Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Mais uma tarde chega e minha aldeia, nessas horas tristíssimas do dia, envolve em luz as nuvens e arrepia a franja do horizonte... A lua cheia
sobe no céu, enquanto a aragem fria, enevoando os prados, volta e meia junta o capim e no seu canto enleia grilos e sapos; rompe a calmaria.
Se, no escuro da noite, é tão pequeno, esse pedaço de terra e, mais sereno, dos lares, o recôndito sagrado,
sempre há luzes acesas (e outro fado), a se estender, por este mundo vasto, porém nesse meu canto, a mim, me basto.
Nilza Azzi
202
Bucólica
E fosse Thalia a Graça mais formosa, entre as formosas flores do jardim, teria a forma pura junto a mim: ― espinho sem valor de alguma rosa!
E, da desgraça, o meu sofrer sem fim, que escorre pela roda preguiçosa, comprime em filamentos qualquer prosa, até verter do sangue a cor carmim.
E fosse eu porventura um ser alado, por Zéfiro soprado até seu lado, para agitar-lhe as ondas dos cabelos,
Amor, jamais queria a dor de havê-los, os olhos teus, além dos meus, distantes, e achar-me desterrado, como dantes.
Nilza Azzi
233
Asas
Cansei de amar a quem já não me quer! Vou sair pelo mundo e ganhar asas, abusar da poesia que extravasa e obrigar a palavra ao seu mister.
Cansei de ser um zero à esquerda, rasa, conforme à situação de ser mulher; de ajustar-me ao teu gosto e de qualquer conversa tua que me ponha em brasa.
Depois, quando eu voltar, feliz e alada, talvez me dês valor e olhes pra mim como a luz que clareia a tua estrada;
talvez entendas que meu verso enfim encontra em ti a melhor pista e nada vai me livrar de amar-te tanto assim.
Nilza Azzi
231
Baliza
Hoje eu chorei a dor da minha vida, que dói tão fundo e nunca se amortiza; lavei a alma e a pendurei, torcida, onde não bate sol, nem sopra a brisa.
E quando escorre informe e diluída, na solidão dos ermos, nem me avisa que vai fazer sangrar esta ferida e me deixar num canto, sem baliza.
Mas entre a alma e a dor existe um pacto de não sofrer além de um tempo exacto, porque doer a vida sempre dói...
Depois do choro, sempre estou mais leve e, já que a vida é curta, é muito breve, não vou fazer do pranto o meu herói.
Nilza Azzi
335
ainda assim
se entre nós houvesse uma certeza e a vida me ensinasse o que fazer quando a paixão me dói de tão acesa e o corpo quer cumprir o seu saber
se as dores que vivi e as que virão coubessem numa concha perolada e depois do fim na mesma estrada a nos unir restasse a solidão
se tudo fosse apenas o punhal a doer na carne tanto e tanto que já não mais coubesse nem espanto
por reviver o mesmo e velho mal meu bem, ainda assim serias luz um brilho que me atrai e me seduz
nilza azzi
54
Analogias
Luz do pensamento, asas da alegria, águas no deserto, em manhãs tão brancas, flor de buriti, a enfeitar barrancas, um bom cobertor, numa tarde fria.
A bebida quente, lá pelas tantas, pôr do sol perfeito, cor que irradia; de uma torta doce, a melhor fatia, a pergunta esperta e as respostas francas.
Louco espaço-tempo da minha mente, tudo que acontece de mais frequente são analogias que ninguém vê;
tudo que desperta em mim um sorriso, tudo que há de raro e de que preciso, confesso que só pode ser você…
Nilza Azzi
201
Vespertinas
És a minha alegria, meu pesar, toda loucura dos meus dias tontos, um tesouro perdido a procurar – a soma inútil de todos os pontos .
És a cor mais escura a fazer par com o contraste desses brilhos prontos... As luzes da cidade a cintilar, meros sinais de certos desencontros.
E não sei se te quero ou te rejeito, estranho amor, que permanece além daquilo que se entende por um bem.
Um mal comum, mas que me causa efeito – um salto que se aborta pelo medo – e a noite colhe um dia meio azedo.
Nilza Azzi
171
Prognose
Ninguém pode viver a dor que é minha ou mesmo compartir minha alegria. A vida nunca segue a mesma linha – é cheia de contrastes, eu diria...
Percorro meu caminho, tão sozinha, vivendo a solidão das companhias e o mundo, ao me fitar, não adivinha o quanto a minha alma se arrepia.
Badala o velho sino de uma igreja. As ruas mais desertas seguem tortas. Desdobram-se as esquinas dos meus medos.
Confesso ter morrido ainda cedo. Fechadas, encontrei todas as portas. Não vejo no futuro um bem, que seja.
Nilza Azzi
43
Entrelaços
Entre laços de amor me embaracei e não fiz fita – fui demais sincera. Como se o mundo não tivesse lei, nesse entrelace, eu esqueci quem era.
Teci laços de flores, primaveras deixei pelos caminhos que passei e, quando o som de passos reverbera, a alma pronta espera por seu rei.
Risquei os corações entrelaçados, os nomes desenhados com espinho, num tronco, bem à beira do caminho.
Deixei tudo que prende no passado: Os laços sejam belos e perfeitos, mas possam desmanchar, com certo jeito.
Nilza Azzi
142
Baya
Uma jovem princesa do Oriente, beleza ímpar, corpo escultural, apaixonou-se tão perdidamente – ele era herói a combater o mal.
Peixe Dourado, entanto indiferente, não compartia sentimento igual; em sua saga, curvas e vertentes, buscava unir-se à Rosa, outra vestal.
Havia um rei, um homem mau, tirano, que a jovem Baya cortejava certo de tê-la um dia, em seus braços reais.
Sem sonhos, sem vencer o desengano, foi ela ao cais, a ver o mar de perto, e da princesa ninguém soube mais...