Na manhã que te levou Na tarde que não se cala No beijo que não te esquece No abraço que ainda aquece Na noite que te esperou Na cama onde agora dorme o frio Na tua ausência doída Num quarto vago e vazio A saudade deita seu corpo Junto ao teu corpo macio
Hei de me perder em teus instantes Quando a noite vestir-se de carinhos Desnudar-nos em beijos de amantes Guiar-me ávido pelos teus caminhos
Hei de sorver teu corpo em desalinho Na madrugada nua e clara da aurora Beijar tua flor lentamente, gostosinho Bebendo o teu gosto ébrio que aflora
Na minha boca tu bebes o teu sabor No beijo que eu te trago ternamente Nossos corpos ainda falam de amor Enquanto o dia nos espia docemente
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Uma fábula de ano novo
Ano novo Novo? Perguntou a dona formiguinha ostentando entre as pinças um folha bem verdinha Ano novo... murmurou alguém lembrando de anos passados os olhos úmidos de ausência a vida uma nau sem porto e ano após ano os mesmos quereres de novo Novo? Perguntou novamente a formiguinha que ainda seguia firme com sua folha verdinha Os dias são tão frágeis A vida um sonho efêmero uma sucessão de instantes aleatórios Incriados ventos escutai os nomes escritos na areia por onde caminham as ondas de passagem pela praia e retornam inabordáveis ao velho mar que em sendo velho parece ser sempre novo Novo? Perguntou mais uma vez a faceira formiguinha que tendo percorrido todo o trajeto desde o jardim até o formigueiro, depositou o seu troféu clorofílico e pôs-se a pensar no que viria a ser "novo"... A formiguinha pensava, pensava... A vida dela era uma rotina: sair do formigueiro cedinho, dirigir-se a algum jardim e, lá chegando, cortar e transportar folhinhas (para ela eram folhonas) para o formigueiro Não procurava pelo novo assim como não lhe interessava as falsas primaveras A terra escura por onde caminhava não lhe parecia nova Nem tampouco a gota d'água que lhe impedia o caminho A chuva que caia e que doia como um soco? Dona formiguinha não etendia o que havia de "novo" nas pedras sujas de terra que encontrava pelo caminho A bem da verdade continuava a não entender o que era o tal do "!novo" A tarde já ia caindo em vermelhos e laranjas e o mar espelhava a mistura de ocaso e noite que já começava a desenhar-se em sombras sutís O sol já banhara-se nos ventos e se preparava para dormir A formiguinha olhou para o sol e pensou: amanhã ele estará no mesmo lugar e todas as demais coisas do céu e da terra também estarão em seus mesmos lugares (---) Vou-me embora, disse a formiguinha... estou cansada e recolheu-se ao conforto do seu formigueiro A formiguinha adormeceu, mas dormiu pensando no "novo" E pensou tanto que sonhou... sonhou com novas ilhas sonhou com céus constelados com a ventania, e teve medo com a solidão e chorou tristemente sonhou com o frio do inverno e a beleza da primavera e as anáguas azuis do céu e sonhou com novas paisagens e antigos desertos onde a vida foge e as miragens que criam simulacros da vida que fugiu Sonhou com louvas-Deus de mãozinhas postas como quem faz uma prece sonhou com borboletas que pousavam nas flores da beira do rio e que eram tão coloridas quanto queria o sono da formiguinha sonhou com a chuva caindo e ela se abrigando sob as pedras sujas do caminho A formiguinha sonhou... sonhou... De manhã quando ela acordou a formiguinha sentou na beirada da cama, esfregou os olhos, balançou os pezinhos no ar, feliz o coração batendo irriquieto e começou a lembrar dos sonhos e quanto de emoção havia nas lágrimas ou no riso que podem trazer os dias e entendeu que, a bem da verdade, o "novo" não estava nas coisas, mas, sim, na alma e nos sentidos de quem vê as coisas Sentia que não podia existir o novo para a alma velha, para a mente velha vestida de antigamente Sentia que não poderia mais beber da sede sem transbordar o cálice