A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Onde estás? Onde moras? O que me tens para dizer? Quando irás aparecer para me afagar, com o teu corpo quente, perfumado a mel, tão doce e gracioso a latejar cheio de vida. Pousada numa nuvem branca, surgirás jovial, preenchendo de contentamento o deserto do meu ser, varrido pelo vento norte. Cairás como chuva fecunda, no meu tapete de pétalas de malmequeres amarelos, ansioso pela tua chegada na bruma da madrugada. A cor do sol nos teus cabelos dourados e raiosos, ondulados onde me afogaria no azul-marinho do teu olhar carinhoso e cristalino. Senil e inebriado nos teus braços prostrado, seria para sempre o teu cúmplice apaixonadamente angustiado. Quando será minha flor? Quando virás minha amada? Minha amiga olvidada, Meu amor.
Lx, 15-4-2010
732
Loucura
Desespero ansioso, Desânimo sepulcral, Espectro num abismo, De olhar fixo e vazio, De coração selado, Quebrado.
Alma arreada fugida, Os gritos de terror, Contínuos e lancinantes, Ecoam em arrepios, Alma presa na masmorra, Da vã intolerância.
Os pesadelos reais, Fantasmas de preto, A deambularem, Na escuridão estéril, Onde a luz se esvaiu, Há muito tempo.
O labirinto onde jaz, Perdida a consciência, Numa viagem de ida sem volta, Ao avesso da humanidade, Agora desvendado, Desencarnado.
Os segredos escondidos, Agora violados, esventrados, Aviltados pela demência, Engolidos de vez pelo todo, Diluídos no esquecimento dos elementos, No caos telúrico existencial, Mergulhados na matéria negra, Da metafísica sensorial.
Lx, 10-11-2007
636
Contraditório
A humildade dum Poeta, A arrogância dum tolo.
Uma paisagem natural, Um subúrbio engavetado.
Um belo corpo nu, Um doente acabado.
Um dia primaveril, Outro de estio doentio.
A elegância sensual, O mau-gosto vulgar.
A cultura eloquente, A ignorância latente.
A leveza do ser, O pesar da alma.
Gente feliz, Outra maltratada.
Silêncio dourado, Retórica presidiária.
Linhas direitas, Caos existencial.
Jardins suspensos, Muros de pedra.
Canções de embalar, Beijos de traição.
Amor desprotegido, Liberdade condicional.
O lugar perdido, Sorte avarenta.
Alma a divagar, Corpo subserviente.
Contemplação, Linha de montagem.
Verdade, Encenação.
Dia febril, Noite calma.
A tua vida, A minha morte.
Lx, 25-11-2006
629
Não-Humanos
Escoam os impropérios, Pelos interstícios das suas vidas. O boçal vil poluto, Procria incessantemente, Funestas crias, Anti Darwinistas, Mediático-dependentes, Mentecaptos insalubres. A verdade absoluta, Encarnada nas suas cabeças, Absortas e indigentes, Desalmadas, Imberbes de razão, Pululam subservientes, Afogadas na sua frugalidade primária. Despidos de Arte e Beleza, Desprovidos de consciência, Subjugados pelos impulsos primitivos, Incomodam o outrem, Incessantemente e exaustivamente. Um contágio de morte, Subsiste na cidade.
Lx, 6-8-2010
690
Condição Humana
A peste desceu à cidade, Insalubre e coberta de esterco, Negra de cheiros nauseabundos, Asfixia-nos o ar fétido fedorento. Pragas de insectos corroem tudo, Roedores pejados de pulgas, Pululam nos despojos. O fedor dos dejectos, O urinol a correr, Pela grande via abaixo, O lixo omnipresente, Em todo o lado, vaza das casas. Consumir desregradamente, Exponencialmente em vão. Ainda ontem violavam, Matavam e canibalizavam, Hoje pavoneiam-se em frente, Do espelho narcisista, E esperam pelo paraíso, à tardinha no ocaso da vida. O prazo de validade expirou, Há muito na ilha da Páscoa, A praga humana instalou-se, Nesta jangada de pedra, Tal qual um formigueiro acéfalo.
