Lista de Poemas

O velho e eu velho

Quis fugir do destino
Escondendo-me opaco
Na alma de um menino
Mas o velho é macaco!

Sabotei o tempo imuto
Com bombas de ilusão
Mas o velho é astuto!
E atirou-me a desilusão

Cortei amarras ao mundo
Tentando fluir na maré
O velho viu-me do fundo
Puxou-me, perdi o meu pé

Estava quase afogado
Cheio de fel borbulhando
Mas o velho é danado!
E fez-me viver chorando

Maldito velho desalvorado
Que vives em mim fechado
No gelo branco do pecado
Ateando o meu negro lado

Liberta-te de mim e sai
Vai para o teu covil aguado
Onde fechado está teu Pai
Leva-lhe este meu recado

Pois nunca mais cederei
Nunca mais serei manipulado
Caia a terra e eu escaparei
Num carro de vinho aguado

Rumo ao firmamento
Onde as estrelas riem
Desprovidas de vento
Agitadas, me sorriem

Sabes velho…

A terra é o espaço
Onde brilham estrelas
O céu apenas terraço
Onde vamos colhê-las

Onde podemos vê-las
Nelas nos apontarmos
No brilho ofuscarmos
Ansiando por tê-las

Mas eu apenas te tenho
Velho corpo e alma pingona
Que no tempo detenho
Para fazer esta paragona
533

Pensamentos incertos

Pensamentos incertos
Inconstantes como livros abertos
Povoam o nosso viver
E Choram o nosso morrer

Pensamentos belicosos
Outros amorosos
Alguns ainda indefinidos
Frutos de sonhos perdidos

São traços da alma
Rios de fluida calma
E também oceanos violentos
Cheios de vigorosos momentos

Pensamentos incertos
Tal como o teu olhar
Que torna rios em desertos
Apenas com um breve piscar

E a musica que ecoa agora
É apenas uma lágrima que demora
Um ano e mil vidas para renascer
Séculos a crescer, vidas a florescer

Um olhar apenas incerto
Um pensamento agora certo
E Réstias de humanidade
Condecoram a verdade
com a realidade…e a saudade?

Pensamentos incertos
Para todo o sempre incompletos
Escritos e talhados no fogo ardente
Que vive clausurado na minha mente

Apenas uma breve agonia
E tudo a ti sucumbiria
Mas tu assim não o rogaste
Não quiseste, tudo abandonaste
E nem de ti te salvaste
Ficaste incerta de mim, desconfiada
Tombada na realidade quadrada

E sem forças pereci ao pé de ti
Legando-te estes pensamentos
Que Incertos ou não, são paixão
São amor, que causa pura emoção
Para que nunca os momentos
Em que contigo feliz vivi
Se apartem para longe daqui

Apenas de mim…para ti…
541

Não ao Plágio!

O Poeta é pobre na vida
Vivendo uma vida sofrida
A sua única riqueza
Guarda-a na sua cabeça

Um dia…
Mostraram-me um poeta rico
Não passava de um mafarrico
Pois os poemas que apregoava
Eram de um pobre que ele roubava

Faz parte da Poesia
Ter a barriga vazia
Para a atafulhar
De Poemas de espantar

Não ao Plágio por favor
Escutem este meu clamor
Da cópia tenho pavor
Pavoroso ser rico,
pobre sim … se faz favor!
510

A pobreza de um ser

Ser pobre não é ser inferior
É apenas viver em contínuo terror
É temer com aflição o negro dia
Em que morre todo o esforço feito no dia-a-dia

É desalentadamente implorar alimento
Sabendo bem o que é o desalento
De não ter um futuro crivado de paz
De nem a família ajudar de forma capaz

Nasceu pobre mas ainda assim honesto
Apesar do rigor da vida, é ainda assim modesto
Tal como modesto é o seu simples protesto

Satisfaz-se com o que outros deitam fora
Bem os amaldiçoa nessa triste hora
Em que rebusca os seus lixos e chora

Mas as lágrimas de um pobre valem apenas
Miseras e escassas atenções, piedosas novenas
Que na morte entoam mas sem carácter nobre
Porque quem morreu era apenas mais um pobre

Deixou família e filhos para criar
Que agora sem apoio sofrem a dobrar
O mais velho vai ter que muito trabalhar
Para o mais pequeno puder sequer respirar

E assim a pobreza de um ser,
Condiciona com a avareza de perder
Uma potencial família agora a crescer
Porque ninguém deles quis realmente sabe
462

Estar vivo

Como sentir que estou vivo
Como ainda perceber que respiro
São coisas que não vêm no livro que lemos
E todos o lemos quando nascemos

