Lista de Poemas

Eclipses

Tenho as minhas vontades ligadas
Aos mais pagãos ambientes do céu
Se está escuro, sou como o breu.
Se faz sol? Sou outro eu.
189

Deambulatório

Por vaguear
Questiono o que estas pedras já terão visto
Se não sendo pedras de todo
Algo mais nobre teriam previsto.
Se viram corpos, se viram asas
Se todo o firmamento nas suas amarras
Se águas dúvidas fundaram
E todavia nada lavaram
Por todos os campos de calçada
Me arremesso, deambulante.

Se és casado com a solidão
Basta seres triste para ficares só
Podes gostar de não gostar
Pagar ouro por mero pó.
As pedras têm com as aves
A perversa intimidade
Umas observam-nos altivos
Enquanto outras nos vêem de alto
Pelos meandros de calçada
Navego, deambulante.

Leio nos meus pensamentos
Mais do que quero noutro alguém
Foram estas mesmas rochas
Morada de outrora, do além
Mais rapidamente se veste um livro
Do que um rasgo de tecido
Um rasto indeciso
Na rapina do tempo omisso
Pelo flutuar da calçada
Num solilóquio deambulante.

Na dúvida exausta
Empilhamos ares de outras trovas
Bairros fazemos de nossas casas
Fazemos de velho coisas novas.
Fugimos do ardor
De entre quem do amor terá seu luto
Gosto de pouca gente
E de pouca gente gosto muito.
Por todos os campos de calçada
Sigo, deambulante.
132

Ambigrama

Na urbe rugem ideias
Nos campos só gente rude
Porém, em aldeias, vi mentes cheias!
E cidades vácuas de virtude.

Se a silhueta ainda engana
Já o Valor, esse não ilude
Se disto tudo nada entendes
Então, por hoje é tudo!
183

A Inveja das Aves

Quem dá verdade?
Se a quiser, quem ma vende?
É uma ave vespertina,
Que num só bater de asas faz do Mundo um sítio só.
Só e duvidoso,
Da janela que é portal sedutor e virtuoso
Para um lugar onde tudo sem nós
Acontece.
Pois nas flores nada se vê
Nem preocupação nem movimento
Nada de dor ou tormento.
E as pedras não nos lamentam
Perpetuam-se na ausência
Acusam falta de cadência.
E o mar não sofre
Por não nos ver descansar o cansaço
Por saber que a caverna nos tem no seu regaço
E as sombras são como pão duro
Que outrora atirámos ao lago
Dos que dançam à volta
Da fogueira do embargo.
Todo o vento sopra
Tudo permanece
Quando para todos anoitece
Mas nem por isso amanhece
Pois Aquele-que-sempre-é-e-domina
Homem-deus refém, em surdina
São meses longo dia sem rotina.
Homem-deus retém, em retina cobiça e devora
Inveja esse pássaro que frivolamente ignora
Que para nós há todo um Mundo…
Lá fora.

Março 2020
185

Ghazal: Shama’

MATLA’

No fim d’um novo acordar, em nós dormência de outra era.
Espaço p’ra nunca mais voltar, morta incandescência de outra era.

SHI’R II

Levita a chama e desvanece, roda filho de Mevlana
Fizemos nossa atmosfera que essência de outra era.

SHI’R III

Entorna-se o vinho na alma, adejar e aí logo arder
Ser cinza e de novo renascer, na existência de outra era.

SHI’R IV

Corpos tingem na sombra quente trejeitos de pantomima
Tal qual astro atingiu esfera que pertinência de outra era.

SHI’R V

Há ventos que roubam às folhas luzes que entre elas espreitam.
Sarāy de onde não volvera era a vivência de outra era.

SHI’R VI

Ver audácia nos lótus: da lama e desespero nascidos.
Da impureza – distinguidos da insipiência de outra era.

MAQTA’

Devolve-me -Corvo- a teu lar. Tu! Que foste um simples homem.
Deveras grande no dom de amar, eterna ardência de outra era?


