J L Silva

J L Silva

n. 1959 BR BR

n. 1959-08-23, Florianópolis

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Ausência

Na manhã que te levou
Na tarde que não se cala
No beijo que não te esquece
No abraço que ainda aquece
Na noite que te esperou
Na cama onde agora dorme o frio
Na tua ausência doída
Num quarto vago e vazio
A saudade deita seu corpo
Junto ao teu corpo macio
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Poemas

43

A rosa amarela do dia

A rosa amarela do dia

desliza na manhã

de um mundo velho,

vago,

sequioso

O amor não é poesia

no velho mundo abstraído

O amor é folha de

outono,

adeus,

passos de nuvens

rumo aos teus olhos

negros

O céu, roçando o mar,

tece arco-íris

na poeira úmida

das cores condensadas

na miragem das praias

à deriva

Os ventos balançam

as folhas laceradas

por este inverno

de horas melancólicas

A um canto

há um grito

que ao meu canto

desvirtua num fragor

plangente



Vi a rosa amarela do dia

deslizando na manhã

por entre os morros

dispersos ao longo

da vida que desliza

sob conceitos e

palavras sem nome

Tudo caminhando

lentamente

Perpassando a manhã

o som de um sino dobra,

circunspecto,

embebendo os olhos

e apascentando corações



Um sol, recriado no lago,

arde em chispas

ao murmúrio das águas

A brisa azul esvoaça

o amarelo do dia

Cores a desdobrarem-se

na onda turva e reflexa

no som cambiante,

nas sombras difusas

que acordam encharcadas

da tua ausência

do meu exílio

e ébrias de

[solidão]
695

Amigos

Os amigos, separados pelo tempo abstrato,

pelos caminhos de argila,

pelos rios e suas pontes ligando a saudade

à impressentida nostagia da ausência

enquanto em todo o céu é primaveras,

relembram estes ínicios de novembros

onde desabrocham flores por entre as frestas das pedras,

pequeninas flores interropendo

a estrutura calcinada pelo fogo do tempo compassado

a encher de presságios a vida e a alma



Girando sobre as folhas soltas do outono

a silhueta do vento derruba a gota de orvalho

e pousa no poema

e cria a lágrima

nos olhos verdes da solidão



O poema nasce assim, sem luz, sem nome

por enquanto somente esta lágrima da solidão

rio sem sementes,

sem momentos,

um sonho que fosse

um barco sem vela nos imprecisos ventos do agora

estrelas no firmamento tiritando aos olhos da lua

embalam a noite no ar

brotam saudades do chão

e o poema se expressa entre a saudade e o sem nome



Enquanto os amigos se esperam

Enquanto o vento gira

Enquanto o poema nasce

um pouco de nós fica nesta ausência

gestos,

risos,

vozes

e as mãos cheias de nada



Fica, em meio a tudo, este tom de tristeza

Fica, apesar de tudo, estes novos poemas

e a janela das Luas Antigas

onde me debruço a olhar a vida e o mundo

com olhos distraídos de artesão de estrelas

e sonhos ociosos e incognocíveis como um mistério



São tantos os momentos que fogem

e calam no gesto de demora das flores

São tantos os momentos de indagação

dos barcos rumo ao porto

São tantos os silêncios,

que quase ninguém ouve

São tantas as esperas

que a areia escorre da mão

fluída como a vida em grão



Os amigos relembram o primeiro segundo,

a última hora de tantos novembros

a perguntar pelo passado que imiscuiu-se à multidão,

bosque ou jardim,

ausência amorável

como o perfume da rosa

como um dia que amanhece

sob o encanto do dia que o precedeu



A brisa caminha em tempos e sonhos

que a chuva deixou no jardim

insinuando tardes brandas

e paisagens convidando à nostalgia,

abrindo a porta das gaiolas

para que fujamos todos...

um dia



Marulho do mar

O silvo do vento passando pela fresta da janela

Houve um tempo

em que o vento despenteava o meu cabelo

e secava a lágrima que, às vezes, caía

só e silente

como a única verdade de um instante

Na distância, o rumor do vento soprando,

secava as gotas de chuva nas pétalas das flores no jardim



A vida esquece-se no rio

deixa-se levar

tecendo os fios da urdidura

enquanto nas margens

os amigos se esperam



Esperam o momento dúbio

de um possível reencontro

em outras primaveras onde as flores são abandonos,

outros outonos?

inumeráveis verões,

nas noites estreladas de um inverno

onde as saudades são quentes e ternas

Esperam, os amigos,

assim esperam

cativos de tantos outros dias



E a vida, assim, torna-se indispensável
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Cansaço

