Lista de Poemas

A minha aldeia

Memórias pintadas de fresco,

Visões apocalípticas,

Lufadas de ar fresco,

Prisões paleolíticas.

Ventos sopram augurantes,

Sussurram-me aos ouvidos,

Trazem novas extravagantes,

Usurpam-me os sentidos.

Contemplo o horizonte embevecido,

Esquadrinho todos os cantos,

O Mar espraia-se enraivecido,

Pela Lua namorar os campos.

Céu e Terra tocam-se nos cumes,

Névoa gerada ladeia as encostas,

Nas casas ardem os lumes,

E as mesas já estão postas,

O pão abençoado,

Pelo meio mais um trago,

O mal exorcizado,

Ainda longe de estar pago.

O cão ladra para as pedras da calçada,

As ladainhas já fecharam a Igreja,

Guarda-se uma ovelha tresmalhada,

O sino dobra e o mocho pestaneja,

A aldeia dorme sossegada,

Que Deus a proteja.

LX, 13-4-2000

866

Vales Encantados

A Luz pavoneando-se espairece pelos vales como a beleza preenche todo o espaço válido da estética, excepto o incorruptível vale das tormentas, sombrio e soturno, somente à espera, de ser digno de ser atingido ou contemplado, por um raio de luminosidade.

Mas porque não se torna então essa reunião plausível e realista?

Essa Luz tão contempladora, abrangente e resignante, a desejada por todos, mas tão selectiva na sua longitude.

Pobres almas daltónicas insensíveis a esse espectro de luz que exasperam nas profundezas da escuridão eterna e irresoluta, antimatéria da Luz.

Porque não só a Luz é bela ou é vida, as trevas e a escuridão são tão ou mais inebriantes e enternecedoras que a mais profunda e doce Luz matriarcal.

Salvé a penumbra absoluta, porque dela renasce a Luz ofuscante e genuinamente verdadeira. Pois Ela nasceu do crepúsculo de toda a luminosidade profícua e indulgente.

Tal como na magnitude total da luminosidade precoce e envolvente, ou na escuridão obscura e insalubre, o que ressalta da sua incompatibilidade e não sobreposição são laivos de esperança, de liberdade, de negação e anticonformismo tal e qual genes alterados e mutáveis.

Apóstolos da diferença e do contraditório dialéctico, guerreiros anarquistas contra a frivolidade ignóbil reinante.

Pois deles depende a evolução Humana, tanto biológica como culturalmente.

LX, 17-6-2001

1 026

O Vazio perdurou em Silêncio

Sonhos enevoados,

Com música delicada,

Sentidos extenuados,

Com luz apagada.

Ecos uivam loucos,

Ressuscitam o Passado,

A Razão duns poucos,

Num triste Fado.

Dolorosa existência,

Pasma aberração,

Traída aparência,

Insolúvel tentação.

Alma dorida,

Coração em pranto,

Estou de partida,

Aqui num canto.

Silêncio companheiro,

Conforto indagável,

Destino matreiro,

Morte imutável.

Projecções futuras,

Contemplam o Além,

O outrora esconjuras,

O esquecimento também.

Perdido em profundo,

Mente angustiada,

Navego pelo fundo,

Fuga abençoada.

Tormentos em redor,

Obscuridade translúcida,

Alertas em temor,

Saudade enternecida.

Arte idolatrada,

O Belo intocável,

Toca-se a entrada,

Jamais influenciável.

Fundou a essência,

Universo coerente,

Espasmo à tangencia,

Unidos em torrente.

Espaço incomensurável,

Lamentosa consciência,

Eternidade implacável,

Amargosa existência.

Chamamento apelativo,

Ordem eloquente,

O caos imperativo,

O vazio inconsequente.

Forças indulgentes,

Esbatem ao lado,

Perceptíveis antes,

Hoje inundado.

Força invisível,

Acção passiva,

Ser sensível,

Dor lasciva.

As lágrimas secaram,

A névoa levantou,

Os anjos morreram,

A Vida findou

O nada vingou.

LX, 17-9-2002

1 031

Alma Gémea

Vagueias por aí,

Eu no fundo sei,

Olhas-me daí,

A minha Alma te dei.

Sinto no ar a tua presença,

A tua dor veio com o vento,

Porque estás tão tensa,

Não ouves o meu lamento.

Não chores mais,

Por favor não,

Soltaram os chacais,

E já não comem à mão.

Não te conheço o nome,

Não sei quem serás,

Bastará um olhar,

Um terno sorriso,

Num dia singular,

De tempo conciso,

Nunca saberás,

Sequer que existo.

LX, 15-8-2003

971

Felicidade





Felizes os ignorantes,



Pois Eles,



Encarnaram o Mundo.





