J L Silva

J L Silva

n. 1959 BR BR

n. 1959-08-23, Florianópolis

Perfil
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Ausência

Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
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Poemas

43

Trago nas mãos estas águas

Trago nas mãos estas águas

que apanhei naquela fonte

onde deixei lembranças,

onde o passado persegue

o tempo que escorre das âmbulas

Lá ficaram os meus sonhos,

as horas que te amei

Ficaram saudades e ausências,

Ficou a voz da noite

entre estrelas e miragens

refletidas nestas águas

Nestas águas ficaram a palavra,

o poema insondável,

a lenta madrugada

e as derradeiras sombras e luzes

por onde perpassa a aurora



Trago nas mãos estas águas

e este medo persecutório

que me segue insone

desde a primeira hora

quando o sol se desespera

e reflete-se nas grades das

indecifráveis masmorras,

dos imponderáveis momentos

A luz do sol incedeia e vagueia

num dia que nunca tem fim

e que divide-se desde a origem

dos tempos subitamente abertos

pelo mar dobrado e pelas sonoras

ondas batendo guturalmente

nos rochedos



Trago nas mãos estas águas

e a noite prosaica,

e seus labirintos esbatidos

pela compacta penumbra

que flutua levada pelos ventos

murmurantes do outono



Trago nas mãos estas águas

e no olhar, acendendo-se,

uma nódoa de indiferença

que sopra enfunada como

a vela da soberba



Trago nas mãos estas águas

e nos lábios estas palavras

com as quais busco encantar-me,

com as quais fio meus dias

de extrínseca urdidura

Palavras...

Que são as palavras sem o

correpondente ato?

Que triste sina morrer-se

assim, lentamente, como

os olhos que avistam a

tênue manhã desdourando-se

entre o horizonte e o mar?



Trago nas mãos estas águas

como brasas ardendo nas

merencórias manhãs,

círios perenes acesos no

escuro das ânforas onde

escondi meu mundo incerto

e os sonhos feitos destas águas

que trago nas minhas mãos
701

Sentir



Há momentos em que sentir

é como a ausência do postigo

por onde poderia, se houvesse,

infiltrar-se a voz melíflua do poema

É como a carência das manhãs transcedentes

e o constante perfume do orvalho no ar

É como a garrafa lançada ao mar viajando

sob estrelas que por sua vez viajam o éter

trazendo mensagens (poemas?) do inicio das eras

É como a solidão que se instala transbordando

tudo que eu ainda não disse/não fiz

É como o som das insidiosas máquinas de guerra

que ca(n)tam as velhas canções

e reverberam a cantilena de velhos discursos

É como o choro silencioso,

sem gesto,

sem destino,

sem começo

e sem fim

É como um labirinto

infinito

onde a esperança repousa ingente

É como a inelutável noite

que envolve e acorda vendavais

e a chuva cai

parando o tempo,

revirando passados

reverberando ao som do vento nas telhas

E, afinal, que querem as lembranças?

Querem um convívio forçado

estes sentimentos que tombam e vibram

Não sei conviver

Há sempre razões definitivas,

certezas indubitáveis

e a noite que cessa

em todas as janelas

onde a parca luz amarelada

agoniza junto com a minha emoção

Onde as iamagens se evolam

e o tempo é um truque de um mágico

que transforma a eternidade

nestes fugidios instantes

Às vezes instantes longos,

páginas em branco,

às vezes cheios de emoção,

umedecidos de suspiros

que o tempo folheia impunimente

A poeisa estremece o singular

mistério da noite

e dá ao meu sentimento

este invisível caminho

e esta inefável possiblidade

de anotar e rabiscar

até perder a razão

e colher das flores as cores

e o perfume inocente

de um verso que chora

ou que ri comigo

de uma realidade que só existe nele,

no verso

Eu o olho e o ouço como

um menino me olha e me ouve...

como se me conhecesse

há muito tempo...

