Na manhã que te levou Na tarde que não se cala No beijo que não te esquece No abraço que ainda aquece Na noite que te esperou Na cama onde agora dorme o frio Na tua ausência doída Num quarto vago e vazio A saudade deita seu corpo Junto ao teu corpo macio
A rosa amarela do dia desliza na manhã de um mundo velho, vago, sequioso O amor não é poesia no velho mundo abstraído O amor é folha de outono, adeus, passos de nuvens rumo aos teus olhos negros O céu, roçando o mar, tece arco-íris na poeira úmida das cores condensadas na miragem das praias à deriva Os ventos balançam as folhas laceradas por este inverno de horas melancólicas A um canto há um grito que ao meu canto desvirtua num fragor plangente
Vi a rosa amarela do dia deslizando na manhã por entre os morros dispersos ao longo da vida que desliza sob conceitos e palavras sem nome Tudo caminhando lentamente Perpassando a manhã o som de um sino dobra, circunspecto, embebendo os olhos e apascentando corações
Um sol, recriado no lago, arde em chispas ao murmúrio das águas A brisa azul esvoaça o amarelo do dia Cores a desdobrarem-se na onda turva e reflexa no som cambiante, nas sombras difusas que acordam encharcadas da tua ausência do meu exílio e ébrias de [solidão]
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Amigos
Os amigos, separados pelo tempo abstrato, pelos caminhos de argila, pelos rios e suas pontes ligando a saudade à impressentida nostagia da ausência enquanto em todo o céu é primaveras, relembram estes ínicios de novembros onde desabrocham flores por entre as frestas das pedras, pequeninas flores interropendo a estrutura calcinada pelo fogo do tempo compassado a encher de presságios a vida e a alma
Girando sobre as folhas soltas do outono a silhueta do vento derruba a gota de orvalho e pousa no poema e cria a lágrima nos olhos verdes da solidão
O poema nasce assim, sem luz, sem nome por enquanto somente esta lágrima da solidão rio sem sementes, sem momentos, um sonho que fosse um barco sem vela nos imprecisos ventos do agora estrelas no firmamento tiritando aos olhos da lua embalam a noite no ar brotam saudades do chão e o poema se expressa entre a saudade e o sem nome
Enquanto os amigos se esperam Enquanto o vento gira Enquanto o poema nasce um pouco de nós fica nesta ausência gestos, risos, vozes e as mãos cheias de nada
Fica, em meio a tudo, este tom de tristeza Fica, apesar de tudo, estes novos poemas e a janela das Luas Antigas onde me debruço a olhar a vida e o mundo com olhos distraídos de artesão de estrelas e sonhos ociosos e incognocíveis como um mistério
São tantos os momentos que fogem e calam no gesto de demora das flores São tantos os momentos de indagação dos barcos rumo ao porto São tantos os silêncios, que quase ninguém ouve São tantas as esperas que a areia escorre da mão fluída como a vida em grão
Os amigos relembram o primeiro segundo, a última hora de tantos novembros a perguntar pelo passado que imiscuiu-se à multidão, bosque ou jardim, ausência amorável como o perfume da rosa como um dia que amanhece sob o encanto do dia que o precedeu
A brisa caminha em tempos e sonhos que a chuva deixou no jardim insinuando tardes brandas e paisagens convidando à nostalgia, abrindo a porta das gaiolas para que fujamos todos... um dia
Marulho do mar O silvo do vento passando pela fresta da janela Houve um tempo em que o vento despenteava o meu cabelo e secava a lágrima que, às vezes, caía só e silente como a única verdade de um instante Na distância, o rumor do vento soprando, secava as gotas de chuva nas pétalas das flores no jardim
A vida esquece-se no rio deixa-se levar tecendo os fios da urdidura enquanto nas margens os amigos se esperam
Esperam o momento dúbio de um possível reencontro em outras primaveras onde as flores são abandonos, outros outonos? inumeráveis verões, nas noites estreladas de um inverno onde as saudades são quentes e ternas Esperam, os amigos, assim esperam cativos de tantos outros dias
E a vida, assim, torna-se indispensável
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Cansaço
Os pés afundam neste cansaço Afundam no chão que falseia as folhas derrubadas pelos longos ventos que as esquecem
Meus olhos pressupõem o reflexo esbatido da luz Supõem a noite e uma última canção Supõem estrelas, quando a noite se abrir e por detrás dela a lua se debruçar por entre o sol e o mundo
Diante destes mares os pés afundam no cansaço da areia úmida de silêncios e de poemas traquinas e insofismavelmente puerís,
O cansaço se arrasta no tempo, metáfora inelutável da vida, vento desbastando as arestas das sentenças, fragmentos de palavras entretendo a minha noite indistinta,
Brinca com teu nome esta voz em mim que te chama da greta da janela fechada por dois traços de lápis cinza riscados à guisa de tranca, como as sombras que perduram no trêmulo espelho das águas
Às avessas restam a tarde e a chuva caindo como linhas dissolutas Resta o gesto e o pulsar impreciso das horas vazando a bruma da noite que esconde o mar inconcluso
Ante a palavra que não veio perdi o poema A brisa passou incendiando o silêncio O verso ficou entre os espaços da página em branco onde a folha absorve o crepúsculo incolor e a ausência bêbada das sombras douradas que esculpiam as matas, a vida, as pessoas, os passos nos quais me perdi, na luta, na trama, no sopro, no barro onde não vingaram os girassóis
Quem se não o meu cansaço teceria o que no coração poderia ser ilusão ou poesia?
