Na manhã que te levou Na tarde que não se cala No beijo que não te esquece No abraço que ainda aquece Na noite que te esperou Na cama onde agora dorme o frio Na tua ausência doída Num quarto vago e vazio A saudade deita seu corpo Junto ao teu corpo macio
Depois da chuva a tarde se fez dourada O sol debruando em vermelhos o vento que passa E canta Canta a canção E entoa os versos candentes da ausência Suspeitando do sentido da vida pouca Da pouca vida Dos parcos passos miúdos e urgentes Cantam os pássaros outras razões São melodia e compasso da tarde que se farta De cores e sons e incandescentes vermelhos A tarde flana na quietude dos jardins E na presciência das flores nos jardins Está tudo tão quieto... Tudo tão longe Este silêncio sem voz Estes segredos agonizantes no ar Esta pele perfumando a vida em volta Esta esfinge que me inquiri incansavelmente Estes caminhos remotos Onde já não me sei Quando já não me sou Fecho meus olhos cansados de não ver E sinto o ar difuso no labirinto das perguntas sem respostas Respostas que não há ou, se houver, São grades e colunas a sustentarem As prisões erguidas sobre os campos de crenças e ilusões Nada existe independente da sombra e da luz Tudo é sonho e engano fora do Amor Mara é o sonho vígil De onde só há uma porta para a fuga Arde no horizonte o sol poente e o enigma de todos os dias Minhas mãos fugidiças E úmidas da mais plena solidão Selam os lábios à memória dos olhos negros Que desde cedo me fitam Que desde sempre me têm Olhos que o amor primeiro pôs no barquinho de papel Rumo à ilha que emerge nos pingos da chuva Rumo às sombras abandonadas de uma vida pouca Sentimentos poucos Muitos medos A ilusão que baste Mas há a renitente expressão do amor Ou do que fizeram dele Há a indelével sombra do mar A sombra do mar é o que as palavras não são Sinto saudades do cheiro do mar Da maresia O intangível mar desenhando agonias na areia Ouço o mar esbatendo os vermelhos da tarde Ouço aqui, sozinho, a canção da tarde calma A tarde é o momento cravado no vazio de um tempo ignoto É pouca para o destino que os dias roubam ao eco dos caminhos E é pouca a tarde para tanto amor É pouca a tarde para o carinho É pouca a tarde Vaga e alheia Escondida entre palavras distantes e dissimuladas Encoberta pelo véu da indiferença Onde o que eu sou é quase nada Não fosse esta rosa branca no jardim (Que só existe e floresce dentro de mim)
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Versos úmidos
No rio hierático e cativo da poesia dormitam todos os sonhos que eu não soube sonhar cabem todos os sígnos e tantas outras palavras cuja simples expressão faz o tempo difuso flutuar e os dias e as noites perpassarem implacáveis nos vales onde correm e soluçam as águas perenes e avermelhadas dos rios que choram e suspiram ao ouvirem as pétalas dos versos que caem e pelo perfume da névoa umedecendo o sussurro da aragem ondulando no bambuzal
Nesta brisa soprando nas noites azuis evolam-se estrelas deitando fagulhas ao vento urdindo nuvens de algodão e abrindo o remanso onde cabem os meus silêncios quietos e vulneráveis cabem estes ecos de nostalgia e aonde acorre meus olhos buscando teus passos nas tardes iluminadas pela ternura transparente e comovida de um sol caminhando para a noite sem sono e onde uma lua derramando prata admira na inquietude da madrugada os sinos a dobrarem as horas e a voz do vento doce e distante