Pela janela via o dia esplendendo lá fora O sol estava em seu lugar no mundo O riso e a lágrima também estavam em seus lugares A natureza estava toda em seu lugar no mundo, porém tudo sabia-se novo No caminho entre o formigueiro e o jardim várias florezinhas brotaram durante a noite e também estavam em seus lugares no mundo entre o pensamento e o ser Os pássaros cantavam longamente, alegremente pela ilha e a liberdade atravessava os céus Aflorava a reinvenção da vida, o inédito e ficava uma certa nostalgia esperando a reinvenção dos olhos e da atitude perante o novo E a formiguinha dançou ao descobrir o que era o "novo" Estremeceu ao observar como, apesar de toda uma ordem pré-definida, o Universo tão vasto, como, ainda assim, o mundo poderia ser do jeito que ela quisesse Naquela manhã a formiguinha vestiu-se de toda a sua pureza e foi cortar suas folhinhas, porém ia atenta a si para que o passado e a falta de visão dele decorrente não lhe limitassem e a impedissem de ver o novo que há em todas as coisas, e em todos os dias cheios de fins e começos e que são novos na essência e que cada ser possui a sua cosmogonia e o seu devir
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Seis sílabas
O sonho aflora e é estas lembranças solitárias, chuva caindo sobre os versos, sobre um rio imperecível, sobre esta névoa furtiva que encanta os meus sentidos como se o ar pudesse ser arte e círio e arder até o fim Ninguém ouviu o ar arder na noite âmbar Nada há nas luzes densas que devoram a noite Nada há no vento onde se esconde o silêncio Não há nada senão o teu nome no meu sonho Teu nome que vivia em murmúrios nos meus lábios, na minha saliva e na minha sede de ti Virão inúmeras primaveras e verões antes do impresssentido crepúsculo e da tristeza das palavras
No amanhecer, junto com o dia lasso e nu, enquanto o nada sibilava no frio do quarto, vindas de ti seis sílabas cospiam o cuspe do descaso aceso pela indiferença As palavras feriram, pungentes Podias tudo, menos ser a palavra dita sob a dança da mágoa A tristeza consumia aquele final de primavera que ainda sendo flores, já era solidão frágil sépala inclinada a se esboroar Quando será dia novamente se neste momento a noite tocou-me a pele tornando-me escuridão? Os segundos riscam as horas com cacos de solidão
Uma a uma em uma outra noite será primavera e o estrídulo silêncio falará das cintilações das manhãs e de girassóis tão antigos quanto os versos que te fiz, todos tão úmidos de sussurros a molhar minúsculos silêncios e os teus olhos de papel Escuta, a tarde que ardia entre nós e as nossas solidões mitigadas pela luz cinza e calcinada que entrava pela janela deixando o gosto amargo de um novembro que caminhou irresoluto para a precária e última eternidade O sabor da chuva ficou no silêncio pisado pelas palavras ressequidas, pelas vituperações que engoliram a ternura e os dias iguais tornaram-se rotineiros não fosse a imponderável poesia e os versos e estas palavras que para além dos ventos encontram sentido e companhia
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Canteiros
Minha casa não tinha jardim, mas tinha um canteiro de flores, colado ao muro, onde a chuva que caia do telhado no quintal respingava nas plantas o gosto imanente das águas No canteiro havia rosas rubras feito um soneto a um amor antigo cravos brancos e as rimas rugosas das suas pétalas pequeninos pés de maria-sem-vergonha multicores, pintadas pela luz macia das estações margaridas de um amarelo pra vida inteira, antúrios e suas flores fálicas Tinha outras flores que ficaram pelo tempo Outros tempos que ficaram neste rosto que busca o passado do outro lado do espelho nas lembranças, visitantes noturnas, que me dizem coisas da infância Nesta mão trêmula de agora, Nestes olhos que quando olham olham o mar e as praias ao crepúsculo tecendo cores túrgidas de sol e sal e os passos na areia fofa que vão ficando como um sinete do silêncio que me leva ao mar e o ser fechado para a poesia que tateando na escuridão ignota faz das palavras pássaros sem asas
