Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
É noite no deserto, a areia dorme fria, as sombras do luar escorrem pelas dunas, a brisa vai soprando os grãos em tal quantia, que a forma do lugar com nada se coaduna. A abóbada celeste é bela e contraria a enorme solidão e a sensação diurna do sol, cuja inclemência e falta de empatia são mais que uma ameaça e a vida, uma lacuna. E o vento que segreda aos grãos, em tom suave, respostas que roubou das asas de uma ave, refresca ainda mais a senda e o viajante nem chega a conceber, no entorno delirante, o quanto o tal segredo o livra do perigo e, em triste confusão, conversa, a sós, consigo.
Nilza Azzi
59
Órfã
Hoje o mundo jaz, de um modo tão pequeno, que eu me vejo só, em meu jardim secreto. Sei, de pai e mãe, o que é perder o afeto; sei o que é um adeus – quisera sofrer menos!
Herdo esta ilusão de um ninho mais seleto, pleno de prazer, tão cálido e sereno, que não sei viver distante desse reino. Faço a minha lei; governo por decreto.
Meu casulo, enfim, é o berço em que, dormente, tenho em minhas mãos o sonho da semente e meu coração, que desconhece o medo,
segue a procurar a terra prometida. Ao que chegue a vez, escolho uma saída: – tens, ó solidão, um gosto amargo e azedo.
Nilza Azzi
42
Paz aos homens
Ah, se fosse Natal naquela estrela, a estrela fria, azul, a mais brilhante, onde a paz fulgisse sempre adiante, sem precisar de heróis a defendê-la.
Se a cada novo ano, a cada instante, já não houvesse formas de detê-la e explodisse em inúmeras centelhas, a luz daquele Amor reconfortante...
Dela eu queria apenas um reflexo, para espalhar em volta o mais perplexo dos meus olhares sempre atordoados,
qual fosse um raio em vara de condão a derramar nos tempos que virão, a paz aos homens, todos, de bom grado.
Nilza Azzi
136
Pensamentos de Deus
A inspiração da Mente universal recolhe e agrega todo ser vivente e no sono de Brahma, bem e mal desaparecem, dentro da semente.
Adormecida, a vida segue igual, até que o deus, diante da serpente que engole a cauda, ação fundamental, reage e expira tudo novamente.
E quando o Verbo determina aos Devas, que da matéria, a essência mais primeva deve compor mais uma Ronda, então
o Criador conforma em pensamento a todos nós, assim nos dando alento, e nos transporta além da escuridão.
Nilza Azzi
192
Prece
Leva, além da luz que envolve a alma, passos que deixei atrás de mim; leva embora a dor que não se acalma, tudo que há de falso ou de ruim.
Leva a sensação de incompletude toda incompreensão e crueldade, leva a solidão, pois amiúde ela se aproxima e não se evade.
Deixa apenas força, por favor, o suficiente para ir adiante. Deixa o sonho vivo, bom Pastor, abençoa a ovelha vacilante.
Quando o dia finda e anoitece, leve o vento, a Ti, a minha prece!
Nilza Azzi
46
Questões sem razão
Quem diz que a mim pertence a linha do destino e as formas que traçou na estrada do meu ser? Quem diz se a vida é minha ou se virá a ser; não sei do meu viver, com ele eu nunca atino. E a falta que me faz o amor... Sem jamais ter, de além do meu jardim, a luz que descortino? Se nunca mais floresce o sonho genuíno da súbita paixão que o corpo faz ferver, o que buscar além da solidão eterna? Nem mesmo sei qual seja a fé que me governa...
Nilza Azzi
54
Reencontro
Um dia, nesta terra em que vivemos a sina destas vidas separadas, ao crermos ser possível sofrer menos, seguimos, percorrendo outras estradas.
E assim, vaguei por todos os extremos, perdida e sem ter gosto para nada, mas tu, entre os prazeres mais supremos, vivias, de uma forma equivocada.
Porém, num sentimento que traduzo, por ser ao teu redor tudo confuso, no mar entraste, para não voltar...
E ali, onde flutuam minhas cinzas, nas horas em que as ondas são ranzinzas, beijo teus ossos junto ao quebra-mar.
Nilza Azzi
179
Reverso
Como ela pode assim ignorar-me, não perceber do quanto sou capaz e resistir à força do meu charme? Essa mulher tem muito orgulho, mas
antes que note, ou que dispare o alarme, conhecerá a dor, não terá paz. Mesmo que um dia venha a odiar-me, irei em frente, sem voltar atrás.
Toda vingança é doce e eu sei disso; que pouco a pouco ela perca o viço e, já sem forças, dobre-se a meus pés...
E assim que a vir, vencida e submissa, serei senhor de todas as delícias, ao lhe dizer enfim: − Tu nada és!
Nilza Azzi
90
Se
Se, quando eu amei, venceu-me o susto, foi no teu olhar que eu me perdi, tal se não vivesse mais aqui, mas na sombra do teu corpo augusto, tal se o céu se achasse bem ali, naquele teu abraço em que me ajusto.
Nilza Azzi
40
Passageira
Notei um esquilo, correndo na mata, a cauda curvada, num 'esse' preciso. O olhar muito vivo redondo arrebata. Nos verdes do bosque, mal via seu piso.
Subiu na nogueira e, uma noz entre as patas, passou a comer, sem sinal nem aviso... A vida ao redor, descansava pacata, os galhos dançavam ao vento indeciso.
Assim a paixão, emoção passageira, é cena fugaz na paisagem da vida, um parco alimento das nossas vontades
e marca perene da dor tão primeira. A força mais forte, no tempo esquecida, fatal ilusão, que nos mata e se evade.