O milagre da vida, fruto de dois diferentes
Amor transformado em seres inteligentes
De um apenas, multiplicar-se por centenas
Moléculas que criam braços, corpos, pernas

E nascer, tudo é sinónimo de sofrer
A dor de cair, sem ainda se aperceber
Perder aquele espaço, aquele intervalo
Onde tudo fazia sentido, sem qualquer abalo

E a primeira golfada, fria e cruel
Sabe a dor e agonia, sabe a puro fel
Pulmões, é a vossa vez de brilhar
Respirar para depois gritar, chorar sem parar

Nasci, sobrevivi, estou aqui…
E tu que me abrigaste, chamo agora por ti
Mas não me podes ouvir, nem mais sentir
Pois para eu nascer tiveste tu que partir

O milagre da vida, fruto de dois diferentes
Viveu um, para enfrentar angústias crescentes
O outro.., não resistiu, abandonou-se inerte, imuto
Cruel destino, sem sequer ver do seu amor, o fruto
450

TOMBOU A CATRINETA

Tombou a Catrineta
que era a nave do meu saber
A única Riqueza que a Pobreza me deixou ter
Agora a minha existência, ficou perneta
Desfalcada do que acima, mediamente
Mediava por baixo, o fogo aceso na minha mente

É de lamentar na verdade
perder de uma só pancada
o ferro, fogo, água e ar
que fortalecia mas queimava, vaporizando o meu respirar

Algo poderia salvar
Mas o quê, se não sei nadar
E a perneta é pequena para flutuar
Nem tenho os quatro elementos para m'ajudar

Pois, com ferro, até flutuava
e o fogo a perneta queimava
perdendo na água o medo de mergulhar
enchendo o peito de ar
rumo ao tesouro da vida que ele tentou ceifar

E sabem o que eu acho?
Não acho nada, não posso achar...
Ficou tudo perdido, bem no fundo do mar
526

(Des)Esperando por pensa[ele]mento

Nunca mais…
…poderei ser aquele que pensei ser
…levantarei o rosto, orgulhoso de vencer
… ficarei imóvel, entre as estrelas sem te ver
… alcançarei a paz, mil anos e mais que viver

Sob a promessa sagrada da família
Que comigo agitada faz esta vigília
Escuto os sons do silêncio profundo
Ocultos mas à vista de todo o mundo

Embrulhados em rasgos de papel
Fruto da minha amargura e fel
Mas sempre frágeis como o espirito
Esvoaçando livres, no céu infinito

Tenho apenas…
…esperança no futuro vindouro
…ansiedade por ser de ouro
… sonhos de alcançar o mar
… desejos de nele somente navegar

E se a ilha deserta aparecer
Que possa lá de novo renascer
Em cor, alma, espirito e ser
Sob o pôr-do-sol, sob o amanhecer

A idade é apenas uma traição
Para quem fica mudo à emoção
Para quem do sonho dele desistiu
E à monotonia eterna sucumbiu

Pois eu sei…
….que mil voltas envoltas em revoltas
…que somos cristalinas pontas soltas
… que o desejo alimenta a alma criadora
…que a escrita quando pura, é avassaladora

Que a melodia que nos envolve a todos
Fazendo-nos soltar lágrimas a rodos
Move o que dentro de nós é sensível
Levando-nos para outro excelso nível

Nunca mais… [vou desistir]
Tenho apenas… [que persistir]
Pois eu sei… [ao ver-te sorrir]
Que valeu a pena eu existir
516

Farinha do Ser

Na calma da uma guerra de vivos
Em que perdi os meus sentidos
Esgotei a água do meu moinho
Que a farinha do meu ser afina

E triste sem pão para crescer
Lancei-me às claras
nos escuros caminhos
onde a luz perdeu
o brilho que Deus deu

Mas o escuro que encontrei
Era a farinha agora suja
Arrastada na lama seca
Que prendia o meu moinho

Num pesadelo de luz
Afastei o negro da minh’alma
Esconjurando com o barro
Os fantasmas da minha solidão

Da farinha fiz a espada
Que agora jaz espetada
Na rocha que era a ambição
E esqueci-me do meu pão
441

Aprender a sonhar

Era uma vez um sonho,
Feito de pérolas e puro oiro
Vivia escondido em ti
Até que por acaso o descobri

Era um sonho de criança
Com a ingenuidade da mudança
Preso por grilhões de esperança
Aguardando imuto por tua lembrança

Brilhava mais que o sol raiava
Cobria o céu de luz branca e alva
Era por ti que ele sonhava, ansiava

Sim, o sonho era verdadeiramente teu
Mas estimei-o como se fora agora meu
Envolto neste véu escuro em azul céu

