Lista de Poemas

É inútil povoar a conversa com todos este silencio

Corre um silêncio pela tarde afora,
Como se fosse ordenado
Recolher geral nesta terra,
-Onde ainda penso que resido .
 
(Precisamente no r/c esquerdo
Numero treze e meio-fundo)
Sinto o peso do mundo,
Destes mudos, cheio…
 
E penso desistir de querer viver,
No silêncio grosso,
D’esta vida por esclarecer,
Em que me roço e me coço,
 
-Se nem isso me aquece ou arrefece,
Nem me torna maior ou menor gente,
Nem sou propriamente quem a verdade conhece,
E faz dela o vento norte,
 
Nem vejo como útil, prolongar na surda rua,
 A minha muda conversa…








 
Joel Matos (11/2011)
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1 035

O que é emoção e o que o não é

Nada mais me provoca emoção, cansei-me da vida que levo,
O fardo que carrego é uma âncora, assim como outra tralha,
Que não se vê mas sente-se, como um estorvo…
Esta vida ausente, este navegar à tona, sem escotilha…

E a gente vulgar que germina onde sente que há bolor,
Mas o pior é quando o céu se tinge de igual cor
E não me deixa ter noção do que há nas flores,
Nos lagos, nas montanhas e bosques com espaços interiores…

Ah,… os poentes que dão vontade de beber de um fôlego,
A sensação e o gozo ao penetrar um corpo de mulher,
A chuva branda, caindo em cordel e a lembrança que albergo,
Do fogo crepitado da lareira, amadorrando o crer…

De tudo isso abdiquei eu, da subversão, do voo,
De exércitos de estrelas suspendidas, dos prados parados
Saindo dos rios e dos peixes, vestidos de quem sou…
Nada mais me suscita a vertigem dos passados tempos,

Assim uma espécie de faina mas com os barcos presos
No cais, visitando ilha após ilha, maré após maré,
Até que a última estrela caia do horizonte leitoso
E eu não precise mais apartar do que é emoção, o que não é…

Jorge Santos (01/2013)
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1 611

Nas Orações dos Homens em Jerusalém

Uma noite fabricou Salomão um palácio
Resplandecente e em segredo.
Fez-se por todo o império
Silêncio e desde logo cedo

Ninguém teve alívio;
Até nos séculos vindouros,
Não mais nasceria ali, um veio
De água ou desaguaria nos rios,

Nada mais senão sangue e guerra.
Uma noite fabricou Salomão um palácio
E a dor nunca mais foi doutra era,
Menos estrangeiro ficou o receio,

De ser feliz naquela amarga terra.
Uma noite fabricou Salomão um palácio,
E tal foi o peso da bera amargura,
Que ainda hoje têm um vazio,

As orações dos Homens em Jerusalém...

Jorge Santos (05/2012)
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O estado e a matéria

Apaguei o tom de magia e talvez dom do bom senso
Quando vi todos os doutos, acotovelados na dorna d'uma má atriz..
Açoitado p'lo juíz, fiz figura do criado coxo de laço no pescoço,
Quando tentei subir ao palanque, surgiu a tal mesma variz

Do tempo ao qual fui colado, esguia e inchada... ao cair quase me ouço
Girar no fundo do poço, tão fundo ele soa e o som se escoa
Como se fosse areia fina numa cuba de zinco,
Fria como cota de aço, e sem os louros da grei por coroa.

Sinto-me tão realizado com uma embriaguez tal como do fracasso
Do qual não recobro. Estou acorrentado a um tal estado, bem enterrado na terra.
E retomo da morte, repleto de enxertias sonhadas nesta vida bera.
Entre o que sonhei e onde estou, perdeu-se a noção íntima de tempo e espaço,

Bem podia o jardim do éden ser no quintal da frente
Que aos meus olhos seria tão longe como o fim do vasto horizonte
Essa é uma das razões porque não espreito pelos buracos no muro,
O medo de me lembrarem águas passadas e aceitar o futuro...

Jorge Santos (08/2012)
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1 013

Nem sei que Vento Torto eu Ainda Persigo

A ideia de viajar seduz-me
Como um pecado,
Tenho os cheiros e sons a lembrarem-me
Em outro lado,

Como uma aragem fresca,
Que me invade quando penso
E é então que um torpor de Coca
Acalma este ardor intenso

E esta Sede de liberdade,
Mas continuo sedento
Por dentro, a intranquilidade
Confesso-a ao vento leste, lesto...

E no pensamento viajo...viajo
E no cansaço eu repouso,
Apesar d'o chão ser rijo
E distante da sede a agua e o poço,

A mudança das horas e dos dias
É uma penitência e um castigo,
Como se fossem estrangeiras,
As horas. O tempo cego

Está sempre presente, ausente o meu coração
Marujo sem porto, nem abrigo ...
E no pensamento viaja a minha solidão,
Sem saber do torto vento que eu ainda persigo.

Jorge Santos (01/2012)
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1 065

Tenho saudades do que me lembro

Tenho saudades de quase tudo,
Sobretudo do que não esqueci,
Tenho saudades de querer morrer por ti,
E por ti morreria mesmo, de amor,

Tenho saudades do que não li,
Por falta de tempo e não só,
Mas tenho saudades de tudo,
O que ainda me lembro,

Tenho saudades de escutar o vento,
Em tardes de ventania,
Tenho saudades de estar perdido,
E nem saber rezar uma “ave-maria”

Tenho saudades de me encantar,
Em tudo o quanto sonhava,
E do tempo que perdi sem apreciar,
Os serões em que o tempo não contava,

Tenho saudades de jogar ao pião,
Do alarido da rapaziada, da porrada,
Tenho saudades do “tudo ou nada”,
Quando soube ser na esquerda o coração.