Nesta chuva turva que embaça o dia lanço barquinhos de papel Ouço saudades tamborilando no telhado no plim plim plim dos pingos pingando É final de primavera Os ypês já floritam e suas flores pequenas cobriram o solo em sombras amarelas brancas luas ametistas roxas A noite treme sobre o mar e o vento recita versos solitários de sal e séculos na noite que freme sobrer o mar No poema que se abre e fere a tua lembrança morre um menino pequeno viajante de tempos e de sonhos tão pequeno e já envolto em solidões tão pequeno para a angústia dos séculos corpo sem alma guarda sua lata de barbante e areia para o incognoscível amanhã
Nestas mãos que amalgamam o ar em busca de desertas madrugadas cabem o anjo e o aroma angelical dos jasmins cabem a voz da flor e a aurora que resplandece em ouros e azuis
Nestas mãos que tocam o noturno escuro e vário e que tocaram teu rosto enlaçaram a tua mão acarinharam teus cabelos acenaram um adeus no vento triste de uma tarde sem nome nestas mãos ficou a nívea flor dos teus seios e todo o lento silêncio que embebe a poesia Estas mãos, molhadas pelas chamas das lágrimas, não sabem da saudade que eu sinto dos caminhos que andei sob espelhos A imagem invertida fazia voar meus pés
Estas mãos... Estas mãos não sabem da saudade que eu sinto da noite negra dos teus olhos Nem estas mãos nem os anos todos que passaram, nem as estrelas que cairam sobre o caminho de pedra enquanto eu te esperava nem as noites nas quais teu beijo não era meu
E na rua, entre teus braços, a noite escondia a eternidade A lua, lírica esfera sob o pêndulo negro do céu, vestia de cinza o extenso mar cortado pelas ondas e entregue às terras pelas marés As águas erram na penumbra indecifrável que a tua ausência deixou e levam consigo as canções e os versos, sem métrica e sem limites, com os quais te amei
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Escrevo a poesia que ninguém lerá
Ao longe a música chia no antigo gramofone do dia quente deste final de novembro apagando o trinar dos passáros que os céus levam até o mar debruado com as velas ao vento dos barcos executando os acordes das canções de alguma infância
Gaivotas voam acima dos meus medos, acima das canções inacabadas, da angústia inútil de não esquecer e da poesia escrita na bruma da manhã estampada na primeira hora atada ao dia que veio com o vento na primeira flor na primeira dor
Escrevo a poesia que ninguém lerá Escrevo para as sombras da minha infância Escrevo porque sinto e porque a palavra me liberta E é esta é a minha culpa maior: dizer o que não fui, falar do inapto que ainda sou Só o que sinto e o que minto de mim para mim é o que fica de mim na aléia por onde caminha o Mistério na poeira quente das estradas sem encontros, nem companhia
Ando a olhar para o céu buscando no trilar das aves, os pássaros origami que me habitam e me trazem, assim, este amor impossível pela coisas instadas, pelas estrelas e seus poemas, que não se extinguem e movem-se sem cessar ao nosso encontro?
No velho espelho contemplo a chama da infância Tuas mãos pequeninas aquecidas ao sol de um inverno ofuscando, os teus olhos negros, teu corpo recendendo à paixão e à ternura
Da janela do quarto ainda vejo dormir a noite Vejo dormitar o passado sob a luz de candeia de uma lua iluminando a alma, sem, no entanto, separar a solidão destes versos que me sopram
Os pássaros regressam de muito longe atravessam a noite, inocentes, desfazendo o silêncio com o branco das suas asas Procuro no escuro, tateio suas silhuetas esguias, da onde virão? Trarão um ramo no bico? Os pés molhados de mar?
