COTIDIANO
Mais uma manhã:
Acordo meus desânimos,
Visto meus problemas,
Calço minhas ilusões,
Escovo minhas dúvidas,
Tomo um gole de fé,
Coloco o sobretudo de convicções
E saio apressado.
Uma vez na rua,
Sinto-me nu
E desamparado.
PRESENÇA AUSENTE
O homem cheira mal,
É imprevisível,
Ressentido
E mal humorado,
Mas
Seus pensamentos
Cintilam Incólumes:
Sem cheiro,
Sem torpor,
Sem dor,
Atemporais.
Apegar-se ao homem
É pular no desfiladeiro.
Agarrar-se a seus pensamentos
É flutuar sem paradeiro.
BEIJO PERDIDO
Manhã!
Sol em profusão,
Pessoas na correria.
Um beijo perdido,
Na noite passada,
Busca magoado
A que boca beijar.
Mas nenhuma boca,
Mesmo a mais louca,
Quer se entregar.
Manhã!
MISSÃO POÉTICA
COM SENSO
COM SENTIMENTO
COM NEXO
COM TUDO
COMOVO
AVISOS
O quadro de avisos,
Avisos não tem.
Minha imagem
Preenche o quadro.
Meus avisos também.
SOMOS TODOS E NINGUÉM
Estar em todas
As vidas,
Sem a nenhuma se prender.
Casando hoje,
Morrendo amanhã,
Diplomando em seguida,
Correndo atrás de pipas,
Chorando a perda de um amor,
De volta à infância, com furor.
As vidas em turbilhão.
Vivendo além do possível,
Sem jamais cansar.
Sem remorsos,
Sem medidas,
Sem sequências,
Sem porquês,
Mas sempre
Prisioneiro do absurdo.
Bons dias,
Maus dias,
Sei lá.
Mais mais,
Sempre muito,
Além do controlável.
Chegando, partindo
Chorando, sorrindo
Impassível,
Tudo junto.
Uau!
Para agora
Esta roda,
Que me gira
Feito argila.
Piração.
Chega, chega,
Para agora
Esta ilusão.
Já não aguento
Esta farra,
Quero minha identificação.
ESTRADA
A estrada
É só um ponto
De encontro
No horizonte.
Onde ela conduz,
Diz meu coração.
No entanto,
A estrada chama
E acende chama
De pura ilusão.
SEJAM FELIZES (SE PUDEREM)
Feliz Natal para vocês
Que ficam
E um próspero Ano Novo.
Que se reúnam
Com suas famílias
No dia de Natal
E no Réveillon
E sejam tão felizes
Quanto mereçam.
Não se importem comigo.
Sou um pobre cão vira lata,
Que nunca fez mal a ninguém,
Mas por estar perambulando
À cata de restos de comida
Num supermercado,
Onde vocês compram todas estas comidas
Que consomem nestes dias festivos
E nos não festivos também,
Fui atraído e traído por um naco de mortadela envenenada.
Em seguida, fui brutalmente agredido
E embora tenha sido socorrido
Não resisti aos ferimentos e morri.
Feliz Natal e próspero Ano Novo
Para quem fica
Pois eu vou para um lugar melhor
Onde não tenha que catar restos de comida
Para sobreviver.
Vou para as estrelas.
Fica minha alegria de viver,
Mesmo miseravelmente
E que alguém onipotente,
De repente,
Tenha pena de vocês.
O PRIMEIRO VOO DE UM PASSARINHO
De fomes saciadas por comidas nos bicos,Viviam os passarinhos,No ninho cada vez menor,Mas pleno de carinho. Quando a mãe chegou,Com a comida esperada,No ninho ela não pousou.Ficou voando próximaE a fome, de repente,Fez-se coragem e saltou! Depois do tombo, Outra vez tentou.Novo tombo,Com asas amenizou,
Até que, sem tombo,
Triunfante
Voou.
APÓS O DOMINGO
Segunda-feira.
Respiro-te
Pelas minhas entranhas.
Teu cinza,
Tua garoa
Choramingante,
Teu mau humor
Contagiante.
Segunda-feira.
As pessoas robotizadas
Em direção ao dever.
Os carros desenfreados
Sem tempo para te ver.
Segunda feira.
Apenas a agonia
Deste nosso viver.
Segunda-feira.
Isolado,
Ouço uma canção
Antiga, romântica
E me ponho a chorar,
Por não ser mais
Deste lugar.