Um tempo em que só havia poesia

no acaso inseguro das manhãs,

na tarde que me visita

e me espera nos jardins

onde flores de papel sorvem

as palavras que dizem da brisa

crispando as águas do rio,

bebendo as pequenas ondas

que desaparecem na areia

Houve um tempo em que tudo era poesia,

madrigais, odes, elegias

Versos inconsúteis

escritos à cinzas

nas páginas da distância

e dos momentos onde sentir

é como o escorrer da chuva

no silêncio dissoluto do espinho

da rosa que não há

e o perfume da rosa, esbatido pelo vento,

ondula em teus cabelos onde dorme a noite

O vento argumenta sua quase tristeza,

arremete, debalde, as naus contra os portos,

acorda meus velhos sonhos sonolentos

e empresta-lhes a face de uma lua cheia

de um dezembro que ainda não veio

Há momentos em que sentir

é só como estes sentimentos cativos

e estes caminhos cobertos por folhas secas

caídas com o vento e com as chuvas

nas madrugadas onde me esqueci

e me esquecendo

o tempo, possesso,

me resgata deste teatro

e da contumaz mentira

que transforma o meu hoje

em um ontem irrefreável

acumulando-se aurora após aurora

ansiando por ser poesia e liberdade

Estes momentos em que sentir

é como o menino jogando as cinco pedrinhas

na praça deserta

antes de decidir morrer

Quando eu me for qual flor brotará?

Branca, vermelha, amarela, lilás, azul...?

Que importa?

As flores brotarão e levarão

o pânico da minha noite

e atearão fogo à minha suposta "poesia"

