Lista de Poemas
A chuva chora
A chuva chora e fia a tristeza
que escorre diáfana pela janela,
sem razão
Nina a minha vigília e a minha dor
e as minhas mãos cheias de inquietude
Molha o meu medo e a minha angústia,
molha o momento suspenso da tarde se desfazendo
O vento desliza na janela como lágrimas
de uns olhos imensamente meigos e belos,
uns olhos prometidos ao silêncio,
ao desconhecido
Pela janela olho o céu cingido ao cinza
do dia que envelheceu
A chuva,
transluzente,
chora,
escorre,
nina,
molha...
E, por fim, a vida, enredada nos passos molhados do dia,
entoa silêncios enquanto a chuva ressoa
na transparência do grito eternamente inaudível,
na transparência palpitante da chama do círio
aceso desde as origens dos tempos
Dentro da chuva a sombra se projeta no ar
e um vago sentir tristonho se dissipa no infinito
da névoa que esconde os passos serenos da noite que se
prenuncia ao peso e ao farfalhar do crepúsculo
A chuva cai como fogo e semente ardente
a encher de melancolia o instante vindo da infância
e de um tempo onde só havia
este sabor de barro
e a vida se desenrolando
nas janelas roídas pelas chuvas,
absorta e oscilante num mar de horas
cinzas como o céu do dia,
inefável como a chuva que chora nas janelas floridas
Maio
Por que maio?
e não outro mês qualquer
Talvez porque em maio
as manhãs acordavam entre
neblinas e a graça do teu
sorriso inocente
Talvez porque em maio
você enlaçava o meu pescoço
e me dava beijinhos de
esquimó
tão frios nossos narizes
tão linda a tua maneira
de se deixar existir
Sorrias quando eu dizia que
a poesia é como jardins
e que as palavras florescem
nestes segredos suspensos
em nuvens vermelhas
em ramos de vento
em flores de luas
O ano?
O ano não importa
Infindável é o tempo
e a chama que o consome
Importante mesmo
era que fosse maio
e que o beijo
me atordoando
em ofegantes salivas
dissolvesse-me, menino
O beijo pousado no teu colo
no teu ventre
Nas nossas mãos enlaçadas
nos nossos olhos fechados
faziamos o dia conforme
a nossa magia de lentos segundos
o tempo parado em cada fibra
em cada toque flamante
E o amor era maioe de dentro da bruma
de um mar que não tinhamos
vinham teus olhos de menina
tua boca miúda
os dedos sobre os lábios
entoando o silêncio repentino
os segredos ainda úmidos
zonzos
Meu corpo o mesmo que o teu
lenta poesia a desnudar-nos
nos teus limites da bruma
nos teus calores de sóis
nos teus olhos de noite
casualmente sem lua
Em maio inclinavam-se os dias
que traziam você e as tardes
de incandescentes ternuras
traziam o teu carinho
e risos de era uma vez
traziam a canção de amor
tocando no rádio
e a flor ressumando no jardim
e brincos de princesa
e lírios florescendo no
horizonte
entre mar e terra
para o meu instante
de bardo
para os meus versos
imaturos
Vinham os versos
com o silêncio
que teus dedos
em mim compunham
sublimes
inquietantes
inefáveis sonhos
a brincar com nossos dias
com nossos maios
a brincar com amanheceres
que ficaram em mim
como a estrela esquecida
ficou no céu da nossa manhã
rondó decifrando a lua
e a tua ausência despida
ante os meus versos noturnos
ante o preto e o branco da vida
Eu ainda posso ver
teus olhos negros
indeléveis
me sorrindo
desde as rendas diáfanas da neblina
dissolvendo-se, assim,
na sede da aurora
e dos primeiros raios de sol
Com a última estrela da manhã
eu sinto que o tempo passou,
incerto
molhando com o teu nome
este passado onde me escondi
Pingo...
