Jorge Santos (namastibet)

Jorge Santos (namastibet)

n. 1961 PT PT

Que fazer, se assombro tudo que faço de medo e a fracasso ...

n. 1961-07-03, Setúbal

Perfil
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Sombras no nevoeiro




(Sombras no nevoeiro)
Sinto que sou um poeta falhado,
E escrever tornou-se uma tarefa
Balofa, à qual me não dou de todo,
Sinto um receio que m'atabafa,
No que digo, como se fosse eu, Rossio
De vão d'escada, fico-me p'las deixas,
Bem lá no meio duma seara de joio,
Aonde se não diferença vultos e névoa.
Não espero troco nem pago de saldo,
Justo por algo que não tem pra'mim custa
Nem apego, julgo que me sinto dividido,
Entre o que digo e o que dizer me basta,
É como é, o reverso e a medalha,
De um lado, vem algo inscrito,
E do outro nada que o valha,
Apenas o dom e o dia de morto.
Sinto que sou um poeta falhado,
Por todas as razões e d'outras,
Apregoo estas de telhado em telhado,
Mas confesso-me cansado d'inventar desculpas,
Pois nem tenho assim tanto de escritor,
Como um louco
Tem, do cajado dum actor,
Ser o seu sólido especo...
Jorge santos (01/2013)
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Biografia

Poemas

380

Sei porque vejo,



The Cat (1984) – Raul Perez

Sei porque vejo,
-Luz mais bela
Aquela que não
Vejo …

Vejo quanto sei,
-Saber mais belo
Aquele que se
Nega à vista…

Seja eu onde irei,
Não indo serei
Caminho, porque ando,
Nem sei, nem sei,

Nem sei porque vejo,
Não vejo o que seja
Saber sequer, errei
Da ponta, à raiz do pelo,

Errei no cotovelo e na dor…
No artelho, erro
Porque vejo,
Não sabendo, explico

O estado de espírito,
Comparo a lago morto,
Nimbo, tédio, escuro vulto,
Fantasia de médium,

Sei porque vejo, argumento
Não decorativo, sou suspeito,
Palpo meu sonhos,
Nego a vista.

Joel Matos 02/2019
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396

O mar que não tem a Lua ...








O mar que não tem a Lua,
É real não tanto quant'eu,
Nela me vejo, aquando prenhe
Ou Luar-meio e aí perco a dimensão

Do real da Lua, que praias
Nem tem, nem areal serei eu,
Sou alguém que se esconde nela, 
A pluma e o medo do lado-escuro,

Que presumo teve algum
Cosmonauta num fato preso,
Tanto me pesa ser súbdito,
De um Mundo em que "à vista",

Nada tem que se diga ser meu,
Ou só minha, quanto a maré
Da Lua é, em toda a volta eu e
Só eu, um Mar sem Lua é breu,

O mar que não tem a lua,
É porto-seguro pra nau d'fumo
Em que viajo sem nau, nem partida
Do areal onde fundeei meu reino-em-

-Meia-Lua, defunto me acho, seu
Lugar comum, bora iníquo,
Líquida a Lua, que mar não tem,
Julgo eu temer a conclusão "de-fundo"

-O Mar não ter Lua, a Lua não ter mar,
O luar ser só meu ...









Jorge Santos 12/2018
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383

o sabor da terra




O sabor da terra é parecido com o da água, 

A acrescentar os meus sentidos, a chuva
Que cai e molha, não importa de que mar
Distante ela é, de que mundo que não vejo

Mas sinto, cheiro terra molhada e cerro
Os olhos pra que não fuja por eles o desejo,
O prazer do odor que nunca foi meu, mas inunda
O meu sossego e leva-me pela mão,

Longe da terra não existo nem soa real
O sonho que tento viver, imerso no verde
O pastar do gado na bruma, indistinto é o serro,
Ermo o pensamento meu, quando escuto

É apenas o meu coração batendo ou não,
O sabor da terra é parecido com o da água,
O que eu não esperava é a própria fidelidade
Da chuva que em silêncio lava o meu rosto,

Como se conhecesse meus inúteis segredos,
Ou sabendo da ausência de ruído no meu peito/feto
Real ou falso, ausente abaixo dum céu 
Que lembra o que pra lá dele há, pressinto outro céu, 

O meu …

Joel matos 11/2018
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347

Contraditório, só eu sou...





