Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

Perfil
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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

114

A minha aldeia

Memóriaspintadas de fresco,

Visõesapocalípticas,

Lufadasde ar fresco,

Prisõespaleolíticas.

Ventossopram augurantes,

Sussurram-meaos ouvidos,

Trazemnovas extravagantes,

Usurpam-meos sentidos.

Contemploo horizonte embevecido,

Esquadrinhotodos os cantos,

OMar espraia-se enraivecido,

PelaLua namorar os campos.

Céue Terra tocam-se nos cumes,

Névoagerada ladeia as encostas,

Nascasas ardem os lumes,

Eas mesas já estão postas,

Opão abençoado,

Pelomeio mais um trago,

Omal exorcizado,

Aindalonge de estar pago.

Ocão ladra para as pedras da calçada,

Asladainhas já fecharam a Igreja,

Guarda-seuma ovelha tresmalhada,

Osino dobra e o mocho pestaneja,

Aaldeia dorme sossegada,

QueDeus a proteja.

LX, 13-4-2000

887

O Vazio perdurou em Silêncio

Sonhosenevoados,

Commúsica delicada,

Sentidosextenuados,

Comluz apagada.

Ecosuivam loucos,

Ressuscitamo Passado,

ARazão duns poucos,

Numtriste Fado.

Dolorosaexistência,

Pasmaaberração,

Traídaaparência,

Insolúveltentação.

Almadorida,

Coraçãoem pranto,

Estoude partida,

Aquinum canto.

Silênciocompanheiro,

Confortoindagável,

Destinomatreiro,

Morteimutável.

Projecçõesfuturas,

Contemplamo Além,

Ooutrora esconjuras,

Oesquecimento também.

Perdidoem profundo,

Menteangustiada,

Navegopelo fundo,

Fugaabençoada.

Tormentosem redor,

Obscuridadetranslúcida,

Alertasem temor,

Saudadeenternecida.

Arteidolatrada,

OBelo intocável,

Toca-sea entrada,

Jamaisinfluenciável.

Fundoua essência,

Universocoerente,

Espasmoà tangencia,

Unidosem torrente.

Espaçoincomensurável,

Lamentosaconsciência,

Eternidadeimplacável,

Amargosaexistência.

Chamamentoapelativo,

Ordemeloquente,

Ocaos imperativo,

Ovazio inconsequente.

Forçasindulgentes,

Esbatemao lado,

Perceptíveisantes,

Hojeinundado.

Forçainvisível,

Acçãopassiva,

Sersensível,

Dorlasciva.

Aslágrimas secaram,

Anévoa levantou,

Osanjos morreram,

AVida findou

Onada vingou.

LX,17-9-2002

1 047

Vales Encantados

ALuz pavoneando-se espairece pelos vales como a beleza preenche todo o espaçoválido da estética, excepto o incorruptível vale das tormentas, sombrio esoturno, somente à espera, de ser digno de ser atingido ou contemplado, por umraio de luminosidade.

Masporque não se torna então essa reunião plausível e realista?

EssaLuz tão contempladora, abrangente e resignante, a desejada por todos, mas tãoselectiva na sua longitude.

Pobresalmas daltónicas insensíveis a esse espectro de luz que exasperam nasprofundezas da escuridão eterna e irresoluta, antimatéria da Luz.

Porquenão só a Luz é bela ou é vida, as trevas e a escuridão são tão ou maisinebriantes e enternecedoras que a mais profunda e doce Luz matriarcal.

Salvéa penumbra absoluta, porque dela renasce a Luz ofuscante e genuinamenteverdadeira. Pois Ela nasceu do crepúsculo de toda a luminosidade profícua eindulgente.

Talcomo na magnitude total da luminosidade precoce e envolvente, ou na escuridãoobscura e insalubre, o que ressalta da sua incompatibilidade e não sobreposiçãosão laivos de esperança, de liberdade, de negação e anticonformismo tal e qual genesalterados e mutáveis.

Apóstolosda diferença e do contraditório dialéctico, guerreiros anarquistas contra afrivolidade ignóbil reinante.

Poisdeles depende a evolução Humana, tanto biológica como culturalmente.

LX,17-6-2001

1 049

Alma Gémea

Vagueiaspor aí,

Euno fundo sei,

Olhas-medaí,

Aminha Alma te dei.

Sintono ar a tua presença,

Atua dor veio com o vento,

Porqueestás tão tensa,

Nãoouves o meu lamento.

Nãochores mais,

Porfavor não,

Soltaramos chacais,

Ejá não comem à mão.