Os pés afundam neste cansaço

Afundam no chão que falseia as folhas

derrubadas pelos longos ventos

que as esquecem



Meus olhos pressupõem o reflexo esbatido da luz

Supõem a noite e uma última canção

Supõem estrelas,

quando a noite se abrir

e por detrás dela a lua se debruçar

por entre o sol e o mundo



Diante destes mares

os pés afundam no cansaço

da areia úmida de silêncios

e de poemas traquinas

e insofismavelmente puerís,



O cansaço se arrasta no tempo,

metáfora inelutável da vida,

vento desbastando as arestas

das sentenças,

fragmentos de palavras

entretendo a minha noite indistinta,



Brinca com teu nome

esta voz em mim que te chama

da greta da janela fechada

por dois traços de lápis cinza

riscados à guisa de tranca,

como as sombras que perduram

no trêmulo espelho das águas



Às avessas restam a tarde

e a chuva caindo como linhas dissolutas

Resta o gesto e o pulsar impreciso

das horas vazando a bruma da noite

que esconde o mar inconcluso



Ante a palavra que não veio

perdi o poema

A brisa passou incendiando

o silêncio

O verso ficou entre os espaços

da página em branco

onde a folha absorve o crepúsculo

incolor

e a ausência bêbada das sombras

douradas que esculpiam

as matas,

a vida,

as pessoas,

os passos nos quais me perdi,

na luta,

na trama,

no sopro,

no barro

onde não vingaram os girassóis



Quem se não o meu cansaço teceria

o que no coração poderia

ser ilusão

ou poesia?



[...]



À tarde o vento soprou, afável

A chuva choveu pouquinho e dispersa

(dispressa)

A noite chegou de improviso

Trouxe lembranças,

algumas perdas,

um breve baque surdo nas águas

e os olhos límpidos de quem

já vê a primeira estrela

nimbada de um sereno fino



Chegaste...

Ó tempo sem volta,

erguido no ar como quem dança

e seca os olhos molhados

no ardor do sonho adormecido

nas palavras do menino:



"Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal..."



[...]



Inicia-se a madrugada

Murmúrio e silêncio

Regressam os ventos

Faz-se a espera

dolente de uma solidão

que pergunte dos meus sonhos

e da espera,

sob a luz enebriante de uma

lua de novembro,

faz-se o cansaço
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Poesia não achei

Queria te mandar uma poesia, mas não achei nenhuma que se parecesse com você.

Nenhuma tinha estes olhos ternos, céus em dias claros, mares ao crepúsculo da manhã.

Nenhuma tinha estes cabelos de fios cor do trigo ondulando à luz do sol.

Nenhuma tinha a candura das tuas mãos, o perfil delgado dos teus dedos, a fome do toque.

Em nenhuma poesia encontrei o teu abraço que me enlaçava ternamente como gota azul do oceano.

Nenhuma tinha o convite do teu colo.

Nenhuma tinha a maciez da tua pele, rosa branca, lírio em flor.

Nenhuma tinha este sangue rubro no qual teus lábios se expressam.

Nenhuma trouxe o silêncio do contorno dos teus lábios em sussurro.

Nenhuma sabia sorrir como você sorria pra mim.

Nenhuma falava as palavras que me dizias e com as quais ainda faço os caminhos dos meus sonhos.

Nenhuma soava como soa tua voz quando dizes "felicidade".

Nenhuma trazia as letras do teu nome onde amanhecem os meus dias.

Nenhuma tinha a fragrância nua do teu corpo úmido de desejo.

Nenhuma tinha o arfar dos teus níveos seios durante o amor... corolas aveludadas,

círculos de chamas.

Nenhuma tinha versos que se despissem como despe-se o teu corpo.

Nenhuma era saudade como são os beijos teus.

Nenhuma tinha esta agonia de liberdade que a tua alma tem.

Nenhuma sabia da dor que você socorre.

Nenhuma tinha o ritmo dos teus passos quando caminhas na areia da praia.

Nenhuma poesia, nenhuma...

não achei nenhuma poesia que pudesse te dar nesta noite.

Só achei estas palavras que o vento, em meio ao canto de um pássaro, sussurrou ao

meu ouvido.

E estas palavras são tudo que tenho para te ofertar esta noite...

Poesia... não achei.
1 123

Tempo

Ah! este Tempo etéreo e hierático a me impor lembranças e propor destinos.

Este Tempo agonia que me alheia a voz quando estou sozinho.

Um Tempo de palavras roucas... loucas... a dizer-me coisas com as quais eu não atino.

O Tempo afoito, nau sem vela e sem razão, que conduz, por entre nevoeiros, o meu coração.

Intuo este Tempo, máscara da mentira, que julgo passar por mim quando sou eu quem passa por ele.

Soa, ao longe, este Tempo de renúncia e de exílio em cujo pórtico ouve-se o diáfano prelúdio da tua ausência

Freme este Tempo de silêncio que engenha sombras no canto que embala a minhaprópria dor.

Cerram-se os olhos do Tempo que nas noites choram a minha solidão.

Fito este Tempo que em cada manhã me sugere, imarcescível, uma nova possibilidade para ser feliz.

Ah! o Tempo... este instante precário e denso, cativo e límpido, onde a alma flamejante engendra o engano de existir.
1 006

Espero


Espero as palavras que não chegam.

Espero o passado que caminha, irresoluto, cada vez para mais longe.

Espero a Alma infrangível que não vem e que encobre a voz tergiversável do que sinto.

Espero o silêncio cego que vem dizendo, murmurante, velhas histórias, enredados medos.

