Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

289

Voltas


Quanto mais, quanto menos te vejo,
mais percebo a doçura que falta
no meu dia, na noite, no ensejo
desse olhar cuja ausência ressalta.

Quanto enlevo nos ais dos cortejos,
e outros mais nas conquistas em alta.
Quanto amor eu não cri benfazejo
e por menos larguei sobre a pauta.

Se esta rua dirige-se ao cais,
a medida dos passos que avanço
não permite chegar ao seu fim.

Há tristezas que vivem em mim,
sem a trégua de um mero descanso,
sem um ponto de fuga, jamais.

Nilza Azzi

 
186

Vocabulário

A tua volta, a lua, o rio frio...
O paraíso em que vivi aéreo
era o Saara, o meu mundo vazio,
a minha aorta, em que corre o mistério.

Não foi ciúme a causa do arrepio,
ou a lembrança daquele impropério.
Velho baú – o meu olhar desvio,
pois um segredo é sempre um caso sério.

À crua luz do Sol, eu descaído,
pela baía a praia vai deserta,
uma embaúba em prata mais além...

Aos que descreem tudo é permitido
perdoo então a indiferença aberta.
− Um caapora me olha com desdém.

Nilza Azzi
48

Vestígios


Um verso eu rabisquei na areia do deserto,

sabendo de antemão que o vento levaria,
palavra por palavra, além da areia fria,
até que não restasse a minha voz por perto.

No verso eu descrevi o quanto eu te queria
e como acreditei que amar pode dar certo.
A marca que deixei foi sob um céu aberto
e o mundo em que vivi vibrava em harmonia.

Porém como esperava, o vento ali soprou,
rasteiro, e foi levando a areia e, em cada grão,
desfez-se a minha voz, fugiu-me a força, então.

Quem sabe a brisa entregue, à areia que espalhou,
uns traços deste verso, e não de outro qualquer;
vestígios sem função do amor de uma mulher.

Nilza Azzi
184

Versos brancos

A cal, o giz, o alvaiade, o gesso,
instâncias da matéria a fazer arte;
o branco que dispõe a sua parte,
por todos eles tenho muito apreço.

A cal higieniza e ao céu comparte,
revira nuvens brancas pelo avesso;
o gesso, modelado, enquanto espesso,
acaba por deixar belo arremate.

Pintar com alvaiade é muito prático:
o velho ganha ares de impecável;
em congas é eficaz e pragmático...

Porém, o giz faz tudo memorável,
bastão predestinado a uso didático,
riscava sobre o quadro um bem estável.

Nilza Azzi

 
43

Versos de um domingo


O rio desce tranquilo da montanha;

com calma, escorre as águas cristalinas,
mas quando chove muito ele se assanha
e invade, além das margens, as campinas.

E a força da torrente é tal, tamanha
a callha da enxurrada, que termina
por revolver o saibro; a água ganha
a cor barrenta e arrasta a areia fina.

À beira de um remanso, vendo a cena,
o olhar perdido, a alma, então serena,
transmite para o corpo um sobressalto.

Relembra de beber da água mais pura,
do tempo em que o amor era ventura,
de quando o coração fremia, incauto.

Nilza Azzi

 
144

Forrageira

Na raiz da tua ausência habita a desventura,
um espaço sucedâneo, em que a dor perfilha.
Faz-se abismo sem limite, estende-se armadilha,
negro charco onde desliza, além da terra escura.

Se nos campos do passado, andei por essa trilha,
reconheço, intermitente, a linha mais escura.
Não sabendo onde andar, busquei tua ternura,
mas, soberbo, me deixaste  – a  forrageira ervilha.

Com a falta que me faz a palma de um abraço,
eu preencho a composteira e grande esforço faço,
pra viver sem esse amor, ao qual me dei inteira.

É verdade que a colheita enfeita qualquer feira,
mas, daquela sementeira, herdei meu embaraço
e do pobre coração, as fibras despedaço.

Nilza Azzi

 
49

Vênus exilada


O quanto peque em versos, sem qualquer talento,

tentei fugir de ti poesia malfadada,
seguir outro caminho, andar por outra estrada.
Ah! sim, pensei deixar-te, o sonho que alimento,

a nuvem de meu estro, a linha alinhavada,
o mundo circunflexo, o estrato e o sedimento,
o meu querer pesado, o coração ciumento
e a dor de bem saber a letra da toada...

Da mesma forma eu quis, do amor passar ao largo,
pois tem muito em comum, a saga das paixões,
e paguei um a um os meus pecados tolos.

Já não sei mais dizer se foi por culpa ou dolo
− e saberias tu, se os limites transpões −
que perdi meu amor, o meu vate, o meu bardo!?

Nilza Azzi

 
187

Feitiço


Eu tenho as mãos geladas, olhos baços,

sem ti, o mundo, inerte, perde o viço
e a vida se desfaz num tom mortiço;
sem ti, tudo me escapa, faltam laços...

Os dias vão e vêm e nem por isso
serão os meus desejos mais escassos,
nas horas que me escapam aos pedaços,
sem graça, pois me falta o teu feitiço.

A noite chega cheia de arrepios,
mas sonho que divido a minha cama
contigo, que teu corpo por mim clama,

porém meu leito assoma em seus vazios
e sem o teu calor não tenho nada:
— A noite é uma esperança esfarrapada.

Nilza Azzi

 
157

Vaticínio

Se pudesse, nas palavras, derrubar-me,
como o faz a alma sobre um ser humano,
transformá-las qual o Verbo feito carne,
libertá-las do tom áspero e profano,

de tal forma a dar-lhes glória, encanto e charme...
E  trouxesse o intenso  fogo dos arcanos,
com os anjos nos seus carros a puxar-me,
concebendo um velho anseio soberano;

se tal dom assim tivesse, eu, poetisa,
qual semente espalharia em meu espaço,
no compasso deste mundo que escurece?

Diz meu estro que, a seu ver, nada divisa,
sem receio de abalar-me o ser escasso:
– Tu que és pó ousas sonhar com tal benesse!?

Nilza Azzi
31

Vacilar

Talvez eu passe pelas ruas que passeias
e nem perceba algum sinal dos passos teus.
Talvez o sangue que me corre pelas veias
já não se altere quando lembro nosso adeus.

Vejo as aranhas a tecerem suas teias;
chega um inseto, distraído, ao coliseu,
e se debate, sem jamais vencer as peias.
― Ai quem me dera escapulir dos laços meus!

Se devo ao Sol que iluminou nosso caminho,
e que passeia solitário pelo céu,
essa ilusão de ter um tempo à minha frente,

é que ele mostra a realidade diferente:
Semeia em mim a crença num amor fiel
― um contrassenso ― uma falácia onde chapinho...

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!