O contraditório 



O prazer de falar verdade
Mentindo, o artefacto quebrado
Servindo, o prazer de dizer certo 
Embora soe a falso, a desesperança,

O pão mal repartido, a partilha duvidosa,
O prazer inútil que é útil, a desavença
De facto, o mal parido, o ateu,
O fútil que não é banal, a herança,

O patrão falido, o alcatrão derretido
No verão, afirmar que é meu,
Não sendo, a custódia repartida,
O imperfeito que é perfeito,

Apenas porque nos dá grotesco
Prazer, um ou outro facto, a livrança,
A cor do céu, a glória, o breu, 
O Contraditório, a promessa

O mais infinito vezes o menos 
Infinito, o vazio dum quarto,
O sonhar dias inteiros e as noites
Sem dormir são contradições,

O noivo consciente de estar certo,
A oposição dos dedos, segundo 
São Mateus, a oração do Hebreu
Interdita ao público é contradição

Assim como o lenço branco acenado,
A despedida sendo luto, a contradição
É não abdicar da conclusão sem ler
O prólogo, o absurdo numa peça grega,

Ionesco para gente banal e estúpida,
Assim é quem me lê, parado no pátio
Das minhas sensações sem entender
Verdadeiramente quem é, nem quem

Eu sou, se não eu... 









Joel Matos 02/2019
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351

“Semper aeternum”



"Semper aeternum"

É tão difícil encontrar alguém que acredite quando se diz que se ama visceralmente ou que se entende cada cor e cada pincelada na pintura exótica e extravagante de Paula Rego, o mesmo da água tónica sem limão nem gelo, quanto da voz rouca dum Tom Waits tão ofegante quanto bêbado, diz ele que atrai mosquitos pois estes são atraídos pelo azul dos seus "blues"e não p'los olhos "marron", assim como os camelos pela água, ele por old whisky mesmo estando podre e estagnada a água dos dromedários do chá verde e amarelo, assim como as areias do deserto se movem as mulas do "far-west" americano são fascinadas pela voz improvavelmente bela do cantor de blues.
Quem gosta de ser interrompido pelos filhos entrando no quarto quando faz sexo, surpreendido pela voz do parceiro ou da parceira na cozinha, "não faças assim o cozido, faz deste ou d'outro modo", é tão difícil que alguém acredite que se gosta do sabor amargo da cerveja assim como do "brain freezing" quando se bebe uma soda "super-gelada" habitual nos "franchisings" do costume ou da gasosa com soda ou o blody mary a meio de um meeting de veggies ou sobre alterações climatéricas num dia de verão extremamente frio ou à luz da vela, numa tropical noite de"banana moon" a beber champanhe na cachaça, ambas juntas a flutuar com raspas de lima verde e sabor a hortelã-pimenta.
Há quem acredite que os Americanos foram à lua ou que os futebolistas lutam pelas cores das bandeiras nacionais nos mundiais de futebol, na copa do mundo como dizem os brasileiros; que a Terra é plana é um exemplo da pouca fé humana na ciência ou que a lua é verde quando não estamos a olhar ou quando a vemos sem "a ver".
Eu falo para as árvores, que estas ouçam não sei, (I Talk To The Trees) acredito que sim, é uma atitude que me percorre desde a raiz do cabelo até ao acabar dos dedos um a um e todos, o mindinho.
É tão difícil encontrar alguém perfeito? Não creio; tal como não acreditava vir a gostar de Tom Waits, receio, sinto e sei de uma estranha mágoa dentro de mim, parecida a uma pequena "ervilha de cheiro" ou será apenas melancolia de passageiro que se diz apaixonado pelo caminho sem o ter feito, como se fosse uma doença incurável ou um contratempo encontrar-me eu comigo e a sós, "semper aeternum", comum e imperfeito,"Finale". Não creio num armistício, cansei-de lutar viúvo contra baleias brancas e ao vivo.

Joel matos 06/2018
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378

No bater de duas asas​ ...




No bater de duas asas

Solto, meu coração não bate certo,
Céleres, soltas as borboletas que haviam nele
Pararam de bater asas duras
Ou sou eu que não as ouço,
Ando distraído,

Anda distante minha audição,
Sussurras e não entendo,
Nómada ando eu, meu ouvido
Deserto, lamento não ouvir,
Preciso de ser arranjado

Mais lamento não ver nem falar tampouco,
Sonho é um canteiro que separa
Do mundo imaginário o real que é agora
E o estar longe não é cenário
Que se enrola e desdobra ao contrário,

Tal é a minha facilidade de sentir outro lado
No lado de cá onde meu coração não está,
O celeiro das borboletas sem asas,
Celebro a facilidade de sentir o absoluto,
O armistício sem a salva de balas,

No bater de duas asas o voo
E o azul não é cor nem é dor,
Solto, meu coração; já disse
-Não bate certo - precisa de ser amarrado,
Antes que o roube de mim, a morte e a derrota.

Jorge Santos 06/2018
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366

Temo as sombras e o burburinho ...