Nãote conheço o nome,

Nãosei quem serás,

Bastaráum olhar,

Umterno sorriso,

Numdia singular,

Detempo conciso,

Nuncasaberás,

Sequerque existo.

LX,15-8-2003

990

Felicidade





Felizes os ignorantes,



Pois Eles,



Encarnaram o Mundo.





Lx, 20-7-2000

973

Relatividades



Branco ou preto,
Verde ou vermelho,
Tanto faz para mim.
Só o azul do mar infinito,
Me acalma os sentidos.
Só os horizontes longínquos,
Me enchem a alma.
Esta ou aquela,
Loira ou morena,
Tanto faz para mim.
São adorno de festa,
À porta da minha ermida.
Só as loucas proscritas,
Me cativam o coração,
Nostálgico do seu olhar,
Perdido e vago tardio.
Deuses à escolha,
Árbitro ou vilão sádico,
Tanto faz para mim,
Só a perenidade da morte,
E a estética inusitada,
Me envolvem o ser,
No todo existencialista.
Só a bonança da irrelevância,
Me inunda de paz o discernimento.

Lx, 19-6-2010
672

Condição Humana



A peste desceu à cidade,
Insalubre e coberta de esterco,
Negra de cheiros nauseabundos,
Asfixia-nos o ar fétido fedorento.
Pragas de insectos corroem tudo,
Roedores pejados de pulgas,
Pululam nos despojos.
O fedor dos dejectos,
O urinol a correr,
Pela grande via abaixo,
O lixo omnipresente,
Em todo o lado, vaza das casas.
Consumir desregradamente,
Exponencialmente em vão.
Ainda ontem violavam,
Matavam e canibalizavam,
Hoje pavoneiam-se em frente,
Do espelho narcisista,
E esperam pelo paraíso,
à tardinha no ocaso da vida.
O prazo de validade expirou,
Há muito na ilha da Páscoa,
A praga humana instalou-se,
Nesta jangada de pedra,
Tal qual um formigueiro acéfalo.

Lx, 9-8-2010
764

Pesadelos



O Cosmos ousou sonhar,
Encarnou o Homem,
Em pesadelo se tornou,
à consciência largada.
Eu cidadão do Mundo,
Feito de Estrelas a estrear,
Percorro o caminho,
Esbatido ao luar,
Onde as sombras,
Abordam o meu passar,
Largando estridentes uivos,
De pesar.
Ladeiam-me constantes,
Vomitam jactos de fogo,
Das entranhas infernais,
O caminho em ponto de fuga,
A estrada da vida empinada.
Noite cerrada e escura,
As cores perdidas em parte incerta,
Ofegante percorro desalmado,
Este labirinto malfadado.
Ansioso pelo acordar,
Luminoso dum raio de Sol,
Por mim encarnado.

Lx, 7-3-2010
666

O Encontro



Despe-te duma vez por todas,
Deixa a carteira em casa,
Esvazia a mente,
Silencia-te agora,
Resguarda-te do próximo.
Desiste dos sonhos,
Esquece o passado,
Larga a família,
Não enalteças o Sagrado,
Desampara-te de ti.
Agora ouve sem nada ter para escutar,
Vê a noite escura esperar,
Percepciona o existir relativo,
Deixa-o diluir no cosmos absoluto.
Sente a insustentável leveza do ser,
A esvair-se lentamente no tempo,
Esse espaço-tempo que ocupas,
Erraticamente numa vida,
Num enxame de elementos,
Primordiais e perenes.
Encarnas-te a consciência do universo,
Anseias partir no seu âmago,
No encontro do Eu com o Todo,
Tão natural e simplista afinal,
O tão diabolizado encontro final.

Lx, 14-11-2010
792

Ao Longe



Estou tão longe,
E cada vez mais longe.

Estou longe da dúvida,
Estou tão longe,
Estou submerso nas profundezas,
Do mar calmo e silencioso,
Cada vez mais longe.

Estou longe da luz,
Estou tão longe,
Estou longe do Alfa,
Da razão existencial,
Cada vez mais longe.

Estou longe do berço estelar,
Estou tão longe,
Estou longe da realidade,
Mecânica e promiscua,
Cada vez mais longe.

Estou longe do próximo,
Reflexo da minha intolerância,
Estou tão longe,
Longe dos sorrisos,
Há tanto esquecidos,
Cada vez mais longe.

Estou longe do paraíso,
Estou tão longe,
Cada vez mais longe,
Do sonho um dia,
Idealizado e terno,
Tão longínquo Eu Sou.

Lx, 12-6-2010

803

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