Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
À beira de uma estrada havia um galo. Chovia e fazia muito frio... Palavra provocante, ah, se eu te falo, jamais terei perdão, pois desconfio
que ao vê-lo em tal perigo, o meu abalo deveu-se a perceber que ele fugiu. Palavra fugitiva, ah, se eu te calo, vazia fica a linha, sem um pio.
O que fazia o galo, ali, curioso? Fugira, ele, de um velho galinheiro, cansado de viver, lá, prisioneiro?
Palavra que me atenta só por gozo, esconde-se num velho dicionário e torna o meu pensar fragmentário.
Nilza Azzi
239
Dor
Se a dor que dói em mim, assim doesse, doída, como um nada, a doer tanto, talvez doera só pelo interesse de que, por fim, não doeria o pranto.
Se a tua ausência já doeu bastante e doerá, por certo, eternamente, que doa, de uma vez, lacrimejante, qual doeriam lágrimas da mente.
E quando a tua dor em mim doía, tal qual doeram todas, vezes mil, – deixei doerem por compreensão.
Assim vivo o dorido dia-a-dia, embora já me doam, dor gentil, as dores que eu bem sei que doerão.
Nilza Azzi
44
Reflexividade
Quando o ar está limpo e ouço o sino da igreja do meu bairro, a cada hora, acredito que o tempo vai-se embora em busca de algum sonho peregrino,
porém, para evitar um desatino, o tempo faz pensar que é sempre agora, enquanto a própria vida ele devora, a certos intervalos, sibilino...
Contudo, nessa trama, o que me espanta e faz calar o verbo na garganta é o peso da ilusão sobre este mundo:
− Premidos pela urgência do presente, caímos num abismo tão profundo que a vida chega a ser indiferente.
Nilza Azzi
36
A espera
“Esperando parada, pregada, na pedra do porto...”
(Chico Buarque)
Não era pedra, nem porto, e sim um portão, onde eu a via, ao fim da tarde, às quatro e meia! Se o coração de quem espera muito anseia, dizem que ao dela coube amar a solidão.
Mas se o desejo traz no bojo um sonho vão, ali parada tinha um ar que já permeia quem alegria só conhece em face alheia e tem no mundo a mais tristonha condição.
A luz dançante ao longe esquálida esmaece: – Se em desespero eterno envia aos céus a prece, é seu segredo e, assim, jamais eu saberia.
Guardo, porém, comigo a imagem vespertina: – Será que a noite encobre as dores desse dia, enquanto as moiras vão votar-lhe a mesma sina?
Nilza Azzi
322
Quem foi?
Sobre o leito, os lençóis imaculados, brancos, pétalas do mais claro linho, pontas dobradas em ambos os lados; clara, uma previsão de desalinho.
Salvos da mácula, eu os quis, caiados, e semeei de flores teu caminho... Na cabeceira, óleos para agrados, sinais de meu fervor, escolho e alinho.
Amanheceu, depois de outra manhã, na alcova resta uma brancura vã, um branco intenso, estranho ao ambiente.
Resta o tecido, amontoado, à beira do contraste entre o ébano e a madeira, e vejo ao teu redor, alvor somente.
Nilza Azzi
49
A dança do amor
“As long as I'm with you, our hearts
will make the music our souls will dance to… “
(E. H.)
Na esfera azul além dos cantos da galáxia, estamos todos nós, em pontos diferentes, ora ao norte, ora ao sul, pequenos, meros entes, em busca de aprender a usar a nossa audácia.
Assim, desde o começo, os vários dons presentes que incitam a enfrentar a dúvida opiácea, a desvendar a lei com garra e pertinácia, também nos fazem crer que amor é um acidente.
Mas pode ser que seja, o amor, algo além disso, que nutre e faz crescer a alma e lhe dá viço; a força colossal, que existe além de nós...
A nítida expressão e a verdadeira voz, o sonho e a melodia, a sugerir a dança que ao fim irá juntar o bem que lhe afiança.
Nilza Azzi
313
Cogito
Veio a Lua ao meu quintal, enquanto o Sol foi dormir... Viu meus sonhos no varal e, de mim, pôs-se a sorrir:
― O que fazem, pendurados, os teus sonhos ao sereno? ―Quero tê-los orvalhados, todos livres de veneno.
― Que venenos podem ter, os sonhos de um sonhador? ― A ilusão que faz sofrer e pode matar o amor!
Nilza Azzi
51
Lógica
Ali, aos pés de Deus, estava uma criança que olhava tão curiosa a sua barba branca. Se com ingenuidade, ideias ela avança, o Pai com seu poder, perguntas não lhe estanca.
E eis que vai lhe arguir, com toda confiança, na prática infantil, que sabe ser bem franca, por que é que a cor do céu é branca? E lhe afiança, bondoso, o nosso Pai: – É a paz que nos descansa!
Com toda seriedade e brilhos pelo olhar, pensa que o Criador as cores escondeu... Relembra o seu estojo e os lápis de pintar
e escolhe que prefere o mundo abaixo, seus espaços em que a cor enfeita terra e mar, e não pode entender a lógica de Deus!
Nilza Azzi
86
Luzes vacilantes
Estava o Sol atrás das nuvens escondido, enquanto a noite além dos montes ia embora... Iria o dia enfim surgir a qualquer hora, trazendo a luz e o afã das aves – o alarido!
Estava a Lua, após a noite, mais senhora dos céus azuis, porque de mim só tem ouvido o suspirar que vem de um sonho colorido, em que reverberou a tua voz sonora.
O espaço que mantém a Lua e o Sol distantes – o mesmo em que a voar, a mente te procura – conserva-me à mercê do que não sonhei antes...
E sobra então o dom, amada criatura, de conhecer tão bem as luzes vacilantes, as variações gentis – do amor, a voz mais pura.
Nilza Azzi
52
Carnaval
Há duas direções no meu caminho – em pleno carnaval tudo é excesso – porém , diante do mundo, não confesso o quanto este folguedo me é daninho.
Em meio à multidão, em seu recesso, cansado, o coração bate sozinho e nada, nesse intenso burburinho, afasta a confusão na qual tropeço.
Por que é tão dorido ver-me assim, perdida nesse brilho tão escasso? Talvez porque o salão olha pra mim,
mas quando olho no espelho, me desfaço, se deste lado enxergo um arlequim, do outro – a gargalhar – vejo o palhaço.