Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Se eu fosse beijar teu rosto, tal chuva (uma alegoria!), te olharia e, isto posto, por onde eu começaria? Pela testa, lá no alto, pela raiz dos cabelos; não chegaria de assalto, deslizaria em desvelos...
Sentiria a tua pele e desfaria a tensão; seguiria o que me impele, como chuva de verão. Lavaria os olhos teus das tristezas e seria, como o fim de algum adeus, arco-íris e alegria...
E qual gota se eterniza cristalina e vacilante, beleza clara e precisa suspensa no breve instante, banharia o rosto inteiro com meus beijos, feito pingos espalhados nos outeiros − a poesia dos domingos!
Da pontinha do nariz, olharia o precipício da tua boca que diz: -Vem! Te ofereço o início; a porta da minha alma e, do meu corpo, o caminho. − Vem! E me beija com calma, traze o sonho que adivinho!
Nilza Azzi
68
flash
na verdade
a violência das águas produz energia
se corressem mansas seria apenas o escuro
nilza azzi
56
Viés
olho os teus poemas com olhos de través cortando as palavras num viés bem comprido num mergulho indefeso nos jogos de sentido barco sem leme entre luas e corujas e mares e pontes e o coração que treme
Nilza Azzi
135
Há...
Há um céu azul, além do azul nos lúbricos caminhos da ventura algures, nas alturas do eu perdido do espanto e do não-ser... Há zunidos estranhos e sem sentido nos bosques quietos, recônditos onde liberdade não é uma palavra e nada pode ser chamado de loucura lá, onde o amado planta sonhos que florescerão no tempo certo
Há um mar profundo, além do mar no desatino das viagens cegas ao largo dos pesados continentes em pacíficas e ensolaradas ilhas de pureza e de segredos... Há falésias afagadas pelas ondas e murmúrios desse mar nas entranhas dos rochedos onde o que se guarda é poesia na mais pura das misturas
Há um precipício, um largo precipício na ebulição do desespero criador e nesse centro tudo brilha e tudo morre
Nilza Azzi
48
Em espelho
Desenhava teu nome a bico de pena letra por letra (na época do nanquim) e a caligrafia tinha contornos precisos como se o amor coubesse em definições
Nilza Azzi
41
Conversa com a Lua
Eu converso com a Lua, perdida a vagar no céu. Ela procura uma rua e ilumina, rompe o véu da neblina, fina ainda, e deixa passar seus raios. Essa visagem é linda! Faço os primeiros ensaios de um dueto ao luar; a lua e eu a dançar.
A luz suave acompanha os passos da minha dança e a cena à frente ganha nuances de semelhança com um quadro surreal. Ó Lua, só tu e eu sabemos o que é vagar, nessa noite sem igual. Ó Lua, a noite escondeu o que estive a procurar.
Nilza Azzi
64
Ela escrevia assim
Tenho as palavras à mão, mas não sei lidar com elas... Sem meu estro, sou apenas extravagante impressão. Num espaço sem fronteiras, abeira-me a solidão. Nestes versos me desfaço; deixo manchas no papel, mas meu céu é sempre baço. Sim, disfarço nas medidas, em loucuras, contrassenso; repenso tudo outra vez. Vou queimando as letras todas, em cortinas de fumaça e ultrapassa-me a vontade de essa verdade esconder. Toda terra tem seu sol; toda lua, a poesia, mas meu dia, sem farol, é maldade sem sentido. Corto o verbo; não olvido... Ah! Teimosa poesia vai e fala mal de mim: – Ela escrevia assim... vazia... (inocente desse amor) gastou-se, sem me esquecer.
Nilza Azzi
90
Desapontos
O ponto aponta o espanto do fim e deixa perguntas suspensas. Com o ar quente dos meus pulmões, sussurrei palavras ao teu ouvido. Quisera convencer-te de que o amor é quente, como palavras sopradas saindo de dentro da vida pulsante. Desde que o mundo era para mim pequeno, conversava com vidraças embaçadas em dias frios: talvez já sonhasse contigo... Porém, de nenhum desses trens expressos desceste ao meu encontro. Claro, certa vez houve aquele bilhete prematuro; papel amarelado que passou do tempo de um contato. Um dia acreditei que o Vento Norte era um terrível feiticeiro, capaz de levar embora o meu desejo; aquele que eu colocara em palavras desenhadas, mas ele soprou sobre o papel branco e sujou meu vestido de domingo. Desde que o mundo foi tão vasto que te levou para longe, paro no meio da chuva e na solidão do vidro embaçado do meu carro digo palavras que não podem alcançar-te.
Nilza Azzi
39
Voltas
Quanto mais, quanto menos te vejo, mais percebo a doçura que falta no meu dia, na noite, no ensejo desse olhar cuja ausência ressalta.
Quanto enlevo nos ais dos cortejos, e outros mais nas conquistas em alta. Quanto amor eu não cri benfazejo e por menos larguei sobre a pauta.
Se esta rua dirige-se ao cais, a medida dos passos que avanço não permite chegar ao seu fim.
Há tristezas que vivem em mim, sem a trégua de um mero descanso, sem um ponto de fuga, jamais.
Nilza Azzi
187
Vocabulário
A tua volta, a lua, o rio frio... O paraíso em que vivi aéreo era o Saara, o meu mundo vazio, a minha aorta, em que corre o mistério.
Não foi ciúme a causa do arrepio, ou a lembrança daquele impropério. Velho baú – o meu olhar desvio, pois um segredo é sempre um caso sério.
À crua luz do Sol, eu descaído, pela baía a praia vai deserta, uma embaúba em prata mais além...
Aos que descreem tudo é permitido perdoo então a indiferença aberta. − Um caapora me olha com desdém.