Na manhã que te levou Na tarde que não se cala No beijo que não te esquece No abraço que ainda aquece Na noite que te esperou Na cama onde agora dorme o frio Na tua ausência doída Num quarto vago e vazio A saudade deita seu corpo Junto ao teu corpo macio
Minha casa não tinha jardim, mas tinha um canteiro de flores, colado ao muro, onde a chuva que caia do telhado no quintal respingava nas plantas o gosto imanente das águas No canteiro havia rosas rubras feito um soneto a um amor antigo cravos brancos e as rimas rugosas das suas pétalas pequeninos pés de maria-sem-vergonha multicores, pintadas pela luz macia das estações margaridas de um amarelo pra vida inteira, antúrios e suas flores fálicas Tinha outras flores que ficaram pelo tempo Outros tempos que ficaram neste rosto que busca o passado do outro lado do espelho nas lembranças, visitantes noturnas, que me dizem coisas da infância Nesta mão trêmula de agora, Nestes olhos que quando olham olham o mar e as praias ao crepúsculo tecendo cores túrgidas de sol e sal e os passos na areia fofa que vão ficando como um sinete do silêncio que me leva ao mar e o ser fechado para a poesia que tateando na escuridão ignota faz das palavras pássaros sem asas
Do canteiro e sua floração saiu a primeira flor para a primeira namorada, Enquanto entregava a flor, a meninada na rua, devagar, soprava diáfanas bolas de sabão, translucidas, que o vento levava até onde os anjos brincavam com as crianças, soprando-as, com suas bocas sonhadoras no ar azul da tarde bordada de sol, perpassada de sonhos e de faz de conta, onde brilhavam pequeninas gotas de chuva, ornando a verde folha, escorrendo pela pétala reordenando, suavemente, a beleza da natureza
Nas noites sem lua a negra cortina escondia o canteiro Noite sem estrelas, só mantos de nuvens onde a meninada construía os seus sonhos e os seus medos e o medo do medo alheio, noites imensas na escuridão, longe da primavera soprando a brisa vinda de um mar intangível ondulando os lírios brancos e as rosas em suas longas hastes dentro de uma noite antiga a despedir-se
É preciso lançar os barcos aos mares como as folhas que caem na correnteza dos rios, e são levadas pela pureza dos anjos É preciso o escuro da noite, sem lua, sem estrelas, para ouvir as antigas vozes, a primeira lágrima de um antigo amor, de uma nova saudade
É essencial cultivar os canteiros e as palavras que podem ser flores, mares, amores, poesia, pequenos gestos de amor dentro de um amor imensurável o azul e a sombra do azul, o sonho que dorme náufrago e anônimo na minha existência
É essencial cultivar os canteiros e o inaudito murmúrio dos ventos. o belo, o encanto, o indescritível É essencial resgatar a inefável alegria da infância
As manhãs, sejam azuis ou cinzas ou douradas, caminham sem tempo que as tolham, sem ruídos de agoras trazem o canteiro da infância e as flores vicejam por entre as emoções que irrompem somente no absoluto da poesia inexprimível como os ventos imponderáveis
No canteiro do meu quintal há flores no outono, do outro lado do nevoeiro por detrás de qualquer domingo no qual se ouve ao longe uma flauta que toca para nossos sonhos imaturos sedentos de estesia como o amor sedento de amor omo o poeta sedento de um verso meigo e suave como o beijo de um colibri como o sorriso de um palhaço como o amanhecer que floresce nos quintais das infâncias imperecíveis e onde começa a infinda poesia
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Amigos
Os amigos, separados pelo tempo abstrato, pelos caminhos de argila, pelos rios e suas pontes ligando a saudade à impressentida nostagia da ausência enquanto em todo o céu é primaveras, relembram estes ínicios de novembros onde desabrocham flores por entre as frestas das pedras, pequeninas flores interropendo a estrutura calcinada pelo fogo do tempo compassado a encher de presságios a vida e a alma
Girando sobre as folhas soltas do outono a silhueta do vento derruba a gota de orvalho e pousa no poema e cria a lágrima nos olhos verdes da solidão
O poema nasce assim, sem luz, sem nome por enquanto somente esta lágrima da solidão rio sem sementes, sem momentos, um sonho que fosse um barco sem vela nos imprecisos ventos do agora estrelas no firmamento tiritando aos olhos da lua embalam a noite no ar brotam saudades do chão e o poema se expressa entre a saudade e o sem nome
Enquanto os amigos se esperam Enquanto o vento gira Enquanto o poema nasce um pouco de nós fica nesta ausência gestos, risos, vozes e as mãos cheias de nada