Lx, 9-8-2010
764
Simplicidades Minimalistas
Onde se encontra o subtil? Na subtileza do desabrochar. Onde mora a beleza? No coração carente. Onde fica o Paraíso? No tempo pendente. Onde está a omnisciência? No âmago do ser. Onde nasce o amor? No cuidar sentido. Onde brota a razão? No nosso ressentimento. Onde para o bom senso? No correr do tempo. Onde anda a luz? Na gota do orvalho. Onde ensina o mestre? No cume da montanha. Onde se fixa o olhar? No infinito do mar. Onde paira a música? No sopro do vento. Onde estávamos todos? Nas estrelas a brilhar.
Lx, 6-12-2009
632
Até Quando
Quando o corpo arrefecer, Quando não conseguir correr, Quando só houver dor, E já nenhum louvor.
Quando os sentidos desvanecerem, Quando os sonhos se perderem, Quando só houver mar, E mais beijo nenhum a dar.
Quando a memória falhar, Quando já não pensar, Quando no fim me calar, E só houver a brisa no ar.
Que pena vou ter, Não ter ido, por não poder, Que pena vou ter, Não ter conseguido ser, Que pena vou ter, De tudo um dia esquecer, Que pena vou ter, Ter recusado viver, Que pena vou ter, Quando morrer, Sem valer.
Lx, 20-6-2007
725
Nuvens
Nas nuvens imaculadas, onde se diluía o meu pensar, em tons esbatidos, de mil e uma quimeras. Esvoaçavam transfiguradas ao vento, pelo seu toque gentil, de mil e uma penas. Translúcidas e cristalinas, de cor alva e pura, expressavam o seu âmago incorruptível. Eram assim as nuvens da minha infância, como que de algodão doce, com figuras pitorescas, que me fizeram sonhar enternecido, sonhos fabulosos de histórias míticas. Os heróis recriados no céu, ao sabor do bulício isobárico. As nuvens da minha meninice, onde param elas? Hoje são tão diferentes ao meu olhar, tão cerradas, escuras como breu, carregadas de tempestivas veracidades, ofegantes e opressivas erram além-mar. Transfigurado nelas, deixei-me levar ao sabor do vento forte e sussurrante, consigo ouvir os fantasmas dos meus pesadelos deambular, cantando em uníssono, num aliviado trovejar.
Lx, 19-11-2006
707
A Doença Do Corpo – A Morte
Quando a força se esvai, Aos poucos e poucos, Lentamente, devagar. Quando ainda ontem podia andar, Enérgico, esbelto e assaz, Egocêntrico, egoísta e jovem, Inteligente, equilibrado e mordaz, Atlético, imortal e feliz. Hoje jaz deitado e entrevado, Impotente, enfezado e sujo, Indesejado, insalubre e dorido, Introvertido, Infeliz e mortal. Desiste ingloriamente resignado, Desmiolado, rejeitado e esquecido, Desonrado, desconhecido e cansado, Autómato não autónomo, Monótono de olhar estarrecido, Vazio, baço e sem claridade. A carne já em chaga, Purulenta e decomposta, Exposta aos elementos finais, Putrefacta, Pela terra a arfar, E o cheiro Deus meu, E o cheiro que exala!
Lx, 8-9-2009
741
Prenúncios Do Ocaso Cognoscível
O relógio biológico adianta-se inexoravelmente, ao sabor do aumento no rácio do meu entendimento esclerosado. Indubitavelmente a caminho da perdição cognitiva ambivalente. A caminho da falência do pensamento racional, onde a demência por fim reinará triunfante e aleatória. O pensamento ordenado só é sustentável durante a vida organizada e presencial. A irracionalidade do caos vinga acima de tudo, e é eterna com os elementos fundamentais imutáveis nos seus princípios. O peso do ideal retórico existencial inerente à condição humana, é a sua prisão espiritual, onde a metafisica padece à sua mercê. A liberdade incondicional do pensamento puro, só subsiste para além do corpo, no silêncio profundo do esquecimento.