Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Não foi do teu amor que eu me salvei, também não foi da pena que deixaste... O amor quando aparece quer ser lei, mas flor não se sustenta sem ter haste.
O porto dessa ilha, à qual cheguei, é abrigo que me poupa do desgaste. Aqui já não há trono nem há rei, não há qualquer corrente que me arraste.
As águas são mais calmas. Enseadas permitem desfrutar de um mar seguro, repleto de piscinas naturais.
Lembranças permanecem represadas, contidas com firmeza atrás do muro e a dor calou, à força, quaisquer ais.
Nilza Azzi
48
Banalidades
Um fantasma rondava no escuro, com seu hálito fétido, impuro. Desviei dessa sombra e me pus ao resguardo, debaixo da luz.
No momento, vencidos apuros, tenho o lápis nas mãos, bem seguro, e procuro afinal fazer jus! Aos teus pés a promessa depus:
– Editar um poema elevado, cujas rimas se põem lado a lado. Meu estilo parece propício,
mas a verve não tem tal finesse. A verdade depressa aparece: – O soneto é uma arte de ofício.
Nilza Azzi
59
Bambu
Essa forma que existe e que é de fato um ato impreciso e coerente confirma que paguei, foi bem barato o preço pela graça do presente.
O centro do episódio, esse eu relato, nas formas de um evento delinquente, chegou de mim bem perto e pago o pato, enquanto essa poeira não se assente.
Suzana abusou da confiança que nela sempre tive, e da amizade... Soprou aos quatro ventos que sou má.
Porém, não há verdade e se é que a há, na certa, nova dúvida me invade: − Bambu, se sopra o vento, ele balança?
Nilza Azzi
64
Avesso
A poesia, quando nasce, as rimas finas esparrama pelo vão das entrelinhas. A saudade já não cresce mais sozinha; pelo tempo, uma esperança descortina,
num futuro que procura, que adivinha. Ao dormir e ao despertar qualquer menina tem um sonho e um coração que não combina com o cinza do borralho da cozinha.
Quando a rama já vai longe e bem viçosa, batatinhas são colhidas com cuidado e se enxutas vão render um bom purê...
Adormece o coração e ninguém vê que o poema tem avesso, um outro lado: — certo humor que a desventura enfrenta e glosa.
Nilza Azzi
816
Ausências
Era uma vez um trem, já de partida, e a jovem que corria pra embarcar, adeus flutuando pelo ar — a lágrima escorrendo uma dor líquida.
E sempre uma estação para lembrar, um rosto, uma figura esmaecida. A força para a glória de uma vida ficara entre as paredes de outro lar.
Era uma crise fatal, sem solução — impossibilidade natural de ter o que quisera ter então...
Restava um gesto antigo contra o mal, manter sob controle o coração, que os trens chegam e partem, sempre igual.
Nilza Azzi
235
Atrás daquela nuvem
Atrás daquela nuvem vai meu sonho, tão longe quanto pode o meu afeto e deste meu amor vai tão repleto − são doces esperanças que transponho.
Se a nuvem leva o sonho que projeto, a terra me parece um céu risonho e mais e mais na luz do amor me enfronho, e assim tento alcançar-te, meu dileto.
Porém se sonho e nuvem são alados, o sonho que carrega meus cuidados não é, como essa nuvem, passageiro.
Aquilo que encontrei em ti tão forte é mais do que sonhei por minha sorte, é nuvem, sonho, céu de que me abeiro.
Nilza Azzi
42
Até
Quando eu falar de amor, não acredita em mim e as juras que eu fizer, jamais confia nelas, mas posso prometer, não restarão sequelas, se um dia esta ilusão chegar a ter um fim.
As minhas emoções tranquilas e singelas não são nada demais, são flores num jardim, bem simples e banais, as hastes de um jasmim, tecendo a sua rama, em torno da janela.
Quando eu beijar teu corpo, apenas por desejo, não crê em mim também, supondo ser afeto e então vou me curvar, serás meu predileto.
Porém se conseguir, tão claro como almejo, mostrar-te, meu amor, que não mereço fé, mais forte eu te amarei e por mais tempo, até.
Nilza Azzi
186
Apuro
Sumir-se enfim, se não existe em nós mais esperanças de seguir adiante, mas entender que, por um breve instante, de um sonho, pôde revelar-se a voz.
Seguir a luz, a esfera delirante, tocar o céu, perdê-lo logo após – reconhecer que a dor é mais veloz e a alegria, o tempo de um flagrante.
Depois saber que nada do que passa pode alterar a nossa irrelevância, ou afastar de nós a velha sina...
À ilusão, roubar-lhe a eterna graça, por relegar ao limbo, o sonho e a ânsia... Elevar a tristeza à dor mais fina.
Nilza Azzi
40
Grande amor
Amor-paixão senti pelo Diogo. Que sentimento forte, abrasador! Que me queimou inteira, como o fogo queima o papel de uma carta de amor.
Que erro mais tolo, ele era demagogo e me envolveu em erros... Sem pudor! Levou-me à farsa. Libertei-me a rogo e nunca mais, assim, quero dispor
dos meus afetos. Quero a alforria e que o Diogo tenha o que merece. Minha revolta já não se disfarça
e o meu desejo? Outro não seria − e até por isso faço a minha prece − Vê-lo penar de amor, só por pirraça.
Nilza Azzi
199
A pedra
Nas manhãs que descem pelo espaço nuas, com as vestes claras, cada dia uma, a neblina some, leve como espuma. – Na tragédia cósmica, o princípio atua.
Se nada é eterno, nada resta, em suma, tudo chega ao fim e ali se desvirtua, quanta insipidez expõe a forma crua! A verdade dói! – Dói como nenhuma...
É nos vãos da noite que o mau sonho medra. É da inquietude, feita de suspense, essa coalisão de tais palavras tolas.
Pobres das ideias, de quem ousa expô-las! Bem melhor fugir das teses em que pense essa massa inútil, próxima da pedra.