Lista de Poemas

Neruda Passáro



Neruda Passáro


Neruda Pássaro

Que Neruda Vivesse
Pra me vir sarar,
Como ele mesmo disse:
-“Com uma só pena”,

Sei que nunca tive exilio
Tão real quanto
O dele, poema tão vivo
De vida em verde,

Tão madressilva,
De vermelho loiro,
Semelhante a fogo
Maduro, azul pálio,

Se Neruda visse
Esta carta escrita,
Não saberia que fui eu,
Nem faria diferença,

Abro os braços
E sonho, sonhando
Amigos e sonhadas
Coisas que nunca somos,

Nem meus próprios
Sonhos sou,
Independente de quem
Eles sejam.

Que Neruda viesse
Tenho Dúvida,
Conhecendo Pablo,
Detrás prá frente,

De modo a tomá-lo
Por meu irmão passáro,
Pura inveja ? – sim
camarada, porque não

Pablo !? Passáro .

 

Jorge Santos ( 14 Dezembro 2022)

 

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131

Pouco sei, pouco faço




































Pouco faço,
Pouco sei,

Ando devagar,
Ao meu passo,

Dou o tudo,
Por nada,

O rumo,
Pela jornada,

Sonho o irreal
Suponho-o passível

D’alterações d’humor
Frequentes,

Inesperadas, sentimentos
Não se dão “de graça”

A quem passa,
Expressões não têm relevo,

Não se apalpam nem se aplaudem,
Suposto é sentir iludido,

O real sabendo-o falso,
Singular e diverso, a prumo

O trilho, caminho menos
Fácil, descalço e ferido

Ao passo que sei,
Não atinjo o ardor desejado

Desd’o início de mim
E do dilema do sucesso,

Me basta um ínfimo
Fragmento, uma fracção

De tido, do não tido
É outra história

Pra ser eu totalmente,
Moralmente imprópria

Minha memória
Febril fraca falida.

 

 

Joel Matos (Dezembro 2022)

 

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171

A importância de estar …




A importância de estar presente,
Foi a que eu sempre quis ter, no
Extremo do que nunca vou ser,
Importa o esforço de não deixar

De fazer e do que tarda a vir,
O vencer do desejo, do desejo
De vencer resta a impaciência,
Na medida do comprido do bico,

-De alguma vez ter voz, como sendo
Minha. -A importância – e mesquinho
Eu também, que em breve morrerei
Humilhado, envergonhado sim,

Por não ter, nem qualquer simbólico
Preço, nem valor para indústria a
Granel, no mercado prestamista
Valho zero, nada a retalho, pouco

Sirvo, nada mais que um Bordalo
No fundo da caneca, sendo vinho
De Pias tinto, carrascão corrente,
Bom copo até para padre, na missa.

O importante é ser lembrada breve,
Terminando a homilia de joelhos,
Como homem o normal que a mim
Me obrigo, com princípio meio, fim.

A importância é estar presente apenas
Na expressão plástica de que viver
É uma realidade externa, presa “ad-
-aeternum” à consciência vascular táctil,

De existir sem estar realmente vivo,
Presente nos restos que são palavras,
Semelhanças que nunca deixei de ter,
Com quem de maneira alguma eu fui.

Joel Matos (12 Fevereiro 2023)

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162

A alegria que eu tinha




A alegria que eu tinha,
Era a de descrever
A geometria do que sentia

Nos ombros, dos cantos da boca,
À linha direita, torcida
Dos cabelos, do queixo,

Nos nós dos dedos, da tristeza fixa
E pobre, com o que fico
Me convenço,

È uma maldição rasa,
Que espero em vão desapareça,
A visão estrangeira

Com que me meço
Na ressaca dos outros,
Sendo eu ela própria,

Pródiga não sei no que seja
E só. A alegria que eu tinha
Quando era, como era

Inda’gora, me conforta
Apesar de banal, pouco interessante.
Extraio vida de coisa alguma,

Limitando-me a sonhar,
Embalsamando minhas
Palavras.