Fica, em meio a tudo, este tom de tristeza Fica, apesar de tudo, estes novos poemas e a janela das Luas Antigas onde me debruço a olhar a vida e o mundo com olhos distraídos de artesão de estrelas e sonhos ociosos e incognocíveis como um mistério
São tantos os momentos que fogem e calam no gesto de demora das flores São tantos os momentos de indagação dos barcos rumo ao porto São tantos os silêncios, que quase ninguém ouve São tantas as esperas que a areia escorre da mão fluída como a vida em grão
Os amigos relembram o primeiro segundo, a última hora de tantos novembros a perguntar pelo passado que imiscuiu-se à multidão, bosque ou jardim, ausência amorável como o perfume da rosa como um dia que amanhece sob o encanto do dia que o precedeu
A brisa caminha em tempos e sonhos que a chuva deixou no jardim insinuando tardes brandas e paisagens convidando à nostalgia, abrindo a porta das gaiolas para que fujamos todos... um dia
Marulho do mar O silvo do vento passando pela fresta da janela Houve um tempo em que o vento despenteava o meu cabelo e secava a lágrima que, às vezes, caía só e silente como a única verdade de um instante Na distância, o rumor do vento soprando, secava as gotas de chuva nas pétalas das flores no jardim
A vida esquece-se no rio deixa-se levar tecendo os fios da urdidura enquanto nas margens os amigos se esperam
Esperam o momento dúbio de um possível reencontro em outras primaveras onde as flores são abandonos, outros outonos? inumeráveis verões, nas noites estreladas de um inverno onde as saudades são quentes e ternas Esperam, os amigos, assim esperam cativos de tantos outros dias
E a vida, assim, torna-se indispensável
717
A rosa amarela do dia
A rosa amarela do dia desliza na manhã de um mundo velho, vago, sequioso O amor não é poesia no velho mundo abstraído O amor é folha de outono, adeus, passos de nuvens rumo aos teus olhos negros O céu, roçando o mar, tece arco-íris na poeira úmida das cores condensadas na miragem das praias à deriva Os ventos balançam as folhas laceradas por este inverno de horas melancólicas A um canto há um grito que ao meu canto desvirtua num fragor plangente
Vi a rosa amarela do dia deslizando na manhã por entre os morros dispersos ao longo da vida que desliza sob conceitos e palavras sem nome Tudo caminhando lentamente Perpassando a manhã o som de um sino dobra, circunspecto, embebendo os olhos e apascentando corações
Um sol, recriado no lago, arde em chispas ao murmúrio das águas A brisa azul esvoaça o amarelo do dia Cores a desdobrarem-se na onda turva e reflexa no som cambiante, nas sombras difusas que acordam encharcadas da tua ausência do meu exílio e ébrias de [solidão]
695
Também
Também deste poema se morre letra após letra o som inteiro e intenso da palavra que cria rios e desertos e miragens grises como o meio da noite onde o poema descreve arabescos e o agora dissolve os segundos na farsa do tempo que é morte
Também destas horas se fartam o incandescente amargor coleante da areia escorrendo amarela como um rio ruminante entre o passado soturno e o futuro incognoscível que nos mantêm de joelhos há 512 anos
Também nas madrugadas se chora o choro longo ou breve como chora o rio fora do seu leito um choro que se pensa infindo que se chora até se adormecer no engano e na absorta cachaça do sono onde dormem os olhos incompreendidos da infância que nem você conseguiu consolar trazendo a flor ébria e a cinza neblina que se esvaneceu deixando a primeira palavra do poema sem resposta
Também se vive a contemplar o mundo constrangido náufrago anacoreta a estacar diante das reticências da vida a mergulhar no espesso lamento da dor das guerras profetizadas nos gabinetes incesto e morte e o desespero natimorto da platéia diante da face do medo diante do cansaço da espera exilada e da ausência de perguntas enredadas na vontade empoeirada de quem, sequer, vê o muro
Também de fome se vive de sonâmbulas bocas esquecidas esperando o pão nosso de cada dia ardendo em febres e esperanças forretas Pai, perdoai a nossa inércia assim como nós perdoamos a quem nos tem debicado não deixeis cair o parco pão no chão conspurcado pela nossa apatia e pela nossa "candura" livrai-nos dos néscios e da submissão
Amém
635
Maio