para mim serás sempre Pingo
Pingo d'água
da onde sorvi da tua boca
a gota da minha
primeira lágrima de amor
e de inauditos maios
que hoje me trazem os ventos
entre cantigas e poesias
entre pétreas solidões
desvelando esta saudade
e este silêncio
com os quais recito o teu nome
reescrito no lago dos meus sonhos
e nas poesias que não te fiz
e que adormecem nos meus dias
e que derramam nas noites
lembranças dentro de mim
Também
Também deste poema se morre
letra após letra
o som inteiro e intenso da palavra
que cria rios e desertos e miragens
grises como o meio da noite
onde o poema descreve arabescos
e o agora dissolve os segundos
na farsa do tempo que é morte
Também destas horas se fartam
o incandescente amargor coleante
da areia escorrendo amarela
como um rio ruminante
entre o passado soturno
e o futuro incognoscível
que nos mantêm de joelhos
há 512 anos
Também nas madrugadas se chora
o choro longo ou breve
como chora o rio fora do seu leito
um choro que se pensa infindo
que se chora até se adormecer
no engano
e na absorta cachaça do sono
onde dormem os olhos incompreendidos
da infância
que nem você conseguiu consolar
trazendo a flor ébria e a cinza neblina
que se esvaneceu deixando
a primeira palavra do poema
sem resposta
Também se vive a contemplar o mundo
constrangido
náufrago
anacoreta
a estacar diante das reticências da vida
a mergulhar no espesso lamento da dor
das guerras profetizadas nos gabinetes
incesto e morte
e o desespero natimorto da platéia
diante da face do medo
diante do cansaço da espera exilada
e da ausência de perguntas
enredadas na vontade empoeirada
de quem, sequer, vê o muro
Também de fome se vive
de sonâmbulas bocas esquecidas
esperando o pão nosso de cada dia
ardendo em febres
e esperanças forretas
Pai,
perdoai a nossa inércia
assim como nós perdoamos
a quem nos tem debicado
não deixeis cair o parco pão
no chão conspurcado
pela nossa apatia
e pela nossa "candura"
livrai-nos dos néscios
e da submissão
Amém
Versos úmidos
dormitam todos os sonhos que
eu não soube sonhar
cabem todos os sígnos
e tantas outras palavras cuja
simples expressão faz o
tempo difuso flutuar
e os dias e as noites
perpassarem implacáveis
nos vales onde correm e soluçam
as águas perenes e avermelhadas
dos rios que choram e suspiram
ao ouvirem as pétalas dos versos
que caem
e pelo perfume da névoa umedecendo
o sussurro da aragem ondulando
no bambuzal
Nesta brisa soprando nas noites azuis
evolam-se estrelas deitando fagulhas
ao vento
urdindo nuvens de algodão
e abrindo o remanso onde cabem os
meus silêncios quietos e vulneráveis
cabem estes ecos de nostalgia
e aonde acorre meus olhos
buscando teus passos nas
tardes iluminadas pela ternura
transparente e comovida de um sol
caminhando para a noite sem sono
e onde uma lua derramando prata
admira na inquietude da madrugada
os sinos a dobrarem as horas
e a voz do vento doce e distante
Nesta chuva turva que embaça o dia
lanço barquinhos de papel
Ouço saudades tamborilando no telhado
no plim plim plim dos pingos pingando
É final de primavera
Os ypês já floritam e suas flores pequenas
cobriram o solo em sombras amarelas
brancas luas
ametistas roxas
A noite treme sobre o mar
e o vento recita versos solitários de sal
e séculos na noite que freme sobrer o mar
No poema que se abre e fere a tua lembrança
morre um menino
pequeno viajante de tempos e de sonhos
tão pequeno e já envolto em solidões
tão pequeno para a angústia dos séculos
corpo sem alma
guarda sua lata de barbante e areia
para o incognoscível amanhã
Nestas mãos que amalgamam o ar em busca
de desertas madrugadas
cabem o anjo
e o aroma angelical dos jasmins
cabem a voz da flor
e a aurora que resplandece em ouros e azuis
Nestas mãos que tocam o noturno escuro
e vário
e que tocaram teu rosto
enlaçaram a tua mão
acarinharam teus cabelos
acenaram um adeus no vento triste de uma
tarde sem nome
nestas mãos ficou a nívea flor dos teus seios
e todo o lento silêncio que embebe a poesia
Estas mãos,
molhadas pelas chamas das lágrimas,
não sabem da saudade que
eu sinto dos caminhos que andei
sob espelhos
A imagem invertida fazia voar meus pés
Estas mãos...