 

Jorge Santos (Fevereiro 2023)

 

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113

São como nossas as lágrimas





São como nossas, as lágrimas,

São como gente, as nossas lágrimas
Lentes criadas de inevitável, esculpidas
Em vida, em almas são, como só elas

Levitáveis, entre o fim e o todo, entre
Mim e o fundo de mim próprio, serão
Sensações conscientes como são sempre,

Ou a promessa frágil de quem naufraga
Nas mesmas estéreis lágrimas com que
Me lavo, imundo e inviável como o mundo,

E julgo eu que se pode lá caminhar, mudar
De rumo, afundar rente ao porto, comum
Na muralha da minha dividida atenção.

São como nossas as lágrimas dos outros,
Acima da linha dos ombros, sonhos serão
Sempre sonhos, cardeais fidalgos, pontos

Finais, parágrafos de uma aristocracia
Parada e fria, assim como o brilho de
Um farol distante e a maresia do mar

Pouco amigo, indiferente digo eu fechando
Os olhos e perdendo a realidade concreta
No que digo ou no que sou “levado-a-ver”,

Nas lavradas lágrimas dos outros.

 

Joel Matos (Março 2023)

 

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118

O Homem é um animal “púbico”




O Homem é um animal “púbico”,
Quem disser o contrário “é besta”,

Não disfarçando desta vez o voraz instinto,
A crença superior da fera, entre o caçador

Lúdico, o guerreiro e a pudica presa,
O publico é a consciência rasa, não a razão

Da peça, apenas um espelho mais que polido
E apolítico, por isso se diz por’í, ser o Homem

Um animal político, se adapta à bíblia dos mancos,
À opinião dos tolos, dos patetas, nem todos,

Tal como os pelos púbicos e a vulgar vulva,
Outros salivam duma outra divisão da alma,

Pecam sem castigo e por mandato divino,
São obstetras, marcham como assombrações,

Sonham signos, setas direções, mandam
Pra puta que pariu fulano e beltrano,

Pelo ânus e porque não pela vulgar cloaca
Dum pombo, ovelha negra, assumida sarda

Na nádega de um anjo que se assume demónio
Ou o lúcifer das emoções estrangeiras, feias

Tão feias quanto a indiferença em dizer,
Do medo que é falar, confessar em público

Meias verdades que vão de minha sarja,
Ao meu fraco pelo …

 

Joel Matos (Março 2023)

 

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77

A dança continua









A dança continua,

A poesia não morre,
“Nem que a matem”,
Contudo pode ser f’rida
De morte durante o sono,

Com uma bala de prata,
Ou uma vulgar estaca
No lugar do coração,
Tal como faca de abate,

Sem gume, mal afiada.
Desfigurada no rosto,
Sob a máscara da morte,
Não deixará de sair dela

Meu paliativo, minha culpa
De ferimentos, graves
Golpes e da vulgar cura
“Do costume”, não punitiva

Mas bonita na forma prenha
De copo, taça ou de cálice,
Gamo negro, gazela fêmea, fonte
De bruma, poesia não morre,

Não se abate, nem se encosta
À parede, não se consome,
Com os músculos da face, nos
Gestos do rosto redor dos ossos

Considerados breves, brancos
Como ermitas em mármore e aço.
Poesia não morre, “nem que
A matem”.

Jorge Santos ( Fevereiro 2023)

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126

“Daqui-a-nada”




“Daqui-a-nada” desfaço-me em sorriso,
Porque a vida, ou é relevada ou não é
Pra ser levada assim, “tanto-a-sério”,
Há gente por exemplo que nunca dorme,

Encurralados entre o “divan” e a divisão
Menos mobilada, a cama. Há gente que
Nunca morde ou ainda não foi mordida
“Às-cegas” p’la fúria séria, sem expiação.

