Lista de Poemas

Ilha

A ilha se movia

Alcança-la eu queria,

mas o navio se moveu

e minha fantasia desapareceu.

Afoguei-me no cais

Alto mar nunca mais.

260

Fujo

Se não vejo

Não aprecio, não tornoreal.

Se não vejo,

Fujo do verso,

Escondo-me.

Assim não vou serlembrado,

Nem vou lembrar.

Se na vi, nãovivi.

Portanto nãoexistiu.

Só há vida no quese vê

Ainda que não se enxergue.

346

Estação

Alguém sempre fica na estação e ao descer leva um versonosso. Assim a poesia chamada vida vai perdendo a rima.

305

A deriva...

O dia foi-se em chamas

Gordurosas...

Extintas a gás carbônico.

Entre sem relutar ó noite branca

Embalada pelos ponteiros lacônicos...

Implacáveis...

Devastadores.

A espuma no copo e nos lábios é

Mar recomeçando em mim.

A deriva...

Não valho nada.

Sou pobre,

Descrente, imperfeito, imundo.

Não vivo... Vago...

Vagabundo.

E tenho o agravante oceânico,

Incorrigível...

De crer em versos

Dominando o mundo.

403

Janela

A janelamostrava-me o mar.

E eu sentia amaresia,

Voar eu queria

Só arrisca quemsabe nadar.

Não nado,

Não tudo.

Neste meuminúsculo mundo,

A grandeza dooceano

É onde mergulho algunsplanos,

Pra nada, nem pranadar me serve o mar.

291

Cidadania

É recomendável ao poeta a tríplicecidadania:

Jus soli, jus mares e jus selenitas.

428

Cronologia

Aindacarregas sonhos não vividos,

Já sem graçadepois de tanto passado.

Profeciastão sérias que acreditavas

Agoradesconsidera para não se ferir.

A rua davida se tornou larga,

Lembrandodos sinais que passou no vermelho.

Uma fotoirreconhecível,

Com pose dequem jurava que tornaria o mundo livre.

Quantas condenaçõesque aos outros queria impor

Hojesilencia para se proteger.

Quantaspalavras que pronunciavas

Entusiasmadojá nem quer ouvir.

Quantasafirmações de eternidade

Que precocese foram.

Quanta vidadita infinita

já findou.

Quantos rostosdesejou beijar,

Tão poucos beijou.

Sorvetes e sorrisosno parque,

Só eramdeliciosos por ter

uma mãosegurando na sua.

Hoje os poemasde amor sem nenhuma arte

Estão emalgum caderno esquecido no mundo.

Ninguém maiste reconhece.

Ficou nocaminho a beleza que tinhas.

Pessoas queamavas desapareceram.

Divagaspensando e nem lembra mais,

Que valeu apena,

Mesmo tendoficado pra trás.

281

Partida

Preciso ir. Já escureceu.

Papai deve estar preocupado e

Mamãe angustiada.

Agora que tudo se inverteu

Tem noites que acordado

Sinto que a vida e danada

Sem eles, quem não dorme soueu.

306

Litoral

Entre a vida e o litoral

Deve haver bem mais

Do que leveza, brisa,beleza,

Mistérios e mar.

362

Superlativo

Ainda farei um verso nobre,

Que seja leve como a folhaoutonal,

E saboroso como as frutas doquintal.

Que atropele do caminho a escuridão.

Que seja rápido como raio quese fez.

Que não tema a morte,

E que se acomode nos braçosda vida e da paz.

Que seja superlativo como sonhosinfantis,

E real como a geleia é.

Que seja a estrada da busca

E o melhor ancoradouro dedestinos.

Que não tenha serventia senão puder ter,

Que não seja jardim nem rosasse não der pra ser,

Mas que contemple em cada um

O fascínio encantado de umnovo amanhecer.

349

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Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais.
Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)