Em meio as estrelas adormecidas a lua irrompe pela janela dos sonhos Encosto a mão na face molhada do sono, digo um segredo, calo um grito, sussurro o desejo de partir, sentindo a areia fria das dunas como se a areia houvesse sido o meu mundo, só e esbatido pelas gotas de sereno que serão o orvalho da manhã sem nome e que não demora a chegar na praça acordando os pombos e os seus arrulhos balançando as matas ao rumor do dia lançando as primeiras gotas no mar resplandecendo nos rochedos caminhando para o verão perfumado de primaveras, refletindo luzes de outonos, sob um céu nacarado de inverno
As nuvens passam singrando os céus, barcos de algodão, rendas no jardim onde brotam os versos que podem dizer às almas o ouro da liberdade latente no átomo imarcescível de cada novo dia, abstrato como o papiro a escorrer as palavras do que seria um poema ou a chuva caindo errante e terna
634
Também
Também deste poema se morre letra após letra o som inteiro e intenso da palavra que cria rios e desertos e miragens grises como o meio da noite onde o poema descreve arabescos e o agora dissolve os segundos na farsa do tempo que é morte
Também destas horas se fartam o incandescente amargor coleante da areia escorrendo amarela como um rio ruminante entre o passado soturno e o futuro incognoscível que nos mantêm de joelhos há 512 anos
Também nas madrugadas se chora o choro longo ou breve como chora o rio fora do seu leito um choro que se pensa infindo que se chora até se adormecer no engano e na absorta cachaça do sono onde dormem os olhos incompreendidos da infância que nem você conseguiu consolar trazendo a flor ébria e a cinza neblina que se esvaneceu deixando a primeira palavra do poema sem resposta
Também se vive a contemplar o mundo constrangido náufrago anacoreta a estacar diante das reticências da vida a mergulhar no espesso lamento da dor das guerras profetizadas nos gabinetes incesto e morte e o desespero natimorto da platéia diante da face do medo diante do cansaço da espera exilada e da ausência de perguntas enredadas na vontade empoeirada de quem, sequer, vê o muro
Também de fome se vive de sonâmbulas bocas esquecidas esperando o pão nosso de cada dia ardendo em febres e esperanças forretas Pai, perdoai a nossa inércia assim como nós perdoamos a quem nos tem debicado não deixeis cair o parco pão no chão conspurcado pela nossa apatia e pela nossa "candura" livrai-nos dos néscios e da submissão
Amém
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Soturno
A aurora dissolve-se na mancha vermelha alaranjada do sol ressumando na manhã esbaforindo a face triste do chão ressecado a tremeluzir tudo o que é no horizonte O menino nu come o barro queimado das paredes da casa Os dedos dessangrados de cavocar as paredes mortas pelo sol desgarrado No infinito da paisagem desolada, ondulando no ar, galhos secos e uma cisma de esperança A esfera rubra do sol soluça de sede abrasando as pedras que assomam sobre as estações desfeitas em poeira vermelha e pegajosa Nem inverno nem verão nem outono nem primavera Tudo a mesma poeira grossa, o mesmo torrão rachado de chão, as mesmas mãos vazias, o mesmo olhar sedento para o céu A vida passando sem pressa morosa em se acabar enchendo o vento de soluços As flores e os frutos não se modelam no barro seco indistinto e na paciência dos quintais que sangram o que um dia foi mar As mulheres carpem os cântaros vazios sorvendo dos lábios a sede No céu nenhuma ave, na terra nenhuma criação sob as sombras dos galhos secos das árvores A vida carecendo de sentido e de tamanho Carecendo de saberes e outras palavras tão uivantes quanto o silêncio que, embaraçado nos gravetos que rolam pela terra em fogo, insiste em ser a trilha dos dias amorfos e anônimos onde o rio inexiste sem rumo e só o vento quente tem vida
