Lista de Poemas

Humana identidade

Aquele humano nem o sei ser
O que carrega vida nos ombros
Farto de fardos e de tudo viver
Ser muralha e frios escombros

Caminhar desalento no despertar
lamentado dentre rosto destoado
Saber ser dor e dela ébrio gritar
Ser de amor um beijo, o finado

E rasgar do peito seu coração
Altivado num hiato de agrura
Por sentir ter dentro a nação
Mas no olhar, só pó e amargura

Deitado no empedrado verde
Cede a vida às sorte das horas
Até sentir o rosto solvente
O corpo fase decrescente

Então o sonho partiu-se pejo
Trocado, prenho de normalidade
Deste meu cénico ensejo
Que torna actor, mimo de cidade
Quem nunca quis a vida pendurada
Na esquina pálida, da desventurada

E nunca serei aquele humano
Calado de sentir, oco de rir
Nunca serei o cristal fulano
Que finge ser para algo sentir

Lá vai a vida dependurada no meu colo
Agarrada ao respiro como veneno
Colada de pele, fome e garras de solo
Que atinam o eterno não sereno
E o fazer ser o que nada será
Pois ser é de algo esquecer
Ao esquecer que algo terá de o ser
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Mini balada de Mariana

Mariana tombou seu riso
Caiando de azul a solidão
Nas Curvas loucas de juízo
Em passo miúdo, sonho anão

Correu calçada ja farta dela
Ansiando ver alem fumo e dor
Um rosto, arma e sol da fivela
De quem partiu, tão sonhador

Mas de negro, erguida maré
Trouxe noite ao azul celeste
Uma carta, desespero sem pé
Maldita sorte, o amante veste

Mariana enviuvou sem riso
E nunca mais dele sentiu dó
Apenas dor, idade sem friso
Na solidão de nunca ser avó

Na Guerra matou seu amor
Na vida secou rosto e vigor
Agora resta apenas a idade
que senil arrasta, numa cidade
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Escrever acalma, escrever

Escrever é algo que me acalma

Embora exponha vulnerável,

a minha alma

Contando ao mundo alvissaras de mim

Triste Jomad,

 aprisionado a um sado sem fim

 

Um rio que salgado chora por mim

maculando suas águas de azul marfim

pesaroso pelo fardo do meu desdém

eu que mal sobrevivo e porém…

 

Sei que o sou o que sei

Sei apenas que nada sobre vive sobre nada que apenas sei

Tudo dói-me exaspera-me, dói tudo

Mas…

Se a corda apenas a alma a a_cordá-se

Se fica só_ mente completa_mente só fica_se

Eu ainda assim seria assim ainda eu

Pobre sado do Jomad do sado, pobre

 

 

Mas ao escrever sinto ser maior

que tudo soa bem melhor

Que elevado por algo superior

Contribuo para acalmar a dor

 

E que afinal não sou sofredor

Sou sim, um simples sonhador

Que cria em linhas cruzadas

Histórias de vidas encantadas

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Como descobri que era Poeta

Foi por acaso que Jomad’o Sado
Descobriu um dia que era um Poeta
Tinha ido até à cidade, montado na bicicleta
Ia à praça para ver o que havia lá de pescado

Parou entretanto num pequeno Café
Ali mesmo na esquina, perto do Sr. Zé
Pediu um café daqueles bem tirados
Reparou no canto na Rita e o José irritados

Aproximou-se deles para ver que se passava
Porque motivo ela dele tanto reclamava
Será que posso em algo ajudar
Disse simpático para a conversa pegar

Não disse a Rita prontamente
É assunto só com a gente
Puxou tanto a manga do José
Até que este entornou o meu café

Sentido aquele calor abrasador
Invadir-me todo com estertor
Disse logo naquele momento
Cuidado, vê lá se estás mais atento

Mas aquele calor continuou a subir
Até que estranhamente comecei a sentir
Que queria fazer versos e cantar
Talvez mesmo aprender a rimar

Olhei para eles com alegria
E disse logo uma poesia
Foi curta, brejeira mas engraçada
Fez até corar a Rita, coitada

Rita que estás agora a discutir
Parece que o José estava a pedir
Mas olha que ontem lá atrás na enseada
Pelos teus berros e guinchos, parecia festa animada

Desataram os dois a rir
Clamando “Temos poeta” e é do Sado
Acrescentei depois JO e o MAD a seguir
Porque fazem parte do nome que me foi dado

Assim ficou até hoje mesmo depois de desempregado
Sim, porque a vida de Poeta é sempre muito incerta
Pois nem sempre dá para comer, mesmo se for autor consagrado
Mas a Poesia é de certeza uma das coisas que fiz certa
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Agora compreendo…

Agora compreendo o meu medo
Agora sei porque em mim guardo o segredo
Agora sei porque sou assim, sem vacilar
Apenas mais humano por saber ajudar

Agora vejo na escuridão profunda
Agora sinto quando a dor é bem funda
Agora sinto quando a vida se esvai no nada
Levando no turbilhão a mente fragilizada

Mas nem sempre foi igual
Pois igual é algo irreal
E real é apenas um sinal
Sinalizando o bem e o mal

Mas sei que sou também real
Capaz do bem ou do mal
Maldizendo o que me devassa
Devassando todo bem que eu faça

Agora compreendo mas não entendo
Porque vivo bem mas sempre sofrendo
Agora vejo mas não consigo enxergar
Porque o mal volta para de me visitar

Mas compreendo também agora
Que a esperança vive lá fora

Ser prisioneiro é uma opção
Que está ao alcance da mão
Basta apenas dizer não, basta!

