Nilza_Azzi

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Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

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Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Poemas

64

lembranças


quando me apaixonei
o mundo apagou-se ao meu redor
e só ganhava cores quando estavas por perto

quando me apaixonei
as palavras perderam o sentido
e a única língua importante era a que falavas

em sonhos te envolvi
cada cuidado, cada escolha
tudo que fazia era pela vontade de ser bela aos teus olhos

em desejos me abismei
em descobrir mistérios me envolvi
ao querer mergulhar nos teus olhos negros memoráveis

as horas só valiam partilhadas
o sentido e a razão eram-me nada
e tua camisa azul entreaberta me fazia sonhar com teus mamilos

os sonhos só me valiam por tua voz
quando falavas era o canto enternecido
e as ideias semelhantes sobre a vida era tudo que importava

quando me apaixonei
tua presença ao meu lado era dádiva
eras o homem mais completo que eu jamais conhecera

quando me apaixonei
seria capaz de desfazer-me de mim mesma
para que o mundo fosse a liberdade que entendias

...e soube o que era a dor
a certeza da duração impossível
as feridas que trazíamos em nossas almas tristes

nilza azzi

 

 

 
34

gato-poesia


meu gato-poesia espia
e mia em cima do muro
inseguro, lambe as patas
espreme os olhinhos amarelos...

se teme o inimigo ancestral
bem ou mal, enfrenta o perigo
e junto ao perdigueiro vai brincar

nilza azzi
178

Nebulosa


O amado surge e o horizonte brilha
em cintilações de luz, em cor e festa.
E o cheiro do capim dessas manhãs
rescende ao bom odor da terra bruta.
Por onde andei, em solitária estrada,
longe de ti, ó força de minh'alma?
Somente atrás da pequenina chama
do amor que vislumbrava prado além;
em busca da estrelinha sobre o monte,
nas tardes de perdida escuridão...
Não sei! Nem sei de como estás diante de mim,
atrás das névoas de ilusões tão fortes.
Diz, meu amor, da essência dessas flores,
do encantamento dos jardins celestes;
e dessas vinhas de cachos maduros
das fontes virgens cujas águas cantam
outras canções, das quais não falaremos...

Nilza Azzi
195

Velas ao vento


Na linha do vento, prossigo sem lei,
singrando esses mares, tão verdes, além...
Acima esse teto de céu azul rei,
meus rumos tomei, não me curvo a ninguém.

Se o vento se acalma ou se estaca de vez,
eu paro e contemplo a existência ao redor,
mas quando ele sopra, bem doce e cortês,
eu sou vela inflada e navego melhor.

No mar da poesia, as palavras eu pesco
e, ao tempo do vento, seguimos velozes,
nos damos as mãos, em completa união.

Os meus sentimentos aos verbos eu mesclo,
exponho minh'alma e juntamos as vozes
— veleiros ao vento, os meus versos se vão...

Nilza Azzi
205

domínio


deixo meus dedos passearem pelo teclado
com a mesma impaciência
com que desenhava a lápis sobre o papel
palavras nascidas da memória antiga
e dessa intimidade sem fronteiras
retiro dos sentidos que me restam
os sons velozes das vogais
e as esperanças surdas das consoantes
procuro as sensações inusitadas
de quando se combinam as verdades
em vocábulos tontos de tristeza
em palavras loucas de alegria
e quando o espaço todo se recobre
de preto tanto quanto posso dar de mim
procuro descanso numa praça
e espero que essas aves tenham asas

nilza azzi
204

Inconstância


Na terra em que havia palmeiras
e o sabiá com seu canto
habitam jovens faceiras
mas seu mundo é desencanto.

Foi-se embora o trovador
num navio sem destino
a cantar versos de amor
e a sofrer por desatino

Nilza Azzi
166

Encontro romântico


O meu amor não teme as madrugadas
e vence o frio e a chuva sem receio.
Caminha, vem de carro ou outro meio
de transporte, por ruas alagadas...

O meu amor me olha e diz que é feio
usar qualquer desculpa esfarrapada.
Denota indiferença pela amada,
mandar uma mensagem por correio.

E para estar comigo, no meu leito,
escolhe o seu perfume mais cheiroso,
aquele que ele sabe ser perfeito,

num gesto delicado, afetuoso.
Assim, desejo vê-lo satisfeito
e faço a minha parte por seu gozo.

Nilza Azzi
196

Linhas cruzadas

Para Dudu Oliveira

Vi o fio bem esticado,
mas mesmo assim tropecei
me atrapalhei nas palavras
e não consegui tocar
seu âmago, seu sentido

Nas linhas eu me enrolei
desenhei um zigue-zague
juntei frases desconexas
enfrentei os meus pecados
e desfiz-me em personagens

Bem do topo da montanha
olhei um mar sem sentido
a banhar areias brancas
mas vacilei nas palavras
e perdi encanto e vez

Nilza Azzi
173

Passado


Debrucei-me sobre as minhas incertezas
todas presas por um fio, meio suspensas
como contas de um colar, as minhas crenças
a vacilar labaredas mal acesas...

Depois me ergui, enfrentando indiferenças,
sem entender bem o vão das sutilezas...
Guardei num susto as palavras todas presas
e desdenhei de aventuras mais intensas.

Enfim parti à procura de outros ares,
para enfrentar a pressão que cresce farta,
além  da  dor, sem sinais particulares...

Atrás de mim não imprimo qualquer marca,
jamais espero que um dia tu me ampares,
nessa esperança, minh’alma não embarca.

Nilza Azzi
16

Transparências


A libélula voava tonta à beira do lago,
inocente, sem suspeitar de qualquer perigo.
O ar já continha em si um peso vago
e a água refletia apurado brilho.
Na calma da campina, em meio à floresta,
os insetos noturnos, um mundo à parte...
Às margens do largo rio era manifesta
a justa da divisão do que se reparte.
Havia ali um quê de tempo suspenso
e as palmas contra o azul mal se balouçavam...
A lua seria cheia, a maré sem vento
e havia o homem perfeito que me amava.

Mas tempos são pouco firmes e mudam sempre,
transformam em poucas horas a paisagem.
O que soprava no alto, ora sopra rente,
e aos saltos, a forma elástica estica a imagem.
É certo que a solidão pode ser benquista,
se a forma de se entender conduzir ao nada,
se a luta pelas certezas que se conquista
transpassar a iridescência da alma alada.

Nilza Azzi
42

Comentários (4)

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yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!