Lista de Poemas

Só Mais Uma Vez



Só mais um olhar enternecido,
Só mais um.
Só mais um par de mãos entrelaçadas,
Só mais um.
Só mais um suspiro,
Só mais um.
Só mais uma última dança,
Só mais uma.
Só mais um arfar no meu ouvido,
Só mais um.
Só mais um beijo meigo,
Só mais um.
Só mais um entardecer juntos,
Só mais um.
Só mais uma música no ar,
Só mais uma.
Só mais um abraço apertado,
Só mais um.
Só mais um afago,
Só mais um.
Só mais um poema murmurado,
Só mais um.
Só mais uma noite de luar,
Só mais uma.

Lx, 15-4-2010
651

Áurea Solar




O Sol brilha quente,
Lisonjeador e afortunado,
Aquece as almas doridas,
Afaga-nos o corpo desnudado.

Ente querido criador,
Dás esperanças esperançado,
Às vidas que permitiste gerar,
Deambulando sob alçado.

Pela Terra a quem poupaste,
Ser teu regaço de chamas,
Agora esventrada à dor atroz,
Lancinante em voraz agonia.

Decalcada de almas sós,
Embriagadas com mil quimeras,
Voláteis sentimentalistas,
Vagueiam proscritas e infames.

Rogamos-te ó Sol,
Carrasco de primogénitos,
Tal como outrora precioso,
Ergamos as mãos ao alto.

Em uníssono suplicamos,
A luz da tua indulgência,
Apaziguadora e terna,
Sobre os nossos corações.

Frios e cansados,
Há muito quebrados,
Ansiosos pela fulgura,
De estrela mãe tão pura.

Lx, 3-10-2008
663

És tu



Onde estás?
Onde moras?
O que me tens para dizer?
Quando irás aparecer para me afagar, com o teu corpo quente, perfumado a mel, tão doce e gracioso a latejar cheio de vida.
Pousada numa nuvem branca, surgirás jovial, preenchendo de contentamento o deserto do meu ser, varrido pelo vento norte.
Cairás como chuva fecunda, no meu tapete de pétalas de malmequeres amarelos, ansioso pela tua chegada na bruma da madrugada.
A cor do sol nos teus cabelos dourados e raiosos, ondulados onde me afogaria no azul-marinho do teu olhar carinhoso e cristalino.
Senil e inebriado nos teus braços prostrado, seria para sempre o teu cúmplice apaixonadamente angustiado.
Quando será minha flor?
Quando virás minha amada?
Minha amiga olvidada,
Meu amor.

Lx, 15-4-2010
721

Insignificâncias



Incógnitas insignificâncias,
Pululam perdidas por aí,
Nascem e morrem todos os dias,
Com egos inconscientes,
Cegos à falta de razão,
Na sua singela existência.
Falsos demagogos hipócritas,
Escondidos no medo,
Da sua mortalidade,
Aprendizes ignotos,
Da essência natural,
Letargia moral e de carácter,
A rodos no seu bestial pensar.
Eles e elas, grandes e pequenos,
Novos e velhos, sábios e idiotas,
Todos prisioneiros cativos,
Da metafísica da boçalidade.
Se é esse o preço para vencer,
Deixai-me na minha parca indigência,
Se é esse o preço para ser feliz,
Deixai-me na minha doce tristeza taciturna,
Deixai-me na melancolia nostálgica,
Da minha própria insignificância.

Lx, 16-6-2009
659

Loucura




Desespero ansioso,
Desânimo sepulcral,
Espectro num abismo,
De olhar fixo e vazio,
De coração selado,
Quebrado.

Alma arreada fugida,
Os gritos de terror,
Contínuos e lancinantes,
Ecoam em arrepios,
Alma presa na masmorra,
Da vã intolerância.

Os pesadelos reais,
Fantasmas de preto,
A deambularem,
Na escuridão estéril,
Onde a luz se esvaiu,
Há muito tempo.

O labirinto onde jaz,
Perdida a consciência,
Numa viagem de ida sem volta,
Ao avesso da humanidade,
Agora desvendado,
Desencarnado.