Estas mãos não sabem da saudade que
eu sinto da noite negra dos teus olhos
Nem estas mãos
nem os anos todos que passaram,
nem as estrelas que cairam sobre o
caminho de pedra
enquanto eu te esperava
nem as noites
nas quais teu beijo não era meu
E na rua, entre teus braços,
a noite escondia a eternidade
A lua, lírica esfera sob o pêndulo negro
do céu, vestia de cinza o extenso mar
cortado pelas ondas e entregue às terras
pelas marés
As águas erram na penumbra indecifrável
que a tua ausência deixou
e levam consigo as canções e os versos,
sem métrica e sem limites,
com os quais te amei
Sentir
Há momentos em que sentir
é como a ausência do postigo
por onde poderia, se houvesse,
infiltrar-se a voz melíflua do poema
É como a carência das manhãs transcedentes
e o constante perfume do orvalho no ar
É como a garrafa lançada ao mar viajando
sob estrelas que por sua vez viajam o éter
trazendo mensagens (poemas?) do inicio das eras
É como a solidão que se instala transbordando
tudo que eu ainda não disse/não fiz
É como o som das insidiosas máquinas de guerra
que ca(n)tam as velhas canções
e reverberam a cantilena de velhos discursos
É como o choro silencioso,
sem gesto,
sem destino,
sem começo
e sem fim
É como um labirinto
infinito
onde a esperança repousa ingente
É como a inelutável noite
que envolve e acorda vendavais
e a chuva cai
parando o tempo,
revirando passados
reverberando ao som do vento nas telhas
E, afinal, que querem as lembranças?
Querem um convívio forçado
estes sentimentos que tombam e vibram
Não sei conviver
Há sempre razões definitivas,
certezas indubitáveis
e a noite que cessa
em todas as janelas
onde a parca luz amarelada
agoniza junto com a minha emoção
Onde as iamagens se evolam
e o tempo é um truque de um mágico
que transforma a eternidade
nestes fugidios instantes
Às vezes instantes longos,
páginas em branco,
às vezes cheios de emoção,
umedecidos de suspiros
que o tempo folheia impunimente
A poeisa estremece o singular
mistério da noite
e dá ao meu sentimento
este invisível caminho
e esta inefável possiblidade
de anotar e rabiscar
até perder a razão
e colher das flores as cores
e o perfume inocente
de um verso que chora
ou que ri comigo
de uma realidade que só existe nele,
no verso
Eu o olho e o ouço como
um menino me olha e me ouve...
como se me conhecesse
há muito tempo...
Um tempo em que só havia poesia
no acaso inseguro das manhãs,
na tarde que me visita
e me espera nos jardins
onde flores de papel sorvem
as palavras que dizem da brisa
crispando as águas do rio,
bebendo as pequenas ondas
que desaparecem na areia
Houve um tempo em que tudo era poesia,
madrigais, odes, elegias
Versos inconsúteis
escritos à cinzas
nas páginas da distância
e dos momentos onde sentir
é como o escorrer da chuva
no silêncio dissoluto do espinho
da rosa que não há
e o perfume da rosa, esbatido pelo vento,
ondula em teus cabelos onde dorme a noite
O vento argumenta sua quase tristeza,
arremete, debalde, as naus contra os portos,
acorda meus velhos sonhos sonolentos
e empresta-lhes a face de uma lua cheia
de um dezembro que ainda não veio
Há momentos em que sentir
é só como estes sentimentos cativos
e estes caminhos cobertos por folhas secas
caídas com o vento e com as chuvas
nas madrugadas onde me esqueci
e me esquecendo
o tempo, possesso,
me resgata deste teatro
e da contumaz mentira
que transforma o meu hoje
em um ontem irrefreável
acumulando-se aurora após aurora
ansiando por ser poesia e liberdade
Estes momentos em que sentir
é como o menino jogando as cinco pedrinhas
na praça deserta
antes de decidir morrer
Quando eu me for qual flor brotará?
Branca, vermelha, amarela, lilás, azul...?
Que importa?