Aguardo, no tilintar dos pequeninos passos do tempo, o instante em que o amor repousasse as suas lágrimas tenras nos olhos inquietos da saudade.

Aguardo, atento aos sons que o ar evoca, o dissipar desta angústia que me perpassa lenta e longamente.

Espero a vida e seus caminhos sós e seus sonhos sincréticos a desvelarem a ternura dispersa no tempo.

Enquanto espero olho o momento que estremece.

Soa ao longe o pulsar constante e arrítmico da vida.

Ecoa nos meus lábios contritos o segredo nostálgico do teu nome.

Chove...

A chuva cai sarapintando de gotas fosforescentes a face dócil da noite.

Flores ondulam levemente ao remanso que a chuva inventa.

Espero...

Espero as palavras que não vazam.

As palavras que não irrompem.

As palavras cálidas e ternas que se esconderiam em algum lugar de ti.

Espero as palavras intrínsecas que diriam: "vem!!! ...eu também te amo".
1 070

Adeus

Entre as palavras não ditas
Há muitas flores formosas
Há orquídeas, lírios e rosas
Há flores que nem acreditas

Entre o silêncio que esquece
De dizer as palavras inteiras
Há vozes, sutis brincadeiras
Que a tua razão desconhece

Entre o sentimento que fica
Como se fosse a lua e o sol
Como a tarde lilás do arrebol
Há o tempo etéreo que purifica

Entre as minhas mãos e as tuas
Ficaram a emoção e o carinho
Que mesmo eu estando sozinho
Há o calor das lembranças suas

Entre os meus lábios e os teus
Há a dor da palavra que chora
Que foi dita quando fui embora
A interminável palavra do adeus
1 101

Teus passos

na noite onde o silêncio
é o postigo antigo de um sentimento
ouço teus passos a andarem em mim
ficam, em mim, as marcas dos teus pés
como se areia eu fosse
ficam as gotas salgadas a escorrer
como se mar houvesse
entranho-me numa concha
como se ondas ouvisse
ficam na noite teus olhos de estrelas
a derramar as fragrâncias de uma primavera
a soluçar os medos da noite inditosa
a arder a lembrança do que um dia foi Amor
ficam os nãos versejados e a morrer
da morte mais intensa que em fumos se desfaz
morrem os não quando eles já não nos servem mais
a voz ouvida ao longo do vento sibilando
por entre as frestas de um passado envelhecido
entontece a flor que brota no seio da solidão
o vento vagando na noite é uma réplica do que foi meu coração
quando a noite espargia o silêncio nas várias faces do vento
e guardava a minha Alma na renuncia rútila dos astros
guardava, na pálpebra do sonho, o que de mim ainda sou...
...e o que eu ainda sou é crepúsculo de barco a deriva
a vagar pelas ilhas inescrutáveis dos meus sentimentos
a deslizar sigiloso na transparência dos ventos errantes
desvelando a aragem silente do que de mim restou
1 056

Pra onde vou?

Pra onde vou se agora a vida me trouxe você
E nossos momentos são sonhos que em mim se realizam?
Pra onde vou se te esperar tornou-se a inteira poesia
E os meus beijos aninham-se no teu corpo
Como os versos aninham-se nos poemas?
Pra onde vou se agora tua mão tocou a minha
E os teus dedos, trançados aos meus, disseram tanto amor?
Pra onde vou se agora o dia acorda e dorme em você
E nas minhas noites o perfume do teu corpo embebe o ar da minha imaginação?
Pra onde vou agora que os meus lábios tocaram os teus
E a sede molha a lembrança dos nossos dias e das nossas noites?
Pra onde vou se a tua ausência é tudo que tenho depois do nosso amor
E na minha pele o teu gosto fica como o desejo ainda latente?
Pra onde vou se agora quando apago a luz é o seu toque que sinto na penumbra que me encobre?
Pra onde vou se agora quando o silêncio dormita é a tua voz que ouço?
Pra onde vou se agora meus caminhos, tão distantes, esqueceram os próprios passos?
Pra onde vou se agora tudo que sinto é você
Tudo que sonho é você
Tudo que quero é você
Tudo que amo é você
E tudo que tenho é saudade?
1 072

Hoje

Hoje já não queimam as
noites em seus fogos
cor de sangue. O fogo
fez-se mar intenso,
vaga sem fim.

Hoje a madrugada é precipício
a acolher rios de sonhos
que se precipitam como
chuvas molhando a lágrima
entornada, a lágrima amarga e perdida

Hoje não te tenho mais,
não sinto mais meus lábios a viver
nos teus. Não beijo teus olhos,
não sinto teu corpo, só há o teu
perfume entre os meus braços

Hoje já não digo amor
O amor ficou cingido
ao passado nos silêncios
que ficaram junto a ti,
ao teu lado.

Hoje o silêncio tonitruante
das palavras não ditas
é o grão de pólen que
perpassa as pétalas das dores
a germinar no infindo adeus

Hoje, sonhos desfeitos,
vida sem gosto,
minha alma galga colinas
buscando em outros trejeitos
As linhas meigas do teu meigo rosto

J L Silva
1 032

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