Do canteiro e sua floração saiu a primeira flor para a primeira namorada, Enquanto entregava a flor, a meninada na rua, devagar, soprava diáfanas bolas de sabão, translucidas, que o vento levava até onde os anjos brincavam com as crianças, soprando-as, com suas bocas sonhadoras no ar azul da tarde bordada de sol, perpassada de sonhos e de faz de conta, onde brilhavam pequeninas gotas de chuva, ornando a verde folha, escorrendo pela pétala reordenando, suavemente, a beleza da natureza
Nas noites sem lua a negra cortina escondia o canteiro Noite sem estrelas, só mantos de nuvens onde a meninada construía os seus sonhos e os seus medos e o medo do medo alheio, noites imensas na escuridão, longe da primavera soprando a brisa vinda de um mar intangível ondulando os lírios brancos e as rosas em suas longas hastes dentro de uma noite antiga a despedir-se
É preciso lançar os barcos aos mares como as folhas que caem na correnteza dos rios, e são levadas pela pureza dos anjos É preciso o escuro da noite, sem lua, sem estrelas, para ouvir as antigas vozes, a primeira lágrima de um antigo amor, de uma nova saudade
É essencial cultivar os canteiros e as palavras que podem ser flores, mares, amores, poesia, pequenos gestos de amor dentro de um amor imensurável o azul e a sombra do azul, o sonho que dorme náufrago e anônimo na minha existência
É essencial cultivar os canteiros e o inaudito murmúrio dos ventos. o belo, o encanto, o indescritível É essencial resgatar a inefável alegria da infância
As manhãs, sejam azuis ou cinzas ou douradas, caminham sem tempo que as tolham, sem ruídos de agoras trazem o canteiro da infância e as flores vicejam por entre as emoções que irrompem somente no absoluto da poesia inexprimível como os ventos imponderáveis
No canteiro do meu quintal há flores no outono, do outro lado do nevoeiro por detrás de qualquer domingo no qual se ouve ao longe uma flauta que toca para nossos sonhos imaturos sedentos de estesia como o amor sedento de amor omo o poeta sedento de um verso meigo e suave como o beijo de um colibri como o sorriso de um palhaço como o amanhecer que floresce nos quintais das infâncias imperecíveis e onde começa a infinda poesia
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Trago nas mãos estas águas
Trago nas mãos estas águas que apanhei naquela fonte onde deixei lembranças, onde o passado persegue o tempo que escorre das âmbulas Lá ficaram os meus sonhos, as horas que te amei Ficaram saudades e ausências, Ficou a voz da noite entre estrelas e miragens refletidas nestas águas Nestas águas ficaram a palavra, o poema insondável, a lenta madrugada e as derradeiras sombras e luzes por onde perpassa a aurora
Trago nas mãos estas águas e este medo persecutório que me segue insone desde a primeira hora quando o sol se desespera e reflete-se nas grades das indecifráveis masmorras, dos imponderáveis momentos A luz do sol incedeia e vagueia num dia que nunca tem fim e que divide-se desde a origem dos tempos subitamente abertos pelo mar dobrado e pelas sonoras ondas batendo guturalmente nos rochedos
Trago nas mãos estas águas e a noite prosaica, e seus labirintos esbatidos pela compacta penumbra que flutua levada pelos ventos murmurantes do outono
Trago nas mãos estas águas e no olhar, acendendo-se, uma nódoa de indiferença que sopra enfunada como a vela da soberba
Trago nas mãos estas águas e nos lábios estas palavras com as quais busco encantar-me, com as quais fio meus dias de extrínseca urdidura Palavras... Que são as palavras sem o correpondente ato? Que triste sina morrer-se assim, lentamente, como os olhos que avistam a tênue manhã desdourando-se entre o horizonte e o mar?
