Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

7

Percurso


Fui deixando pra trás os sonhos meus
e assim troquei os passos, fui adiante,
nas escolhas que fiz a cada instante,
nas várias formas de dizer adeus.

E quanto mais sonhei, mais relevante
– ó devaneios pálidos e ateus –
foi a vontade de saber de um deus
que desse a mão ao ser itinerante.

Mas nunca o meu caminho ele cruzou,
para sustar minhas andanças ou
para ajustar meu passo ao paraíso,

ao desapego simples e eficaz,
que o desencanto desta vida traz,
ao despertar mais rápido e preciso.

Nilza Azzi
58

Fecho de ouro


Fiz um colar usando muitas contas,
contas de pedra, unidas por um fio.
E desse fio juntei as duas pontas;
as pedras todas eram do Brasil.

As escolhi às cegas, meio às tontas,
tal quem navega sobre um mar bravio
e vem a onda e a teu barco remonta,
deixando o convés escorregadio...

Faltava entanto completar a obra,
deixá-la pronta e certa para o uso,
fugindo à forma, para meu desdouro.

Colar perfeito, sem nenhuma sobra,
bem acabado, ainda preso ao fuso:
como arremate, usei um fecho de ouro!

Nilza Azzi
28

Quitanda


São vinte e quatro salgados
congelados e assados
por apenas dez reais,
freguesia, e inda tem mais:
tem sorvete de palito,
pacote com quatro tipos,
pão de queijo congelado
e nhoque resfriado...

Essa turma salva o dia,
pois vende até poesia!

Nilza Azzi
41

Desconcerto


Ah, se magia eu fizesse,
condensaria o azul puro do céu
em um único par de safiras

Com fios de teia invisível
as conservaria suspensas
no horizonte do olhar

Do mar poderia extrair
a combinação mais perfeita
dos pigmentos, o verde cristalizado
duas esmeraldas esplêndidas

Com fios de teia invisível
as manteria plantadas
terra fértil são teus olhos

E em perfeita sanidade
eu suspensa no horizonte
a tela por mim tecida
escolhendo as duas luas
enlouqueço céu e mar

Nilza Azzi
22

Canto de arte


Quando às margens da poesia me detenho
e me espelho nessas águas cintilantes,
posso ver que, entre o carvão e o diamante,
sabe ao pó o meu pretenso desempenho.

Sei então que em meu delírio de aspirante,
canto em verso a vida, sem franzir o cenho...
Tal labor requer de mim o mais ferrenho
dos esforços, por querer ir sempre adiante.

E se à arte eu presto enorme desserviço,
quando insisto em escrever, sem que me farte,
por castigo, aceito em paz a minha parte:

– Que se cale à minha volta o tom mortiço
desta verve e seja o bardo rechaçado
e nem mesmo deixe à margem um recado.

Nilza Azzi
42

Esforço inútil


Essa minh’alma fraca, tola e revoltada,
e o coração que desconhece o seu lugar,
jamais terão a paz, porque nenhuma estrada
chega ao destino, se o destino é só vagar...

Um dia, eu sei que a solidão fará morada;
descobrirei que não existe nenhum lar
e na poeira de algum vento, serei nada,
apenas grão que às vezes muda, sem cansar,

porque entendeu o imponderável da quimera.
E nesse vácuo explodirá, já sem espanto,
aquela lágrima nos olhos, bem no canto,

logo enxugada pelo ar, tão ressequido;
esforço inútil, sem função, pois que duvido
que fosse mesmo um sentimento... Ai, quem me dera!

Nilza Azzi
38

O estranho


Não te conheço, nunca nos falamos,
mas hoje entramos pela mesma porta...
Atrás de nós florescem muitos ramos
e a floração em cores nos conforta.

Se a natureza esteve um tempo morta,
refloresceu, porque hoje nos amamos...
Já o que passou é vago e não importa;
cantam pra nós, gentis, os gaturamos.

Mas dize, estranho, como pude amar-te
e te entregar meu corpo nesse ardor,
fazer de ti, meu guia e baluarte?

Por ser o afeto um bem que se reparte,
fingiste bem sentir um grande amor
e desse amor soubeste engenho e arte.

Nilza Azzi

 
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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!