[...]
À tarde o vento soprou, afável A chuva choveu pouquinho e dispersa (dispressa) A noite chegou de improviso Trouxe lembranças, algumas perdas, um breve baque surdo nas águas e os olhos límpidos de quem já vê a primeira estrela nimbada de um sereno fino
Chegaste... Ó tempo sem volta, erguido no ar como quem dança e seca os olhos molhados no ardor do sonho adormecido nas palavras do menino:
"Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal..."
[...]
Inicia-se a madrugada Murmúrio e silêncio Regressam os ventos Faz-se a espera dolente de uma solidão que pergunte dos meus sonhos e da espera, sob a luz enebriante de uma lua de novembro, faz-se o cansaço
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Poesia não achei
Queria te mandar uma poesia, mas não achei nenhuma que se parecesse com você. Nenhuma tinha estes olhos ternos, céus em dias claros, mares ao crepúsculo da manhã. Nenhuma tinha estes cabelos de fios cor do trigo ondulando à luz do sol. Nenhuma tinha a candura das tuas mãos, o perfil delgado dos teus dedos, a fome do toque. Em nenhuma poesia encontrei o teu abraço que me enlaçava ternamente como gota azul do oceano. Nenhuma tinha o convite do teu colo. Nenhuma tinha a maciez da tua pele, rosa branca, lírio em flor. Nenhuma tinha este sangue rubro no qual teus lábios se expressam. Nenhuma trouxe o silêncio do contorno dos teus lábios em sussurro. Nenhuma sabia sorrir como você sorria pra mim. Nenhuma falava as palavras que me dizias e com as quais ainda faço os caminhos dos meus sonhos. Nenhuma soava como soa tua voz quando dizes "felicidade". Nenhuma trazia as letras do teu nome onde amanhecem os meus dias. Nenhuma tinha a fragrância nua do teu corpo úmido de desejo. Nenhuma tinha o arfar dos teus níveos seios durante o amor... corolas aveludadas, círculos de chamas. Nenhuma tinha versos que se despissem como despe-se o teu corpo. Nenhuma era saudade como são os beijos teus. Nenhuma tinha esta agonia de liberdade que a tua alma tem. Nenhuma sabia da dor que você socorre. Nenhuma tinha o ritmo dos teus passos quando caminhas na areia da praia. Nenhuma poesia, nenhuma... não achei nenhuma poesia que pudesse te dar nesta noite. Só achei estas palavras que o vento, em meio ao canto de um pássaro, sussurrou ao meu ouvido. E estas palavras são tudo que tenho para te ofertar esta noite... Poesia... não achei.
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Tempo
Ah! este Tempo etéreo e hierático a me impor lembranças e propor destinos. Este Tempo agonia que me alheia a voz quando estou sozinho. Um Tempo de palavras roucas... loucas... a dizer-me coisas com as quais eu não atino. O Tempo afoito, nau sem vela e sem razão, que conduz, por entre nevoeiros, o meu coração. Intuo este Tempo, máscara da mentira, que julgo passar por mim quando sou eu quem passa por ele. Soa, ao longe, este Tempo de renúncia e de exílio em cujo pórtico ouve-se o diáfano prelúdio da tua ausência Freme este Tempo de silêncio que engenha sombras no canto que embala a minhaprópria dor. Cerram-se os olhos do Tempo que nas noites choram a minha solidão. Fito este Tempo que em cada manhã me sugere, imarcescível, uma nova possibilidade para ser feliz. Ah! o Tempo... este instante precário e denso, cativo e límpido, onde a alma flamejante engendra o engano de existir.
1 006
Espero
Espero as palavras que não chegam.
Espero o passado que caminha, irresoluto, cada vez para mais longe.
Espero a Alma infrangível que não vem e que encobre a voz tergiversável do que sinto.
Espero o silêncio cego que vem dizendo, murmurante, velhas histórias, enredados medos.
Aguardo, no tilintar dos pequeninos passos do tempo, o instante em que o amor repousasse as suas lágrimas tenras nos olhos inquietos da saudade.
