Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
À tarde, quando o Outono bate à porta e o vento sopra baixo, agita as folhas, se vens falar de amor, a mim não tolhas, nem faças dessa via a rua tort na qual eu vá seguir sem ter perdão. Onas vestes mais charmosas, ou nos mantos que aquecem corpos... Quero a ti, então, a fonte mais real que traz prazer à vida interna, ao mundo azul do centro, às formas tão intensas, quando adentro a inércia frágil, própria a todo ser.
Mas, caro, não me beije à luz de velas, Se o nosso amor, de fato, tu não selas...
Nilza Azzi
59
Seca
A tarde chega ao fim; uma cigarra canta. O vento leste traz no sopro alguma ajuda, refresca esse calor, mas quase nada muda, em relação ao mal estanque na garganta.
Choveu a tarde inteira; a chuva foi miúda. As folhas derrubou em quantidade – e tanta! Uma sibipiruna inteira está desnuda, pois vai vestir a cor dourada que ataranta.
Enquanto não vem água, as plantas, por seu lado, como último recurso e apelo por socorro, exibem sem pudor um luxo desvairado:
são flores a explodir o colorido em jorros – um meio de angariar olhares e cuidados – na calma do jardim, por tudo que percorro.
Nilza Azzi
48
Salto
A centelha que ilumina a cada um de nós e impulsiona com firmeza a nossa evolução, encaminha a nossa mente além do eu e, então, nos ajuda a superar a dor de sermos sós.
É difícil de entender, pois de outra dimensão, veio a Mônada habitar o ser profano e após completar a experiência e desfazer os nós que vieram do passado – e aqui e agora estão –
poderá tirar proveito do que aconteceu, (as lições que necessita) até que o apogeu desta lida lhe permita alçar-se a grau mais alto.
E da luz que ela concentra, aumenta e perpetua, faz surgir o entendimento e abraça como sua a missão de mergulhar no vácuo desse salto.
Nilza Azzi
158
Salicastru
O mar está quieto, a praia curva sobre si mesma o arco em que se fez. A onda apenas rola e assim não turva a limpidez da água... A uma só vez
pousam na espuma garças e gaivotas. A tarde, que desenha a bruma escura, carrega desventuras, mas não notas a força do desejo, ó criatura!
Perseguem teus anseios céu e mata, sinais dissimulados nas vertentes; um simples sussurrar inconsequente.
Quem pisa na armadilha, o nó desata e sofre, quanto mais ali esperneia, e morre, sem sequer tocar a areia.
Nilza Azzi
193
Sal da terra
Ora! Deixem que brilhem as estrelas, a respingar o espaço de incertezas! Meus pobres olhos brilham só por vê-las, porque sou só, sem forças, indefesa. Se fosse a luz do olhar qualquer farol e houvesse um porto em mim onde atracasse um barco e, então, um só raio de sol pudesse iluminar a minha face, quem sabe fosse aquilo uma esperança de ser a solidão coisa banal, e a lágrima − essa gota que se lança a fim de revelar todo seu sal,
em brilhos de cristal a céu aberto − a luz do olhar de Deus, quiçá mais perto.
Nilza Azzi
156
Sal
Um dia, ela soprou ao meu ouvido segredos, que guardara com cuidado, de quem cura um tesouro que é sagrado e traz em si cantares escondidos.
Parou, por algum tempo, lado a lado, comigo, mas, depois, ah, que perigo, largou-me só. Confesso: — Não consigo livrar-me desse laço bem atado.
Procuro a bela dama em todo canto, sonhando que me queira um outro tanto e volte a estar comigo (eu bem queria!).
Porém no meu dizer, viva a poesia, presença e atração tão natural, que põe na minha vida o doce e o sal.
Nilza Azzi
43
Critério
A minha mente anda confusa e vaga, perdeu o siso, o pouco que ainda tinha... E assim deixou-me a murmurar sozinha, Linguagem muda – parece uma praga.
Por ter causado esta tristeza minha, do pensamento, um fato não se apaga; indiferente aos rumos desta saga, meu bem-estar despreza e espezinha.
Já o coração precisa de uma voz, pois quer contar do seu estado aéreo, o descompasso, o sobressalto atroz,
mas não consegue agir e ter critério. Se sofre mais que a mente, e sofre a sós, é porque sabe que és um caso sério.
Nilza Azzi
200
Ribalta
Pobre a alma que vagueia sem roteiro, sem parceiro para ser seu ombro amigo, traz consigo a solidão mais descabida e duvida das trapaças do destino...
Os fantasmas vislumbrados vão velozes; não há vozes que lhe sejam familiares e os pesares, que carrega sobre os ombros, são assombros já sem peso, são deslizes.
Não me avise destas ruas sem saída, nem tolhida, seja a escolha que professo, pois o excesso de opressão deixou-me louco!
Faço pouco, mas coloco o ser completo, no trajeto por cumprir que ainda me falta e a ribalta exibe um drama triste e nobre.
Nilza Azzi
20
Revendo as açucenas
Já não semeio flores nos canteiros de rosas, ao raiar das madrugadas; procuro por caminhos verdadeiros e terras com visão mais elevada.
Se a luta recrudesce nos primeiros; os últimos verão a derrocada, a quebra dos esforços verdadeiros e a honra que perece, como um nada.
Nas palmas e nos lírios... quanta glória nos campos, em que crescem espontâneos, e o branco sem pudor dessas camélias.
Descubro que a esperança já está velha e tenta superar os desenganos; remonta à decisão, já peremptória.
Nilza Azzi
35
Revelação
O que me dói mais fundo, com certeza, no mundo da incerteza dos sentidos, saber que a fome não faz gentileza e torna a todos mais embrutecidos.
O que machuca a alma como um cravo e escravo dos sentidos torna o corpo, saber que incerto do saber que travo, por certo deixarei o mundo, morto.
O que em vão desespera a má virtude, um fato mais que certo, é a maldade que atua devagar, mas tudo invade.
E nunca tenha eu cá convicções, ao crer que em toda vida há finitude. Que a cada decisão, decerto, eu mude.