A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
ALuz pavoneando-se espairece pelos vales como a beleza preenche todo o espaçoválido da estética, excepto o incorruptível vale das tormentas, sombrio esoturno, somente à espera, de ser digno de ser atingido ou contemplado, por umraio de luminosidade.
Masporque não se torna então essa reunião plausível e realista?
EssaLuz tão contempladora, abrangente e resignante, a desejada por todos, mas tãoselectiva na sua longitude.
Pobresalmas daltónicas insensíveis a esse espectro de luz que exasperam nasprofundezas da escuridão eterna e irresoluta, antimatéria da Luz.
Porquenão só a Luz é bela ou é vida, as trevas e a escuridão são tão ou maisinebriantes e enternecedoras que a mais profunda e doce Luz matriarcal.
Salvéa penumbra absoluta, porque dela renasce a Luz ofuscante e genuinamenteverdadeira. Pois Ela nasceu do crepúsculo de toda a luminosidade profícua eindulgente.
Talcomo na magnitude total da luminosidade precoce e envolvente, ou na escuridãoobscura e insalubre, o que ressalta da sua incompatibilidade e não sobreposiçãosão laivos de esperança, de liberdade, de negação e anticonformismo tal e qual genesalterados e mutáveis.
Apóstolosda diferença e do contraditório dialéctico, guerreiros anarquistas contra afrivolidade ignóbil reinante.
Poisdeles depende a evolução Humana, tanto biológica como culturalmente.
LX,17-6-2001
1 045
A minha aldeia
Memóriaspintadas de fresco,
Visõesapocalípticas,
Lufadasde ar fresco,
Prisõespaleolíticas.
Ventossopram augurantes,
Sussurram-meaos ouvidos,
Trazemnovas extravagantes,
Usurpam-meos sentidos.
Contemploo horizonte embevecido,
Esquadrinhotodos os cantos,
OMar espraia-se enraivecido,
PelaLua namorar os campos.
Céue Terra tocam-se nos cumes,
Névoagerada ladeia as encostas,
Nascasas ardem os lumes,
Eas mesas já estão postas,
Opão abençoado,
Pelomeio mais um trago,
Omal exorcizado,
Aindalonge de estar pago.
Ocão ladra para as pedras da calçada,
Asladainhas já fecharam a Igreja,
Guarda-seuma ovelha tresmalhada,
Osino dobra e o mocho pestaneja,
Aaldeia dorme sossegada,
QueDeus a proteja.
LX, 13-4-2000
882
Alma Gémea
Vagueiaspor aí,
Euno fundo sei,
Olhas-medaí,
Aminha Alma te dei.
Sintono ar a tua presença,
Atua dor veio com o vento,
Porqueestás tão tensa,
Nãoouves o meu lamento.
Nãochores mais,
Porfavor não,
Soltaramos chacais,
Ejá não comem à mão.
Nãote conheço o nome,
Nãosei quem serás,
Bastaráum olhar,
Umterno sorriso,
Numdia singular,
Detempo conciso,
Nuncasaberás,
Sequerque existo.
LX,15-8-2003
986
Felicidade
Felizes os ignorantes,
Pois Eles,
Encarnaram o Mundo.
Lx, 20-7-2000
970
A Morte Bateu À Porta
Senti um arrepio na espinha, Pressenti algo familiar, Entrei em casa e logo a vi. Instalada paciente e fria, Sorriu-me pela escuridão, E o sofrimento atroz dela brotou, Em rodos inundando o silêncio. Eu vi-a enredada no meu seio, Embalando meu ente querido. Eu conheço-a desde sempre, Por mim há muito idolatrada, Ela chegou com as trevas, E o sol recolheu-se nas sombras. Eu olhei-a nos olhos vazios, E ela cobriu com o seu manto, Os seus escolhidos de negro, Como pertences inalienáveis, Presos pela dor constante. Eu hoje vi-a brincando às vidas, Soltou os anjos negros à noite, Os condenados dão-lhes guarida, E suspirando todos vão de partida. Donde imperam tristeza e solidão, Vem lamentosa a Morte amiga, Dar-vos a mão de fugida.
Lx, 21-1-2011
734
Filhos Enjeitados
Meus filhos enjeitados, Doentes terminais, Desfigurados e feios, Pobres de espírito e de razão, Amputados do Bem, Ignorantes ignóbeis, Rastejantes pederastas, Rejeitados por todos, Vinde a mim meus pobres filhos.