11/4/2020, ghazal seguindo a tradição medieval persa
165

avoN zuL

Hoje acordei no que pressinto
Num dia bastante convicto
Se amanhã for dia novo
Coisas novas logo sinto

Por hoje, se tudo se confirma
E se afirma pelo bem
Sem a força dos que rodeiam
Não sei chamar por ninguém.

Que não faça um novo retalho
Do que prometeu desvanecer
Para que nada de velho faça
Ser eu luz nova a morrer.

7/2019
169

Torpe

É demasiado torpe
Demasiada morte de pensamentos
Honrada marencoria eduardina
Que me faz pensar que não.
Faz levantar estas águas
Em nobre Ínsula fraternal
Que entre História e monstrengos
Já não vislumbro caminho algum

Entre o que foi e o que é
Como o congelar de um Tempo
Vejo em mim O Antepassado
Revejo em mim o sentimento
Revelação da Loucura
E dou sentido ao Elogio.
Antes viver cego numa cor minha
Que falar sem própria língua
Que servir em gris vazio.

Já não vislumbro caminho algum
Que entre História e monstrengos
Em nobre Ínsula fraternal
Faz levantar estas águas
Que me faz pensar que não.
Honrada marencoria eduardina
Demasiada morte de pensamentos
É demasiado torpe…
(Em revertida surdina)
111

NÓS OSSOS QVE AQVI ESTAMOS PELOS VOSSOS ESPERAMOS

Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos
Entre as sombras da noite geram-se as luzes da madrugada
Tomba, quebra, cai irrelevante
Vai-se esse distante infante
Cheio de visões e ideologias
Que com ventos e calmarias
Deforma o corpo, a mente inflamada
Entrem servos de vossos amos,

Ossos novos convidamos!

Nós ossos que aqui estamos pelos vossos aguardamos
A carne podre que vos pesa de nada serve nesta mortal festa
Tudo o que fomos e marcámos
Só a medo e vozes banhámos
Fomos vácuo para Cronista
E popular conto não nos regista
Serve o tempo que nos resta para contar ao infante qu’ela gesta
Sábia força, pajens e amos,

Aqui dentro nos encontramos!

Nós ossos que aqui estamos pelos vossos ansiamos
Vivam esperando a Comum Sorte
Sapiência que tal ainda não superou
Soprou a arte do que rastejou
Que as mãos ergueu por talento
Imortal ciclo em movimento
O eterno projecto que se alimenta da morte
Somos berço, somos ramos,

E sem idade sorvemos anos!

Nós ossos que aqui estamos pelos vossos reclamamos
Com vagos olhos vos fitamos
Com mãos mortas acenamos
E quando o tempo vos entedia
Com belos esgares o enfrentamos

Pois se vos custa, avancemos
Com nobres poses vos acolheremos
Para ela caminhámos, por ela perecemos
Remediando eternos danos

Nós ossos qve aqvi estamos em silêncio vos convocamos!
187

A Porta

Afinal, o que importa
É quem tu és por detrás da porta
Onde te arrumas e te afliges
Sem destino te diriges
À mercê de uma mão morta

Afinal, o que mais importa
É quem tu deixas atrás da porta
Entre todos esses teus repentes
Os ódios que fogem entre dentes
Como caudais sem comporta

Afinal, o que realmente importa
É porque choras por detrás da porta
Nessas ânsias e ciúmes
Calos, marcas e negrumes
Toda a alma que em gume se corta

Afinal, o que mais importa
É porque vais de porta em porta
A desejar regra em laje torta
A inventar vida em coisa absorta
Quando, no final, mais ninguém se importa
113

Pontilhismo ao Pôr-do-Sol

Na inocência em que vos vejo
Sois como campos de flores
Pontilho de todas as cores
O vosso prado de virtudes
Numa tela vaga e rude.

Três silhuetas desiguais em contraluz
Divagando nos campos de flores
Do jeito em que vos retenho
Cabe todo o céu num só desenho.
165

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Nascido nos Países Baixos e de ascendência portuguesa, sou músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.