Tenho saudades das noites sem dormir
Em que acariciava, na imaginação,
O cheiro que eu supunha ser teu, ou do jardim,  
(Repeti vezes sem conta aquela declaração)

Mudava de opinião com um estalar de dedos,
Fazia “trinta por uma linha”, desde rasgar o guião
E com raiva, escalar longínquos penedos,
(Nem sei se pela altura, ou por mera paixão…)

Tenho saudade de ser tabela sem cesto,
Mas campeão em consciência, desde o berço,
Mesmo no que escrevo, ainda insisto,
Nesta paixão louca que não esqueci

…e que jamais esqueço…

Jorge Santos (11/2011)
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927

Escolho fugir de mim,




Escolho fugir de mim,
Mas se fugir não terei pra onde ir,
Meu destino é solidão,
Escapar é outra coisa,
É o instante e só a sombra bate em retirada,
Quando nos vamos
E abandonamos nós mesmos.

Escolho fugir "na mesma"
E assim só a sombra é que segue viagem
Não a meu lado mas ficando parada
Ficar é ir, ir é ficar, fugir é desertar,
Escolho fugir a amar...
Pra não deixar saudade,
Nem nada de sobra pra que me chorem,

Como fosse doença,
Escolher é também caminho,
Destinos remotos, sem remorsos,
O que efectivamente faço é respirar fundo,
É suspeitar de tudo que da sombra vem,
Respira ao meu ouvido,
Sorrindo quando eu sorrio, por isso fujo,
Escolho outro caminho, é certo...

Jorge Santos 06/2018
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380

I’nda ontem…





I'nda ontem...


I'nda ontem era em azul o tom das tuas íris
E imensa a solidão dos teus dias/meses, dirias
Inúteis os malmequeres e os campos verdes
Ou o regresso das estações q'inda ontem eram
Certas, azuis e bege como os planetas que vias

Luzindo, Sírius Pólux Arcturus, em torno
De ti paisagem, ontem azul hoje bocados lembram
A natureza que não fala que não tenho, pensar
Não pertence a ninguém nem a mim mesmo,
Natureza somos todos, cremos na passagem,

I'nda ontem pensava assim das coisas que digo
Como se faltasse dizer ainda alguma coisa,
Interpretar os sentimentos, ter opinião capaz
De governar uma sociedade ou tornar lúcido o instinto,
I'nda ontem era em azul o tom das tuas íris.

A solidão tem dias tal como a alma tem figura,
A gente nega o que são vultos negros no chão,
Por serem negros, porque o são, sombra é ruído,
Regressa com as estações do ano ou uma roda partida,
O barulho do sistema solar sem freio,

Luzindo, Sírius Pólux Arcturus, Betelgeuse,
Cephei, em torno de mim paisagens de quanto
O deserto me faz chorar e se parece comigo
Até ao mais ínfimo grão de areia,
Assim os malmequeres nos campos verdes,

Inúteis ao meu ver ...

Jorge Santos(07/2107)
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874

Licença pra entender





Peço licença pra entender


Peço licença pra entender
Mais nada senão a verdade,
Para ver o mundo exterior
Como ele é e contemplar a
Vista e menos eu próprio,

Peço licença para fazer
Uma catedral de um piso
Com o impulso do corpo,
Que seja com o único fim
De sentir por vez única

O púlpito, se sagrado ele é
E útil aos outros mais que
Aos céus, peço licença pra
Ser eu a descrição do que
Sonho e a sensação vivida,

Peço licença pra saber
Quem ocupará o túmulo
Depois de eu morrer,se
O êxito barato ou o fracasso
Da força do simples querer

Já que agradar não me chega,
Não me faz cantar, apenas um abrir
E fechar exacto de maxilas
Enquanto passo as mãos pelos
Cabelos oleosos, rasos ...

Jorge Santos (06/2017)
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836

Talvez o sonho do mar seja o meu pensamento

Tenho horror ao que vou contar
Sobre o mar, costumava sentar-me
Na orla como se fosse num banco
E debruçava-me e balouçava
Nos braços que me adormeciam,

Fosse real ou não aquela sensação,
Envolvia-me o pensar, esquecia
A ideia do medo, depois separava-me
Do corpo sem deixar intervalo…
Tenho horror ao que vou contar,

Mas sinto necessidade de ter medo,
Para que possa recontar a historia
Dos meus súbitos sentimentos.
Quero contar a razão do mar ser triste,
Porque nada se parece com ele,

Nada é tão profundo e desmedido,
Porventura a vontade de me afundar nele
E isso apavora-me, ele e a espuma,
Cantam-me a morte por esclarecer,
“Quem sabe o que está no fim dela”

Sinto uma espécie de longe, no acordar
De quem recorda junto ao mar,
Sobretudo sem saber de onde vem
A tristeza dos sonhos que se sonha
P’los fundos do mar.

Quem sabe o que está no fim dele,
Acaso algo que nem Deus permite
Que se saiba,
Talvez o sonho do mar, seja
No fundo, o meu pensamento.

Jorge Santos (01/2013)

http://joel-matos.blogspot.com
1 098

Comentários (4)

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nilza_azzi

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

namastibet

obrigado a todos que me leram

ricardoc

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992

muito intenso seus poemas, adorei.