incorrigível e alquebrada

sentindo o que não sente

virando o mundo às avessas

antes que a aurora envolva e encubra

a voz do poeta

e este, então, adormeça
628

Soturno





A aurora dissolve-se na mancha


vermelha alaranjada do sol

ressumando na manhã

esbaforindo a face triste do chão ressecado

a tremeluzir tudo o que é no horizonte

O menino nu come o barro queimado

das paredes da casa

Os dedos dessangrados

de cavocar as paredes mortas

pelo sol desgarrado

No infinito da paisagem desolada,

ondulando no ar,

galhos secos e uma cisma de esperança

A esfera rubra do sol soluça de sede

abrasando as pedras que assomam sobre

as estações desfeitas

em poeira vermelha e pegajosa

Nem inverno nem verão

nem outono nem primavera

Tudo a mesma poeira grossa,

o mesmo torrão rachado de chão,

as mesmas mãos vazias,

o mesmo olhar sedento para o céu

A vida passando sem pressa

morosa em se acabar

enchendo o vento de soluços

As flores e os frutos não se modelam

no barro seco indistinto

e na paciência dos quintais

que sangram o que um dia foi mar

As mulheres carpem os cântaros vazios

sorvendo dos lábios a sede

No céu nenhuma ave,

na terra nenhuma criação sob as sombras

dos galhos secos das árvores

A vida carecendo de sentido e de tamanho

Carecendo de saberes e outras palavras

tão uivantes quanto o silêncio que,

embaraçado nos gravetos

que rolam pela terra em fogo,

insiste em ser a trilha dos dias

amorfos e anônimos

onde o rio inexiste sem rumo

e só o vento quente tem vida



O menino nu carece do barro custoso das paredes

e de um olhar de esquecimento

que esqueça a sombra da tristeza

e do desassossego

que o tire da letargia destas terras

que evolam-se no ar esturricado



Chora o menino nos seus poucos anos

a tocaia que a vida deserta de si inventou

Suja os pés neste ar solitário que seca

a lágrima no rosto vincado pela terra

e pelo medo

máscara informe de poeira e suor



Ao longe a tarde crepita em brasas

tremeluzindo o braseiro de tudo a sua volta

O sol oscila num céu se dissolvendo

em vermelhos

O olhar incendiado pressente a noite

adejando portas e janelas

O dia mastigou o menino e deixou-o

nos braços magros da noite inerte que se rompe

nas lascas das paredes em soluços

A terra ressequida não dá cor ao noturno cantochão

com que a noite põe fim ao dia

A noite denota a imarcescível lua e um ror

de estrelas, colunas de um antigo templo,

de um antigo tempo, de antigos guias

poeira derramada nos milhões de anos,

trazendo para as noites seus olhos afeitos

a viajarem nos céus de poeiras também

A fome deita o menino e seus olhos cansados

Ouve-se soluços entremeados de suspiros

As indagações adormecem

nas ilhas sonâmbulas dos astros

e na impermanência do destino

A noite se aquieta

Silenciam as pedras que há pouco crepitavam

sob o braseiro urdido com as mãos coruscantes

de um sol que parecia brotar

do centro flamante da terra

O menino dorme

a sua infância exilada

Num canto escuro da vida

a casa geme ao passar do vento pelas taquaras

A lua, silente, alumia as veredas insones

Nestes cantos não tem flores nem jardins

Só a poeira grossa igual

a dos meses e anos anteriores

e as crassas paredes que se vai comendo

aos pouquinhos

conforme a carência e a tristeza

esquecidas, aqui, em todo lugar
606

Versos úmidos

No rio hierático e cativo da poesia

dormitam todos os sonhos que

eu não soube sonhar

cabem todos os sígnos

e tantas outras palavras cuja

simples expressão faz o

tempo difuso flutuar

e os dias e as noites

perpassarem implacáveis

nos vales onde correm e soluçam

as águas perenes e avermelhadas

dos rios que choram e suspiram

ao ouvirem as pétalas dos versos

que caem

e pelo perfume da névoa umedecendo

o sussurro da aragem ondulando

no bambuzal



Nesta brisa soprando nas noites azuis

evolam-se estrelas deitando fagulhas

ao vento

urdindo nuvens de algodão

e abrindo o remanso onde cabem os

meus silêncios quietos e vulneráveis

cabem estes ecos de nostalgia

e aonde acorre meus olhos

buscando teus passos nas

tardes iluminadas pela ternura

transparente e comovida de um sol

caminhando para a noite sem sono

e onde uma lua derramando prata

admira na inquietude da madrugada

os sinos a dobrarem as horas

e a voz do vento doce e distante



Nesta chuva turva que embaça o dia

lanço barquinhos de papel

Ouço saudades tamborilando no telhado

no plim plim plim dos pingos pingando

É final de primavera

Os ypês já floritam e suas flores pequenas

cobriram o solo em sombras amarelas

brancas luas

ametistas roxas

A noite treme sobre o mar

e o vento recita versos solitários de sal

e séculos na noite que freme sobrer o mar

No poema que se abre e fere a tua lembrança

morre um menino

pequeno viajante de tempos e de sonhos

tão pequeno e já envolto em solidões

tão pequeno para a angústia dos séculos

corpo sem alma

guarda sua lata de barbante e areia

para o incognoscível amanhã



Nestas mãos que amalgamam o ar em busca

de desertas madrugadas

cabem o anjo

e o aroma angelical dos jasmins

cabem a voz da flor

e a aurora que resplandece em ouros e azuis



Nestas mãos que tocam o noturno escuro

e vário

e que tocaram teu rosto

enlaçaram a tua mão

acarinharam teus cabelos

acenaram um adeus no vento triste de uma

tarde sem nome

nestas mãos ficou a nívea flor dos teus seios

e todo o lento silêncio que embebe a poesia

Estas mãos,

molhadas pelas chamas das lágrimas,

não sabem da saudade que

eu sinto dos caminhos que andei

sob espelhos

A imagem invertida fazia voar meus pés



Estas mãos...

