Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Fui deixando pra trás os sonhos meus e assim troquei os passos, fui adiante, nas escolhas que fiz a cada instante, nas várias formas de dizer adeus.
E quanto mais sonhei, mais relevante – ó devaneios pálidos e ateus – foi a vontade de saber de um deus que desse a mão ao ser itinerante.
Mas nunca o meu caminho ele cruzou, para sustar minhas andanças ou para ajustar meu passo ao paraíso,
ao desapego simples e eficaz, que o desencanto desta vida traz, ao despertar mais rápido e preciso.
Nilza Azzi
58
Fecho de ouro
Fiz um colar usando muitas contas, contas de pedra, unidas por um fio. E desse fio juntei as duas pontas; as pedras todas eram do Brasil.
As escolhi às cegas, meio às tontas, tal quem navega sobre um mar bravio e vem a onda e a teu barco remonta, deixando o convés escorregadio...
Faltava entanto completar a obra, deixá-la pronta e certa para o uso, fugindo à forma, para meu desdouro.
Colar perfeito, sem nenhuma sobra, bem acabado, ainda preso ao fuso: como arremate, usei um fecho de ouro!
Nilza Azzi
28
Quitanda
São vinte e quatro salgados congelados e assados por apenas dez reais, freguesia, e inda tem mais: tem sorvete de palito, pacote com quatro tipos, pão de queijo congelado e nhoque resfriado...
Essa turma salva o dia, pois vende até poesia!
Nilza Azzi
41
Desconcerto
Ah, se magia eu fizesse, condensaria o azul puro do céu em um único par de safiras
Com fios de teia invisível as conservaria suspensas no horizonte do olhar
Do mar poderia extrair a combinação mais perfeita dos pigmentos, o verde cristalizado duas esmeraldas esplêndidas
Com fios de teia invisível as manteria plantadas terra fértil são teus olhos
E em perfeita sanidade eu suspensa no horizonte a tela por mim tecida escolhendo as duas luas enlouqueço céu e mar
Nilza Azzi
22
Canto de arte
Quando às margens da poesia me detenho e me espelho nessas águas cintilantes, posso ver que, entre o carvão e o diamante, sabe ao pó o meu pretenso desempenho.
Sei então que em meu delírio de aspirante, canto em verso a vida, sem franzir o cenho... Tal labor requer de mim o mais ferrenho dos esforços, por querer ir sempre adiante.
E se à arte eu presto enorme desserviço, quando insisto em escrever, sem que me farte, por castigo, aceito em paz a minha parte:
– Que se cale à minha volta o tom mortiço desta verve e seja o bardo rechaçado e nem mesmo deixe à margem um recado.
Nilza Azzi
42
Esforço inútil
Essa minh’alma fraca, tola e revoltada, e o coração que desconhece o seu lugar, jamais terão a paz, porque nenhuma estrada chega ao destino, se o destino é só vagar...
Um dia, eu sei que a solidão fará morada; descobrirei que não existe nenhum lar e na poeira de algum vento, serei nada, apenas grão que às vezes muda, sem cansar,
porque entendeu o imponderável da quimera. E nesse vácuo explodirá, já sem espanto, aquela lágrima nos olhos, bem no canto,
logo enxugada pelo ar, tão ressequido; esforço inútil, sem função, pois que duvido que fosse mesmo um sentimento... Ai, quem me dera!
Nilza Azzi
38
O estranho
Não te conheço, nunca nos falamos, mas hoje entramos pela mesma porta... Atrás de nós florescem muitos ramos e a floração em cores nos conforta.
Se a natureza esteve um tempo morta, refloresceu, porque hoje nos amamos... Já o que passou é vago e não importa; cantam pra nós, gentis, os gaturamos.
Mas dize, estranho, como pude amar-te e te entregar meu corpo nesse ardor, fazer de ti, meu guia e baluarte?
Por ser o afeto um bem que se reparte, fingiste bem sentir um grande amor e desse amor soubeste engenho e arte.