O menino nu carece do barro custoso das paredes e de um olhar de esquecimento que esqueça a sombra da tristeza e do desassossego que o tire da letargia destas terras que evolam-se no ar esturricado
Chora o menino nos seus poucos anos a tocaia que a vida deserta de si inventou Suja os pés neste ar solitário que seca a lágrima no rosto vincado pela terra e pelo medo máscara informe de poeira e suor
Ao longe a tarde crepita em brasas tremeluzindo o braseiro de tudo a sua volta O sol oscila num céu se dissolvendo em vermelhos O olhar incendiado pressente a noite adejando portas e janelas O dia mastigou o menino e deixou-o nos braços magros da noite inerte que se rompe nas lascas das paredes em soluços A terra ressequida não dá cor ao noturno cantochão com que a noite põe fim ao dia A noite denota a imarcescível lua e um ror de estrelas, colunas de um antigo templo, de um antigo tempo, de antigos guias poeira derramada nos milhões de anos, trazendo para as noites seus olhos afeitos a viajarem nos céus de poeiras também A fome deita o menino e seus olhos cansados Ouve-se soluços entremeados de suspiros As indagações adormecem nas ilhas sonâmbulas dos astros e na impermanência do destino A noite se aquieta Silenciam as pedras que há pouco crepitavam sob o braseiro urdido com as mãos coruscantes de um sol que parecia brotar do centro flamante da terra O menino dorme a sua infância exilada Num canto escuro da vida a casa geme ao passar do vento pelas taquaras A lua, silente, alumia as veredas insones Nestes cantos não tem flores nem jardins Só a poeira grossa igual a dos meses e anos anteriores e as crassas paredes que se vai comendo aos pouquinhos conforme a carência e a tristeza esquecidas, aqui, em todo lugar
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Manhã de domingo
Manhã de domingo Dia nublado A vida acorda sem o instante amarelo e menino do sol Na rua soa a monotonia dos ruídos dos carros a encobrir a vida e ignorar a barulhenta certeza da sandice que o homem acalenta O homo sapiens sapiens fere a cidade suprimindo o silêncio e encobrindo a Voz imanente à Alma E a cidade geme e explode e grita... Um alarme dispara para proclamar em voz alta a insensatez humana Indiferentes à insanidade pássaros cantam Nas árvores os pássaros aliam-se aos anjos, e cantam, por que é de ser pássaro cantar Em algum lugar um bem-te-vi lança, súbito no ar, o seu mantra: bem-te-viiii Outros pássaros se manifestam, cada um no seu idioma, encobertos pelo ruído dos carros São tristezas a vida nesta incessante dicotomia, nesta afronta plangente onde a vida caminha para o ignaro fim Em algum lugar da cidade nasce uma flor, em um jardim? Uma flor irremovível, que alguém espera Nasce a flor e com ela nasce mais um verso e quando a chuva cair o verso se fará poesia, independente da ignomínia daqueles para quem o amor e a poesia têm outra existência, outro devir que não o de ser amor e poesia Mas, a flor desabrocha, por que é do sentido da vida da flor desabrochar Flor de orvalho e eflúvios de estrelas mais um acalanto de ternura dos poetas, mais um milagre em busca do equilíbrio Nasce a flor e o som da flor nascendo confunde-se com o som do Universo expandindo-se e contraindo-se Há na vida e na morte expansão e contração Nascer é fazer um pacto silente com a morte e a cada instante a impermanência entoa, nua, o cântico cego do tempo a passar indolente após o giro da ampulheta, após a intimidade do amor Após o exílio silencioso da minha face na candura do teu colo e dos versos trêmulos que leio de olhos fechados, com as pontas dos dedos na manhã nublada de domingo onde borboletas voejam aprendendo as flores para apagar as noites crispadas pelo teu nome nos ventos Os pássaros cantam sonora e comoventemente compondo a claridade do verão com a qual o Amor entrará pela minha janela e o sol se fará atado ao instante absorto dos meus olhos
(*É a poesia ficando repentinamente como a lembrança da primeira noite em todas as outras noites...)
