A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Quando deixas de ser tu próprio, E só finges para agradares, Na rendição do Eu pensante, No contrato de mútuo acordo, De bajulações e hipocrisias, Para somente satisfazermos Egos.
Egos narcisistas insaciáveis, Que pela celebrada união de facto, Projectam o seu narcisismo, Para todo o sempre possível, Alimentando o nosso egocentrismo.
Eu diria o que tu gostarias de ouvir, Tu dirias o que eu sonharia em ouvir, Eu veria em ti o que eu desejaria ver, Tu verias em mim o que tu ansiarias ver, Eu faria o que tu planearias que eu fizesse, Tu farias o que eu aspiraria que tu viesses a fazer.
Diz-me quem é a mais bela? E eu respondo - Tu meu amor. Eu ouço as suas juras de amor, Coro e durmo descansado e feliz, Uma verdadeira simbiose idiossincrática.
Acordas um dia e não reconheces quem és, Nem tão pouco quem dorme contigo ao teu lado, O teu ente amado é só e apenas só, Uma projecção idílica da tua própria mente, Um fantasma com máscara do teu reflexo.
Lx, 23-6-2012
748
Contraditório
A humildade dum Poeta, A arrogância dum tolo.
Uma paisagem natural, Um subúrbio engavetado.
Um belo corpo nu, Um doente acabado.
Um dia primaveril, Outro de estio doentio.
A elegância sensual, O mau-gosto vulgar.
A cultura eloquente, A ignorância latente.
A leveza do ser, O pesar da alma.
Gente feliz, Outra maltratada.
Silêncio dourado, Retórica presidiária.
Linhas direitas, Caos existencial.
Jardins suspensos, Muros de pedra.
Canções de embalar, Beijos de traição.
Amor desprotegido, Liberdade condicional.
O lugar perdido, Sorte avarenta.
Alma a divagar, Corpo subserviente.
Contemplação, Linha de montagem.
Verdade, Encenação.
Dia febril, Noite calma.
A tua vida, A minha morte.
Lx, 25-11-2006
628
Relatividades
Branco ou preto, Verde ou vermelho, Tanto faz para mim. Só o azul do mar infinito, Me acalma os sentidos. Só os horizontes longínquos, Me enchem a alma. Esta ou aquela, Loira ou morena, Tanto faz para mim. São adorno de festa, À porta da minha ermida. Só as loucas proscritas, Me cativam o coração, Nostálgico do seu olhar, Perdido e vago tardio. Deuses à escolha, Árbitro ou vilão sádico, Tanto faz para mim, Só a perenidade da morte, E a estética inusitada, Me envolvem o ser, No todo existencialista. Só a bonança da irrelevância, Me inunda de paz o discernimento.
Lx, 19-6-2010
667
Só Mais Uma Vez
Só mais um olhar enternecido, Só mais um. Só mais um par de mãos entrelaçadas, Só mais um. Só mais um suspiro, Só mais um. Só mais uma última dança, Só mais uma. Só mais um arfar no meu ouvido, Só mais um. Só mais um beijo meigo, Só mais um. Só mais um entardecer juntos, Só mais um. Só mais uma música no ar, Só mais uma. Só mais um abraço apertado, Só mais um. Só mais um afago, Só mais um. Só mais um poema murmurado, Só mais um. Só mais uma noite de luar, Só mais uma.
Lx, 15-4-2010
663
És tu
Onde estás? Onde moras? O que me tens para dizer? Quando irás aparecer para me afagar, com o teu corpo quente, perfumado a mel, tão doce e gracioso a latejar cheio de vida. Pousada numa nuvem branca, surgirás jovial, preenchendo de contentamento o deserto do meu ser, varrido pelo vento norte. Cairás como chuva fecunda, no meu tapete de pétalas de malmequeres amarelos, ansioso pela tua chegada na bruma da madrugada. A cor do sol nos teus cabelos dourados e raiosos, ondulados onde me afogaria no azul-marinho do teu olhar carinhoso e cristalino. Senil e inebriado nos teus braços prostrado, seria para sempre o teu cúmplice apaixonadamente angustiado. Quando será minha flor? Quando virás minha amada? Minha amiga olvidada, Meu amor.