As flores brotarão e levarão
o pânico da minha noite
e atearão fogo à minha suposta "poesia"
incorrigível e alquebrada
sentindo o que não sente
virando o mundo às avessas
antes que a aurora envolva e encubra
a voz do poeta
e este, então, adormeça
Escrevo a poesia que ninguém lerá
Ao longe a música chia
no antigo gramofone do dia
quente deste final de novembro
apagando o trinar dos passáros
que os céus levam até o mar
debruado com as velas ao vento
dos barcos executando os acordes
das canções de alguma infância
Gaivotas voam acima dos meus medos,
acima das canções inacabadas,
da angústia inútil de não esquecer
e da poesia escrita na bruma da manhã
estampada na primeira hora
atada ao dia que veio com o vento
na primeira flor
na primeira dor
Escrevo a poesia que ninguém lerá
Escrevo para as sombras
da minha infância
Escrevo porque sinto
e porque a palavra me liberta
E é esta é a minha culpa maior:
dizer o que não fui,
falar do inapto que ainda sou
Só o que sinto
e o que minto
de mim para mim
é o que fica de mim na aléia
por onde caminha o Mistério
na poeira quente das estradas
sem encontros,
nem companhia
Ando a olhar para o céu
buscando no trilar das aves,
os pássaros origami
que me habitam
e me trazem, assim,
este amor impossível
pela coisas instadas,
pelas estrelas
e seus poemas,
que não se extinguem
e movem-se sem cessar
ao nosso encontro?
No velho espelho contemplo
a chama da infância
Tuas mãos pequeninas
aquecidas ao sol
de um inverno ofuscando,
os teus olhos negros,
teu corpo recendendo
à paixão e à ternura
Da janela do quarto
ainda vejo dormir a noite
Vejo dormitar o passado
sob a luz de candeia
de uma lua iluminando a alma,
sem, no entanto, separar
a solidão destes versos
que me sopram
Os pássaros regressam de muito longe
atravessam a noite,
inocentes,
desfazendo o silêncio
com o branco das suas asas
Procuro no escuro,
tateio suas silhuetas esguias,
da onde virão?
Trarão um ramo no bico?
Os pés molhados de mar?
Em meio as estrelas adormecidas
a lua irrompe pela janela dos sonhos
Encosto a mão na face molhada do sono,
digo um segredo,
calo um grito,
sussurro o desejo de partir,
sentindo a areia fria das dunas
como se a areia houvesse sido o meu mundo,
só e esbatido pelas gotas de sereno
que serão o orvalho da manhã sem nome
e que não demora a chegar na praça
acordando os pombos e os seus arrulhos
balançando as matas ao rumor do dia
lançando as primeiras gotas no mar
resplandecendo nos rochedos
caminhando para o verão
perfumado de primaveras,
refletindo luzes de outonos,
sob um céu nacarado de inverno
As nuvens passam singrando os céus,
barcos de algodão,
rendas no jardim onde brotam
os versos que podem dizer às almas
o ouro da liberdade latente no átomo
imarcescível de cada novo dia,
abstrato como o papiro
a escorrer as palavras do que seria
um poema
ou a chuva caindo
errante
e terna
Soturno
A aurora dissolve-se na mancha
vermelha alaranjada do sol
ressumando na manhã
esbaforindo a face triste do chão ressecado
a tremeluzir tudo o que é no horizonte
O menino nu come o barro queimado
das paredes da casa
Os dedos dessangrados
de cavocar as paredes mortas
pelo sol desgarrado
No infinito da paisagem desolada,
ondulando no ar,
galhos secos e uma cisma de esperança
A esfera rubra do sol soluça de sede
abrasando as pedras que assomam sobre
as estações desfeitas
em poeira vermelha e pegajosa
Nem inverno nem verão
nem outono nem primavera
Tudo a mesma poeira grossa,
o mesmo torrão rachado de chão,
as mesmas mãos vazias,
o mesmo olhar sedento para o céu
A vida passando sem pressa
morosa em se acabar
enchendo o vento de soluços
As flores e os frutos não se modelam
no barro seco indistinto
e na paciência dos quintais
que sangram o que um dia foi mar
As mulheres carpem os cântaros vazios
sorvendo dos lábios a sede
No céu nenhuma ave,
na terra nenhuma criação sob as sombras