*Lêdo Ivo in Poesia Completa - 1940 - 2004
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Sentir
Há momentos em que sentir é como a ausência do postigo por onde poderia, se houvesse, infiltrar-se a voz melíflua do poema É como a carência das manhãs transcedentes e o constante perfume do orvalho no ar É como a garrafa lançada ao mar viajando sob estrelas que por sua vez viajam o éter trazendo mensagens (poemas?) do inicio das eras É como a solidão que se instala transbordando tudo que eu ainda não disse/não fiz É como o som das insidiosas máquinas de guerra que ca(n)tam as velhas canções e reverberam a cantilena de velhos discursos É como o choro silencioso, sem gesto, sem destino, sem começo e sem fim É como um labirinto infinito onde a esperança repousa ingente É como a inelutável noite que envolve e acorda vendavais e a chuva cai parando o tempo, revirando passados reverberando ao som do vento nas telhas E, afinal, que querem as lembranças? Querem um convívio forçado estes sentimentos que tombam e vibram Não sei conviver Há sempre razões definitivas, certezas indubitáveis e a noite que cessa em todas as janelas onde a parca luz amarelada agoniza junto com a minha emoção Onde as iamagens se evolam e o tempo é um truque de um mágico que transforma a eternidade nestes fugidios instantes Às vezes instantes longos, páginas em branco, às vezes cheios de emoção, umedecidos de suspiros que o tempo folheia impunimente A poeisa estremece o singular mistério da noite e dá ao meu sentimento este invisível caminho e esta inefável possiblidade de anotar e rabiscar até perder a razão e colher das flores as cores e o perfume inocente de um verso que chora ou que ri comigo de uma realidade que só existe nele, no verso Eu o olho e o ouço como um menino me olha e me ouve... como se me conhecesse há muito tempo... Um tempo em que só havia poesia no acaso inseguro das manhãs, na tarde que me visita e me espera nos jardins onde flores de papel sorvem as palavras que dizem da brisa crispando as águas do rio, bebendo as pequenas ondas que desaparecem na areia Houve um tempo em que tudo era poesia, madrigais, odes, elegias Versos inconsúteis escritos à cinzas nas páginas da distância e dos momentos onde sentir é como o escorrer da chuva no silêncio dissoluto do espinho da rosa que não há e o perfume da rosa, esbatido pelo vento, ondula em teus cabelos onde dorme a noite O vento argumenta sua quase tristeza, arremete, debalde, as naus contra os portos, acorda meus velhos sonhos sonolentos e empresta-lhes a face de uma lua cheia de um dezembro que ainda não veio Há momentos em que sentir é só como estes sentimentos cativos e estes caminhos cobertos por folhas secas caídas com o vento e com as chuvas nas madrugadas onde me esqueci e me esquecendo o tempo, possesso, me resgata deste teatro e da contumaz mentira que transforma o meu hoje em um ontem irrefreável acumulando-se aurora após aurora ansiando por ser poesia e liberdade Estes momentos em que sentir é como o menino jogando as cinco pedrinhas na praça deserta antes de decidir morrer Quando eu me for qual flor brotará? Branca, vermelha, amarela, lilás, azul...? Que importa? As flores brotarão e levarão o pânico da minha noite e atearão fogo à minha suposta "poesia" incorrigível e alquebrada sentindo o que não sente virando o mundo às avessas antes que a aurora envolva e encubra a voz do poeta e este, então, adormeça
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Preciso
Preciso Espargir a flor com a água da concha das mãos Cantar a canção Entender a folha branca da ilusão Restituir ao poema a verdade com a qual te amei Esperar no precário minuto o penhor de outra noite outra manhã Acordar a manhã e mergulhar meus dedos em teus cabelos Acordar os anjos e o menino do retrato Beber do orvalho o alivio para a sede eterna
Preciso Apagar o desespero dos passos presos na areia, presos nos espelhos dos sonhos ante o meu rosto Expressar o suspiro o sussurro ermo e terno a saudade sozinha Pressentir da existência o segredo Ter um motivo para ouvir o verso se agora ando desperto e o verso é sonho sílfide em meio ao mar Calar a voz da mentira Tecer a delicada liberdade
Preciso Esperar a carta (que já não se usa mais) que cheirava a cravos rubros amarelas rosas que trazia teu aroma espanhol e, por acaso, um fio do teu cabelo desejo e ânsia que o dia trazia como essência nas tardes que eram só nossas
