Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Quanto mais, quanto menos te vejo, mais percebo a doçura que falta no meu dia, na noite, no ensejo desse olhar cuja ausência ressalta.
Quanto enlevo nos ais dos cortejos, e outros mais nas conquistas em alta. Quanto amor eu não cri benfazejo e por menos larguei sobre a pauta.
Se esta rua dirige-se ao cais, a medida dos passos que avanço não permite chegar ao seu fim.
Há tristezas que vivem em mim, sem a trégua de um mero descanso, sem um ponto de fuga, jamais.
Nilza Azzi
186
Vocabulário
A tua volta, a lua, o rio frio... O paraíso em que vivi aéreo era o Saara, o meu mundo vazio, a minha aorta, em que corre o mistério.
Não foi ciúme a causa do arrepio, ou a lembrança daquele impropério. Velho baú – o meu olhar desvio, pois um segredo é sempre um caso sério.
À crua luz do Sol, eu descaído, pela baía a praia vai deserta, uma embaúba em prata mais além...
Aos que descreem tudo é permitido perdoo então a indiferença aberta. − Um caapora me olha com desdém.
Nilza Azzi
48
Vestígios
Um verso eu rabisquei na areia do deserto, sabendo de antemão que o vento levaria, palavra por palavra, além da areia fria, até que não restasse a minha voz por perto.
No verso eu descrevi o quanto eu te queria e como acreditei que amar pode dar certo. A marca que deixei foi sob um céu aberto e o mundo em que vivi vibrava em harmonia.
Porém como esperava, o vento ali soprou, rasteiro, e foi levando a areia e, em cada grão, desfez-se a minha voz, fugiu-me a força, então.
Quem sabe a brisa entregue, à areia que espalhou, uns traços deste verso, e não de outro qualquer; vestígios sem função do amor de uma mulher.
Nilza Azzi
184
Versos brancos
A cal, o giz, o alvaiade, o gesso, instâncias da matéria a fazer arte; o branco que dispõe a sua parte, por todos eles tenho muito apreço.
A cal higieniza e ao céu comparte, revira nuvens brancas pelo avesso; o gesso, modelado, enquanto espesso, acaba por deixar belo arremate.
Pintar com alvaiade é muito prático: o velho ganha ares de impecável; em congas é eficaz e pragmático...
Porém, o giz faz tudo memorável, bastão predestinado a uso didático, riscava sobre o quadro um bem estável.
Nilza Azzi
43
Versos de um domingo
O rio desce tranquilo da montanha; com calma, escorre as águas cristalinas, mas quando chove muito ele se assanha e invade, além das margens, as campinas.
E a força da torrente é tal, tamanha a callha da enxurrada, que termina por revolver o saibro; a água ganha a cor barrenta e arrasta a areia fina.
À beira de um remanso, vendo a cena, o olhar perdido, a alma, então serena, transmite para o corpo um sobressalto.
Relembra de beber da água mais pura, do tempo em que o amor era ventura, de quando o coração fremia, incauto.
Nilza Azzi
144
Forrageira
Na raiz da tua ausência habita a desventura, um espaço sucedâneo, em que a dor perfilha. Faz-se abismo sem limite, estende-se armadilha, negro charco onde desliza, além da terra escura.
Se nos campos do passado, andei por essa trilha, reconheço, intermitente, a linha mais escura. Não sabendo onde andar, busquei tua ternura, mas, soberbo, me deixaste – a forrageira ervilha.
Com a falta que me faz a palma de um abraço, eu preencho a composteira e grande esforço faço, pra viver sem esse amor, ao qual me dei inteira.
É verdade que a colheita enfeita qualquer feira, mas, daquela sementeira, herdei meu embaraço e do pobre coração, as fibras despedaço.
Nilza Azzi
49
Vênus exilada
O quanto peque em versos, sem qualquer talento, tentei fugir de ti poesia malfadada, seguir outro caminho, andar por outra estrada. Ah! sim, pensei deixar-te, o sonho que alimento,
a nuvem de meu estro, a linha alinhavada, o mundo circunflexo, o estrato e o sedimento, o meu querer pesado, o coração ciumento e a dor de bem saber a letra da toada...
Da mesma forma eu quis, do amor passar ao largo, pois tem muito em comum, a saga das paixões, e paguei um a um os meus pecados tolos.
Já não sei mais dizer se foi por culpa ou dolo − e saberias tu, se os limites transpões − que perdi meu amor, o meu vate, o meu bardo!?
Nilza Azzi
187
Feitiço
Eu tenho as mãos geladas, olhos baços, sem ti, o mundo, inerte, perde o viço e a vida se desfaz num tom mortiço; sem ti, tudo me escapa, faltam laços...
Os dias vão e vêm e nem por isso serão os meus desejos mais escassos, nas horas que me escapam aos pedaços, sem graça, pois me falta o teu feitiço.
A noite chega cheia de arrepios, mas sonho que divido a minha cama contigo, que teu corpo por mim clama,
porém meu leito assoma em seus vazios e sem o teu calor não tenho nada: — A noite é uma esperança esfarrapada.
Nilza Azzi
157
Vaticínio
Se pudesse, nas palavras, derrubar-me, como o faz a alma sobre um ser humano, transformá-las qual o Verbo feito carne, libertá-las do tom áspero e profano,
de tal forma a dar-lhes glória, encanto e charme... E trouxesse o intenso fogo dos arcanos, com os anjos nos seus carros a puxar-me, concebendo um velho anseio soberano;
se tal dom assim tivesse, eu, poetisa, qual semente espalharia em meu espaço, no compasso deste mundo que escurece?
Diz meu estro que, a seu ver, nada divisa, sem receio de abalar-me o ser escasso: – Tu que és pó ousas sonhar com tal benesse!?
Nilza Azzi
31
Vacilar
Talvez eu passe pelas ruas que passeias e nem perceba algum sinal dos passos teus. Talvez o sangue que me corre pelas veias já não se altere quando lembro nosso adeus.
Vejo as aranhas a tecerem suas teias; chega um inseto, distraído, ao coliseu, e se debate, sem jamais vencer as peias. ― Ai quem me dera escapulir dos laços meus!
Se devo ao Sol que iluminou nosso caminho, e que passeia solitário pelo céu, essa ilusão de ter um tempo à minha frente,
é que ele mostra a realidade diferente: Semeia em mim a crença num amor fiel ― um contrassenso ― uma falácia onde chapinho...