Músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.
Nascido nos Países Baixos e de ascendência portuguesa, sou músico e licenciado em História, dedicando-me grandemente à criação artística, nomeadamente musical e poética. As viagens e tours com a banda Albaluna proporcionaram uma nova visão sobre a arte, altamente influenciada pelos motivos tradicionais e étnicos de todos vários sítios do Mundo.
Tenho as minhas vontades ligadas Aos mais pagãos ambientes do céu Se está escuro, sou como o breu. Se faz sol? Sou outro eu.
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Deambulatório
Por vaguear Questiono o que estas pedras já terão visto Se não sendo pedras de todo Algo mais nobre teriam previsto. Se viram corpos, se viram asas Se todo o firmamento nas suas amarras Se águas dúvidas fundaram E todavia nada lavaram Por todos os campos de calçada Me arremesso, deambulante.
Se és casado com a solidão Basta seres triste para ficares só Podes gostar de não gostar Pagar ouro por mero pó. As pedras têm com as aves A perversa intimidade Umas observam-nos altivos Enquanto outras nos vêem de alto Pelos meandros de calçada Navego, deambulante.
Leio nos meus pensamentos Mais do que quero noutro alguém Foram estas mesmas rochas Morada de outrora, do além Mais rapidamente se veste um livro Do que um rasgo de tecido Um rasto indeciso Na rapina do tempo omisso Pelo flutuar da calçada Num solilóquio deambulante.
Na dúvida exausta Empilhamos ares de outras trovas Bairros fazemos de nossas casas Fazemos de velho coisas novas. Fugimos do ardor De entre quem do amor terá seu luto Gosto de pouca gente E de pouca gente gosto muito. Por todos os campos de calçada Sigo, deambulante.
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Ambigrama
Na urbe rugem ideias Nos campos só gente rude Porém, em aldeias, vi mentes cheias! E cidades vácuas de virtude.
Se a silhueta ainda engana Já o Valor, esse não ilude Se disto tudo nada entendes Então, por hoje é tudo!
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avoN zuL
Hoje acordei no que pressinto Num dia bastante convicto Se amanhã for dia novo Coisas novas logo sinto
Por hoje, se tudo se confirma E se afirma pelo bem Sem a força dos que rodeiam Não sei chamar por ninguém.
Que não faça um novo retalho Do que prometeu desvanecer Para que nada de velho faça Ser eu luz nova a morrer.
7/2019
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Ghazal: Shama’
MATLA’
No fim d’um novo acordar, em nós dormência de outra era. Espaço p’ra nunca mais voltar, morta incandescência de outra era.
SHI’R II
Levita a chama e desvanece, roda filho de Mevlana Fizemos nossa atmosfera que essência de outra era.
SHI’R III
Entorna-se o vinho na alma, adejar e aí logo arder Ser cinza e de novo renascer, na existência de outra era.
SHI’R IV
Corpos tingem na sombra quente trejeitos de pantomima Tal qual astro atingiu esfera que pertinência de outra era.
SHI’R V
Há ventos que roubam às folhas luzes que entre elas espreitam. Sarāy de onde não volvera era a vivência de outra era.
SHI’R VI
Ver audácia nos lótus: da lama e desespero nascidos. Da impureza – distinguidos da insipiência de outra era.
MAQTA’
Devolve-me -Corvo- a teu lar. Tu! Que foste um simples homem. Deveras grande no dom de amar, eterna ardência de outra era?