Preciso De um amigo (e quem não precisa?) que possa escrever a carta que ainda espero Um amigo que saiba da consumação inelutável do existir e do silêncio que pode haver nas palavras e do encanto que pode haver nas palavras e das palavras que podem haver nas palavras fios da urdidura da serena humana alma Um amigo que fale de nostalgias e que tenha brincado em ruas de terra na infância com seu pião batatinha com sua bolinha de gude matadeira Um amigo que colha estrelas nas noites pintadas à mão Que leia a poesia e não reprima a lágrima ou o riso sem explicação Um amigo que saiba do meu sonho e saiba do encanto que os sonhos têm e do devir que os move Um sonho que engane as noites que o próprio sonho desfaz, ah! amor, tão frágil é o passado tão lindo o vento na acácia e nos cabelos das meninas
Preciso Dos dias vagabundos Das ruas de terra Das enxurradas Das flores primordiais Da voz negra da noite Dos teus olhos, prenuncio das noites envolvendo o mundo
Preciso Do sono em teu colo Da inocência nos teus braços Da meiguice nos teus olhos Da nudez casta e ofegante nos teus beijos
Preciso Perder a hora e a compostura Bater à porta da lua Perder os sentidos Mudar-me de vez para a infância, para aquela rua Maria Incendiar a palavra que me define neste instante Escolher a mão esquiva e o gesto que dorme entre as nossas mãos
Peciso Continuar apesar do meu medo Acostumar meus olhos à escuridão Fingir que não sei da guerra Chorar a dor soterrada do homem Suprimir em todos os corações a indiferença Aprender um novo idioma Dormir o pranto e esta melancolia Colocar o passado em seu lugar Ver crescer o outono e as folhas que caem longe do engano das horas, longe do mar Ter tempo, sobretudo, para o morrer da irresoluta persona e, então, calar os ventos Guardar, silenciosamente, a tua ausência
Preciso Desta solidão com o seu manto de sombra bordô vinda com o ocaso do dia, pulsando a noite que se inicia, suspiro de harpa, rumores de poesia
Preciso Desta solidão onde começa e acaba o ser
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Noite após noite eu minto
Acorda a noite sob o cicio das àguas da chuva recendendo à terra molhada e à enigma Nasce a flor na escuridão da noite entre os sonhos úmidos do jardim Aponho no negro céu estrelas sonolentas Sombras esbatem-se à luz liquefeita da lua Sopra a brisa sutil onde pousa um vaga-lume a sua verde luz e o seu reflexo de ilusão Evolam-se nuvens vindas de um passado inapreensível Incendeiam-se imagens no velho e baço espelho, símbolos indecifráveis, cores tingindo o ar Desata-me do cárcere das tuas lembranças, ó noite, que se dispersa nas notas da música ecoando nos olhos lassos de uma madrugada antiga O pássaro passa errante e o meu coração se encanta como a criança que brinca com o espelho olhando o teto como reflexo do chão Caem estrelas na areia que a lua borda O mar repete na penumbra as ondas e os rumores dos rochedos As noites inconsúteis, iguais, iguais, iguais, cobertas pelo pó e pelo simulacro dos segredos do enredo a me escreverem cena após cena sina após sina instante após instante... arquétipos olhando os olhos da morte nos milhões de anos esquecidos no ir e vir dos sonhos que separam o homem e a alma como quem depõe a vida e o destino aos pés do vento que embalde traz as fagulhas do mar e os caminhos solitários dos minutos dissolvidos onde correm meus passos de criança Quantos séculos discorrem o destino leviano dos homens? Quantas mortes hei de subornar e iludir devagar com a antiga pressa? Diante dos sonhos e da possibilidade do retorno eu minto Para não morrer eu minto Noite após noite eu minto
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Novembros e primaveras
*(Põe nos meus olhos vencidos teus olhos de sombra e lâ)
(Geir Campos) O dia ainda não amanheceu mas a porta para o mar já está aberta neste novembro de primaveras onde há flores e quimeras e nuvens camufladas de algodão e anjos que trocaram céus e astros pelo chão Olha, a porta para o mar já está aberta O vento sopra levando areia para desfazer o dia que escorre rente as paredes de vidro forjando o engano do tempo ido Olha, o dia ainda não amanheceu e já caminha a vazar em dourados arabescos enquanto a canção antiga chora ad aeterno o sonho que deambula pelas praças e pelos parques ante nossos olhos que não o vêem, mas que o coração pressente e a alma se alegra com outros possíveis mundos onde a vida seja sagrada, essencial como grãos de poesia onde a dor seja esquecida nos braços que já se abraçam neste lapso que é a vida onde a manhã vem devagar e *põe nos meus olhos vencidos teus olhos de sombra e lã