Lx, 20-7-2000

957

Filhos Enjeitados




Meus filhos enjeitados,
Doentes terminais,
Desfigurados e feios,
Pobres de espírito e de razão,
Amputados do Bem,
Ignorantes ignóbeis,
Rastejantes pederastas,
Rejeitados por todos,
Vinde a mim meus pobres filhos.


Vocês que anseiam formosura,
Vocês que anseiam fortuna,
Vocês que anseiam sensibilidade,
Vocês que invejam o próximo,
Vinde a mim meus rejeitados filhos.


Não chorareis nunca mais,
Deixai as feridas purulentas,
Serem lambidas pelos chacais,
Eu reconfortarei as vossas almas,
Até ficarem distantes do fogo infernal.


Cantai comigo todos cantai,
O hino libertário da dor inglória,
O términos chegou em pranto,
O absurdo do ocaso vingou,
Ficareis para sempre perdidos em mim.


Lx, 18-6-2012


663

A Falência Do Amor




Quando deixas de ser tu próprio,
E só finges para agradares,
Na rendição do Eu pensante,
No contrato de mútuo acordo,
De bajulações e hipocrisias,
Para somente satisfazermos Egos.

Egos narcisistas insaciáveis,
Que pela celebrada união de facto,
Projectam o seu narcisismo,
Para todo o sempre possível,
Alimentando o nosso egocentrismo.

Eu diria o que tu gostarias de ouvir,
Tu dirias o que eu sonharia em ouvir,
Eu veria em ti o que eu desejaria ver,
Tu verias em mim o que tu ansiarias ver,
Eu faria o que tu planearias que eu fizesse,
Tu farias o que eu aspiraria que tu viesses a fazer.

Diz-me quem é a mais bela?
E eu respondo - Tu meu amor.
Eu ouço as suas juras de amor,
Coro e durmo descansado e feliz,
Uma verdadeira simbiose idiossincrática.

Acordas um dia e não reconheces quem és,
Nem tão pouco quem dorme contigo ao teu lado,
O teu ente amado é só e apenas só,
Uma projecção idílica da tua própria mente,
Um fantasma com máscara do teu reflexo.


Lx, 23-6-2012
727

A Doença Do Corpo – A Morte



Quando a força se esvai,
Aos poucos e poucos,
Lentamente, devagar.
Quando ainda ontem podia andar,
Enérgico, esbelto e assaz,
Egocêntrico, egoísta e jovem,
Inteligente, equilibrado e mordaz,
Atlético, imortal e feliz.
Hoje jaz deitado e entrevado,
Impotente, enfezado e sujo,
Indesejado, insalubre e dorido,
Introvertido, Infeliz e mortal.
Desiste ingloriamente resignado,
Desmiolado, rejeitado e esquecido,
Desonrado, desconhecido e cansado,
Autómato não autónomo,
Monótono de olhar estarrecido,
Vazio, baço e sem claridade.
A carne já em chaga,
Purulenta e decomposta,
Exposta aos elementos finais,
Putrefacta,
Pela terra a arfar,
E o cheiro Deus meu,
E o cheiro que exala!

Lx, 8-9-2009
719

Inutilidades




Inútil andar amparado,
E viver aprisionado.

Inútil correr a viver,
E angustiado morrer.

Inútil questionar,
Sem nunca perguntar.

Inútil vir a amar,
Sem nunca ter odiado.

Inútil ter acordado,
E jamais ter sonhado.

Inútil ter nascido,
Para não ser preciso.

Inútil trabalhar,
Para o tempo passar.

Inútil ser indulgente,
E cair no esquecimento.

Inútil o quotidiano,
Fugaz e boçal.

Inútil ter ganho a batalha,
Sem altruísmo na partilha.

Inútil a conversa fiada,
Sem uma face encarada.

Inútil um réquiem,
A uma alma finada.

Lx, 24-4-2008
611

Condição Humana



A peste desceu à cidade,
Insalubre e coberta de esterco,
Negra de cheiros nauseabundos,
Asfixia-nos o ar fétido fedorento.
Pragas de insectos corroem tudo,
Roedores pejados de pulgas,
Pululam nos despojos.
O fedor dos dejectos,
O urinol a correr,
Pela grande via abaixo,
O lixo omnipresente,
Em todo o lado, vaza das casas.
Consumir desregradamente,
Exponencialmente em vão.
Ainda ontem violavam,
Matavam e canibalizavam,
Hoje pavoneiam-se em frente,
Do espelho narcisista,
E esperam pelo paraíso,
à tardinha no ocaso da vida.
O prazo de validade expirou,
Há muito na ilha da Páscoa,
A praga humana instalou-se,
Nesta jangada de pedra,
Tal qual um formigueiro acéfalo.

Lx, 9-8-2010
754

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.

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“ Poesia Eterna Parte I”
Registado em www.safecreative.org sob o nº 1208142122416

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.