Nilza_Azzi

Nilza_Azzi

Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

n. 0000-00-00

Perfil
85 025 Visualizações

Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
Ler poema completo

Poemas

543

Última visão


Éramos dois, num dia tão distante;

um mundo em flor, as ruas do mercado!
Quem vai saber por que não fui adiante,
pois me perdi – caminho equivocado.

Éramos dois, na busca de um instante
em que um triunfo fosse declarado,
mas a vontade não é o que garante
chegarmos sempre ao mesmo resultado.

Longe daqui, montanhas do Marrocos
serão teu lar, cobrindo o horizonte,
um pôr-do-sol, a cena ali defronte?

Não sei prever se vou morrer na praia;
– órfã da luz e sem amor, sufoco ­–
o mar traz ondas brancas, num só bloco.

Nilza Azzi
156

Turbulência


Já me encontrei perdida em meio à turba.

Mal me trouxe de volta até meu canto,
já me perdi em vã tristeza e, tanto,
sem superar a dor que me perturba,

e não me vi, senão com grande espanto,
sorver da paz.  Basta que o tempo urda,
na solidão de uma esperança surda,
um mal de amor: - Dizer, eu não sei quanto!

Não sei contar sobre a descida ao poço,
mas ao puxar a corda e ver a draga
faltou vontade de beber tal água.

A grande sede, bem contida, trago-a,
enquanto aguardo e a sorte não me afaga,
não mais me perco em meio a um alvoroço.

Nilza Azzi
212

Tristeza de outono

Tarde de Outono! Tristes são os ares
que ainda não choraram minha mágoa,
inchados pela dor que não deságua,
são  nuvens por demais irregulares.
Contemplo o horizonte, essa miragem,
percebo o cintilar de algumas luzes.
– Na linha divisória, me seduzes!
As brumas com as luzes interagem.
A vida esvaziou-se nesse enlevo
e jaz numa quietude de si mesma.
A voz desse silêncio que em mim esma
reflete um sentimento tão primevo.

O homem quer o que há de mais escasso
– prefere a flor que nasce no penhasco.

Nilza Azzi
43

Transição


Um anjo, uma mulher, bateu à minha porta,

com flores nos cabelos e uma forma alada.
Quisera que ficasse (o tempo não importa)
e uma tarde qualquer, me desse a mão e nada

pudesse coibir que a trilha, embora torta,
surgisse à frente firme, em luz clara e dourada.
Na sua companhia, o amor sempre conforta
e a tepidez do abraço anula a madrugada.

Mas nunca coube a mim, ditar-lhe: “- Agora escolha!”
Apenas quis fruir do canto, um certo gozo,
enquanto perdurou, a ligação fatal.

Não posso reclamar, pois nunca me fez mal,
porém partiu, deixou-me em círculo vicioso,
em volta da Poesia: − a pétala e uma folha.

Nilza Azzi
191

Transformação

Um dia, eu me tornei a água que bebias
e pratiquei ser fonte, a saciar-te, pura;
em torno da nascente, apenas alegrias:
− a festa do querer é bela, enquanto dura.

Um dia, apenas um, eu fui a criatura
que, em mera repressão, negou-te o que sorvias
e, sim, a vida é má, é fato que se apura,
porque a dor preenche a luz e são vadias

as formas do prazer: − amores são volúveis...
Sofro. Não posso mais querer-te sem regresso,
fugiu a minha fé na nossa intimidade,

porém é fato, é certo, a dor intensa invade
meu ser que te deseja, em nível que não meço;
nem sempre são na água, os nossos ais, solúveis.

Nilza Azzi
40

Terror augusto


Eu vi a face de um país de horror,

feito de dor e sofrimento atrozes
e do lamento de infinitas vozes;
mundo de fogo e fel – assustador.

Vi na aparência estranha dos algozes,
nos olhos fundos do observador,
todo o castigo duro e destrutor;
restos e espectros trágicos, ferozes.

E foi o mal de ver, feito uma espada,
cortando a minha carne, até que nada,
em mim, não fosse chaga ou louco espanto;

como saber que a vida dói, mas tanto
que o fato de morrer me fosse apenas
um descansar do horror e dessas cenas.

Nilza Azzi

 

140

Tormenta


A chuva cai batida, enquanto o céu desaba,

retalho e mais retalho, em sua cor cinzenta,
porém cada pedaço ainda traz de  sobra,
um cinza mais escuro, além do que se aguenta.

Por sobre a terra escorre a chuva que soçobra,
em forma de enxurrada, escura e bem barrenta.
O que mandou ao céu, de volta, a terra cobra
e atrai aos seus lençóis os restos da tormenta.

Depois, tudo sossega e o céu pede uma trégua;
cansados do trabalho, o raio e seu clarão,
relâmpago e trovão descansam da folia,

tudo parece calmo, além, por muitas léguas.
Há uma pausa, um suspense e – de repente, então –
a chuva recomeça a chover, como havia...

Nilza Azzi
194

Momentos


A tarde traz um céu de brilhos brancos,

varando o azul, produto da ilusão...
O frio é seco, a vida segue aos trancos
e as andorinhas rumo ao norte, vão.

Tão simples os sorrisos, quanto francos,
vou devagar, escolho a contramão;
já despenquei ladeiras e barrancos,
mas não me decidi por sim ou não...

Se o coração ainda tem perguntas,
descubro que respostas nascem juntas
e tudo se embaralha no horizonte.

Se o Sol já não se põe atrás de um monte,
em morte lenta, atrás dos prédios arde,
bem no momento exato, e nunca tarde.

Nilza Azzi
185

Taças


A taça em que borbulha um claro vinho – e leve –

aquele em que bebeste as seivas de um afeto,
transpira em névoa branca, o excesso, mas não deve
perder de sua essência, o olor de que é repleto.

Passou aquele instante, a febre intensa e breve
e em luta contra tudo, estranho a tal projeto,
juntaste  amor e dor nas páginas que escreves,
fingindo indiferença, o escudo predileto.

A taça que versou o vinho sobre a blusa,
que umedeceu o colo e pôs a desmaiar,
a jovem que cruzou o teu olhar, confusa,

conserva por inteiro as curvas de teu sonho,
retém no seu cristal um brilho de luar,
reflete na memória um souvenir risonho.

Nilza Azzi
165

Avença


Habita uma certeza, escancarada, intensa,
anzóis causam rubor –despenca a água – tingem
cascatas e explosão. No lago nada a virgem,
a flor, a pena, a encrenca, até que a mágoa vença

e o cálice repleto, a luz alada, a origem,
destruam de uma vez diques e frágua. Avença...
E o mar mais interior a gruta invada, extensa,
a praia sem calor onde deságua e cingem

em seixos, branca espuma ao derredor, na orla.
Presente ao longe a voz de uma sereia, imanta,
preenche o mar, o céu, de novo espanto. Crasso!

Informe, a ilusão se crê melhor no espaço,
infâmia que penetra e que permeia tanta
descrença de entender esse meu canto: – Borla!

Nilza Azzi
200

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!