Estas mãos não sabem da saudade que

eu sinto da noite negra dos teus olhos

Nem estas mãos

nem os anos todos que passaram,

nem as estrelas que cairam sobre o

caminho de pedra

enquanto eu te esperava

nem as noites

nas quais teu beijo não era meu



E na rua, entre teus braços,

a noite escondia a eternidade

A lua, lírica esfera sob o pêndulo negro

do céu, vestia de cinza o extenso mar

cortado pelas ondas e entregue às terras

pelas marés

As águas erram na penumbra indecifrável

que a tua ausência deixou

e levam consigo as canções e os versos,

sem métrica e sem limites,

com os quais te amei
699

Também



Também deste poema se morre

letra após letra

o som inteiro e intenso da palavra

que cria rios e desertos e miragens

grises como o meio da noite

onde o poema descreve arabescos

e o agora dissolve os segundos

na farsa do tempo que é morte



Também destas horas se fartam

o incandescente amargor coleante

da areia escorrendo amarela

como um rio ruminante

entre o passado soturno

e o futuro incognoscível

que nos mantêm de joelhos

há 512 anos



Também nas madrugadas se chora

o choro longo ou breve

como chora o rio fora do seu leito

um choro que se pensa infindo

que se chora até se adormecer

no engano

e na absorta cachaça do sono

onde dormem os olhos incompreendidos

da infância

que nem você conseguiu consolar

trazendo a flor ébria e a cinza neblina

que se esvaneceu deixando

a primeira palavra do poema

sem resposta



Também se vive a contemplar o mundo

constrangido

náufrago

anacoreta

a estacar diante das reticências da vida

a mergulhar no espesso lamento da dor

das guerras profetizadas nos gabinetes

incesto e morte

e o desespero natimorto da platéia

diante da face do medo

diante do cansaço da espera exilada

e da ausência de perguntas

enredadas na vontade empoeirada

de quem, sequer, vê o muro



Também de fome se vive

de sonâmbulas bocas esquecidas

esperando o pão nosso de cada dia

ardendo em febres

e esperanças forretas

Pai,

perdoai a nossa inércia

assim como nós perdoamos

a quem nos tem debicado

não deixeis cair o parco pão

no chão conspurcado

pela nossa apatia

e pela nossa "candura"

livrai-nos dos néscios

e da submissão



Amém
632

Cansaço

Os pés afundam neste cansaço

Afundam no chão que falseia as folhas

derrubadas pelos longos ventos

que as esquecem



Meus olhos pressupõem o reflexo esbatido da luz

Supõem a noite e uma última canção

Supõem estrelas,

quando a noite se abrir

e por detrás dela a lua se debruçar

por entre o sol e o mundo



Diante destes mares

os pés afundam no cansaço

da areia úmida de silêncios

e de poemas traquinas

e insofismavelmente puerís,



O cansaço se arrasta no tempo,

metáfora inelutável da vida,

vento desbastando as arestas

das sentenças,

fragmentos de palavras

entretendo a minha noite indistinta,



Brinca com teu nome

esta voz em mim que te chama

da greta da janela fechada

por dois traços de lápis cinza

riscados à guisa de tranca,

como as sombras que perduram

no trêmulo espelho das águas



Às avessas restam a tarde

e a chuva caindo como linhas dissolutas

Resta o gesto e o pulsar impreciso

das horas vazando a bruma da noite

que esconde o mar inconcluso



Ante a palavra que não veio

perdi o poema

A brisa passou incendiando

o silêncio

O verso ficou entre os espaços

da página em branco

onde a folha absorve o crepúsculo

incolor

e a ausência bêbada das sombras

douradas que esculpiam

as matas,

a vida,

as pessoas,

os passos nos quais me perdi,

na luta,

na trama,

no sopro,

no barro

onde não vingaram os girassóis



Quem se não o meu cansaço teceria

o que no coração poderia

ser ilusão

ou poesia?



[...]



