Lista de Poemas
ONÍRICO [Manoel Serrão]

Onde a poesia triunfa,
Nenhum poema se basta.
Onde a esperança desperta,
Nenhum sonho se acaba.
Onde o sonho sonha...
Sonha porque sonhos
E poesias não são em vão!
Ödipuskomplex [Manoel Serrão]
No caráter, fora Hamlet.
No destino, fora Édipo.
Mas no elo do trágico?
Ó fora Freud!!!!
DESSEDENTA [Manoel Serrão]

Dessedentas a língua
E o céu da boca!
Cuspis o velho,
E salivais o novo.
DESCONTROL [Manoel Serrão]
Ucha fina, "baú" high-tech, vício, o poder da luz sem cura. O menu com voz avançada; o mal invisível no infravermelho! O lixo arrebatador à 80HDR polegadas!A hipnose global do soft lux digital,
Onde o preto é o preto mais preto e o puro é o branco mais branco apuro.
Ei-lo, OLED de contraste infinito: “véu” que cega e os embesta!
Ei-lo, O Smart que aparta no home theate e o separa “da TV” a massa cinza “da labuta” diária.
Sol a sol! Luau a luau! Ó alli 'stá naquele symbol e naquela imago: o “mundo real”!
Ó alli 'stá naquela boca secura, espectro sem cura de incontinência verbal! Há um "novo homem-na-ordem-manual"!
Ao passo que, muito aquém do que seriam na ordem de aparição: jaz n'uma ABC- Colorado sem lamentar-se da Velha Nova Ordem Mundial.
ASSEMELHADOS [Manoel Serrão]

E ei-los ai distraídos!
Anjos belos mais-que-perfeitos,
Ó deixai-os livres, deixai-os...
Vês que às vós e nós se assemelham.
Ó vês, n'almas ocultas, onde a beleza se elabora?
Guardais o elo, os nós, e sê-lo-emos todos iguais e diversos,
Anjos imperfeitos que dessemelham inda mais belos!
EX LEGE (Manoel Serrão)