Vocês que anseiam formosura, Vocês que anseiam fortuna, Vocês que anseiam sensibilidade, Vocês que invejam o próximo, Vinde a mim meus rejeitados filhos.
Não chorareis nunca mais, Deixai as feridas purulentas, Serem lambidas pelos chacais, Eu reconfortarei as vossas almas, Até ficarem distantes do fogo infernal.
Cantai comigo todos cantai, O hino libertário da dor inglória, O términos chegou em pranto, O absurdo do ocaso vingou, Ficareis para sempre perdidos em mim.
Lx, 18-6-2012
674
O Encontro
Despe-te duma vez por todas, Deixa a carteira em casa, Esvazia a mente, Silencia-te agora, Resguarda-te do próximo. Desiste dos sonhos, Esquece o passado, Larga a família, Não enalteças o Sagrado, Desampara-te de ti. Agora ouve sem nada ter para escutar, Vê a noite escura esperar, Percepciona o existir relativo, Deixa-o diluir no cosmos absoluto. Sente a insustentável leveza do ser, A esvair-se lentamente no tempo, Esse espaço-tempo que ocupas, Erraticamente numa vida, Num enxame de elementos, Primordiais e perenes. Encarnas-te a consciência do universo, Anseias partir no seu âmago, No encontro do Eu com o Todo, Tão natural e simplista afinal, O tão diabolizado encontro final.
Lx, 14-11-2010
789
Condição Humana
A peste desceu à cidade, Insalubre e coberta de esterco, Negra de cheiros nauseabundos, Asfixia-nos o ar fétido fedorento. Pragas de insectos corroem tudo, Roedores pejados de pulgas, Pululam nos despojos. O fedor dos dejectos, O urinol a correr, Pela grande via abaixo, O lixo omnipresente, Em todo o lado, vaza das casas. Consumir desregradamente, Exponencialmente em vão. Ainda ontem violavam, Matavam e canibalizavam, Hoje pavoneiam-se em frente, Do espelho narcisista, E esperam pelo paraíso, à tardinha no ocaso da vida. O prazo de validade expirou, Há muito na ilha da Páscoa, A praga humana instalou-se, Nesta jangada de pedra, Tal qual um formigueiro acéfalo.
Lx, 9-8-2010
762
A Longa Caminhada
Unir-me-ei a todos vós um dia, A brisa trouxe a pestilência, Fétida e nauseabunda, Aos meus sonhos de menino, Arruinando a minha inocência, Que trucidada nas trevas jaz.
Unir-me-ei a todos vós um dia, O tempo reclama em voz alta, Em gritos lancinantes de dor, Pela carne outrora emprestada, E doravante mil vezes reclamada, Os seus uivos ecoam trespassantes.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Lacaios do destino atroz, Proscritos à minha simpatia, Na última e longa caminhada, A grande marcha da liberdade, A caminho do abismo inviável.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Na podridão dos corpos exauridos, Acompanhando vossas mentes vis, Perniciosas almas esquecidas, Perdidas errantes no vácuo denso, Hoje e para todo o sempre.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Tal como lampejos de luz saboreamos, Ao longo dos laivos de consciência, Verdadeiras encarnações do Cosmos, Que se reconheceram ao espelho, Nas nossas próprias imagens mortas, No reflexo incoerente das nossas vidas.
Unir-me-ei a todos vós um dia, A beleza extrema das percepções sentidas, Sensorialmente embriagadas de esplendor, Alquimistas da moral etilizada e petulante, De ética bacoca e presunçosa, Enforcados em mimetismos sem fim, Expiramos cativos em tédios virulentos.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Corpos desalmados correrão nus, Repetidos e iguais todos juntos, Largaremos os grilhões no caminho, Tombaremos levemente nas valas, Caídos de espíritos amortalhados, Virão todos ininterruptamente ali finar.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Resignados sem esperança no destino, Na linha de montagem inimaginável, Onde os sonhos se extinguirão, Preteridos ao esquecimento eterno, Somos todos peças prescindíveis, Oleamos a engrenagem da máquina.
A infernal máquina Universal, Que nasceu infinitesimal, Empolou exponencialmente, E um dia implodirá em escuridão, Em treva total e absoluta, Anulando-se no zero, Infinitamente vazio.