Temo as sombras e o burburinho … 

Temo as sombras e o burburinho, 
Temo este mundo e o outro, 
O novelo sem roca e obra feita,
Temo o que é invisível e o que vejo,

Novela, enredo, falso pergaminho,
Levitável o monge de Damão na Índia,
Lamentável a minha condição,
De temente a Deus e não aos espaços

Grandes, quanto os desses. 
Miseráveis as palavras que deixo,
Temo o burburinho e as ombreiras
Das portas, as ruas aos “esses”,

Às vezes surge-me na ideia, o que
Estou sonhando e quase toco 
Nos sons do outro lado, embora
Seja uma sinfonia complexa, 

E os anjos tão reais como qualquer
Um de nós, anunciando o privilégio
De serem divinos, seremos quem 
Nos representa, a obra feita,

Salvo o facto de existirmos,
Entre sombras e burburinho.
Sombra de choupo não é mogno, 
O vácuo não tem consciência de broca, 

Nem a esperança é negra,
Como eu dizia inda agora plo caminho,
Por mais que pertença a este, 
Sinto o outro, não o repudio…

Jorge Santos 08/2018
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350

Sinto




"Atravessa-me o vento, meu sonho de ser paisagem voltou, sinto-o dentro"

J.S.
353

Aconteço por-acontecer



Fui destinado a acontecer, ou

Afinal que acontecimento
Diferente sou eu, se há nele, no fundo
Não o destino que me caiba

“Acontecer”. Não aconteceu
Nada a mim de meu, apenas
Fui destinado a ser comum, só eu no final,
Tudo é de outros e não creio

Ser mais do que ouso, dispo-me
Do que uso e do que não me serve,
Excepto o ruído do campo, tão leve e
Único indício que me distingue

De outros que acontecem fugaz,
Como gado validado de gente,
Fui destinado a acontecer desigual,
Eterno o sonho em que sinto que a vida,

"Acontece-por-acontecer", devagar...
Renuncio ao sonho, descrevendo-o
E à minha nudez sem talento,
Espontânea embora estranha.

Foi destinada a ser e sobretudo,
Mas não sei quando ou quanto
Talento valho no talho do logro, sendo
Talhante eu próprio de mim mesmo,

Tenho coração de touro e carne
De "Lord" mas ainda assim de
Alguém que, no lugar dele mesmo
O tem, sem saber que tem esse

Único bem, que é meu e nem me serve,
Talvez tenha eu um outro e outro,
E pense não ter nenhum aqui dentro,
Embora saiba o que é ter não

Coração d'outra gente, colado
Que nem meu ao corpo, se o
Mesmo sinto como sendo eu
pouco, até na dor que ocupo

E outros têm e não eu, culpo
Um coração que não
É meu de todo, é do mundo inteiro,
Coração que a todos

Dei, todavia não tenho
Nenhum batendo de momento,
De verdade junto ao peito,
E isso não me dói tampouco,

"Aconteço-por-acontecer",
Fui destinado a não ser final,
Comum ponto.













Joel Matos 05/2019
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355

Sem casas não haveriam ruas ...



Sem casas não haveriam ruas,
Sem oeste não haveria ocidente,
Tal como a pegada para o rasto,
O analgésico x para dor de dentes,

Enigma sem mistério, estima
Sem objecto, ponte sem projecto,
Mulher nua que não atraia desejo,
Tal como a ruga é para o rosto,

O desejo e a paixão caminham lado-
A-lado, se movem como o destino de
Ciro-O Grande ao unir a Pérsia ao Indo,
Emocionava-o a conquista, ai de mim

Que sonho a lua e não sei sonhar
Desperto, a rua não é meu tecto,
Ocidente pra mim é no leste, o rasto
Que deixo não sei se existe e a dor

Postiça em mim, os dentes e o sorrir
De tudo que na vida me foge como
Casa que rui ao esforço mais leve,
Apesar de meu ego montar o elefante

Dum rei fingido continuo sendo o
Paradoxo de Zenão ao cubo na
Mitologia de Khrónos e as ruínas de
Micenas mil anos antes do templo

De knossos homérico, um Prestes-João
Arquitecto ...


Joel Matos (05/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
378

Comentários (5)

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nilza_azzi

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

obrigado a todos que me leram

ricardoc

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992

muito intenso seus poemas, adorei.

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Se a cólera que espuma, a dor que mora N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, Tudo o que punge, tudo o que devora O coração, no rosto se estampasse; Se se pudesse o espírito que chora Ver através da máscara da face, Quanta gente, talvez, que inveja agora Nos causa, então piedade nos causasse! Quanta gente que ri, talvez, consigo Guarda um atroz, recôndito inimigo, Como invisível chaga cancerosa! Quanta gente que ri, talvez existe, Cuja a ventura única consiste Em parecer aos outros venturosa! Raimundo Correia -Raimundo Correia