Loucura, glória nem daqui a’nad’ontem,
Agora ainda é cedo pra dormir, deixem-
-Me rir mais um pouco, ao fim e ao cabo
A delícia está no absurdo que é acordar

Sonhando ser agora, só “ind’à bocado,”
“Daqui-a-nada” desfaço-me en’semanas
E troço d’quen’chegar d’facto nado morto
Ou fora d’horas, o que chegar en’último,

Não “vale-pra-nada”, é mais um “tonto”,
“Daqui-a-pouco” é hoje, amanhã, depois
O Yin-yang não será en’terreno elevado,
A contar do fundo meio campo, na praia

Do “tanto-se-me-dá”, canto livre directo.
Há gente que nunca come, por exemplo
Chamuças ao sábado ou não bebe vinho
Verde, Porto só “de quando em quando,”

Ind’à-pouco, daqui-a-nada …

 

Joel Matos (Novembro 2022)

 

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152

A essência do uso é o abuso,





A essência do uso é o abuso,
O atributo é insignificante, real
É a ideia e o curso dos meus
Sonhos, não a utilidade nem “o ser”,

Sabendo que tenho um fim,
Não preciso dum profundo
Propósito, sou céptico, no fundo
Um descrente d’tudo, onde

Tod’agente outra m’acontece
Com espontaneidade, se digo
Que fui então eu sou sem
Dúvida quem o outro já foi,

Sou naturalmente Íntimo e
Próximo d’quem me confesso,
Um desconfigurado original,
Ouso dizer coisas sem fim

Nem meio, sem jugular
Nem conteúdo inédito,chato
Monocordo até no pensar,
Acordo com a sensação

De continuar dormindo
E quando durmo tod’uma
Nação me pertence, assim
Pudesse olhar-me d’frente

Eu, sonho esquecido entre
Mim e eu, verdade falsa
Aquela em que toco e olho
P’la minh’alma sem vigia,

Pensando ver um mar a sério,
Mar sem fundo nem margens,
Minha realidade é ar, não
Dest’mas d’outro esquecido

Reino sem rei, reinado, amantes
Submissas mas sem vassalagem.
Assim me foi proposto, minha
Coroa, meu Ceptro que não uso

Por fidelidade a um outro
Monarca e Rei deposto
Sen’glória, cuja sombra s/historia
É sem dúvida a minha,

Me espezinha, me retalha
Na cara, nos braços pernas
Corpo e flancos.

 

 

 

 

 

Jorge Santos( 21 Novembro 2023)

 

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141

Não entortem meu sorriso,






Não m’entortem o sorriso,

Nem me apontem os braços,
Não anotem os riscos,
Traços são riscos marcados,

Que as letras são acção,
Respiram como qualquer um,
Por um par de narinas, “ventas”

Possuem graça,
Fantasias, intenções
Traçadas, caudas cujo lagarto fugiu,

Autoestradas, calculo e áreas.
Não anotem os traços,
Traços são riscos espaçados,

Partindo ar e céu,
Entre tu e tu e eu,
Vêm a mim e saem,

De manso como fossem
Almas de anjos, diabos
Os traços, vesgos como traças,

Percevejos perante luz intensa,
Não apontem os riscos
Que traço sem esquadria

Com o chão,
A s’quadria dos ombros,
Impede-me que volte a cabeça

Ou que olhe pro umbigo,
Pra ver onde foi parar o chão.
É na esquadria dos ombros

Que corro asfixiado pelo fato
Que talhei na linha do solo,
De costas e paralelo a mim.

Não apontem os braços,
Sendo, são o que separa
O inacabado do incompleto

Aquilo que arrisco em memória
Da dobra do cotovelo,
Poiso do que possuo, intenção …

Sobejo despeito.

Joel Matos (21 Junho 2022)

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Comentários (4)

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nilza_azzi

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

namastibet

obrigado a todos que me leram

ricardoc

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992

muito intenso seus poemas, adorei.