João Coelho

João Coelho

n. 2000 PT PT

"Partir! Nunca voltarei, Nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro, A gare a que se volta é outra. Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia." Álvaro de Campos

n. 2000-09-23, Porto

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Nascemos para vivermos

Recordo-me de um dia,
Que me encontrava a beber tranquilamente o meu café,
Sentado numa mesa de esplanada
Junto à janela,
Onde sentia o sol de Verão
A massajar a minha face,
Quando ouvi um cliente ao balcão
Afirmar, convicto, o seguinte:

"Meu amigo, nascemos para morrermos."

Discordo totalmente.
Acredito que nascemos para vivermos.
A morte deve ser apenas considerada
Como uma consequência inevitável
Deste processo químico que é a vida.

Tal como a morte,
A vida é só uma.
Não permitam que a vossa vivência
Seja confundida com existência.
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Poemas

16

Esquisso de calçada


Sigo cauteloso, 
Sem qualquer pretensiosismo no meu andar, 
Por esta estrada que vou alongando, 
Passo a passo, 
Desde o primeiro suspiro. 
 
Perdendo-me em mim, 
Não mais sei por onde vou. 
E como poderia saber, 
Se a filosofia da estrada que percorro nunca é a mesma? 
 
Contento-me em revisitar o meu diário de bolso, 
Como personificação da vida, 
E folheá-lo até à ínfima página, 
Perscrutando-a até ao derradeiro ponto final. 
 
Rege-se a sinopse da minha existência, 
Pelo abraçar desta frágil certeza 
De que a estrada por onde vou, 
Não mais é que um esquisso de calçada 
Que nem é esquisso nem é nada, 
É uma moldura sem quadro 
Que Deus a mim me confiou. 
241

Amanhã, serei


Amanhã já não serei quem sou hoje. 
Nem eu o quero ser, 
Nem os tempos vindouros o desejam. 
 
Amanhã leio um livro novo, 
Ouço uma música que ontem desconhecia, 
Observo de maneira diferente, 
Desejo de maneira diferente, 
(Porque a vontade não é a mesma) 
Apaixono-me e desapaixono-me novamente. 
 
No fundo, 
Vivo. 
263

Alinhei o meu olhar com o teu


Alinhei o meu olhar com o teu 
Ligação direta à tua alma onde, no reflexo do teu olhar, 
Vi o amor que já foi meu 
Reparei no teu cabelo dançando sozinho 
Nos teus lábios de beijo de azevinho 
Relembro a viagem da nossa vida 
Em que o comboio se perdeu, 
Relembro as tuas mãos românticas 
E o toque que já foi meu. 
Dissolve-se o meu pensamento que um dia em ti habitou, 
Vivendo agora na silhueta que o tempo apagou 
De senhor feudal a plebeu 
Perdi tudo o que um dia foi meu. 
Sobra uma réstia de lembrança passada 
Que guardo desesperadamente 
Agarrando o futuro com uma mão cheia de nada. 
293

2020


Do toque reza a lenda 
Que se desenvolve no pensamento incompleto 
Da ilusão do amor esperado, 
Substituído pela ausência de afeto 
 
Domínio carnal, 
No labirinto da memória perdido, 
Reside no presente fugaz 
E remonta ao passado do beijo esquecido. 
 
Condenado ao pedaço de pano, 
Que divide o ser do humano, 
Agarra-se à esperança esquiva do brilho intermitente, 
Pedindo que este não brilhe só quando o sol consente. 
266

Sociedade sem dicionário


Prazer de curta duração desprovido de sentido, 
Num breve momento de fantasia 
Que aumenta o vazio, por o querer em demasia. 
 
Visão reduzida à superficialidade do juiz sem formação,  
Que sentencia a moralidade por falta de razão, 
Condenando quem da jaula do pensamento influenciado escapa, 
Ilibando o leitor que lê o livro pela capa. 
 
Assemelhando-se à pintura rupestre da cultura passada, 
Evidencia-se o humano de saber primário, 
Que se serve da linha de pensamento estagnada, 
Na esperança de encontrar o vocábulo correto 
Numa sociedade sem dicionário. 
265

Sophia II



Observo-te agora, no barulho das ondas do mar 
Na sombra dos meus dias de sol,
Na lagoa que reflete o luar 
E no navio perdido, em busca do seu farol. 
256

A casa ao fundo da rua


Ao fundo da rua 
Surge uma casa sem teto 
Tendo no passado sido casulo da inocente larva 
Que, vítima do processo evolutivo, virou borboleta, 
Realizando o ciclo de vida completo 
 
Vislumbrando as consequências 
Que a nova realidade acarreta, 
Desvanecem-se as vivências gravadas 
Nas paredes agora rasas 
Pois o corpo virou borboleta 
E a alma mudou de casa 
 
Nessa casa ao fundo da rua 
Onde o Sol se pôs  
Para dar lugar à Lua 
Que, ao amanhecer, 
transita novamente  
Para o mesmo Sol,  
Num dia diferente. 
275

Resido alegremente no futuro


Resido alegremente no futuro, 
Numa realidade esperançosa que me acalma, 
Onde o calor da luz, pinta a tela da minha face,  
E desenha um sorriso desde a superfície dos lábios  
Até ao profundo da minha alma. 
 
Esta, que já de corpo carece, 
Enaltece o meu íntimo no exterior, 
Onde revivo a felicidade de criança que o “agora” amadurece 
Esquecendo-me, deliberadamente, que o presente, 
Representa a ideia de um futuro anterior. 
 
Abruptamente, cai o pano sem aparente razão 
E ouço desmedidos aplausos para esta interpretação atrevida. 
Com uma vénia agradeço a ovação, que pensava ser ausente, 
E percebo que a vivacidade das linhas, traçadas no guião,  
Já não representa o monólogo da minha vida,  
Mas o epílogo do meu presente. 
265

Sophia I


Procuro-te no sol da manhã, 
Procuro-te no luar inconsolado, 
Procuro uma réstia de ti 
Que habita agora no passado 
Penso e relembro 
Deste-me tudo menos tempo 
 
Regaste a nossa semente com o teu amor 
Que crescia numa bela flor, 
Cortada pelo caule num golpe de letargia 
É agora ornamento defeituoso 
Destinado ao lamento da terra fria. 
 
Encontro-me aqui 
Meio perdido, 
Meio de um todo partido 
Assente na ambição do teu ser  
Silhueta escondida no vulto do teu viver. 
268

Pedaços de ser



Somos pedaços de ser, 
De ser que é e que foi, 
Somos Filho-avô 
Somos Filho-pai 
Somos Filho-mãe 
Somos quem somos e quem por nós passou. 
 
Somos um todo incompleto, 
 Que se unifica em alguém. 
Como universo complexo, 
 Num país de ninguém. 
274

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