Aguardo, atento aos sons que o ar evoca, o dissipar desta angústia que me perpassa lenta e longamente.
Espero a vida e seus caminhos sós e seus sonhos sincréticos a desvelarem a ternura dispersa no tempo.
Enquanto espero olho o momento que estremece.
Soa ao longe o pulsar constante e arrítmico da vida.
Ecoa nos meus lábios contritos o segredo nostálgico do teu nome.
Chove...
A chuva cai sarapintando de gotas fosforescentes a face dócil da noite.
Flores ondulam levemente ao remanso que a chuva inventa.
Espero...
Espero as palavras que não vazam.
As palavras que não irrompem.
As palavras cálidas e ternas que se esconderiam em algum lugar de ti.
Espero as palavras intrínsecas que diriam: "vem!!! ...eu também te amo".
1 070
Adeus
Entre as palavras não ditas Há muitas flores formosas Há orquídeas, lírios e rosas Há flores que nem acreditas
Entre o silêncio que esquece De dizer as palavras inteiras Há vozes, sutis brincadeiras Que a tua razão desconhece
Entre o sentimento que fica Como se fosse a lua e o sol Como a tarde lilás do arrebol Há o tempo etéreo que purifica
Entre as minhas mãos e as tuas Ficaram a emoção e o carinho Que mesmo eu estando sozinho Há o calor das lembranças suas
Entre os meus lábios e os teus Há a dor da palavra que chora Que foi dita quando fui embora A interminável palavra do adeus
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Teus passos
na noite onde o silêncio é o postigo antigo de um sentimento ouço teus passos a andarem em mim ficam, em mim, as marcas dos teus pés como se areia eu fosse ficam as gotas salgadas a escorrer como se mar houvesse entranho-me numa concha como se ondas ouvisse ficam na noite teus olhos de estrelas a derramar as fragrâncias de uma primavera a soluçar os medos da noite inditosa a arder a lembrança do que um dia foi Amor ficam os nãos versejados e a morrer da morte mais intensa que em fumos se desfaz morrem os não quando eles já não nos servem mais a voz ouvida ao longo do vento sibilando por entre as frestas de um passado envelhecido entontece a flor que brota no seio da solidão o vento vagando na noite é uma réplica do que foi meu coração quando a noite espargia o silêncio nas várias faces do vento e guardava a minha Alma na renuncia rútila dos astros guardava, na pálpebra do sonho, o que de mim ainda sou... ...e o que eu ainda sou é crepúsculo de barco a deriva a vagar pelas ilhas inescrutáveis dos meus sentimentos a deslizar sigiloso na transparência dos ventos errantes desvelando a aragem silente do que de mim restou
1 056
Pra onde vou?
Pra onde vou se agora a vida me trouxe você E nossos momentos são sonhos que em mim se realizam? Pra onde vou se te esperar tornou-se a inteira poesia E os meus beijos aninham-se no teu corpo Como os versos aninham-se nos poemas? Pra onde vou se agora tua mão tocou a minha E os teus dedos, trançados aos meus, disseram tanto amor? Pra onde vou se agora o dia acorda e dorme em você E nas minhas noites o perfume do teu corpo embebe o ar da minha imaginação? Pra onde vou agora que os meus lábios tocaram os teus E a sede molha a lembrança dos nossos dias e das nossas noites? Pra onde vou se a tua ausência é tudo que tenho depois do nosso amor E na minha pele o teu gosto fica como o desejo ainda latente? Pra onde vou se agora quando apago a luz é o seu toque que sinto na penumbra que me encobre? Pra onde vou se agora quando o silêncio dormita é a tua voz que ouço? Pra onde vou se agora meus caminhos, tão distantes, esqueceram os próprios passos? Pra onde vou se agora tudo que sinto é você Tudo que sonho é você Tudo que quero é você Tudo que amo é você E tudo que tenho é saudade?
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Hoje
Hoje já não queimam as noites em seus fogos cor de sangue. O fogo fez-se mar intenso, vaga sem fim.
Hoje a madrugada é precipício a acolher rios de sonhos que se precipitam como chuvas molhando a lágrima entornada, a lágrima amarga e perdida
Hoje não te tenho mais, não sinto mais meus lábios a viver nos teus. Não beijo teus olhos, não sinto teu corpo, só há o teu perfume entre os meus braços
Hoje já não digo amor O amor ficou cingido ao passado nos silêncios que ficaram junto a ti, ao teu lado.
Hoje o silêncio tonitruante das palavras não ditas é o grão de pólen que perpassa as pétalas das dores a germinar no infindo adeus
Hoje, sonhos desfeitos, vida sem gosto, minha alma galga colinas buscando em outros trejeitos As linhas meigas do teu meigo rosto