Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Se de ti roubei um beijo, não me julgues, por favor, pois não contive o desejo de provar o teu sabor.
Nilza Azzi
36
Valsa
Busquei a ti, para dançar a valsa, rodopiar feliz pelo salão, sentir teu corpo bem perto do meu,
sonhar e crer que teu olhar foi meu, que o coração nos acompanha e valsa e dançam junto as flores do salão.
Quando me achei sozinho no salão, notei que foste embora, sonho meu, e não mais dançaremos nossa valsa...
Nilza Azzi
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Evocações
Na ladeira da memória, há uma casa nacarada: lá é que moram os risos.
Junto ao mar ecoam risos evocados na memória pela concha nacarada.
Radiante e nacarada era a luz daquele risos, no amanhecer da memória
Nilza Azzi
151
Ao Senhor do tempo
─ Dizei-me, ó senhor das minhas horas, tomais a mais alguém, além de mim, nos braços do compasso, em grão festim, a dança dessas marcas tão sonoras?
─ Ingênua criatura, tenho sim, no baile, os convidados mais seletos, que ouvem com cuidado os meus decretos; jamais ouvi clamar que sou ruim!
─ Oh! Não! Eu não pretendo ser ousada e, sei, vossa presença é quase nada, porquanto vos percebo como escasso.
─ Não vês que sou apenas uma parte? Cansei de resolver tudo sozinho! Sugiro que reclames com o Espaço...
Nilza Azzi
48
haicai da paz
suspensa no instante − entre céu e mar flutua a paz navegante
nilza azzi
31
Hoje amanheceu
Hoje amanheceu domingo como se fosse outro dia, com um céu azul tão lindo, sobre a alma assim vazia...
Nilza Azzi
35
Liames
No espelho da orla, refletem as luzes que a noite chegou à cidade praiana; as águas prolongam efeitos e aduzes: há brilhos no mar, do navio à chalana.
Do meio da serra, varando a neblina, o quadro irreal aparece suspenso; a sombra esfumaça contornos, inclina o foco do olhar, para além do bom senso.
A quase fusão das imagens noturnas, sugere que a vida se ergue em camadas e nunca se sabe onde o esquema termina.
Jamais tenho fé, mas enfrento essa sina estranha e percorro, entre as linhas traçadas, o interno recanto, por grotas e furnas.
Nilza Azzi
49
Amor 'da hora'
Entro na máquina do tempo violando eras passadas e futuras
Vou tirar xérox dos amores esquecidos que não foram delatados nas fotocópias da história
Vou te entregar off-set impressa em meu olhar a beleza perdida do amor em mim a se duplicar
Vou viajar internauta o teu site procurar acessando no ciberespaço um sweet-home para te amar
nilza azzi
62
Horizontes
Por vezes, é um monte, o traçado da linha; encanta a visão, com contraste aparente: um verde cinzento, um azul meio incerto. De um sonho desperto e ajusto essa lente.
Encontra-se o mar, com o céu violeta, na tarde, em momento de sol decadente. Aquela opressão, sempre estranha e sem causa: um momento de pausa, a vida pressente.
É justo que a alma questione as razões e busque horizontes, e linhas assente aos seus principais conselheiros na vida: na vontade contida e a mente presente.
Nilza Azzi
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Ponderações
Para Dr. Renato V. de Castro
A vida humana é obra da surpresa! Se todos nós vivemos maus momentos e de sofrer fugimos mui atentos a preservar da dor a alma indefesa,
de nada, em nós, existe uma certeza. Na imensidão dos fatos violentos que se divulga sempre aos quatro ventos, qual criatura permanece ilesa?
Se no saber procuro ir mais fundo e levo a vida atrás de um ideal, entre as notícias que correm o mundo,
ganha destaque o que é sensacional e pouco importa se eu em dor me afundo − a dor da gente não sai no jornal.