Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Neste céu sem estrelas da cidade, quando o manto noturno se entristece e no azul não mais cabe a menor prece, a tristeza me assombra e mais me invade.
Tudo é como se aqui já não houvesse um sinal de amplidão, de liberdade, e nos fosse negado essa benesse, de espantar uma dor que não se evade.
E sem ter o que olhar, o que colher; esperanças de mundos infinitos, perco em minha garganta qualquer grito.
É um peso, um ensaio de morrer, uma angústia que cala em minha boca, quando a noite me deixa meio louca.
Nilza Azzi
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Sem medidas
Ah, se eu tivesse, em vez dessa certeza um desquerer qualquer que me valesse, razão que não me fosse igual, nem esse, um vasto amor, com fúria que se apresa.
Mar revoltado, em ondas revertesse, em luz que se dá brilho, antes de acesa, em chama que nos arde a natureza e a força que nos mora fosse haver-se...
E o mar engole e cospe − é ou não é o mundo de nós mesmos feito avesso, de um outro que nos vive, por tão forte.
Se é, se pode alguém manter a fé, por mim já está tão certo, ou estremeço, só de pensar que amor desvale o norte.
Nilza Azzi
218
Desgaste
Perder-te trouxe a dor que ainda me pega, no meio desta angústia tola e cega. Foi como aquela tela que se apaga: o filme terminou e morre a vaga.
A dor nos faz crescer, alguém alega, mas choro sempre foi demais piegas. O risco, conferido pela adaga, traduz – aqui se faz, aqui se paga...
Na testa permanece aquela ruga, a lágrima escapou, um lenço enxuga, murmuro minha prece – quieta – rogo.
O corpo, então, contrito feito viga, prossigo, cônscia – sei que ninguém liga – e a fome de viver me assalta logo.
Nilza Azzi
28
Depois do carnaval
Tirei uma tampinha do meu dedo, ele sangrou e não parava mais... O mundo entonteceu, ficou azedo, mas recebi socorro de um rapaz.
Olhei pro sangue e senti tanto medo, que aquelas gotas me fossem mortais e, assim, da terra, fosse eu tão cedo. – Alguém iria aos meus funerais?
Mas minha alma não fugiu em gotas, o esvair-se não aconteceu – esse meu medo estúpido, ancestral .
O esparadrapo, com as bordas rotas, esconde o corte que o dedo sofreu: só vou olhar depois do carnaval...
Nilza Azzi
209
Dança
A lua brilha cheia e assim me acorda e faz dançarem sombras no meu quarto, e vara as venezianas pela borda: – com ela, meu sonhar, então reparto.
Disperso o indesejável dessa horda, enquanto os anjos, num sorriso farto, ajudam-me a escolher o que descarto, e brincam ao luar que ali transborda.
E quando as sombras dançam na parede, minh'alma me confessa que tem sede de tudo que de ti não sabe ainda...
O amor é sentimento que não finda, profundo como a noite em que, sozinha, entre essas sombras, só encontro a minha.
Nilza Azzi
44
Cultivares
Quando, da sutilíssima assertiva, os raios espalhados forem claros e assim da nossa alma o desamparo, menor, após a luz que a faz mais viva.
Quando for revelado o fato raro de que a fé traz a força conclusiva e assim, já não houver a recidiva do mal, porque deixou de ter amparo.
Talvez, ao ver a linha, o homem cruze-a e chegue a conhecer outras paragens, cultive um bom jardim e, com cuidado,
prepare o coração para a parúsia. Talvez reaja à luz... Assim reagem, os girassóis, num campo cultivado.
Nilza Azzi
55
Cruela
Assim ao acaso, pousei noutros ninhos, esperto chupim, deles fiz o meu lar. Criei meus filhotes, sem nenhum trabalho; quebrei o meu galho, fiz crescer a prole.
Não é nada mole criar filho alheio, mas nunca receio e consigo meu tento. E vão meus rebentos crescendo saudáveis, sou sábia coruja; olho os meus filhotinhos...
Nasci passarinho, mas vivo folgada e até dou risada do tal tico-tico, pois o pobrezinho tem parca visão.
Seu bom coração me socorre no apuro, mantendo seguro meu ovo estrangeiro, que marca presença nesse ninho raso.
Nilza Azzi
62
Conotações
Essa palavra fácil, sempre astuta, que não posso deter no meu palato, fala por mim, porém nunca me escuta; essa palavra, com seu ar barato,
com seus vícios, desvios de conduta, a enorme força nela, eu desacato. Que venha a mim na arena, absoluta, para saber quem vai vencer, de fato.
Hei de arrancar-lhe máscaras e vestes, hei de deixá-la nua, hei de expô-la, para que nunca mais me faça tola...
Hei de entregá-la às órbitas celestes e quando enfim tornar a encontrá-la, que ela me seja clara em qualquer fala.
Nilza Azzi
188
Na vã desilusão
Na vã desilusão, na dura pena, o mundo nem me acena e a dor invade o vão onde me escondo, onde se encena... Num palco sem plateia, sou metade.
Perfeita ribanceira: – Eis a falena! Crimeia, onde ficaste? Qual maldade disfarça o torpe mal, em luz serena; subir nesse telhado, pois, quem há de?
Noviça em corredores estendidos, caminha e vai deixando seus ruídos, manchando esse silêncio necessário.
Partículas ou ondas, corolário... A vida e as alternâncias! Vá! Encare-o! – É seu fantasma! E o medo, assim, serena.
Nilza Azzi
45
Clímax
Como se, em mim, já não coubesse mais, de bem querer, pedaço mais nenhum e o coração guardasse desiguais um eu e um outro, em formas incomuns,
ressinto assim que, às vezes, é demais o tanto amar... E busco algum jejum, para encontrar do amor alguma paz, sem anular meu ser, de jeito algum...
Mas é na calma que me explode a falta e já não sei além de mim, além do meu sentir, o espaço que detém
nessa minh’alma, a estima tão em alta, sem que me importe a justa sobra em mim e que me acabe justo nesse fim...