Na manhã que te levou Na tarde que não se cala No beijo que não te esquece No abraço que ainda aquece Na noite que te esperou Na cama onde agora dorme o frio Na tua ausência doída Num quarto vago e vazio A saudade deita seu corpo Junto ao teu corpo macio
Preciso Espargir a flor com a água da concha das mãos Cantar a canção Entender a folha branca da ilusão Restituir ao poema a verdade com a qual te amei Esperar no precário minuto o penhor de outra noite outra manhã Acordar a manhã e mergulhar meus dedos em teus cabelos Acordar os anjos e o menino do retrato Beber do orvalho o alivio para a sede eterna
Preciso Apagar o desespero dos passos presos na areia, presos nos espelhos dos sonhos ante o meu rosto Expressar o suspiro o sussurro ermo e terno a saudade sozinha Pressentir da existência o segredo Ter um motivo para ouvir o verso se agora ando desperto e o verso é sonho sílfide em meio ao mar Calar a voz da mentira Tecer a delicada liberdade
Preciso Esperar a carta (que já não se usa mais) que cheirava a cravos rubros amarelas rosas que trazia teu aroma espanhol e, por acaso, um fio do teu cabelo desejo e ânsia que o dia trazia como essência nas tardes que eram só nossas
Preciso De um amigo (e quem não precisa?) que possa escrever a carta que ainda espero Um amigo que saiba da consumação inelutável do existir e do silêncio que pode haver nas palavras e do encanto que pode haver nas palavras e das palavras que podem haver nas palavras fios da urdidura da serena humana alma Um amigo que fale de nostalgias e que tenha brincado em ruas de terra na infância com seu pião batatinha com sua bolinha de gude matadeira Um amigo que colha estrelas nas noites pintadas à mão Que leia a poesia e não reprima a lágrima ou o riso sem explicação Um amigo que saiba do meu sonho e saiba do encanto que os sonhos têm e do devir que os move Um sonho que engane as noites que o próprio sonho desfaz, ah! amor, tão frágil é o passado tão lindo o vento na acácia e nos cabelos das meninas
Preciso Dos dias vagabundos Das ruas de terra Das enxurradas Das flores primordiais Da voz negra da noite Dos teus olhos, prenuncio das noites envolvendo o mundo
Preciso Do sono em teu colo Da inocência nos teus braços Da meiguice nos teus olhos Da nudez casta e ofegante nos teus beijos
Preciso Perder a hora e a compostura Bater à porta da lua Perder os sentidos Mudar-me de vez para a infância, para aquela rua Maria Incendiar a palavra que me define neste instante Escolher a mão esquiva e o gesto que dorme entre as nossas mãos
Peciso Continuar apesar do meu medo Acostumar meus olhos à escuridão Fingir que não sei da guerra Chorar a dor soterrada do homem Suprimir em todos os corações a indiferença Aprender um novo idioma Dormir o pranto e esta melancolia Colocar o passado em seu lugar Ver crescer o outono e as folhas que caem longe do engano das horas, longe do mar Ter tempo, sobretudo, para o morrer da irresoluta persona e, então, calar os ventos Guardar, silenciosamente, a tua ausência
Preciso Desta solidão com o seu manto de sombra bordô vinda com o ocaso do dia, pulsando a noite que se inicia, suspiro de harpa, rumores de poesia
Preciso Desta solidão onde começa e acaba o ser
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Noite após noite eu minto
Acorda a noite sob o cicio das àguas da chuva recendendo à terra molhada e à enigma Nasce a flor na escuridão da noite entre os sonhos úmidos do jardim Aponho no negro céu estrelas sonolentas Sombras esbatem-se à luz liquefeita da lua Sopra a brisa sutil onde pousa um vaga-lume a sua verde luz e o seu reflexo de ilusão Evolam-se nuvens vindas de um passado inapreensível Incendeiam-se imagens no velho e baço espelho, símbolos indecifráveis, cores tingindo o ar Desata-me do cárcere das tuas lembranças, ó noite, que se dispersa nas notas da música ecoando nos olhos lassos de uma madrugada antiga O pássaro passa errante e o meu coração se encanta como a criança que brinca com o espelho olhando o teto como reflexo do chão Caem estrelas na areia que a lua borda O mar repete na penumbra as