Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
O vento sopra baixo e faz tremer as folhas, o tempo está suspenso e aponta a transição, a luz também declina, as horas lentas vão... Procuro o teu afeto. Espero que me acolhas.
A tarde é morna, o Sol sumiu naquele vão, o vento sopra o céu, as nuvens formam bolhas e logo mais o quarto enluará e, então, meu canto largo ao vento. Espero que o recolhas.
Mas não, não quero isso, a Lua me aconselha a contemplar no céu a estrela mais vermelha, a entender que o sonho é construído assim,
na pretensão rasteira e o meu repúdio à guerra, porque, se a solidão, qualquer mortal desterra, jamais aceito a posse — é força estranha a mim!
Nilza Azzi
48
Projeção
Se um dia fores só e eu for só, logo nós que fomos sós a vida inteira, uniremos tristezas em fileiras e a saudade não será mais tão atroz.
Se um dia, deste mundo, o desencanto, de tão velho, não roubar a nossa fé e essa vida, tão antiga como é, não trouxer o sofrer que abate tanto...
Nossos passos, seguindo a mesma estrada, da poesia e das almas inquietas, deixarão pelo pó as mesmas setas rumo ao sonho, onde não nos falta nada.
Nosso olhar, procurando um bem futuro, bem na linha em que o céu encontra o mar, não terá outro bem para espalhar, a não ser um poema extremo e puro.
Nilza Azzi
167
Rescaldo
As palavras, que riscam meu tormento estranho, não falam mais de mim que um sorriso torto... Sem mais expressar que um verbo tacanho, deixo a ilusão de um poeta morto. Desde aquela aurora não me sobra ganho, embora não me culpe estou longe do porto. Mar de tristezas? Algo sem tamanho, inútil buscar de um leve conforto...
Houvera uma verdade e a alma a saberia? Ou mesmo uma certeza, além da morte, mera ruptura com o elo inútil da quimera?
Restou da tua voz, o som daquele dia... Pertence ao chão o fato, ao céu, o voo livre. Perdeu-se a minha espera no filho que não tive.
Nilza Azzi
31
Embrulho
Coloco meu segredo numa caixa, embrulho com papel lindo, floral. Escondo num armário – ninguém acha – e vou tomar um ar noutro local.
Ocorre que a velhice me despacha o senso... esqueço tudo... esse é meu mal. A minha lucidez está em baixa, periga de alcançar mais alto grau.
Assim, ninguém, jamais, vai descobrir o embrulho em que decerto estou metida, segredo bem guardado e esquecido.
Estranho... nunca tive um apelido e o nome, recebido nesta vida, será pouco lembrado no porvir.
Nilza Azzi
186
Ciúme
Quando afastou também a última certeza e descobriu do amor, que não sabia nada, sem calço na ilusão da mente atordoada, cedeu ao coração, sem forças, indefesa.
Porém para sentir, quem sabe, aliviada, a alma que buscava os rastros da beleza, deixou atrás de si, as gélidas pegadas e atravessou a ponte, uma esperança acesa.
Mas quando descobriu, num mundo quase escuro, a dor que vem causar a nossa estupidez, para entender um pouco acerca desse evento,
reconheceu que pode, o amor ser ciumento, pois faz crescer em nós, e toda de uma vez, a sede de sabê-lo em todo seu apuro.
Nilza Azzi
170
Visões
A borboleta que vemos entre as flores, a pousar, aqui e ali, com ar gentil, ela sói provar também de outros humores, de outro tipo menos nobre, bem mais vil.
Quando os cadáveres, meros condutores, deixam escapar o sumo que os nutriu essas rainhas, das mais diversas cores, pousam sobre a morte, bebem desse fio.
A vida lembra esse rio indiferente, cujo desejo, seguir até o mar, força um caminho, sem nunca se deter.
O rio, das águas, esquece de saber; bem como a vida, de nós, de se lembrar: ela só quer perdurar, seguir em frente.
Nilza Azzi
161
Floreta
Esse dragão que habita na saída do mundo escuro, antro de outras feras, se cospe fogo e a muitos intimida, revela antigo o seu saber, pudera!
Guarda os confins da terra mais temida, onde ninguém jamais soube quem era, – muitos quiseram ascender à vida, ao tempo curto de uma primavera.
O velho monstro, sempre avesso à luz, produz as cinzas de seu próprio leito e, nele, a sombra mais cruel reduz
à sensação de um luto insatisfeito. No campo ao lado, ao pé de velha cruz, a flor singela de um amor-perfeito.
Nilza Azzi
194
Bucólica
A sombra da mangueira compensava o peso do calor. Era agradável notar que além do voo de uma ave o céu era imutável como estava.
A luz do sol cegava de tão forte. O lago cintilava. Ao longe o gado bebia a água com algum enfado, o vento não soprava mais do Norte.
Os olhos descansavam sonolentos, nas garças brancas por ali perdidas, as formas adelgadas e compridas,
o mundo a espiar por um momento. O ronco de um trovão feriu a cena − A paz não perdurou, foi tão pequena.
Nilza Azzi
32
Borboletas
E se não mais houvesse as borboletas azuis, riscando o ar no céu de agosto? Seguidas de monarcas, por suposto, em pretas e amarelas piruetas...
Vacila o pensamento, predisposto a crer nesses ardis, fazer gazeta, deixar que a forma inerte se derreta, cair na realidade, a contragosto.
Se mesmo aquelas simples e amarelas fugissem dos recantos do jardim, teria o meu olhar, quais alegrias?
— Apenas as crisálidas vazias, a imaginar que a vida é mesmo assim, um campo de passagem, sem sequelas.
Nilza Azzi
766
Belas
E repousam em paz as belas-letras, no seu mundo quieto e sem furor, entre as sombras escusas das mutretas, que as vontades humanas vêm dispor.
Ao sabor do que a sorte lhes retira, sem o prisma mais caro ao seu valor, submetem-se ao fogo dessa pira, desprovidas de um vate protetor.
Mas se a Deusa no átrio se admira, é que tem seu olhar além do agora rechaça o insustável da mentira, que nem sempre revela onde mora.
Alma, encanto gentil, polichinelo, entre um fundo de cartas, amarelo.