Trago nas mãos estas águas como brasas ardendo nas merencórias manhãs, círios perenes acesos no escuro das ânforas onde escondi meu mundo incerto e os sonhos feitos destas águas que trago nas minhas mãos
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Depois da chuva
Depois da chuva a tarde se fez dourada O sol debruando em vermelhos o vento que passa E canta Canta a canção E entoa os versos candentes da ausência Suspeitando do sentido da vida pouca Da pouca vida Dos parcos passos miúdos e urgentes Cantam os pássaros outras razões São melodia e compasso da tarde que se farta De cores e sons e incandescentes vermelhos A tarde flana na quietude dos jardins E na presciência das flores nos jardins Está tudo tão quieto... Tudo tão longe Este silêncio sem voz Estes segredos agonizantes no ar Esta pele perfumando a vida em volta Esta esfinge que me inquiri incansavelmente Estes caminhos remotos Onde já não me sei Quando já não me sou Fecho meus olhos cansados de não ver E sinto o ar difuso no labirinto das perguntas sem respostas Respostas que não há ou, se houver, São grades e colunas a sustentarem As prisões erguidas sobre os campos de crenças e ilusões Nada existe independente da sombra e da luz Tudo é sonho e engano fora do Amor Mara é o sonho vígil De onde só há uma porta para a fuga Arde no horizonte o sol poente e o enigma de todos os dias Minhas mãos fugidiças E úmidas da mais plena solidão Selam os lábios à memória dos olhos negros Que desde cedo me fitam Que desde sempre me têm Olhos que o amor primeiro pôs no barquinho de papel Rumo à ilha que emerge nos pingos da chuva Rumo às sombras abandonadas de uma vida pouca Sentimentos poucos Muitos medos A ilusão que baste Mas há a renitente expressão do amor Ou do que fizeram dele Há a indelével sombra do mar A sombra do mar é o que as palavras não são Sinto saudades do cheiro do mar Da maresia O intangível mar desenhando agonias na areia Ouço o mar esbatendo os vermelhos da tarde Ouço aqui, sozinho, a canção da tarde calma A tarde é o momento cravado no vazio de um tempo ignoto É pouca para o destino que os dias roubam ao eco dos caminhos E é pouca a tarde para tanto amor É pouca a tarde para o carinho É pouca a tarde Vaga e alheia Escondida entre palavras distantes e dissimuladas Encoberta pelo véu da indiferença Onde o que eu sou é quase nada Não fosse esta rosa branca no jardim (Que só existe e floresce dentro de mim)
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Soturno
A aurora dissolve-se na mancha vermelha alaranjada do sol ressumando na manhã esbaforindo a face triste do chão ressecado a tremeluzir tudo o que é no horizonte O menino nu come o barro queimado das paredes da casa Os dedos dessangrados de cavocar as paredes mortas pelo sol desgarrado No infinito da paisagem desolada, ondulando no ar, galhos secos e uma cisma de esperança A esfera rubra do sol soluça de sede abrasando as pedras que assomam sobre as estações desfeitas em poeira vermelha e pegajosa Nem inverno nem verão nem outono nem primavera Tudo a mesma poeira grossa, o mesmo torrão rachado de chão, as mesmas mãos vazias, o mesmo olhar sedento para o céu A vida passando sem pressa morosa em se acabar enchendo o vento de soluços As flores e os frutos não se modelam no barro seco indistinto e na paciência dos quintais que sangram o que um dia foi mar As mulheres carpem os cântaros vazios sorvendo dos lábios a sede No céu nenhuma ave, na terra nenhuma criação sob as sombras dos galhos secos das árvores A vida carecendo de sentido e de tamanho Carecendo de saberes e outras palavras tão uivantes quanto o silêncio que, embaraçado nos gravetos que rolam pela terra em fogo, insiste em ser a trilha dos dias amorfos e anônimos onde o rio inexiste sem rumo e só o vento quente tem vida
O menino nu carece do barro custoso das paredes e de um olhar de esquecimento que esqueça a sombra da tristeza e do desassossego que o tire da letargia destas terras que evolam-se no ar esturricado
Chora o menino nos seus poucos anos a tocaia que a vida deserta de si inventou Suja os pés neste ar solitário que seca a lágrima no rosto vincado pela terra e pelo medo máscara informe de poeira e suor
Ao longe a tarde crepita em brasas tremeluzindo o braseiro de tudo a sua volta O sol oscila num céu se dissolvendo em vermelhos O olhar incendiado pressente a noite adejando portas e janelas O dia mastigou o menino e deixou-o nos braços magros da noite inerte que se rompe nas lascas das paredes em soluços A terra ressequida não dá cor ao noturno cantochão com que a noite põe fim ao dia A noite denota a imarcescível lua e um ror de estrelas, colunas de um antigo templo, de um antigo tempo, de antigos guias poeira derramada nos milhões de anos, trazendo para as noites seus olhos afeitos a viajarem nos céus de poeiras também A fome deita o menino e seus olhos cansados Ouve-se soluços entremeados de suspiros As indagações adormecem nas ilhas sonâmbulas dos astros e na impermanência do destino A noite se aquieta Silenciam as pedras que há pouco crepitavam sob o braseiro urdido com as mãos coruscantes de um sol que parecia brotar do centro flamante da terra O menino dorme a sua infância exilada Num canto escuro da vida a casa geme ao passar do vento pelas taquaras A lua, silente, alumia as veredas insones Nestes cantos não tem flores nem jardins Só a poeira grossa igual a dos meses e anos anteriores e as crassas paredes que se vai comendo aos pouquinhos conforme a carência e a tristeza esquecidas, aqui, em todo lugar