Dão-no por tempestivo, bem concebido, recebido (cor)respondido, e bem preparado.
Ó vê-se não quadram reparos! E subira ao "reino" (ao) encantado.
Daí acolhido do verbo o Apelo e do verso o Acórdão: decidiu-se (o) poema?
De resto, cumpre ao poeta, e o faz, valer-se da poesia salvante a beleza do mundo.
Mas decidido, se não constar haja, na forma do coração!
Sem custas ex lege.
BICHOS-DA-SEDA [Manoel Serrão]
Belo afã, sedosa lã d’um só novelo. Tricô d’fleur que a traça não rói.
Veste amorosa que o tempo não desbota.
Ó deu-nos D'us, teceu-nos a vida na roca.
E deu-nos a roca linha ao amor tecido em ouro na borda.
E deu-nos a roca linha aos fios d’almas afins e beijos à porta.
E deu-nos a roca linha ao elo à dois por um amor eterno que nos conforta.
Inda larvas do bicho-da-seda, ostes no casulo d’ alcova.
Inda infinitos fios pr’os teares e eternos corações pr’os teceres.
Anelo, afã! Lã d'um só novelo num só emaranhado de nós.
Ó não sem dous sãos ciosos amantes? E deu-nos D'us, teceu-nos eternos destinos na roca.
MARIA CELESTE [Manoel Serrão]
Em que tormentas fustigas, ou borrascas o decolas?
Em que piras o inelutável fogaréu o devoras?
Em que quarto de horas o Celeste náufrago o afogas?
Ó Deus? Avistei destroços a bombordo e esbirros partirem-se no convés;
Avistei botes sem "hóspedes" quão corpos devorados a estibordo;
Avistei corsários entre acenos de S.O.S e lamentos quão almas inflamas através do fogo cruzado!
Deus! Deus! Ó Deos onde estavas que o destino fatal cuspiras em ardentes chamas a nau em águas de abrasado sal?
Ó Deos! Deos onde estavas que avistei em bravo prélio o Celeste brunir em ferro indo da purga ao inferno?
Ó Deos! Diz-me: onde estavas Deus? Onde estavas? Onde estavas que avistei da meia-laranja aos olhos nus de uns para outros rasos d’agua: o medo; o pânico; e, o brado clamor do assombro perpétuo?
Ó juro-vos avistá-la d'ante o mar esbraseado, rubro-corado o quente revérbero da nau invisível - o fantásmico Celeste -, ardente em chamas, apagar-se, regido pelos sussurros das vozes humanas, os últimos cantos e labaredas nos porões se perder ao longe, à distância, mergulhar na eternidade de seu sono eterno...
Ó juro-vos avistá-la d'ante o mar funéreo d'um março o naufrago, a nau sem âncoras perdida entre saudosas lembranças.
A nau vertendo lágrimas, acenando-me adeus... Ó D'us, quão vestuta ausência de tudo!
Ó Deos! Ó Maria Celeste, imortal t’alma solta ao tempo, viverás eterna por barcas à flor das águas, navegantes mares na memória dos homens.
NOTA: O Maria Celeste foi um pequeno navio cargueiro de propriedade da Companhia de Navegação São Paulo, construído em 1944. Em 16 de janeiro de 1954, o navio foi atingido por um incêndio durante a operação de descarga de combustíveis em São Luís, Maranhão, e afundou após queimar por três dias consecutivos, deixando 16 mortos.
Comentário de João Batista do Lago: Belíssimo poema [A NAU CELESTE]: As imagens que o P. nos sugere são imensas e inacabáveis. Fiquei com a sensação de estar presente àquele cais, assistindo ao desespero de todos aqueles que, de fato, ali estavam, e nada puderam fazer. O grito, do Sujeito do poema, revela a dualidade de um inferno real e de uma metaexistência de esperança que jamais se concretizará em qualquer futuro. Ainda hoje as almas pensam por ali. Olhem o cais à noite e verão corpos boiando agora num mar de asfalto.
Nota sobre o autor do comentário:[“João Batista do lago, maranhense, pode ser considerado, atualmente, um dos mais completos poetas e cronistas do Brasil, haja vista a consciência plural e significativa de sua intuição cultural, fato que o faz passear entre musgos históricos gregos e o modernismo clariciano, espargindo o pensamento poético alemão, americano ou inglês, sem esquecer das taças saboreantes dos vinhos que enebriaram o cismar dos poetas franceses como BAUDELAIRE (Charles Baudelaire), MALLARMÉ (Stéphane Mallarmé), FRANÇOIS COPÉE (François Édouard Joaquim Copée) e MUSSET (Louis Alfred de Musset) – o poeta do amor. Como eu, o Maranhão e o Brasil também, creio, se orgulham de João Batista do Lago, uma das maiores expressões literárias do mundo moderno. Fato que, realmente não deixa a desejar se comparado a nenhum dos franceses acima citados”. Marconi Caldas Poeta, escritor e advogado São Luís – Maranhão – Brasil 2007].
PARLEZ-VOUS [Manoel Serrão]

Selo, não sê-lo?
Passai a língua nelle.
Ó parlez-vous amor!
Mas sede universal.
QUARENTENA [Manoel Serrão]
Ó amém! Rezarei a quem?
Ó D'us! À todos peço-lhes perdão!
Eu... Logo eu pálido Deus que fora à quarentena de febre e delírio... delírio... delírio... Ó D'us! Rezarei a quem?
Comentários (1)
Parabéns por seus textos e seus poemas, meu caro Manoel Serrão. Poesia é, como disse o grande poeta Octávio Paz, salvação e nós dois seremos salvos por ela, assim como todo aquele que faça da beleza o único pão para sua alma. Tenho igual honra em te-lo como leitor. Um forte e cordial abraço.