Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Oh, amor entre os amores quem me dera não pensasse não tivesse à frente as dores, esperanças ou vontades, tristezas, longas saudades... Quem me dera, nessas tardes meio longas, meio frias não sentisse solidão, nem tivesse as mãos vazias, em gestos vagos ao ar, quem me dera não chorar.
Oh, amor entre essas flores coloridas pelos campos, à noite esses pirilampos, no dia o calor do sol não encontro distração. Quem me dera, doce amor doce encanto, minha luz, não sentisse a solidão nem sentisse tua ausência, em meu olhar vago ao longe, nos vazios do lugar.
Nilza Azzi
32
Honey
Carrega o odor das pétalas das rosas, raro perfume que este vento trouxe. É tão suave e doce, doce, doce, quanto o desejo das horas ditosas.
Se um pedaço do céu, decerto fosse e fosse a cor da íris mais formosa, ainda assim, daria vez à glosa, posto que essa doçura pressupôs-se.
Na calma, às vezes, que um amor tempera, no mais profundo encanto da querença, tudo acontece em doce plenitude.
Quanto à certeza, tê-la nunca pude, mas se há doçura tal que me pertença, tenho-a na luz dourada das quimeras.
Nilza Azzi
159
Formas
Nuvem que vaga pelo céu distante, sonho de chuva de um grão diminuto, meio dormente, à beira do levante: – nova esperança traz como atributo.
Que escalde a terra, o fogo crepitante e de algum modo, num saber arguto, rompa-se a casca, surja logo adiante... Dos muitos brotos, logo venham frutos,
em messe farta, a revelar da vida, a breve essência, a história resumida, o desdobrar da eterna trajetória,
do ciclo efêmero do ser humano... E sobre as graças, nesse chão profano, vale lembrar que a forma é transitória.
Nilza Azzi
179
Flor-de-são-joão
A flor-de-são-joão, brilho laranja, floresce neste inverno em plenitude; a cor inflama o campo e ainda esbanja perfume que suaviza o entorno rude.
Espalha-se o cipó como uma franja, nas copas, colorindo as altitudes, ou é pelas encostas que se arranja, surgindo na paisagem, amiúde.
Atrai muitos insetos – as abelhas adentram as corolas mais vermelhas zunindo a sinfonia, tantas asas...
As flores reunidas lembram brasas: – aquelas que rebrilham na fogueira e o vento faz corar a noite inteira.
Nilza Azzi
191
Flores da época
O manacá-da-serra enlouqueceu, liquida tudo, vai trocar o estoque; libera a floração num jubileu e deixa a serra linda, sem retoque.
E tantas outras surgem a reboque; no verde deste outono, a cor venceu e a luz que reverbera tem teu toque, nas cores da ilusão, ó meu Romeu.
O custo é uma pechincha, é quase nada o entorno da paisagem adornada atrai a atenção. A tarde desce...
Ponteia a quaresmeira o verde escuro, a serra do Japi é quase um muro e escrevo num papel a minha prece.
Nilza Azzi
189
Finais
Tarde cinzenta de um domingo triste, é bem outono e o mundo, descompasso entre o querer e o que de fato existe, entre o que sonho... e o que de fato, faço.
Tarde cinzenta guarda meu cansaço, por enfrentar, desse inimigo, o chiste e padecer o gosto do fracasso: – Ponto final a que me conduziste.
O céu pesado esconde a velha cor, traz ao meu mundo o peso da opressão e o coração sufoca por ser só...
Saber... Querer... Poder... Eis o meu nó! Fruir... Sentir... Parir... Sempre se dão! – Quisera ter mais sonho e mais amor!
Nilza Azzi
172
Ferida
Quando acordei meu sonho estava ali, com ele um velho amor que revivi. Quimeras vezes doces, vezes puras, rascunhos de futuras desventuras.
Carrego um sofrimento, não por ti, mas pela reclusão... Não consegui sair do pesadelo. As leis são duras! — Têm garras, vêm ferir as criaturas...
Há muito já esqueci qualquer sorriso, de abraços e carinhos nem preciso. Sentir calor e força é o que conforta,
mas, à felicidade, eu abro a porta, permito que se vá. Eis-me vencida! ― Real é a crueldade da ferida.
Nilza Azzi
45
Solução de continuidade
Caiu no chão, espatifou de vez, fez-se em mil cacos, nada sobrou dela; foram-se as flores da blusa amarela, foi-se o colar de contas, sem porquês.
Nem mesmo houve um óleo-sobre-tela que eternizasse a face dessa Inês... Qualquer olhar, senhor de lucidez, perceberia que morta ela era.
E, uma vez morta, Inês, mais nada havia da tal boneca que ela fora um dia e, como tal, brinquedo e nada mais.
Um acidente... tudo se desfaz... e a vida segue como sempre foi − primeiro o carro e depois os bois.
Nilza Azzi
62
Galáctica
Meu namorado colhe estrelas, tece os ramos que me oferece, azuis clarinhos, cintilantes... Dispõe tapetes só de flores onde estamos, onde sorvemos luz e amor, a cada instante. Sua presença traz ao mundo a cor dourada, faz coração vibrar num sentimento puro. Se junto dele vou além, sou mais amada, ele é presente, ele é passado, ele é futuro. Meu namorado põe a luz no meu olhar e o mundo faz girar veloz à minha volta. Com devoção conduz minh’alma a apreciar a imensidão... Tal qual um raio, ela se solta
dessa prisão e, sem temer mais coisa alguma, desfruta o sonho e mil venturas, uma a uma.
Nilza Azzi
177
Um cheiro de excitação
O teu beijo tem o gosto da água fresca e o teu cheiro vem cheio de feromônios, quais pequeninos demônios que chegam e incendeiam meus sentidos. Sou mais que ouvidos e olfato, sou um rio com seus fluídos... O teu cheiro me entontece me embriaga e me fascina. É química que alucina, o teu perfume que vem pelos poros: não é água de colônia, nem loção após o banho, não é ganho artificial. É teu odor natural embebido de desejo, que eu farejo nos tecidos, na toalha, na extensão da tua pele, no teu corpo por inteiro.