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Monólogos
Pelos milhares de anos do mundo nascem os sóis e caem as tardes e florescem as flores e se desvela a lua e estrelas e os primeiros versos quando alguém chorou e os olhos beberam da primeira madrugada Mananciais do Tempo sibilino num jogo de luz e sombra noites e dias sim e não Yin e yang
As noites trazem o mar da minha infância e o incessante começo dos teus olhos negros trazem tuas pequenas mãos para as minhas Trazem verdades e mentiras, Sombras abstraídas? Palavras extintas? Paradigmas? Retórica vã? Metáforas? Como saber a resposta se, pensando em ti, todos os caminhos são plausíveis, como um rio que segue o seu curso por pura solidão?
Comove-me o caminho de volta pra casa, escorre no meu rosto uma lágrima que o vento há de secar O vento talhou o espelho e ele já não reflete os horizontes estáticos nem a lágrima que cintila O tempo está morto e cai gota-a-gota das mãos trêmulas do viajante cativo da ilusão de ser e do engano da permanência
A vida inteira é um instante sobreposto a outro instante, a outro instante e mais outro... Ad infinitum A vida pulsa e se expande Enquanto eu sorvo o pulsar dos meus dias e me embriago com a solidão que me acompanha como uma pele estanque, rastilho das horas aceso na alma, fazendo das noites um tempo acorrentado aos ventos inauditos que sopram do mar para a ilha quando o outono chega trazendo lembranças e inquietações É preciso recuperar os dias primordiais É preciso vivenciar a vertigem de se estar só
Enquanto escrevo ouço os pássaros cantando Meu coração se enternece com o canto dos pássaros Todo dia o mesmo inédito recital que vem ressonante no silêncio hierático e fluido de algum lugar no mundo encantado das aves, de algum pedaço de céu onde a vida se abastece de poesia O canto dos pássaros é a vida insinuada entre o horizonte e as nuvens baixas deste dia nublado, deste dia onde a amplidão toca o chão com as suas vestes de brumas O firmamento verga neste reino de cinza e sombra, de pó e alheamento
Meus sonhos, sejam lá quais forem os ângulos pelos quais eu os veja, evocam a Beleza e procuram o poeta latente que me desse de beber e saciasse minha fome e transformasse minha ânsia de estesia na Beleza que procuro
Busco palavras entre as folhas que o outono derruba Nas noites escorrendo sonhos e inquietações Na primeira história, no primeiro livro, nas minhas mãos de criança Atrás das longas sombras inquebrantáveis no istmo das palavras buriladas na argila e nas lágrimas das paredes da casa da infância
Eu nada sei dos séculos que por mim esperam Eu nada sei dos séculos pelos quais passei Eu nada sei dos agoras e seus espelhos opacos Há milhoes de anos a vida se manifesta em sua triste ira complacente e sempre nova e sempre inaudita ferocidade pungente
Eu nada sei da poesia e da estesia da poesia e da estesia da vida Nada sei deste instante precário e perempto onde as palavras dissolvem-se antes de chegarem ao texto E no lugar destas palavras fica um arguto silêncio ficam personas e máscaras nas faces temerosas fica o tempo ignoto, faminto da mesma Beleza e da mesma estesia onde me busco
Os pássaros calaram-se Cai uma chuvinha miúda enquanto o céu vai descendo ao encontro das copas das árvores A tarde está cinza e os pássaros calaram-se A vida escoa lentamente numa ociosidade silenciosa Não há brisa, mas está no ar esta inocência e este pressentimento que tornam a vida e seus mistérios insofismáveis
Olho para o livro aberto e não lido Olho para a minha vida aberta e não vivida Em qual página da minha vida eu parei? Eu quero a rua de terra e os meus pés de lata Eu quero de volta o sonho e a inocência que perdi sem perceber Quero a primeira luz do mundo Eu quero a primeira flor, o primeiro amor, o primeiro beijo Quero o teu colo, Pingo e teus olhos de noites consteladas e teus beijos como os de Eva no paraíso
Olho para o céu e suas anáguas cinzas gotejando o sussurro da chuva miudinha... Olho para o livro aberto sobre a bancada... Tropeço no silêncio da tarde e no silêncio do canto nimbado dos pássaros
A vida é menor do que a arte A arte é eterna A vida é provisória... e cabe interinha no trilar dos pássaros
Nada sei!!! Eu nada sei!!! Não me esqueci de nada. Eu simplesmente não sei.
