eu luz nova a morrer.

7/2019
191

Ghazal: Shama’

MATLA’

No fim d’um novo acordar, em nós dormência de outra era.
Espaço p’ra nunca mais voltar, morta incandescência de outra era.

SHI’R II

Levita a chama e desvanece, roda filho de Mevlana
Fizemos nossa atmosfera que essência de outra era.

SHI’R III

Entorna-se o vinho na alma, adejar e aí logo arder
Ser cinza e de novo renascer, na existência de outra era.

SHI’R IV

Corpos tingem na sombra quente trejeitos de pantomima
Tal qual astro atingiu esfera que pertinência de outra era.

SHI’R V

Há ventos que roubam às folhas luzes que entre elas espreitam.
Sarāy de onde não volvera era a vivência de outra era.

SHI’R VI

Ver audácia nos lótus: da lama e desespero nascidos.
Da impureza – distinguidos da insipiência de outra era.

MAQTA’

Devolve-me -Corvo- a teu lar. Tu! Que foste um simples homem.
Deveras grande no dom de amar, eterna ardência de outra era?


11/4/2020, ghazal seguindo a tradição medieval persa
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A Inveja das Aves

Quem dá verdade?
Se a quiser, quem ma vende?
É uma ave vespertina,
Que num só bater de asas faz do Mundo um sítio só.
Só e duvidoso,
Da janela que é portal sedutor e virtuoso
Para um lugar onde tudo sem nós
Acontece.
Pois nas flores nada se vê
Nem preocupação nem movimento
Nada de dor ou tormento.
E as pedras não nos lamentam
Perpetuam-se na ausência
Acusam falta de cadência.
E o mar não sofre
Por não nos ver descansar o cansaço
Por saber que a caverna nos tem no seu regaço
E as sombras são como pão duro
Que outrora atirámos ao lago
Dos que dançam à volta
Da fogueira do embargo.
Todo o vento sopra
Tudo permanece
Quando para todos anoitece
Mas nem por isso amanhece
Pois Aquele-que-sempre-é-e-domina
Homem-deus refém, em surdina
São meses longo dia sem rotina.
Homem-deus retém, em retina cobiça e devora
Inveja esse pássaro que frivolamente ignora
Que para nós há todo um Mundo…
Lá fora.

Março 2020
207

Reminiscência do Futuro

O meu sonho é um retrato
No qual eu não estou
Um plano maior do que tudo
Uma dor maior que o luto
Um êxtase maior do que os meus
Um último reduto.

Em muito igual
A todos os outros sonhos
Do mais comum dos plebeus
No entanto, estes são meus
Um infinito sem tamanho
Qual vinho – qual arte – qual deus?

O meu sonho é um retrato
Onde tudo é simples
Do que ainda não se revelou
Do que vejo e ainda não sou
O meu sonho é o outro lado
Ali ao brotar um, muito mais se desflorou.

Fórmula de livre substância
E tudo o que de mais existe
É a não-palavra em forma pura
O apogeu da própria natura
Num museu de e para sempre
Me prendo por livre assinatura.

Pacto de minha angústia
Compadrio de luz e negrura
Que meu pai assim escolheu
Que a minha mãe em mim escorreu
Num abraço, de génese incorrupta
Ser foz de rio cuja fonte serei eu

Pensei-te pequeno e infinito
Guardei-te nela, estatueta terna
Nos olhares que se desfazem
Num regaço se comprazem
Em Primaveras do que em nós se fez
De um ser que é rei à nossa imagem.
159

Torpe

É demasiado torpe
Demasiada morte de pensamentos
Honrada marencoria eduardina
Que me faz pensar que não.
Faz levantar estas águas
Em nobre Ínsula fraternal
Que entre História e monstrengos
Já não vislumbro caminho algum

Entre o que foi e o que é
Como o congelar de um Tempo
Vejo em mim O Antepassado
Revejo em mim o sentimento
Revelação da Loucura
E dou sentido ao Elogio.
Antes viver cego numa cor minha
Que falar sem própria língua
Que servir em gris vazio.

Já não vislumbro caminho algum
Que entre História e monstrengos
Em nobre Ínsula fraternal
Faz levantar estas águas
Que me faz pensar que não.
Honrada marencoria eduardina
Demasiada morte de pensamentos
É demasiado torpe…
(Em revertida surdina)
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Os Noctívagos

Há-de haver quem pretenda
Sofrer do mesmo mal
E cantar à luz das velas
Rasgar as mesmas ruelas
Roubar o silêncio aos desejos
Sob a luz boémia dos candeeiros

E há-de haver ainda quem se ofenda
Com a força de uma onda que rebenta
Pela cara que mostras à rua
Pela pele que deixas nua
Sob as vestes do receio
Sob a luz boémia desse anseio

A liberdade é a sombra que trazes
Tu que és tu com a boca que calas
Tu que não és tu na Arena das Falas
Nos braços que se estendem sobre ti
Nos diálogos sem sentido
Na luz de um triste arrependido

Admiram-te as pedras que perturbas
Olhos de rua logo atentam
Nas poses que em ti assentam
Quando és miúda, dama e moça
Num vestido que repousa
No ar que rasgas com a postura

Sob a luz boémia dos candeeiros de rua
127

A Porta

Afinal, o que importa
É quem tu és por detrás da porta
Onde te arrumas e te afliges
Sem destino te diriges
À mercê de uma mão morta

Afinal, o que mais importa
É quem tu deixas atrás da porta
Entre todos esses teus repentes
Os ódios que fogem entre dentes
Como caudais sem comporta

Afinal, o que realmente importa
É porque choras por detrás da porta
Nessas ânsias e ciúmes
Calos, marcas e negrumes
Toda a alma que em gume se corta

Afinal, o que mais importa
É porque vais de porta em porta
A desejar regra em laje torta
A inventar vida em coisa absorta
Quando, no final, mais ninguém se importa
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