Brilhas e resplandeces com o olhar
Aceitas em ti o sonho sem hesitar
E mais uma vez em águas azuis cor de mar
Tornas a aprender de novo a sonhar

E eu, simplesmente estou ali…por ti…
Procurando, desesperado numa ânsia pesada
De quem sonha em nunca perder a amada
Mas e a dor? Não, a dor não jaz aqui

Peço-te perdão sem nada falar
Recorro-me da melancolia do meu olhar
Entristece-me saber que por não sonhar
Talvez tenha deixado de tanto te amar

Terei que recuperar o meu sonho
Torná-lo menos negro e tristonho
Serei então capaz de sonhar, o teu mesmo sonho

Meu Deus dai-me forças para não cair
Para nunca no passado ter de refletir
Sempre sem soslaios em frente seguir

E tu? O que procuras mesmo de mim?
O meu triste e pesado ser que luta por um fim?
Ou apenas temes que te abandone por fim.

Como é difícil aprender a sonhar
Não vem nos livros, ninguém pode ensinar
Apenas por experiências em tempos ideais
Poderemos comparar e evoluir como iguais

E após tantos momentos e hiatos de esperança
Resta-nos uma nesga de magra lembrança
Dos tempos felizes em teu regaço suspirando
Onde traçava teu rosto indolente, o meu sempre beijando

Eram tempos de calorosas venturas
De jovens que viviam as primeiras aventuras
Ignorando ainda que viriam depois as amarguras

Era-mos nós, eramos deuses sem lei
Envoltos em justas palavras que agora direi
Pois aprender a sonhar, um dia eu conseguirei
523

Fiapo de vento

Perto, da quadrada mesa
caiu um fiapo de vento
vazio como a pobreza
incerto, do movimento

Saltou, no raiar matinal
tingindo de cores, o olhar
caindo, num simples final
acabou por ali se esfiar

Perto, da quadrada vida
caiu um fiapo de humano
vazio como vida esquecida
incerto destino, sem plano

Saltou, no acordar matinal
tingindo dores, ao chorar
caindo, fingiu ser normal
acabou por ir trabalhar

Até que o fiapo de vento
Se tornou seu fiel lamento

Ganhou asas, elevou de vida
O grito mudo de sua despedida

Tombaram os dois no vazio
Caindo no raiar do chão frio

Perto da quadrada mesa
Caiu o lençol alvo e tinto
Vazio de vida, de pureza
Incerto do frio que sinto

Pois o fiapo de vento
É o vento deste lamento
E cair, já o fiz sem raiar
Até a sorte final,
De mim se apartar
21

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

António J. P. Madeira nasceu em 26 de Abril de 1969 em Setúbal. É Licenciado em Engenharia de Instrumentação e Automação Industrial, tendo nos últimos anos enveredado pelo ramo da Informática, onde sendo autodidacta adquiriu competências em programação e administração de Bases de Dados. Trabalhou durante vários anos como consultor e gestor de projectos de TI. Na adolescência, estudou Piano no Conservatório Luísa Todi, em Setúbal, tendo até integrado um Conjunto Musical do género Hard Rock, chamada Guerra Santa. Para além, aprendeu sozinho a tocar guitarra e bateria, tendo durante dois anos sido baterista na Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense. O escrever é uma paixão antiga, que jazia adormecida e que despertou com força renovada em 2014, após ter sido anteriormente diagnosticado Perturbação no Espectro do Autismo ao seu filho, André. Em Fevereiro desse ano, sob o pseudónimo Jomad’o Sado, que adotou para elogiar a terra e o rio que o viu nascer, e sob a chancela da Chiado Editora, publicou o seu primeiro livro de Poesias, “Prisioneiro em Mim”, com o intuito de ser um livro solidário para com a associação APPDA de Setúbal. Em finais de 2014, surge o livro Alva Madrugada, que é o seu primeiro Romance, e que foi escrito em tempo recorde de dois meses, sob o pseudónimo J. P. Madeira. Meses mais tarde, em colaboração com a Ilustrador M. Silma, publica a versão digital do Livro Infantil, “Histórias de Encantar, Escritas a Rimar. Em paralelo, encontram-se vários outros livros a serem criados / escritos versando desde a Poesia como Jomad’o Sado, até o género de Romance, Aventuras, Suspense, Terror e Comédia, como J.P. Madeira. Em paralelo, participou activamente em algumas Antologias de Poetas Contemporâneos. Casado com o seu grande amor da adolescência, Manuela Silva, do qual nasceram dois filhos, elegeu-os aos três como a sua maior fonte de inspiração.
https://www.facebook.com/antonio.madeira.338
jomadosado@sapo.pt

Prisioneiro em Mim - Janeiro 2014