À tarde o vento soprou, afável

A chuva choveu pouquinho e dispersa

(dispressa)

A noite chegou de improviso

Trouxe lembranças,

algumas perdas,

um breve baque surdo nas águas

e os olhos límpidos de quem

já vê a primeira estrela

nimbada de um sereno fino



Chegaste...

Ó tempo sem volta,

erguido no ar como quem dança

e seca os olhos molhados

no ardor do sonho adormecido

nas palavras do menino:



"Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal..."



[...]



Inicia-se a madrugada

Murmúrio e silêncio

Regressam os ventos

Faz-se a espera

dolente de uma solidão

que pergunte dos meus sonhos

e da espera,

sob a luz enebriante de uma

lua de novembro,

faz-se o cansaço
660

Escrevo a poesia que ninguém lerá



Ao longe a música chia

no antigo gramofone do dia

quente deste final de novembro

apagando o trinar dos passáros

que os céus levam até o mar

debruado com as velas ao vento

dos barcos executando os acordes

das canções de alguma infância



Gaivotas voam acima dos meus medos,

acima das canções inacabadas,

da angústia inútil de não esquecer

e da poesia escrita na bruma da manhã

estampada na primeira hora

atada ao dia que veio com o vento

na primeira flor

na primeira dor



Escrevo a poesia que ninguém lerá

Escrevo para as sombras

da minha infância

Escrevo porque sinto

e porque a palavra me liberta

E é esta é a minha culpa maior:

dizer o que não fui,

falar do inapto que ainda sou

Só o que sinto

e o que minto

de mim para mim

é o que fica de mim na aléia

por onde caminha o Mistério

na poeira quente das estradas

sem encontros,

nem companhia



Ando a olhar para o céu

buscando no trilar das aves,

os pássaros origami

que me habitam

e me trazem, assim,

este amor impossível

pela coisas instadas,

pelas estrelas

e seus poemas,

que não se extinguem

e movem-se sem cessar

ao nosso encontro?



No velho espelho contemplo

a chama da infância

Tuas mãos pequeninas

aquecidas ao sol

de um inverno ofuscando,

os teus olhos negros,

teu corpo recendendo

à paixão e à ternura



Da janela do quarto

ainda vejo dormir a noite

Vejo dormitar o passado

sob a luz de candeia

de uma lua iluminando a alma,

sem, no entanto, separar

a solidão destes versos

que me sopram



Os pássaros regressam de muito longe

atravessam a noite,

inocentes,

desfazendo o silêncio

com o branco das suas asas

Procuro no escuro,

tateio suas silhuetas esguias,

da onde virão?

Trarão um ramo no bico?

Os pés molhados de mar?



Em meio as estrelas adormecidas

a lua irrompe pela janela dos sonhos

Encosto a mão na face molhada do sono,

digo um segredo,

calo um grito,

sussurro o desejo de partir,

sentindo a areia fria das dunas

como se a areia houvesse sido o meu mundo,

só e esbatido pelas gotas de sereno

que serão o orvalho da manhã sem nome

e que não demora a chegar na praça

acordando os pombos e os seus arrulhos

balançando as matas ao rumor do dia

lançando as primeiras gotas no mar

resplandecendo nos rochedos

caminhando para o verão

perfumado de primaveras,

refletindo luzes de outonos,

sob um céu nacarado de inverno



As nuvens passam singrando os céus,

barcos de algodão,

rendas no jardim onde brotam

os versos que podem dizer às almas

o ouro da liberdade latente no átomo

imarcescível de cada novo dia,

abstrato como o papiro

a escorrer as palavras do que seria

um poema

ou a chuva caindo

errante

e terna
631

Maio





Por que maio?

e não outro mês qualquer

Talvez porque em maio

as manhãs acordavam entre

neblinas e a graça do teu

sorriso inocente

Talvez porque em maio

você enlaçava o meu pescoço

e me dava beijinhos de

esquimó

tão frios nossos narizes

tão linda a tua maneira

de se deixar existir

Sorrias quando eu dizia que

a poesia é como jardins

e que as palavras florescem

nestes segredos suspensos

em nuvens vermelhas

em ramos de vento

em flores de luas

O ano?