Lx, 15-4-2010
732
Prenúncios Do Ocaso Cognoscível
O relógio biológico adianta-se inexoravelmente, ao sabor do aumento no rácio do meu entendimento esclerosado. Indubitavelmente a caminho da perdição cognitiva ambivalente. A caminho da falência do pensamento racional, onde a demência por fim reinará triunfante e aleatória. O pensamento ordenado só é sustentável durante a vida organizada e presencial. A irracionalidade do caos vinga acima de tudo, e é eterna com os elementos fundamentais imutáveis nos seus princípios. O peso do ideal retórico existencial inerente à condição humana, é a sua prisão espiritual, onde a metafisica padece à sua mercê. A liberdade incondicional do pensamento puro, só subsiste para além do corpo, no silêncio profundo do esquecimento.
Lx, 22-5-2007
630
Cansado
Cansado ao acordar, À noite cansado de estar, Cansado de mim, E de vós acima de tudo. Cansado do tempo a passar, E do senhor sisudo, Cansado da bonança, Dos dias correntes, E dos meus membros dormentes. Cansado do fiel da balança, E da consoada, Cansado de fazer anos, Em desalmada. Cansado de sorrir, Amestrado, Cansado tão cansado, De lamúrias suplicantes. Cansado de choros e prantos, Desencantos ofegantes, Cansado de desencontros, Oníricos latentes. Cansado do passado, Insipiente, E do futuro poluente, Cansado do sim e do não, De ser testemunho vidente.
Lx, 19-4-2009
687
Insignificâncias
Incógnitas insignificâncias, Pululam perdidas por aí, Nascem e morrem todos os dias, Com egos inconscientes, Cegos à falta de razão, Na sua singela existência. Falsos demagogos hipócritas, Escondidos no medo, Da sua mortalidade, Aprendizes ignotos, Da essência natural, Letargia moral e de carácter, A rodos no seu bestial pensar. Eles e elas, grandes e pequenos, Novos e velhos, sábios e idiotas, Todos prisioneiros cativos, Da metafísica da boçalidade. Se é esse o preço para vencer, Deixai-me na minha parca indigência, Se é esse o preço para ser feliz, Deixai-me na minha doce tristeza taciturna, Deixai-me na melancolia nostálgica, Da minha própria insignificância.
Lx, 16-6-2009
673
Loucura
Desespero ansioso, Desânimo sepulcral, Espectro num abismo, De olhar fixo e vazio, De coração selado, Quebrado.
Alma arreada fugida, Os gritos de terror, Contínuos e lancinantes, Ecoam em arrepios, Alma presa na masmorra, Da vã intolerância.
Os pesadelos reais, Fantasmas de preto, A deambularem, Na escuridão estéril, Onde a luz se esvaiu, Há muito tempo.
O labirinto onde jaz, Perdida a consciência, Numa viagem de ida sem volta, Ao avesso da humanidade, Agora desvendado, Desencarnado.
Os segredos escondidos, Agora violados, esventrados, Aviltados pela demência, Engolidos de vez pelo todo, Diluídos no esquecimento dos elementos, No caos telúrico existencial, Mergulhados na matéria negra, Da metafísica sensorial.
Lx, 10-11-2007
635
Até Quando
Quando o corpo arrefecer, Quando não conseguir correr, Quando só houver dor, E já nenhum louvor.
Quando os sentidos desvanecerem, Quando os sonhos se perderem, Quando só houver mar, E mais beijo nenhum a dar.
Quando a memória falhar, Quando já não pensar, Quando no fim me calar, E só houver a brisa no ar.
Que pena vou ter, Não ter ido, por não poder, Que pena vou ter, Não ter conseguido ser, Que pena vou ter, De tudo um dia esquecer, Que pena vou ter, Ter recusado viver, Que pena vou ter, Quando morrer, Sem valer.