Os segredos escondidos,
Agora violados, esventrados,
Aviltados pela demência,
Engolidos de vez pelo todo,
Diluídos no esquecimento dos elementos,
No caos telúrico existencial,
Mergulhados na matéria negra,
Da metafísica sensorial.

Lx, 10-11-2007
624

Aflição Outonal



O frio chegou,
E a chama apagou.

A luz esbatida,
E a alma dorida.

O vento exaltou,
E o lobo uivou.

A lareira apagada,
E a voz magoada.

A chuva caiu,
E a mulher pariu.

Um olhar sofrido,
E o desejo cumprido.

Mais um infeliz,
Um pobre petiz.

Enxugado de luz,
Já cheio de pus.

Sempre tão ébrio,
Imolado pelo tédio.

Tão escuro ficou,
Nada contemplou.

Tudo desabou,
E pouco restou.

Lx, 12-11-2008
606

Simplicidades Minimalistas



Onde se encontra o subtil?
Na subtileza do desabrochar.
Onde mora a beleza?
No coração carente.
Onde fica o Paraíso?
No tempo pendente.
Onde está a omnisciência?
No âmago do ser.
Onde nasce o amor?
No cuidar sentido.
Onde brota a razão?
No nosso ressentimento.
Onde para o bom senso?
No correr do tempo.
Onde anda a luz?
Na gota do orvalho.
Onde ensina o mestre?
No cume da montanha.
Onde se fixa o olhar?
No infinito do mar.
Onde paira a música?
No sopro do vento.
Onde estávamos todos?
Nas estrelas a brilhar.

Lx, 6-12-2009
617

Relatividades



Branco ou preto,
Verde ou vermelho,
Tanto faz para mim.
Só o azul do mar infinito,
Me acalma os sentidos.
Só os horizontes longínquos,
Me enchem a alma.
Esta ou aquela,
Loira ou morena,
Tanto faz para mim.
São adorno de festa,
À porta da minha ermida.
Só as loucas proscritas,
Me cativam o coração,
Nostálgico do seu olhar,
Perdido e vago tardio.
Deuses à escolha,
Árbitro ou vilão sádico,
Tanto faz para mim,
Só a perenidade da morte,
E a estética inusitada,
Me envolvem o ser,
No todo existencialista.
Só a bonança da irrelevância,
Me inunda de paz o discernimento.

Lx, 19-6-2010
656

O Encontro



Despe-te duma vez por todas,
Deixa a carteira em casa,
Esvazia a mente,
Silencia-te agora,
Resguarda-te do próximo.
Desiste dos sonhos,
Esquece o passado,
Larga a família,
Não enalteças o Sagrado,
Desampara-te de ti.
Agora ouve sem nada ter para escutar,
Vê a noite escura esperar,
Percepciona o existir relativo,
Deixa-o diluir no cosmos absoluto.
Sente a insustentável leveza do ser,
A esvair-se lentamente no tempo,
Esse espaço-tempo que ocupas,
Erraticamente numa vida,
Num enxame de elementos,
Primordiais e perenes.
Encarnas-te a consciência do universo,
Anseias partir no seu âmago,
No encontro do Eu com o Todo,
Tão natural e simplista afinal,
O tão diabolizado encontro final.

Lx, 14-11-2010
767

Ao Longe



Estou tão longe,
E cada vez mais longe.

Estou longe da dúvida,
Estou tão longe,
Estou submerso nas profundezas,
Do mar calmo e silencioso,
Cada vez mais longe.

Estou longe da luz,
Estou tão longe,
Estou longe do Alfa,
Da razão existencial,
Cada vez mais longe.

Estou longe do berço estelar,
Estou tão longe,
Estou longe da realidade,
Mecânica e promiscua,
Cada vez mais longe.

Estou longe do próximo,
Reflexo da minha intolerância,
Estou tão longe,
Longe dos sorrisos,
Há tanto esquecidos,
Cada vez mais longe.

Estou longe do paraíso,
Estou tão longe,
Cada vez mais longe,
Do sonho um dia,
Idealizado e terno,
Tão longínquo Eu Sou.

Lx, 12-6-2010

779

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.

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“ Poesia Eterna Parte I”
Registado em www.safecreative.org sob o nº 1208142122416

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.