Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
De ti não me restou palavra alguma, história, ou mesmo ação benevolente; não guardo tua imagem no presente. Nenhuma frase expressa coaduna
a forma sem contexto, irreverente, da fala a desfazer-se, qual espuma − quem vive de mentiras se acostuma, ao ponto, em que até a verdade mente.
E vivo num deserto ardente, seco, com noites em que cai além de zero o grau da solidão, justo no beco;
o ponto do discurso mais austero, o falso adjetivo, o verbo peco, o som que já não ouço e ainda quero.
Nilza Azzi
Nilza Azzi
187
Degredo
Vejo a Lua surgir no céu mais cedo; Vênus segue de perto o seu trajeto... – Dos amores que amei, um predileto, foi o teu. A verdade a ti concedo!
Uma estrela cintila em seu degredo, mas aos astros não faço o menor veto; seja o arco do céu oblongo ou reto, cabe à alma, a repulsa ao corpo ledo.
Esse lar tão distante, além, sidéreo, guarda longe de mim toda ventura e conserva a incerteza do mistério.
Na abismal nebulosa, a cor escura... Cupido escolhe o dardo e, pois, desfere-o. – Tenho o chão sob os pés – a dor perdura!
Nilza Azzi
27
Desfastio
Perder-te trouxe a dor que ainda me pega, no meio desta angústia tola e cega. Foi como aquela tela que se apaga – o filme terminou e morre a vaga.
A dor nos faz crescer, alguém alega, mas choro sempre foi demais piegas. O risco, conferido pela adaga, traduz – aqui se faz, aqui se paga...
Na testa permanece aquela ruga. A lágrima escapou, um lenço enxuga! Murmuro minha prece – quieta – rogo.
O corpo, então, contrito, feito viga, prossigo, cônscia – sei que ninguém liga – e a fome de viver me assalta logo.
Nilza Azzi
33
Conotações
Essa palavra fácil, sempre astuta, que não posso deter no meu palato, fala por mim, porém nunca me escuta; essa palavra, com seu ar barato,
com seus vícios, desvios de conduta, a enorme força nela, eu desacato. Que venha a mim na arena, absoluta, para saber quem vai vencer, de fato.
Hei de arrancar-lhe máscaras e vestes, hei de deixá-la nua, hei de expô-la, para que nunca mais me faça tola...
Hei de entregá-la às órbitas celestes e quando enfim tornar a encontrá-la, que ela me seja clara em grande escala.
Nilza Azzi
45
Visita
Quando, nas madrugadas, o silêncio da minha sala enche o espaço mudo, do céu escuro, dos confins extensos, surgem fantasmas, sombras de veludo, a evolar-se pelo ar, como os incensos.
A forma transparente envolve tudo num halo triste; cobre o mundo denso.
Seria a poesia quem visita, vestida de mistérios, de segredos, a solidão eterna da alma aflita?
Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos, a sílfide atraente, assim bendita, que afasta para longe os velhos medos e traz a inspiração, e eleva, e agita...
Temente de que o dia a leve embora, fecho as janelas, logo apago a luz, cerro meus olhos, repudio a aurora, pois a visão da deusa me seduz.
Busco a palavra, pois ela me escora; à sua bênção quero fazer jus e escrevo versos, como o faço agora.
Nilza Azzi
54
Estalo (back to me)
Enquanto segue a estrada em curvas certas e a vida estica o fio e tece a teia não sei o que fazer de minhas tolas das minhas todas dores sem sentido porque não tenho abraço nem abrigo
A gruta que me abriga escura e funda esconde as ilusões nas dobras tortas das paredes que acolhem o meu grito sem que haja brilhos toscos pelo teto
Além desse perigo sempre incerto, há um segredo atrás da paisagem e todas as esmolas que recebo não enchem o meu prato de vontades
Falta coragem de subir a escada e a forma clara desse céu azul não traz dentro de si um pássaro uma esperança ou voo silencioso que povoe o vácuo das alturas
Se os campos verdes se mostraram antes e as aves tristes gorjearam tanto não há beleza em certos horizontes e as luzes não se acendem, não por mim
Mas não encontro a forma de chorar enquanto os pirilampos fazem festa
Nilza Azzi
69
Estações
Agosto escoou-se num longo esperar! Enquanto setembro, com jeito e com graça, derrama-se em flores por tudo que passa e o vento carrega os perfumes e o ar
recende as fragrâncias sutis que entrelaça, juntando buquês, num só e mesmo lugar, carrego comigo a missão de juntar as flores diversas que encontro na praça.
E o gosto passado da vida que escapa que some sem traços, sem pontos no mapa, descarta setembro e outros tempos virão,
nos meses do outono que traz outra etapa; e ao fim da estiagem, que as forças solapa, delícias de inverno! – a melhor estação.
Nilza Azzi
71
Esgrafia
Deixei-me cativar por velho mestre e seu grande domínio da poesia, o seu lirismo excelso, herança ancestre, pela forma ideal em que vivia...
Sigo as pegadas vivas, qual pedestre que busca compreender o mundo e, um dia, em meio ao primitivo tom rupestre, depara a obra-prima que arrepia.
Nas brumas das eternas madrugadas, tento manter as pálpebras cansadas, abertas aos poemas que não li.
Bebo as palavras, rimas das mais belas, a impregnar de beleza, todas elas, os versos que encontrei aqui e ali.
Nilza Azzi
67
Espelho
Se a dor é o mal que encrua na garganta e a vida, mais que em beco sem saída, nos deixa em meio à angústia desmedida que fere o coração e o desencanta... E se um espelho escuta o que é confesso e manda longe os males, e os espanta, além do tempo vago do regresso, remói a lucidez, quem sabe quanta será, de tal palavra, a força vã. Se a voz procura a terra prometida, não tem entanto a crença no amanhã, pois tudo o vento leva nessa lida.
E o sol que tinge as nuvens do poente, espelha a morte, a tudo indiferente.
Nilza Azzi
73
Escassez
Beber contigo um tanto de alegria, do mesmo copo, em súbita ventura, e descobrir que és tudo que eu queria, pois nos teus braços, sinto-me segura,
mas,de ressaca, ter a nostalgia e palmilhar a via mais escura, enquanto a solidão me denuncia a pequenez de toda criatura.
Quando de tanto amor, se tem tão pouco, em nossas mãos, e muito nos faz falta o que de puro a vida nos reserva,
o coração, já sem governo e louco, leva uma vida aleatória, incauta, tal qual a flor sumida em meio à erva.