Por que maio? e não outro mês qualquer Talvez porque em maio as manhãs acordavam entre neblinas e a graça do teu sorriso inocente Talvez porque em maio você enlaçava o meu pescoço e me dava beijinhos de esquimó tão frios nossos narizes tão linda a tua maneira de se deixar existir Sorrias quando eu dizia que a poesia é como jardins e que as palavras florescem nestes segredos suspensos em nuvens vermelhas em ramos de vento em flores de luas O ano? O ano não importa Infindável é o tempo e a chama que o consome Importante mesmo era que fosse maio e que o beijo me atordoando em ofegantes salivas dissolvesse-me, menino O beijo pousado no teu colo no teu ventre Nas nossas mãos enlaçadas nos nossos olhos fechados faziamos o dia conforme a nossa magia de lentos segundos o tempo parado em cada fibra em cada toque flamante E o amor era maioe de dentro da bruma de um mar que não tinhamos vinham teus olhos de menina tua boca miúda os dedos sobre os lábios entoando o silêncio repentino os segredos ainda úmidos zonzos Meu corpo o mesmo que o teu lenta poesia a desnudar-nos nos teus limites da bruma nos teus calores de sóis nos teus olhos de noite casualmente sem lua Em maio inclinavam-se os dias que traziam você e as tardes de incandescentes ternuras traziam o teu carinho e risos de era uma vez traziam a canção de amor tocando no rádio e a flor ressumando no jardim e brincos de princesa e lírios florescendo no horizonte entre mar e terra para o meu instante de bardo para os meus versos imaturos Vinham os versos com o silêncio que teus dedos em mim compunham sublimes inquietantes inefáveis sonhos a brincar com nossos dias com nossos maios a brincar com amanheceres que ficaram em mim como a estrela esquecida ficou no céu da nossa manhã rondó decifrando a lua e a tua ausência despida ante os meus versos noturnos ante o preto e o branco da vida Eu ainda posso ver teus olhos negros indeléveis me sorrindo desde as rendas diáfanas da neblina dissolvendo-se, assim, na sede da aurora e dos primeiros raios de sol Com a última estrela da manhã eu sinto que o tempo passou, incerto molhando com o teu nome este passado onde me escondi Pingo... para mim serás sempre Pingo Pingo d'água da onde sorvi da tua boca a gota da minha primeira lágrima de amor e de inauditos maios que hoje me trazem os ventos entre cantigas e poesias entre pétreas solidões desvelando esta saudade e este silêncio com os quais recito o teu nome reescrito no lago dos meus sonhos e nas poesias que não te fiz e que adormecem nos meus dias e que derramam nas noites lembranças dentro de mim
767
Sentir
Há momentos em que sentir é como a ausência do postigo por onde poderia, se houvesse, infiltrar-se a voz melíflua do poema É como a carência das manhãs transcedentes e o constante perfume do orvalho no ar É como a garrafa lançada ao mar viajando sob estrelas que por sua vez viajam o éter trazendo mensagens (poemas?) do inicio das eras É como a solidão que se instala transbordando tudo que eu ainda não disse/não fiz É como o som das insidiosas máquinas de guerra que ca(n)tam as velhas canções e reverberam a cantilena de velhos discursos É como o choro silencioso, sem gesto, sem destino, sem começo e sem fim É como um labirinto infinito onde a esperança repousa ingente É como a inelutável noite que envolve e acorda vendavais e a chuva cai parando o tempo, revirando passados reverberando ao som do vento nas telhas E, afinal, que querem as lembranças? Querem um convívio forçado estes sentimentos que tombam e vibram Não sei conviver Há sempre razões definitivas, certezas indubitáveis e a noite que cessa em todas as janelas onde a parca luz amarelada agoniza junto com a minha emoção Onde as iamagens se evolam e o tempo é um truque de um mágico que transforma a eternidade nestes fugidios instantes Às vezes instantes longos, páginas em branco, às vezes cheios de emoção, umedecidos de suspiros que o tempo folheia impunimente A poeisa estremece o singular mistério da noite e dá ao meu sentimento este invisível caminho e esta inefável possiblidade de anotar e rabiscar até perder a razão e colher das flores as cores e o perfume inocente de um verso que chora ou que ri comigo de uma realidade que só existe nele, no verso Eu o olho e o ouço como um menino me olha e me ouve... como se me conhecesse há muito tempo... Um tempo em que só havia poesia no acaso inseguro das manhãs, na tarde que me visita e me espera nos jardins onde flores de papel sorvem as palavras que dizem da brisa crispando as águas do rio, bebendo as pequenas ondas que desaparecem na areia Houve um tempo em que tudo era poesia, madrigais, odes, elegias