Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
No descampado extenso e verdejante, uma donzela segue rumo à fonte. Vai a buscar a água que sacia, um passo imemorial, usado antes. Vem, no sentido oposto, um viajante, embaralhando as linhas do destino e, no transverso cruza os passos dela, sobre a relva marcada do caminho. Trás os vergéis anônimos, os montes, sobra do outro lado um oceano. Dele, num dia antigo, a vida veio: a Providência a fez tão colorida!
Passagem, já sem as marcas do começo: – O céu, esse mar virado pelo avesso!
Nilza Azzi
28
Partenogênese
Se dividisse ao meio o dom que te alimenta, multiplicado assim, por divisão aos pares, serias sabedor das artes do gameta; farias destes céus espaços populares.
Se grávida da voz, a estrela se arrebenta e traz o mundo à luz, ferida em mil esgares, a cria então vingou da sedução sedenta: — E tu não sujarás o chão onde pisares ...
Derrete-se o metal no caldeirão de Hades e, dele, o que se faz é obra de Vulcano, o criador do raio, estrondo sobre-humano.
Na conta de tirar, alteram-se as vontades, e o gozo mais cruel, no sonho ele se frustra: — O filho da uma deusa, a revelar-se um lustra.
Nilza Azzi
157
Passado
Debrucei-me sobre as minhas incertezas, todas presas por um fio, meio suspensas, como contas de um colar, as minhas crenças, a vacilar labaredas mal acesas...
Depois me ergui, enfrentando indiferenças, sem entender bem o vão das sutilezas... Guardei num susto as palavras todas presas e desdenhei de aventuras mais intensas.
Enfim parti à procura de outros ares, para enfrentar a pressão que a tudo abarca, além da dor, sem sinais particulares...
Atrás de mim, não imprimo qualquer marca, jamais espero que um dia tu me ampares, nessa esperança, minh’alma não embarca.
Nilza Azzi
27
Paralaxe hipotética
Adeus soneto! Vai comigo uma saudade. Eu, de partida, já nem sei o que dizer, enquanto espero o alvará de liberdade desta prisão, onde me vi a florescer.
Como um amante que não dura eternamente, porém nos dá grandes momentos de prazer, provaste ser um companheiro bem ardente − nos leva ao êxtase, a loucura de escrever.
As minhas rimas já se vão empobrecendo, minguam reservas de figuras de sintaxe. Vocabulário? Esgotei o cabedal!
Sobre medidas, as noções ando perdendo, pouco me ajuda recorrer à paralaxe... Guarda em teu eixo, o meu adeus sentimental.
Nilza Azzi
197
Pacto
Eu te amei, num vazio inexistente, amei a folha em branco, que encontrei. Amei como uma puta ao seu cliente, sem medo de ferir nenhuma lei.
E sei que procurei ser eficiente, nas formas desse amar. Eu me apliquei! E, sob aquele foco e aquela lente, nos palcos do meu leito, foste rei.
Ah! Vozes desta parca lucidez, o confronto titânico das eras reduz a nada, a escolha que se fez.
Despojos pelo campo das quimeras indicam que se foram de uma vez, as pautas, que a seu tempo, eram sinceras.
Nilza Azzi
Nilza Azzi
52
Tudo é festa!
Fiz um corte moderno no cabelo, pintei as minhas unhas de vermelho; descolei novo jeans, com muito zelo, – mas foi da vendedora, o bom conselho.
No meu look, ninguém mete o bedelho, a não ser que lhe doa o cotovelo; não me imputem loucura ou destrambelho, pois a data merece esse desvelo...
A ouvir 'We are young', o som bem alto, lá fui eu, meu 'arango' pelo asfalto, bem feliz, a curtir o novo lance,
os óculos de sol, os bem da hora. Hoje é dia de rock, então, agora, escolho um 'funk' e canto 'Alors on danse'!
Nilza Azzi
75
Ouve-me a voz
És a cor do meu céu, és certeza de luz, teu olhar me seduz, sobre mim verte a paz, mas sou contradição, nesse olhar foi que pus esperança e paixão; esse é o bem que ele traz.
Sobre mim cai um véu, uma esfera que aduz, esse sonho compus de certezas capaz... Quero o afeto, pois não, a que bem faço jus, mas que, sem mais razão, se me escapa, aliás.
Entre o mal e o bem, eis que sofro por ti e não posso querer que me entendas porque, se uma dor tão atroz não me deixa, eu aqui
compreendo o poder dessa força cruel. Então ouve-me a voz, leia o que não se lê, pois escuro se faz, de ora em diante, o meu céu...
Nilza Azzi
168
Ouro dos tolos
Notar as ilusões, apenas destrutivas, e nas feridas dor, sentir, pungente, atroz, mas não perder a vez, seguir sozinho após já não ter voz ativa, enquanto apenas vivas...
Fugir do sofrimento e derrotar o algoz; o lume é traiçoeiro e assim, manter vigília, na trilha enevoada em que, ao longe, brilha a nova realidade, além, das almas sós.
E não foi diferente, outrora tu sonhavas... Se davas ao teu sonho, espaço pra ser forte, (tolices de quem ama e tem a alma pura)
é força que ele usava, ao socorrer as bravas batalhas em que a vida, em dívida co’a morte, deixava um gosto amargo, em uma noite escura.
Nilza Azzi
44
Os pastores
Ia o velho pastor por uma estrada, no rumo sem razão do seu caminho. Esquecera da ovelha desgarrada: − O rebanho, um detalhe comezinho.
E pelos vales, pelos montes, nada podia desviá-lo... Ele, sozinho, olhava a vastidão desamparada, sem chances de voltar ao velho ninho.
No rumo oposto vinha uma pastora, de uma simplicidade sedutora, um toque de poesia ao seu redor...
Se cada qual a própria cruz levava, a força que os sustinha, embora brava, não fez de sua vida algo melhor.
Nilza Azzi
54
Os olhos de Ester
Se nos olhos de Ester há uma falsa consciência e se o bardo não pensa as verdades que expressa, nessa praça mais ampla, as fragrâncias intensas, já floresce o jasmim, perfumando a travessa.
Se no seio de Ester não se encontra a licença para seu puro afeto e se a jovem não cessa de dizer que não quer nada que lhe pertença... Oh! Que pobre ele é! Oh! Que triste promessa!
Se não cabe a José a esperança, sequer, de encontrar nesse amor um lampejo que seja de cumprir seu destino e levá-la á igreja...
Oh! Que pobre ele é! Oh! Que ingrata mulher! Pois os olhos de Ester não refletem, José, esse enlevo total. É melhor 'dar no pé'...