dos galhos secos das árvores
A vida carecendo de sentido e de tamanho
Carecendo de saberes e outras palavras
tão uivantes quanto o silêncio que,
embaraçado nos gravetos
que rolam pela terra em fogo,
insiste em ser a trilha dos dias
amorfos e anônimos
onde o rio inexiste sem rumo
e só o vento quente tem vida
O menino nu carece do barro custoso das paredes
e de um olhar de esquecimento
que esqueça a sombra da tristeza
e do desassossego
que o tire da letargia destas terras
que evolam-se no ar esturricado
Chora o menino nos seus poucos anos
a tocaia que a vida deserta de si inventou
Suja os pés neste ar solitário que seca
a lágrima no rosto vincado pela terra
e pelo medo
máscara informe de poeira e suor
Ao longe a tarde crepita em brasas
tremeluzindo o braseiro de tudo a sua volta
O sol oscila num céu se dissolvendo
em vermelhos
O olhar incendiado pressente a noite
adejando portas e janelas
O dia mastigou o menino e deixou-o
nos braços magros da noite inerte que se rompe
nas lascas das paredes em soluços
A terra ressequida não dá cor ao noturno cantochão
com que a noite põe fim ao dia
A noite denota a imarcescível lua e um ror
de estrelas, colunas de um antigo templo,
de um antigo tempo, de antigos guias
poeira derramada nos milhões de anos,
trazendo para as noites seus olhos afeitos
a viajarem nos céus de poeiras também
A fome deita o menino e seus olhos cansados
Ouve-se soluços entremeados de suspiros
As indagações adormecem
nas ilhas sonâmbulas dos astros
e na impermanência do destino
A noite se aquieta
Silenciam as pedras que há pouco crepitavam
sob o braseiro urdido com as mãos coruscantes
de um sol que parecia brotar
do centro flamante da terra
O menino dorme
a sua infância exilada
Num canto escuro da vida
a casa geme ao passar do vento pelas taquaras
A lua, silente, alumia as veredas insones
Nestes cantos não tem flores nem jardins
Só a poeira grossa igual
a dos meses e anos anteriores
e as crassas paredes que se vai comendo
aos pouquinhos
conforme a carência e a tristeza
esquecidas, aqui, em todo lugar
Cansaço
Afundam no chão que falseia as folhas
derrubadas pelos longos ventos
que as esquecem
Meus olhos pressupõem o reflexo esbatido da luz
Supõem a noite e uma última canção
Supõem estrelas,
quando a noite se abrir
e por detrás dela a lua se debruçar
por entre o sol e o mundo
Diante destes mares
os pés afundam no cansaço
da areia úmida de silêncios
e de poemas traquinas
e insofismavelmente puerís,
O cansaço se arrasta no tempo,
metáfora inelutável da vida,
vento desbastando as arestas
das sentenças,
fragmentos de palavras
entretendo a minha noite indistinta,
Brinca com teu nome
esta voz em mim que te chama
da greta da janela fechada
por dois traços de lápis cinza
riscados à guisa de tranca,
como as sombras que perduram
no trêmulo espelho das águas
Às avessas restam a tarde
e a chuva caindo como linhas dissolutas
Resta o gesto e o pulsar impreciso
das horas vazando a bruma da noite
que esconde o mar inconcluso
Ante a palavra que não veio
perdi o poema
A brisa passou incendiando
o silêncio
O verso ficou entre os espaços
da página em branco
onde a folha absorve o crepúsculo
incolor
e a ausência bêbada das sombras
douradas que esculpiam
as matas,
a vida,
as pessoas,
os passos nos quais me perdi,
na luta,
na trama,
no sopro,
no barro
onde não vingaram os girassóis
Quem se não o meu cansaço teceria
o que no coração poderia
ser ilusão
ou poesia?
[...]
À tarde o vento soprou, afável
A chuva choveu pouquinho e dispersa
(dispressa)
A noite chegou de improviso
Trouxe lembranças,
algumas perdas,
um breve baque surdo nas águas
e os olhos límpidos de quem
já vê a primeira estrela
nimbada de um sereno fino
Chegaste...
Ó tempo sem volta,
erguido no ar como quem dança
e seca os olhos molhados
no ardor do sonho adormecido
nas palavras do menino:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."
[...]