Aquilo que o medo de mim afasta
Tudo aquilo que ele desgasta … basta!
Agora compreendo…
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Tu eras Frágil

Eras frágil e eu sabia vê-lo
Quebradiça como gelo
Rendida a mim pelo sentimento
Que transbordava vindo de dentro

Eras frágil e eu ignorei-o
Tentei vencer-te por receio
Não medi os atos com precisão
E causei mais dor que emoção

E finalmente cai em mim
Percebi que eras mesmo assim
Precioso diamante, perfumado jasmim

Eras tu que ao meu mundo davas a cor
e nele escondias chorando, a tua dor
calando na alma, o teu sincero amor

Agora sou eu frágil e sei-o bem
Isolado pela arrogância que se mantém
Cego num mundo vazio por dentro e fora
Desde o momento em que te foste embora

E frágil sê-lo-ei até perecer
Lembrando o teu rosto no amanhecer
As tuas patetices de que ria com emoção
Até o estranho tique quando mentias… e eu não

Apenas na solidão recordamos quem partiu
Quem por ser frágil, foi abusado e fugiu
Levando a essência do melhor de mim…
onde tudo se esvaiu...

E a revolta que provocou o momento
A guerra que fez cair o nosso firmamento
Foi estupida e cruel… e Deus sabe o quanto lamento
…o quanto eu choro esse momento

Somos frágeis os dois, é a verdade
Diferentes pessoas, mas a mesma realidade
Pois ser frágil não é sinónimo de fraqueza
É sim o que nos torna nobres, até na pobreza

Apenas restam as lembranças, as cinzas ainda quentes
As imagens, o teu cheiro… retalhos de um passado recente
De quem quebrou frágil e fragilizou o meu presente
355

Impossível voar

Impossível voar, nem mesmo um simples planar
Decerto que estou dormindo, na cama a sonhar
Mas a vertigem é real,
o abismo a meus pés, brutal

Basta um pequeno passo, muitos minutos em queda fugida
Pois e se eu não estiver a sonhar, seu perder a minha vida
Não vale a pena arriscar
Uma morte tão sofrida

Mas mais uma vez uma grande tentação
Toma a vez da cuidadosa razão
Ergo o rosto com altivez
Esperando o regresso da sensatez


Tal como tudo na vida este desafio é fascinante
Tem a sua parte de brilho mas também é escuro e errante
Poderei então arriscar?
Serei capaz de voar?

Respostas leva-as a brisa, que no abismo sempre sopra
Torna-se difícil resistir, sem querer atravessar a porta
Mas sem nada se arriscar
Também nunca se irá ganhar

Ai eu vou arriscar, para a frente vou avançar
Se depois algo me fizer recuar, não puder voar
Tenho consciência que pelo menos tentei
Uma decisão eu tomei e por ela, morrerei

Salto de braços abertos, sorriso no rosto estampado
Afinal consigo voar, planar em todo o lado
O desafio foi vencido, jaz inerte sem energia
Venci a barreira que dormente me prendia

Envolve-me um crescendo de luz e felicidade
Ofuscando-me também com sua intensidade
Certo que é o fim do abismo
Será que sei mesmo voar?
Ou será por puro egoísmo
Que tentei este passo dar!

Se for sonho vou acordar, sem sequer me magoar
Até vou imaginar que nunca tentei planar
Se à realidade for parar, com a dor a aumentar
Que seja breve o findar de esta saga de voar
274

O grito da Alma

Ontem à noite ouvi um grito
Ecoou em mim, partiu de mim
A minha alma chorou assim
Invejoso fruto de ser proscrito

Grito que o tudo provoca, tudo o que grito
Alma fugida de mim abandonada, de mim fugida Alma

Lamento deste sofredor que não conhece senão a dor
Que procura a paz mas sem nunca dela ser capaz
Que ainda assim escolhe a luz, entre as trevas sem fim
Que grita com a alma porque apenas assim acalma…

O animal que farejando vive agora deambulando
Pelas florestas verdes da esperança abandonada
Adamastor sempre errante, no cabo bojador
Moldando as marés da alma emprisionada

Mas e quando o gritar já também ele não chegar
Quanto tudo parecer que não vale mais viver
A isso não vou chegar, pois não quero abandonar
Ser cobarde e perder, não poder na vida mais crescer