ondas e os rumores dos rochedos As noites inconsúteis, iguais, iguais, iguais, cobertas pelo pó e pelo simulacro dos segredos do enredo a me escreverem cena após cena sina após sina instante após instante... arquétipos olhando os olhos da morte nos milhões de anos esquecidos no ir e vir dos sonhos que separam o homem e a alma como quem depõe a vida e o destino aos pés do vento que embalde traz as fagulhas do mar e os caminhos solitários dos minutos dissolvidos onde correm meus passos de criança Quantos séculos discorrem o destino leviano dos homens? Quantas mortes hei de subornar e iludir devagar com a antiga pressa? Diante dos sonhos e da possibilidade do retorno eu minto Para não morrer eu minto Noite após noite eu minto
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Versos úmidos
No rio hierático e cativo da poesia dormitam todos os sonhos que eu não soube sonhar cabem todos os sígnos e tantas outras palavras cuja simples expressão faz o tempo difuso flutuar e os dias e as noites perpassarem implacáveis nos vales onde correm e soluçam as águas perenes e avermelhadas dos rios que choram e suspiram ao ouvirem as pétalas dos versos que caem e pelo perfume da névoa umedecendo o sussurro da aragem ondulando no bambuzal
Nesta brisa soprando nas noites azuis evolam-se estrelas deitando fagulhas ao vento urdindo nuvens de algodão e abrindo o remanso onde cabem os meus silêncios quietos e vulneráveis cabem estes ecos de nostalgia e aonde acorre meus olhos buscando teus passos nas tardes iluminadas pela ternura transparente e comovida de um sol caminhando para a noite sem sono e onde uma lua derramando prata admira na inquietude da madrugada os sinos a dobrarem as horas e a voz do vento doce e distante
Nesta chuva turva que embaça o dia lanço barquinhos de papel Ouço saudades tamborilando no telhado no plim plim plim dos pingos pingando É final de primavera Os ypês já floritam e suas flores pequenas cobriram o solo em sombras amarelas brancas luas ametistas roxas A noite treme sobre o mar e o vento recita versos solitários de sal e séculos na noite que freme sobrer o mar No poema que se abre e fere a tua lembrança morre um menino pequeno viajante de tempos e de sonhos tão pequeno e já envolto em solidões tão pequeno para a angústia dos séculos corpo sem alma guarda sua lata de barbante e areia para o incognoscível amanhã
Nestas mãos que amalgamam o ar em busca de desertas madrugadas cabem o anjo e o aroma angelical dos jasmins cabem a voz da flor e a aurora que resplandece em ouros e azuis
Nestas mãos que tocam o noturno escuro e vário e que tocaram teu rosto enlaçaram a tua mão acarinharam teus cabelos acenaram um adeus no vento triste de uma tarde sem nome nestas mãos ficou a nívea flor dos teus seios e todo o lento silêncio que embebe a poesia Estas mãos, molhadas pelas chamas das lágrimas, não sabem da saudade que eu sinto dos caminhos que andei sob espelhos A imagem invertida fazia voar meus pés
Estas mãos... Estas mãos não sabem da saudade que eu sinto da noite negra dos teus olhos Nem estas mãos nem os anos todos que passaram, nem as estrelas que cairam sobre o caminho de pedra enquanto eu te esperava nem as noites nas quais teu beijo não era meu
E na rua, entre teus braços, a noite escondia a eternidade A lua, lírica esfera sob o pêndulo negro do céu, vestia de cinza o extenso mar cortado pelas ondas e entregue às terras pelas marés As águas erram na penumbra indecifrável que a tua ausência deixou e levam consigo as canções e os versos, sem métrica e sem limites, com os quais te amei
702
Hoje
Hoje já não queimam as noites em seus fogos cor de sangue. O fogo fez-se mar intenso, vaga sem fim.
Hoje a madrugada é precipício a acolher rios de sonhos que se precipitam como chuvas molhando a lágrima entornada, a lágrima amarga e perdida
Hoje não te tenho mais, não sinto mais meus lábios a viver nos teus. Não beijo teus olhos, não sinto teu corpo, só há o teu perfume entre os meus braços
Hoje já não digo amor O amor ficou cingido ao passado nos silêncios que ficaram junto a ti, ao teu lado.
