Queimada
Pus fogo na floresta dos meus sonhos
e nem salvei as aves, borboletas;
deixei que os dias fossem mais tristonhos.
Joguei meus velhos trastes na sarjeta
e, num mergulho fundo no meu luto,
comprei pra mim um traje violeta
e fui viver no fundo de um reduto,
na parte mais escura do meu eu,
nas neves de um inverno absoluto.
Um dia, entanto, o novo aconteceu:
notei alguns pontinhos bem brilhantes,
constantes nessa abóbada de breu.
Os pontos pareciam mil diamantes,
não eram uniformes, mas variados,
em tons como jamais eu vira antes,
e foram preenchendo vários lados,
daquilo que sonhara ser eu mesma,
até chegar aos núcleos mais velados.
Em folhas, empilhadas feito resma,
nas faces, nas camadas superpostas ,
a vida, dividida – a alma – fez-ma...
Então lembrei do mundo às minhas costas,
perfeito, nos meus sonhos mais antigos,
queimei por fim ideias decompostas
e consenti que amar tem seus perigos...
Nilza Azzi #terzarima
Príncipe do amor
Sem lembrar que a vida é plena de amor,
morri sem querer, me esqueci de tudo.
Deslizei no limbo... Era furta-cor
toda a sensação desse espaço mudo
− minha alma oca estava confusa −
uma concha seca era seu escudo.
Uma sugestão, quase uma recusa,
um desequilíbrio, o dia desperta.
Uma nova linha... Uma ideia cruza
a estranha dormência, sinal de alerta.
Era o meu herói num cavalo branco?
Só o coração, a verdade, acerta:
– Mas que reação... Mas que solavanco!
Sinais da paixão, quase a perecer,
era a exaltação em estado franco.
Príncipe do Amor, sonho do meu ser,
acenas ao longe, de ti preciso...
Não sei o que fiz por te merecer,
por entrar contigo no paraíso,
no mundo perfeito das terras altas,
de horizontes vastos, que além diviso.
Se meu corpo avisa que tu me faltas
e minh’alma busca o amor distante,
entre nós se ajusta uma nova pauta:
– Sei que vou te amar... Que seja o bastante!
Nilza Azzi #terzarima
Moto contínuo
Vive em mim o mesmo amor; mesma saudade
vem seguir-me nesses tempos de tristeza
e não cabe ao coração, não, com certeza,
rechaçar a solidão que ora lhe invade.
Dessas horas quase mortas, arrecade,
a minh’alma os bons bocados que aprecia
de ventura dolorida, de piedade,
não por si, mas pelo mal de todo dia.
E não deixe de viver, embora grude,
nas cortinas de seu rosto a imagem tola,
aparência de quem não sabe o que quer.
Entre os fardos de viver e ser mulher,
entre as lutas a que a vida ousou expô-la,
seja fria ante a verdade eterna e rude.
Nilza Azzi
Narração
Caminhando para o sul
Percebem-se margaridas
Num dia de céu azul
Giovanni, ali na descida
E o cão de pelo amarelo
Contente, feliz da vida.
Era um dia tão singelo
Tudo estava em seu lugar
A lua era quase um elo
Mas a bola quis rolar
E desceu ladeira afora
O gato pôs-se a miar
A pipa seguiu a aurora
Mas o balão foi chegando
O caminhão tinha escora
E aguentou ‘té não sei quando...
Quem se assustou foi a rosa!
Mas a cena examinando
A vida vibra formosa.
Nilza Azzi #terzarima
Pobre palavra
La vai a palavra solteira,
na feira fazer seu sucesso.
Procura parceiro e, faceira,
esquece na bolsa o ingresso...
A pobre, por mais que se queira,
não tem condições, eu confesso,
de achar casamento e se esgueira,
correndo pra mim, mas impeço.
Se a veste que usa é tão bela,
o seu conteúdo é banal,
e todos perguntam por ela,
por seu denotar principal,
embora desmaie, amarela,
parece, em essência, normal...
Nilza Azzi
Propósito
Escancarar as portas e janelas
e deixar que o bolor se vá embora;
que chegue o sol e traga nessa hora,
coisas mais desejáveis e mais belas.
Meu amor, se teu beijo me demora,
mas em preces, à noite, por mim velas,
as certezas que trazes são aquelas
que perdi; pelas quais minh'alma implora.
E quando a aurora vem, desconhecida,
e deita brilho e cores pela vida,
beber a luz inteira que ela espalha...
Vencer toda manhã essa batalha,
seguir nesse caminho, passo a passo,
e acreditar na força do que faço!
Nilza Azzi
Nós
Contrariamente ao que diz o poeta, não é a constatação da realidade que a humanidade sente como insuportável;
é a luz ofuscante da perfeição exemplar. (George Steiner – Passions Impunies).
Tu me acreditas, mas sou mentira.Tu me duvidas? Sou verdadeiro.Vasto mergulho... A mente delira!E vou adiante, sem cativeiro.Tu vens a mim e dons eu concedo,abro-te as portas de outras esferas,porém não caias no engano ledo:– não mais serás o mesmo que eras...Se em mim procuras a fantasia,da realidade, negas a herança.Bem mais perturba e te extasiaa perfeição que nunca se alcança.Espelho opaco frente ao porvir,tua presença é meu refletir...Nilza Azzi
Extrato
Ele passava todo dia
junto ao pé onde ela crescera
e amadurecia
vestindo um sorriso inerte
usufruía da sombra
contemplava a paisagem
riscava o tronco sem cuidado
apalpava os frutos, exigente
depois partia como viera
nunca se deu a cuidados
nada deixava de si,
além de um ex-trato
Ela buscava nos canais alguma seiva
e mesmo com pouco alimento ia sendo
a reunião do melhor que em si havia
mas de nada adiantava
travava na boca
amarga e intragável
Mas num desses dias de verão
chegou seu momento
e foi colhida e prensada
refinada e estilada
e desde então deram-lhe
o rótulo de poesia extralírica
Nilza Azzi
Espaço sagrado
Um canto em mim, eu reservei, desde pequena,
e ali guardei tudo de bom, que à vida trouxe
(a minha alma) e disfarcei a minha pena,
pra proteger do mundo insano a parte doce,
o bem sagrado. Terei eu alguma essência,
a depurar, neste viver equivocado?
Guardei pra ti o bem maior, a excelência,
a poesia, a alegria, a voz do bardo.
Mas tu não chegas, o Olimpo fica longe,
como Abelardo pode ser, sejas um monge,
e Heloísa só te ama porque quer.
Se num passado estivemos lado a lado,
na imagem pura desse espaço consagrado,
és o meu homem e eu sou tua mulher.
Nilza Azzi
Amor sagrado
“L’amour est ta dernière chance.
Il n'y a vraiment rien d'autre
sur la terre pour t'y retenir."
( Aragon)
(O amor é sua oportunidade final.
Na verdade, nada mais existe
para prendê-lo à Terra.)
Ao começar, a minha voz já anuncia,
amo as palavras, elas são meu alimento.
E amo amar, viver de amor, porém comento
que, com certeza, meu amor traz alegria ...
Mas, se o amor dá sempre o tom do que é real,
então eu amo, amo sempre, mesmo quando
estou desperta, ou mesmo, quando estou sonhando.
Às vezes sim, às vezes não. Isso é normal.
Assim desvela a realidade do viver,
o que aparece no exterior é tão somente,
da vida interna, só uma ponta pertinente,
ao vasto mundo que faz parte do meu ser.
Pois o alimento mais profundo, esse, retive-o,
é o bem sagrado, o bem restrito, o indizível.
Nilza Azzi