Inicia-se a madrugada
Murmúrio e silêncio
Regressam os ventos
Faz-se a espera
dolente de uma solidão
que pergunte dos meus sonhos
e da espera,
sob a luz enebriante de uma
lua de novembro,
faz-se o cansaço
Novembros e primaveras
*(Põe nos meus olhos vencidos
teus olhos de sombra e lâ)
(Geir Campos)
O dia ainda não amanheceu
mas a porta para o mar já está aberta
neste novembro de primaveras
onde há flores
e quimeras
e nuvens camufladas de algodão
e anjos que trocaram céus e astros
pelo chão
Olha, a porta para o mar já está aberta
O vento sopra levando areia para desfazer o dia
que escorre rente as paredes de vidro
forjando o engano do tempo ido
Olha, o dia ainda não amanheceu
e já caminha a vazar em dourados arabescos
enquanto a canção antiga chora ad aeterno
o sonho que deambula pelas praças e pelos parques
ante nossos olhos que não o vêem,
mas que o coração pressente
e a alma se alegra com outros possíveis mundos
onde a vida seja sagrada,
essencial como grãos de poesia
onde a dor seja esquecida
nos braços que já se abraçam
neste lapso que é a vida
onde a manhã vem devagar
e *põe nos meus olhos vencidos
teus olhos de sombra e lã
Amigos
pelos caminhos de argila,
pelos rios e suas pontes ligando a saudade
à impressentida nostagia da ausência
enquanto em todo o céu é primaveras,
relembram estes ínicios de novembros
onde desabrocham flores por entre as frestas das pedras,
pequeninas flores interropendo
a estrutura calcinada pelo fogo do tempo compassado
a encher de presságios a vida e a alma
Girando sobre as folhas soltas do outono
a silhueta do vento derruba a gota de orvalho
e pousa no poema
e cria a lágrima
nos olhos verdes da solidão
O poema nasce assim, sem luz, sem nome
por enquanto somente esta lágrima da solidão
rio sem sementes,
sem momentos,
um sonho que fosse
um barco sem vela nos imprecisos ventos do agora
estrelas no firmamento tiritando aos olhos da lua
embalam a noite no ar
brotam saudades do chão
e o poema se expressa entre a saudade e o sem nome
Enquanto os amigos se esperam
Enquanto o vento gira
Enquanto o poema nasce
um pouco de nós fica nesta ausência
gestos,
risos,
vozes
e as mãos cheias de nada
Fica, em meio a tudo, este tom de tristeza
Fica, apesar de tudo, estes novos poemas
e a janela das Luas Antigas
onde me debruço a olhar a vida e o mundo
com olhos distraídos de artesão de estrelas
e sonhos ociosos e incognocíveis como um mistério
São tantos os momentos que fogem
e calam no gesto de demora das flores
São tantos os momentos de indagação
dos barcos rumo ao porto
São tantos os silêncios,
que quase ninguém ouve
São tantas as esperas
que a areia escorre da mão
fluída como a vida em grão
Os amigos relembram o primeiro segundo,
a última hora de tantos novembros
a perguntar pelo passado que imiscuiu-se à multidão,
bosque ou jardim,
ausência amorável
como o perfume da rosa
como um dia que amanhece
sob o encanto do dia que o precedeu
A brisa caminha em tempos e sonhos
que a chuva deixou no jardim
insinuando tardes brandas
e paisagens convidando à nostalgia,
abrindo a porta das gaiolas
para que fujamos todos...
um dia
Marulho do mar
O silvo do vento passando pela fresta da janela
Houve um tempo
em que o vento despenteava o meu cabelo
e secava a lágrima que, às vezes, caía
só e silente
como a única verdade de um instante
Na distância, o rumor do vento soprando,
secava as gotas de chuva nas pétalas das flores no jardim
A vida esquece-se no rio
deixa-se levar
tecendo os fios da urdidura
enquanto nas margens
os amigos se esperam
Esperam o momento dúbio
de um possível reencontro
em outras primaveras onde as flores são abandonos,
outros outonos?
inumeráveis verões,
nas noites estreladas de um inverno
onde as saudades são quentes e ternas
Esperam, os amigos,
assim esperam
cativos de tantos outros dias
E a vida, assim, torna-se indispensável
Comentários (0)
NoComments