O grito da Alma é o inicio
Do fim de tudo o que não é nada
Daquilo que escurece na noite iluminada
Da fome saciada, que dorme acordada
Do ego que energiza, renascido do nada
Procurando salvar da vida abandonada
A alma que bendita, suporta este suplicio

Felizmente tenho-te a ti, que és tudo para mim
O grito cala-se agora por fim, mudo pelo amor
Que estancou humildemente a pomposa dor
Que me trouxe um pouco de paz, até que enfim!
279

As palavras que nunca te direi

As palavras que nunca te direi
As emoções que em mim calei
São pedaços de nosso viver
Gravados em mim até morrer

São sonhos em diamantes brutos
Paixão e emoção em versos absolutos
Sentimentos irmãos unos por omissão
Centelhas da tua divinal perfeição

E apenas representam um mundo
Cavado por um sentimento profundo
Onde nasceu um universo de magia

Onde crescia a esperança fugidia
Que de mim tem andado agora arredia
Escondida num qualquer recanto fundo

Mas lembro os momentos eletrizantes
Em que éramos somente amantes
Os nossos corpos suados, delirantes
Sob a força de desejos estonteantes

Como tínhamos na palma da mão
Para todos os problemas, uma solução
Como respirar era fácil e revigorante
Ao imaginar o nosso futuro brilhante

Foi tudo queimado pelo tempo cruel
que não soube assumir o seu papel
fazendo cair as cartas do nosso castelo

E era um sonho tão puro e belo
Apoiado pela simbiose do nosso elo
Sem qualquer mágoa, dor ou fel

E as palavras que nunca te direi
Em poesia ou prosa, as colocarei
Lembrando o quanto te amei
Apenas isso se puder, te direi
300

O lado azul de ti

Apenas agora vi
O lado azul de ti
Que roubaste ao céu
Agora escuro como breu

E o azul em ti predomina, até no olhar
Que faz o meu corpo no teu ressaltar

E agora olho por ti
Imutado, velo aqui
Para que possas carregar a luz
Que a escuridão profunda reduz

E no fogo que consome a minha alma
Quero o teu néctar, que minha ferida acalma

O lado azul de ti
(Re)Vive agora aqui
No crasso crono, deus temporal
Vive em ti que és alma simples mas imortal

E imortal é também a tua ambição
Imutável a frieza que guia a tua mão

E se o azul em ti colado
For por todos ambicionado
Se o céu em prantos de dor
Quiser de volta a sua cor

Como poderei eu refletir de novo o teu olhar
Sem azul, sem qualquer cor que o possa cativar

Apenas agora sei
Tudo o que direi
Se ficar calado for uma decisão
Que golpeia a luz da minha razão
Apenas agora sei…
É azul… assim o direi
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António J. P. Madeira nasceu em 26 de Abril de 1969 em Setúbal. É Licenciado em Engenharia de Instrumentação e Automação Industrial, tendo nos últimos anos enveredado pelo ramo da Informática, onde sendo autodidacta adquiriu competências em programação e administração de Bases de Dados. Trabalhou durante vários anos como consultor e gestor de projectos de TI. Na adolescência, estudou Piano no Conservatório Luísa Todi, em Setúbal, tendo até integrado um Conjunto Musical do género Hard Rock, chamada Guerra Santa. Para além, aprendeu sozinho a tocar guitarra e bateria, tendo durante dois anos sido baterista na Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense. O escrever é uma paixão antiga, que jazia adormecida e que despertou com força renovada em 2014, após ter sido anteriormente diagnosticado Perturbação no Espectro do Autismo ao seu filho, André. Em Fevereiro desse ano, sob o pseudónimo Jomad’o Sado, que adotou para elogiar a terra e o rio que o viu nascer, e sob a chancela da Chiado Editora, publicou o seu primeiro livro de Poesias, “Prisioneiro em Mim”, com o intuito de ser um livro solidário para com a associação APPDA de Setúbal. Em finais de 2014, surge o livro Alva Madrugada, que é o seu primeiro Romance, e que foi escrito em tempo recorde de dois meses, sob o pseudónimo J. P. Madeira. Meses mais tarde, em colaboração com a Ilustrador M. Silma, publica a versão digital do Livro Infantil, “Histórias de Encantar, Escritas a Rimar. Em paralelo, encontram-se vários outros livros a serem criados / escritos versando desde a Poesia como Jomad’o Sado, até o género de Romance, Aventuras, Suspense, Terror e Comédia, como J.P. Madeira. Em paralelo, participou activamente em algumas Antologias de Poetas Contemporâneos. Casado com o seu grande amor da adolescência, Manuela Silva, do qual nasceram dois filhos, elegeu-os aos três como a sua maior fonte de inspiração.
https://www.facebook.com/antonio.madeira.338
jomadosado@sapo.pt

Prisioneiro em Mim - Janeiro 2014