O ano não importa

Infindável é o tempo

e a chama que o consome

Importante mesmo

era que fosse maio

e que o beijo

me atordoando

em ofegantes salivas

dissolvesse-me, menino

O beijo pousado no teu colo

no teu ventre

Nas nossas mãos enlaçadas

nos nossos olhos fechados

faziamos o dia conforme

a nossa magia de lentos segundos

o tempo parado em cada fibra

em cada toque flamante

E o amor era maioe de dentro da bruma

de um mar que não tinhamos

vinham teus olhos de menina

tua boca miúda

os dedos sobre os lábios

entoando o silêncio repentino

os segredos ainda úmidos

zonzos

Meu corpo o mesmo que o teu

lenta poesia a desnudar-nos

nos teus limites da bruma

nos teus calores de sóis

nos teus olhos de noite

casualmente sem lua

Em maio inclinavam-se os dias

que traziam você e as tardes

de incandescentes ternuras

traziam o teu carinho

e risos de era uma vez

traziam a canção de amor

tocando no rádio

e a flor ressumando no jardim

e brincos de princesa

e lírios florescendo no

horizonte

entre mar e terra

para o meu instante

de bardo

para os meus versos

imaturos

Vinham os versos

com o silêncio

que teus dedos

em mim compunham

sublimes

inquietantes

inefáveis sonhos

a brincar com nossos dias

com nossos maios

a brincar com amanheceres

que ficaram em mim

como a estrela esquecida

ficou no céu da nossa manhã

rondó decifrando a lua

e a tua ausência despida

ante os meus versos noturnos

ante o preto e o branco da vida

Eu ainda posso ver

teus olhos negros

indeléveis

me sorrindo

desde as rendas diáfanas da neblina

dissolvendo-se, assim,

na sede da aurora

e dos primeiros raios de sol

Com a última estrela da manhã

eu sinto que o tempo passou,

incerto

molhando com o teu nome

este passado onde me escondi

Pingo...

para mim serás sempre Pingo

Pingo d'água

da onde sorvi da tua boca

a gota da minha

primeira lágrima de amor

e de inauditos maios

que hoje me trazem os ventos

entre cantigas e poesias

entre pétreas solidões

desvelando esta saudade

e este silêncio

com os quais recito o teu nome

reescrito no lago dos meus sonhos

e nas poesias que não te fiz

e que adormecem nos meus dias

e que derramam nas noites

lembranças dentro de mim
762

Noite após noite eu minto

Acorda a noite sob o cicio das àguas da chuva
recendendo à terra molhada e à enigma
Nasce a flor na escuridão da noite
entre os sonhos úmidos do jardim
Aponho no negro céu estrelas sonolentas
Sombras esbatem-se à luz liquefeita da lua
Sopra a brisa sutil onde pousa um vaga-lume
a sua verde luz e o seu reflexo de ilusão
Evolam-se nuvens vindas de um passado inapreensível
Incendeiam-se imagens no velho e baço espelho,
símbolos indecifráveis,
cores tingindo o ar
Desata-me do cárcere das tuas lembranças, ó noite,
que se dispersa nas notas da música ecoando
nos olhos lassos de uma madrugada antiga
O pássaro passa errante e o meu coração se encanta
como a criança que brinca com o espelho
olhando o teto como reflexo do chão
Caem estrelas na areia que a lua borda
O mar repete na penumbra as ondas e os rumores dos rochedos
As noites inconsúteis,
iguais,
iguais,
iguais,
cobertas pelo pó e pelo simulacro
dos segredos do enredo a me escreverem
cena após cena
sina após sina
instante após instante...
arquétipos olhando os olhos da morte
nos milhões de anos esquecidos no ir e vir dos sonhos
que separam o homem e a alma
como quem depõe a vida e o destino aos pés do vento
que embalde traz as fagulhas do mar
e os caminhos solitários dos minutos dissolvidos
onde correm meus passos de criança
Quantos séculos discorrem o destino leviano dos homens?
Quantas mortes hei de subornar
e iludir devagar com a antiga pressa?
Diante dos sonhos
e da possibilidade do retorno eu minto
Para não morrer eu minto
Noite após noite eu minto
610