Versos inconsúteis escritos à cinzas nas páginas da distância e dos momentos onde sentir é como o escorrer da chuva no silêncio dissoluto do espinho da rosa que não há e o perfume da rosa, esbatido pelo vento, ondula em teus cabelos onde dorme a noite O vento argumenta sua quase tristeza, arremete, debalde, as naus contra os portos, acorda meus velhos sonhos sonolentos e empresta-lhes a face de uma lua cheia de um dezembro que ainda não veio Há momentos em que sentir é só como estes sentimentos cativos e estes caminhos cobertos por folhas secas caídas com o vento e com as chuvas nas madrugadas onde me esqueci e me esquecendo o tempo, possesso, me resgata deste teatro e da contumaz mentira que transforma o meu hoje em um ontem irrefreável acumulando-se aurora após aurora ansiando por ser poesia e liberdade Estes momentos em que sentir é como o menino jogando as cinco pedrinhas na praça deserta antes de decidir morrer Quando eu me for qual flor brotará? Branca, vermelha, amarela, lilás, azul...? Que importa? As flores brotarão e levarão o pânico da minha noite e atearão fogo à minha suposta "poesia" incorrigível e alquebrada sentindo o que não sente virando o mundo às avessas antes que a aurora envolva e encubra a voz do poeta e este, então, adormeça
635
Noite após noite eu minto
Acorda a noite sob o cicio das àguas da chuva recendendo à terra molhada e à enigma Nasce a flor na escuridão da noite entre os sonhos úmidos do jardim Aponho no negro céu estrelas sonolentas Sombras esbatem-se à luz liquefeita da lua Sopra a brisa sutil onde pousa um vaga-lume a sua verde luz e o seu reflexo de ilusão Evolam-se nuvens vindas de um passado inapreensível Incendeiam-se imagens no velho e baço espelho, símbolos indecifráveis, cores tingindo o ar Desata-me do cárcere das tuas lembranças, ó noite, que se dispersa nas notas da música ecoando nos olhos lassos de uma madrugada antiga O pássaro passa errante e o meu coração se encanta como a criança que brinca com o espelho olhando o teto como reflexo do chão Caem estrelas na areia que a lua borda O mar repete na penumbra as ondas e os rumores dos rochedos As noites inconsúteis, iguais, iguais, iguais, cobertas pelo pó e pelo simulacro dos segredos do enredo a me escreverem cena após cena sina após sina instante após instante... arquétipos olhando os olhos da morte nos milhões de anos esquecidos no ir e vir dos sonhos que separam o homem e a alma como quem depõe a vida e o destino aos pés do vento que embalde traz as fagulhas do mar e os caminhos solitários dos minutos dissolvidos onde correm meus passos de criança Quantos séculos discorrem o destino leviano dos homens? Quantas mortes hei de subornar e iludir devagar com a antiga pressa? Diante dos sonhos e da possibilidade do retorno eu minto Para não morrer eu minto Noite após noite eu minto
614
Preciso
Preciso Espargir a flor com a água da concha das mãos Cantar a canção Entender a folha branca da ilusão Restituir ao poema a verdade com a qual te amei Esperar no precário minuto o penhor de outra noite outra manhã Acordar a manhã e mergulhar meus dedos em teus cabelos Acordar os anjos e o menino do retrato Beber do orvalho o alivio para a sede eterna
Preciso Apagar o desespero dos passos presos na areia, presos nos espelhos dos sonhos ante o meu rosto Expressar o suspiro o sussurro ermo e terno a saudade sozinha Pressentir da existência o segredo Ter um motivo para ouvir o verso se agora ando desperto e o verso é sonho sílfide em meio ao mar Calar a voz da mentira Tecer a delicada liberdade
Preciso Esperar a carta (que já não se usa mais) que cheirava a cravos rubros amarelas rosas que trazia teu aroma espanhol e, por acaso, um fio do teu cabelo desejo e ânsia que o dia trazia como essência nas tardes que eram só nossas
Preciso De um amigo (e quem não precisa?) que possa escrever a carta que ainda espero Um amigo que saiba da consumação inelutável do existir e do silêncio que pode haver nas palavras e do encanto que pode haver nas palavras e das palavras que podem haver nas palavras fios da urdidura da serena humana alma Um amigo que fale de nostalgias e que tenha brincado em ruas de terra na infância com seu pião batatinha com sua bolinha de gude matadeira Um amigo que colha estrelas nas noites pintadas à mão Que leia a poesia e não reprima a lágrima ou o riso sem explicação Um amigo que saiba do meu sonho e saiba do encanto que os sonhos têm e do devir que os move Um sonho que engane as noites que o próprio sonho desfaz, ah! amor, tão frágil é o passado tão lindo o vento na acácia e nos cabelos das meninas