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Os dias parecem tão iguais
Os dias, esses pássaros amarelos, parecem tão iguais Parecem indiferentes ao bem e ao mal os dias que nascem solitários do outro lado do círio aceso da aurora e da vida que se debruça à janela Um vento leve leva as palavras, sonolentas, sem nehum destino É cedo para que se diga que a vida não vale nada É cedo para se bater à Porta da Verdade É tarde para se apagar o antigo nome, o antigo e inelutável sonho
Os finais de tarde apagam-se em azuis e dourados, tendendo a vermelho, mas nem por isso descuida-se do gesto que, lentamente, trará a noite imensa sob a sombra de uma folha, sob o aroma dos lírios A noite estilhaça o vítreo incandescente das estrelas e o céu, suspenso por cordões de marionete, transborda de pontinhos úmidos de azul e de eternidades Pululam estrelinhas na noite enquanto o poema espera pelo sensível momento da flor, da rosa que se desvela em arabescos prateados pela ternura da lua
É cedo para dizer que a vida é um breve e irremediável sonho inútil que põe esta lágrima nos meus olhos, deambulando pelas velhas ruas tímidas e inauditamente tristes É cedo para pedir à sina (esquiva) que leve esta tristeza que me permeia como o perfume de sândalo e de saudades É cedo para tentar entender a fábula contida no vento e no orvalho que amanhece nas folhas e nas pétalas das flores
Viestes ver a manhâ que apascenta as brancas nuvens tecidas em mármore? Viestes ver a manhã amarela e os campos onde sonham os girassóis? À noite eram outros os sonhos, densos e sincopados Na noite retinta assomam os olhos medievos esquecidos no passado A estrela cadente resvala pelo espaço incendiando o céu em seus rumores de brasas calcinando o instante, marchetando os sonhos Faço o meu pedido, contundente como o barro da infância, inaudito como o murmúrio das noites e o silêncio dos caminhos intangíveis Só a estrela me ouve... Ao meu pedido e ao som dolente da flauta que vinha com as noites incertas e silentes
Só a estrela...
Em palavras de criança tudo pode ser pedido enquanto a estrela cai
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Os pássaros cantam
Os pássaros cantam ao longe... Como em todas as manhãs os pássaros cantam... ao longe, nas nuas manhãs cinzentas despertando a luz úmida que sorve a fonte escura do horizonte engolfado em sombras emudecidas A manhã pendura gotas de orvalho e névoa nas pétalas e nas folhas das flores tocadas pela brisa leve e sagrada Da minha janela ouço a vertigem do mundo A vida freme melódica de longos trinados superpostos pelos rumores do dia coercivamente nublado Da janela vejo as casas que se amontoam nos morros Casas verdes, amarelas, azuis e seus telhados vermelhos e sozinhos Em volta pedra e capim e árvores dão cores ao dia sonolento e abrigo aos pássaros que cantam ao longe Crianças brincam na manhã plena de eternidades dissolvidas nos ventos que se deitam no ziguezaguear das pipas que colorem o ar
Tudo é fremente solidão e êxtase neste domingo que é sonho e metáfora das horas que restam de uma vida inteira
Por entre as réstias de um sol roído pela sombra os pássaros cantam o verão