Preciso





Preciso

Espargir a flor

com a água da concha das mãos

Cantar a canção

Entender a folha branca da ilusão

Restituir ao poema

a verdade com a qual te amei

Esperar no precário minuto

o penhor de outra noite

outra manhã

Acordar a manhã

e mergulhar meus dedos em teus cabelos

Acordar os anjos e o menino do retrato

Beber do orvalho

o alivio para a sede eterna



Preciso

Apagar o desespero

dos passos presos na areia,

presos nos espelhos

dos sonhos ante o meu rosto

Expressar o suspiro

o sussurro ermo e terno

a saudade sozinha

Pressentir da existência o segredo

Ter um motivo para ouvir o verso

se agora ando desperto

e o verso é sonho sílfide em meio ao mar

Calar a voz da mentira

Tecer a delicada liberdade



Preciso

Esperar a carta

(que já não se usa mais)

que cheirava a cravos rubros

amarelas rosas

que trazia teu aroma espanhol

e, por acaso,

um fio do teu cabelo

desejo e ânsia que o dia trazia

como essência nas tardes

que eram só nossas



Preciso

De um amigo

(e quem não precisa?)

que possa escrever a carta

que ainda espero

Um amigo que saiba da consumação

inelutável do existir

e do silêncio que pode haver

nas palavras

e do encanto que pode haver

nas palavras

e das palavras

que podem haver nas palavras

fios da urdidura da serena

humana alma

Um amigo que fale de nostalgias

e que tenha brincado em ruas de terra

na infância

com seu pião batatinha

com sua bolinha de gude matadeira

Um amigo que colha estrelas

nas noites pintadas à mão

Que leia a poesia

e não reprima a lágrima

ou o riso sem explicação

Um amigo que saiba do meu sonho

e saiba do encanto que os sonhos têm

e do devir que os move

Um sonho que engane as noites

que o próprio sonho desfaz,

ah! amor, tão frágil é o passado

tão lindo o vento na acácia

e nos cabelos das meninas



Preciso

Dos dias vagabundos

Das ruas de terra

Das enxurradas

Das flores primordiais

Da voz negra da noite

Dos teus olhos,

prenuncio das noites

envolvendo o mundo



Preciso

Do sono em teu colo

Da inocência nos teus braços

Da meiguice nos teus olhos

Da nudez casta

e ofegante nos teus beijos



Preciso

Perder a hora

e a compostura

Bater à porta da lua

Perder os sentidos

Mudar-me

de vez para a infância,

para aquela rua Maria

Incendiar a palavra

que me define neste instante

Escolher a mão esquiva

e o gesto que dorme

entre as nossas mãos



Peciso

Continuar

apesar do meu medo

Acostumar

meus olhos à escuridão

Fingir

que não sei da guerra

Chorar

a dor soterrada do homem

Suprimir

em todos os corações a indiferença

Aprender

um novo idioma

Dormir

o pranto e esta melancolia

Colocar o passado em seu lugar

Ver crescer o outono

e as folhas que caem longe

do engano das horas,

longe do mar

Ter tempo,

sobretudo,

para o morrer

da irresoluta persona

e, então, calar os ventos

Guardar, silenciosamente,

a tua ausência



Preciso

Desta solidão

com o seu manto de sombra bordô

vinda com o ocaso do dia,

pulsando a noite que se inicia,

suspiro de harpa,

rumores de poesia



Preciso

Desta solidão

onde começa e acaba o ser
703

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