Preciso Dos dias vagabundos Das ruas de terra Das enxurradas Das flores primordiais Da voz negra da noite Dos teus olhos, prenuncio das noites envolvendo o mundo
Preciso Do sono em teu colo Da inocência nos teus braços Da meiguice nos teus olhos Da nudez casta e ofegante nos teus beijos
Preciso Perder a hora e a compostura Bater à porta da lua Perder os sentidos Mudar-me de vez para a infância, para aquela rua Maria Incendiar a palavra que me define neste instante Escolher a mão esquiva e o gesto que dorme entre as nossas mãos
Peciso Continuar apesar do meu medo Acostumar meus olhos à escuridão Fingir que não sei da guerra Chorar a dor soterrada do homem Suprimir em todos os corações a indiferença Aprender um novo idioma Dormir o pranto e esta melancolia Colocar o passado em seu lugar Ver crescer o outono e as folhas que caem longe do engano das horas, longe do mar Ter tempo, sobretudo, para o morrer da irresoluta persona e, então, calar os ventos Guardar, silenciosamente, a tua ausência
Preciso Desta solidão com o seu manto de sombra bordô vinda com o ocaso do dia, pulsando a noite que se inicia, suspiro de harpa, rumores de poesia
Preciso Desta solidão onde começa e acaba o ser
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Novembros e primaveras
*(Põe nos meus olhos vencidos teus olhos de sombra e lâ)
(Geir Campos) O dia ainda não amanheceu mas a porta para o mar já está aberta neste novembro de primaveras onde há flores e quimeras e nuvens camufladas de algodão e anjos que trocaram céus e astros pelo chão Olha, a porta para o mar já está aberta O vento sopra levando areia para desfazer o dia que escorre rente as paredes de vidro forjando o engano do tempo ido Olha, o dia ainda não amanheceu e já caminha a vazar em dourados arabescos enquanto a canção antiga chora ad aeterno o sonho que deambula pelas praças e pelos parques ante nossos olhos que não o vêem, mas que o coração pressente e a alma se alegra com outros possíveis mundos onde a vida seja sagrada, essencial como grãos de poesia onde a dor seja esquecida nos braços que já se abraçam neste lapso que é a vida onde a manhã vem devagar e *põe nos meus olhos vencidos teus olhos de sombra e lã
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Cansaço
Os pés afundam neste cansaço Afundam no chão que falseia as folhas derrubadas pelos longos ventos que as esquecem
Meus olhos pressupõem o reflexo esbatido da luz Supõem a noite e uma última canção Supõem estrelas, quando a noite se abrir e por detrás dela a lua se debruçar por entre o sol e o mundo
Diante destes mares os pés afundam no cansaço da areia úmida de silêncios e de poemas traquinas e insofismavelmente puerís,
O cansaço se arrasta no tempo, metáfora inelutável da vida, vento desbastando as arestas das sentenças, fragmentos de palavras entretendo a minha noite indistinta,
Brinca com teu nome esta voz em mim que te chama da greta da janela fechada por dois traços de lápis cinza riscados à guisa de tranca, como as sombras que perduram no trêmulo espelho das águas
Às avessas restam a tarde e a chuva caindo como linhas dissolutas Resta o gesto e o pulsar impreciso das horas vazando a bruma da noite que esconde o mar inconcluso
Ante a palavra que não veio perdi o poema A brisa passou incendiando o silêncio O verso ficou entre os espaços da página em branco onde a folha absorve o crepúsculo incolor e a ausência bêbada das sombras douradas que esculpiam as matas, a vida, as pessoas, os passos nos quais me perdi, na luta, na trama, no sopro, no barro onde não vingaram os girassóis
Quem se não o meu cansaço teceria o que no coração poderia ser ilusão ou poesia?
[...]
À tarde o vento soprou, afável A chuva choveu pouquinho e dispersa (dispressa) A noite chegou de improviso Trouxe lembranças, algumas perdas, um breve baque surdo nas águas e os olhos límpidos de quem já vê a primeira estrela nimbada de um sereno fino
Chegaste... Ó tempo sem volta, erguido no ar como quem dança e seca os olhos molhados no ardor do sonho adormecido nas palavras do menino:
"Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal..."
[...]
Inicia-se a madrugada Murmúrio e silêncio Regressam os ventos Faz-se a espera dolente de uma solidão que pergunte dos meus sonhos e da espera, sob a luz enebriante de uma lua de novembro, faz-se o cansaço