Hoje o silêncio tonitruante das palavras não ditas é o grão de pólen que perpassa as pétalas das dores a germinar no infindo adeus
Hoje, sonhos desfeitos, vida sem gosto, minha alma galga colinas buscando em outros trejeitos As linhas meigas do teu meigo rosto
J L Silva
1 029
Amortecedor
A AMOR AMORTE AMORTECE AMORTECEDOR
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Adeus
Entre as palavras não ditas Há muitas flores formosas Há orquídeas, lírios e rosas Há flores que nem acreditas
Entre o silêncio que esquece De dizer as palavras inteiras Há vozes, sutis brincadeiras Que a tua razão desconhece
Entre o sentimento que fica Como se fosse a lua e o sol Como a tarde lilás do arrebol Há o tempo etéreo que purifica
Entre as minhas mãos e as tuas Ficaram a emoção e o carinho Que mesmo eu estando sozinho Há o calor das lembranças suas
Entre os meus lábios e os teus Há a dor da palavra que chora Que foi dita quando fui embora A interminável palavra do adeus
1 097
Tempo
Ah! este Tempo etéreo e hierático a me impor lembranças e propor destinos. Este Tempo agonia que me alheia a voz quando estou sozinho. Um Tempo de palavras roucas... loucas... a dizer-me coisas com as quais eu não atino. O Tempo afoito, nau sem vela e sem razão, que conduz, por entre nevoeiros, o meu coração. Intuo este Tempo, máscara da mentira, que julgo passar por mim quando sou eu quem passa por ele. Soa, ao longe, este Tempo de renúncia e de exílio em cujo pórtico ouve-se o diáfano prelúdio da tua ausência Freme este Tempo de silêncio que engenha sombras no canto que embala a minhaprópria dor. Cerram-se os olhos do Tempo que nas noites choram a minha solidão. Fito este Tempo que em cada manhã me sugere, imarcescível, uma nova possibilidade para ser feliz. Ah! o Tempo... este instante precário e denso, cativo e límpido, onde a alma flamejante engendra o engano de existir.
1 001
Espero
Espero as palavras que não chegam.
Espero o passado que caminha, irresoluto, cada vez para mais longe.
Espero a Alma infrangível que não vem e que encobre a voz tergiversável do que sinto.
Espero o silêncio cego que vem dizendo, murmurante, velhas histórias, enredados medos.
Aguardo, no tilintar dos pequeninos passos do tempo, o instante em que o amor repousasse as suas lágrimas tenras nos olhos inquietos da saudade.
Aguardo, atento aos sons que o ar evoca, o dissipar desta angústia que me perpassa lenta e longamente.
Espero a vida e seus caminhos sós e seus sonhos sincréticos a desvelarem a ternura dispersa no tempo.
Enquanto espero olho o momento que estremece.
Soa ao longe o pulsar constante e arrítmico da vida.
Ecoa nos meus lábios contritos o segredo nostálgico do teu nome.
Chove...
A chuva cai sarapintando de gotas fosforescentes a face dócil da noite.
Flores ondulam levemente ao remanso que a chuva inventa.
Espero...
Espero as palavras que não vazam.
As palavras que não irrompem.
As palavras cálidas e ternas que se esconderiam em algum lugar de ti.
Espero as palavras intrínsecas que diriam: "vem!!! ...eu também te amo".
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Versos insones
Um tempo infindo trouxe você pra mim Um tempo sem hora, sem dia, sem mês Um tempo onde só havia o soar Longo do vento na noite imensurável Dizendo ao meu coração teus sonhos Lançando fora os véus que o encobriam E onde o amor se perdera em fugas Esquecendo a ternura do beijo alvo da alma Disse a ti as palavras que em mim morriam Disse do meu medo e da minha dor Falei da noite que me esconde A noite onde o meu ser se dissolve Em rotas de um labirinto inescrutável Pousastes a mão sobre os meus lábios Para que o silencio deles não partisse Para que o gesto pudesse se expressar E na palavra contida nos teus gestos Ouvi o bem dizer da ilusão do alento Onde tuas mãos bebendo do meu corpo Sussurravam os versos insones que te fiz Na esteira das luzes que apagaram a madrugada
1 090
Teus passos
na noite onde o silêncio é o postigo antigo de um sentimento ouço teus passos a andarem em mim ficam, em mim, as marcas dos teus pés como se areia eu fosse ficam as gotas salgadas a escorrer como se mar houvesse entranho-me numa concha como se ondas ouvisse ficam na noite teus olhos de estrelas a derramar as fragrâncias de uma primavera a soluçar os medos da noite inditosa a arder a lembrança do que um dia foi Amor ficam os nãos versejados e a morrer da morte mais intensa que em fumos se desfaz morrem os não quando eles já não nos servem mais a voz ouvida ao longo do vento sibilando por entre as frestas de um passado envelhecido entontece a flor que brota no seio da solidão o vento vagando na noite é uma réplica do que foi meu coração quando a noite espargia o silêncio nas várias faces do vento e guardava a minha Alma na renuncia rútila dos astros guardava, na pálpebra do sonho, o que de mim ainda sou... ...e o que eu ainda sou é crepúsculo de barco a deriva a vagar pelas ilhas inescrutáveis dos meus sentimentos a deslizar sigiloso na transparência dos ventos errantes desvelando a aragem silente do que de mim restou