Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Um espaço sagrado, uma esfera privada, não é grupo qualquer, é coeso, é unido. E não há nada igual, é vital seu sentido, é o motivo de tudo, é a mais bela florada.
Se, por vezes, se encontra, esse elo perdido, e se existe uma angústia, uma dor abafada, o que une essa massa está lá, na fornada, e não cabe a cisão, isso não faz sentido.
É uma força tão forte, é assim que defino a matriz que nos traz, à nossa humanidade, a melhor opção ao mútuo crescimento.
Família é essencial ao ser de amor sedento, ao núcleo mais interno, à nossa alma e há de valer-me à solidão, encher de luz meu imo.
Nilza Azzi
46
Opacidade
Qual mariposas, que atraídas pela luz, largam no ar o pó dourado de suas asas, vencer a inércia neste jogo me reduz à forma frágil dessa névoa em que me atrasas,
à fina areia onde escorrem águas rasas.. E se esse brilho de teus olhos não conduz todo meu ser a consumir-se feito brasas, isso é porque, ao teu calor, não faço jus.
Porque tu és forte para mim que tanto quis desses amores que permitem evitar o que é banal, que é rotineiro, que é vulgar.
Mas tua força é incapaz da suavidade que reconhece o potencial de uma mulher ainda inocente, mas que entende do que quer.
Nilza Azzi
37
Olhares
Não há olhar sem luz, por ela sempre externo a forma da visão e de encarar o mundo. O belo nos seduz, contudo o mais fecundo contato é emoção; contempla o mais fraterno.
A imagem que reluz, se esvai, dura um segundo; as mais opacas são lembranças de um inverno. Se um feixe nos conduz, do raio que governo pesquiso de antemão e cores não confundo.
Fitar eu sempre quis, com olhos bem brilhantes, o amor sem nem cuidar que fosse sobranceiro; apenas ser feliz, sem freios de um roteiro.
Guardei no meu olhar a luz da liberdade; mortal jamais prediz o que virá adiante. inútil foi sondar; te foste num instante.
Nilza Azzi
207
Oh, Minas Gerais
Mas que saudade das tardes de Minas, do céu vermelho, no horizonte aberto, da capital traçada (tudo perto!) naquelas ruas de grandes esquinas.
Não sei porque, aqui neste deserto, abençoado por garoas finas, quando contemplo as mais verdes campinas, vem-me à lembrança o teu relevo incerto...
Ondulações de verde aveludado, ficando azuis, nos longes do céu vário, ali onde o Sol termina o itinerário
e o que era hoje já virou passado. Daquele jeito bom de ser mineiro, sinto saudade e não sou o primeiro.
Nilza Azzi
85
O louco
O louco é a primeira carta do tarô;
também a última e a mais instigante...
Ia pela rua, um pobre homem só, levava numa vara o saco do destino, amarrado em trouxa, um saco pequenino, enfrentando o mundo, louco de dar dó.
Junto ao precipício, com seu violino, enviava ao vento o mi, o fá e o dó... Tinha no chapéu, a pena carijó e mirava o alto, todo o céu divino.
Não sabia o medo, nessa vã loucura, entregava ao caos, o peso do seu fardo e se despejava num vazio imenso.
Tinha na lembrança, à guisa de consenso, vagas impressões do doce mais amargo, que jamais provara, em sua desventura...
Nilza Azzi
209
O impossível nós
Quando contempla a sucessão dos dias, esse rosário de infinitas contas, que lhe escorregam pelas mãos vazias, por dedos pasmos, ante as horas tontas,
guarda a tristeza das ave-marias, das ilusões e das certezas prontas... Se redescobre o amor e as fantasias, como afastar as dúvidas e afrontas?
Livra ao silêncio um grito sufocado, de extrema rebelião, pelo pecado de amar assim a quem amar não deve.
Mas o inimigo é sempre mais feroz, tempo suspenso que lhe cala a voz, pelo impossível desse sonho breve.
Nilza Azzi
804
O eterno tema
Era você num raio de luar, no brilho vacilante de uma estrela; era você, mas não podia vê-la na inútil transparência navegar.
Como a centelha a mergulhar no mar, sim, era ele e o medo de perdê-la na substância da neblina e pela insensatez de quem não sabe amar.
A impermanência de uma nuvem torta, desfeita pelo vento, desconforta o olhar que não entende essa paisagem.
As lentes mal focadas não reagem ao mundo da ilusão e dos mistérios, à fonte dos desejos deletérios.
Nilza Azzi
18
O choro do céu
Se eu permitisse à chuva que chorava por sobre a terra a dor do céu ferido e percebesse haver algum sentido na solidão – e fosse eu mais brava
e enfrentasse a fera – se movido por minha dor, o céu soltasse a trava e desse a mim aquilo que negava e descobrisse um mundo colorido,
se dessa luz, apenas uma gota um pouco de alegria respingasse sobre o tecido desta vida rota,
que outra impressão poria sobre a face! O temporal, a fúria, a voz marota traz mais perigo, quanto mais não passe.
Nilza Azzi
105
Sublime amor
Sublime amor, perfeito amor, garanto, desde que um dia tudo teve fim, deixo a distância habitar em mim – aumento assim a saga deste canto! Se toda estrela brilha e nisso insiste e perambula espaço afora, bela, ao cintilar ante o semblante triste, o pranto eterno deste vate, sela. Como um planeta a perseguir o sol, gira imantado, um mero seguidor, desde os primeiros raios do arrebol, bebo das luzes deste antigo amor.
Num mar de estrelas, célere, disperso Migalha e areia, trastes do meu verso.
Nilza Azzi
186
Enciclia
Nas tardes que se perdem, vãs as horas, enquanto a noite ainda é limite, o ar carrega as vozes mais sonoras e o som jamais revela o que admite.
Pessoas são abelhas, um convite, trazer pra si regalos, o que adoras. Viver maior prazer, o amor permite sonhar ainda bem longe tais auroras.
Porém a tarde acaba, a noite avança, escorre pelas mãos outra esperança, sabendo que a manhã, a luz estraga,
mostrando a realidade a mesma praga. No ciclo, uma outra tarde escoa lenta e crua, a solidão prossegue, aumenta.