11/4/2020, ghazal seguindo a tradição medieval persa
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A Inveja das Aves
Quem dá verdade? Se a quiser, quem ma vende? É uma ave vespertina, Que num só bater de asas faz do Mundo um sítio só. Só e duvidoso, Da janela que é portal sedutor e virtuoso Para um lugar onde tudo sem nós Acontece. Pois nas flores nada se vê Nem preocupação nem movimento Nada de dor ou tormento. E as pedras não nos lamentam Perpetuam-se na ausência Acusam falta de cadência. E o mar não sofre Por não nos ver descansar o cansaço Por saber que a caverna nos tem no seu regaço E as sombras são como pão duro Que outrora atirámos ao lago Dos que dançam à volta Da fogueira do embargo. Todo o vento sopra Tudo permanece Quando para todos anoitece Mas nem por isso amanhece Pois Aquele-que-sempre-é-e-domina Homem-deus refém, em surdina São meses longo dia sem rotina. Homem-deus retém, em retina cobiça e devora Inveja esse pássaro que frivolamente ignora Que para nós há todo um Mundo… Lá fora.
Março 2020
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Reminiscência do Futuro
O meu sonho é um retrato No qual eu não estou Um plano maior do que tudo Uma dor maior que o luto Um êxtase maior do que os meus Um último reduto.
Em muito igual A todos os outros sonhos Do mais comum dos plebeus No entanto, estes são meus Um infinito sem tamanho Qual vinho – qual arte – qual deus?
O meu sonho é um retrato Onde tudo é simples Do que ainda não se revelou Do que vejo e ainda não sou O meu sonho é o outro lado Ali ao brotar um, muito mais se desflorou.
Fórmula de livre substância E tudo o que de mais existe É a não-palavra em forma pura O apogeu da própria natura Num museu de e para sempre Me prendo por livre assinatura.
Pacto de minha angústia Compadrio de luz e negrura Que meu pai assim escolheu Que a minha mãe em mim escorreu Num abraço, de génese incorrupta Ser foz de rio cuja fonte serei eu
Pensei-te pequeno e infinito Guardei-te nela, estatueta terna Nos olhares que se desfazem Num regaço se comprazem Em Primaveras do que em nós se fez De um ser que é rei à nossa imagem.
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Torpe
É demasiado torpe Demasiada morte de pensamentos Honrada marencoria eduardina Que me faz pensar que não. Faz levantar estas águas Em nobre Ínsula fraternal Que entre História e monstrengos Já não vislumbro caminho algum
Entre o que foi e o que é Como o congelar de um Tempo Vejo em mim O Antepassado Revejo em mim o sentimento Revelação da Loucura E dou sentido ao Elogio. Antes viver cego numa cor minha Que falar sem própria língua Que servir em gris vazio.
Já não vislumbro caminho algum Que entre História e monstrengos Em nobre Ínsula fraternal Faz levantar estas águas Que me faz pensar que não. Honrada marencoria eduardina Demasiada morte de pensamentos É demasiado torpe… (Em revertida surdina)
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Os Noctívagos
Há-de haver quem pretenda Sofrer do mesmo mal E cantar à luz das velas Rasgar as mesmas ruelas Roubar o silêncio aos desejos Sob a luz boémia dos candeeiros
E há-de haver ainda quem se ofenda Com a força de uma onda que rebenta Pela cara que mostras à rua Pela pele que deixas nua Sob as vestes do receio Sob a luz boémia desse anseio
A liberdade é a sombra que trazes Tu que és tu com a boca que calas Tu que não és tu na Arena das Falas Nos braços que se estendem sobre ti Nos diálogos sem sentido Na luz de um triste arrependido
Admiram-te as pedras que perturbas Olhos de rua logo atentam Nas poses que em ti assentam Quando és miúda, dama e moça Num vestido que repousa No ar que rasgas com a postura
Sob a luz boémia dos candeeiros de rua
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A Porta
Afinal, o que importa É quem tu és por detrás da porta Onde te arrumas e te afliges Sem destino te diriges À mercê de uma mão morta
Afinal, o que mais importa É quem tu deixas atrás da porta Entre todos esses teus repentes Os ódios que fogem entre dentes Como caudais sem comporta
Afinal, o que realmente importa É porque choras por detrás da porta Nessas ânsias e ciúmes Calos, marcas e negrumes Toda a alma que em gume se corta
Afinal, o que mais importa É porque vais de porta em porta A desejar regra em laje torta A inventar vida em coisa absorta Quando, no final, mais ninguém se importa