A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Só mais um olhar enternecido, Só mais um. Só mais um par de mãos entrelaçadas, Só mais um. Só mais um suspiro, Só mais um. Só mais uma última dança, Só mais uma. Só mais um arfar no meu ouvido, Só mais um. Só mais um beijo meigo, Só mais um. Só mais um entardecer juntos, Só mais um. Só mais uma música no ar, Só mais uma. Só mais um abraço apertado, Só mais um. Só mais um afago, Só mais um. Só mais um poema murmurado, Só mais um. Só mais uma noite de luar, Só mais uma.
Lx, 15-4-2010
669
Simplicidades Minimalistas
Onde se encontra o subtil? Na subtileza do desabrochar. Onde mora a beleza? No coração carente. Onde fica o Paraíso? No tempo pendente. Onde está a omnisciência? No âmago do ser. Onde nasce o amor? No cuidar sentido. Onde brota a razão? No nosso ressentimento. Onde para o bom senso? No correr do tempo. Onde anda a luz? Na gota do orvalho. Onde ensina o mestre? No cume da montanha. Onde se fixa o olhar? No infinito do mar. Onde paira a música? No sopro do vento. Onde estávamos todos? Nas estrelas a brilhar.
Lx, 6-12-2009
634
És tu
Onde estás? Onde moras? O que me tens para dizer? Quando irás aparecer para me afagar, com o teu corpo quente, perfumado a mel, tão doce e gracioso a latejar cheio de vida. Pousada numa nuvem branca, surgirás jovial, preenchendo de contentamento o deserto do meu ser, varrido pelo vento norte. Cairás como chuva fecunda, no meu tapete de pétalas de malmequeres amarelos, ansioso pela tua chegada na bruma da madrugada. A cor do sol nos teus cabelos dourados e raiosos, ondulados onde me afogaria no azul-marinho do teu olhar carinhoso e cristalino. Senil e inebriado nos teus braços prostrado, seria para sempre o teu cúmplice apaixonadamente angustiado. Quando será minha flor? Quando virás minha amada? Minha amiga olvidada, Meu amor.
Lx, 15-4-2010
735
Não-Humanos
Escoam os impropérios, Pelos interstícios das suas vidas. O boçal vil poluto, Procria incessantemente, Funestas crias, Anti Darwinistas, Mediático-dependentes, Mentecaptos insalubres. A verdade absoluta, Encarnada nas suas cabeças, Absortas e indigentes, Desalmadas, Imberbes de razão, Pululam subservientes, Afogadas na sua frugalidade primária. Despidos de Arte e Beleza, Desprovidos de consciência, Subjugados pelos impulsos primitivos, Incomodam o outrem, Incessantemente e exaustivamente. Um contágio de morte, Subsiste na cidade.
Lx, 6-8-2010
693
A Morte Bateu À Porta
Senti um arrepio na espinha, Pressenti algo familiar, Entrei em casa e logo a vi. Instalada paciente e fria, Sorriu-me pela escuridão, E o sofrimento atroz dela brotou, Em rodos inundando o silêncio. Eu vi-a enredada no meu seio, Embalando meu ente querido. Eu conheço-a desde sempre, Por mim há muito idolatrada, Ela chegou com as trevas, E o sol recolheu-se nas sombras. Eu olhei-a nos olhos vazios, E ela cobriu com o seu manto, Os seus escolhidos de negro, Como pertences inalienáveis, Presos pela dor constante. Eu hoje vi-a brincando às vidas, Soltou os anjos negros à noite, Os condenados dão-lhes guarida, E suspirando todos vão de partida. Donde imperam tristeza e solidão, Vem lamentosa a Morte amiga, Dar-vos a mão de fugida.
Lx, 21-1-2011
738
O Medo
Não tenhas medo pequeno, é só o perfume das flores do campo, Não temas, São um jardim de cores apenas.
Não tenhas medo pequeno, é só a chuva a cair lá fora, Não temas, São gotas de água apenas.
Não tenhas medo pequeno, é só o céu estrelado, Não temas, São pirilampos celestiais apenas.
Não tenhas medo pequeno, é só um choro abafado, Não temas, São fados ancestrais apenas.
Não tenhas medo pequeno, é só uma andorinha a voar, Não temas, São suspiros de liberdade apenas.
Não tenhas medo pequeno, é só uma cova aberta, Não temas, São saudades tuas apenas.
Lx, 9-5-2010
738
Filhos Enjeitados
Meus filhos enjeitados, Doentes terminais, Desfigurados e feios, Pobres de espírito e de razão, Amputados do Bem, Ignorantes ignóbeis, Rastejantes pederastas, Rejeitados por todos, Vinde a mim meus pobres filhos.
Vocês que anseiam formosura, Vocês que anseiam fortuna, Vocês que anseiam sensibilidade, Vocês que invejam o próximo, Vinde a mim meus rejeitados filhos.
Não chorareis nunca mais, Deixai as feridas purulentas, Serem lambidas pelos chacais, Eu reconfortarei as vossas almas, Até ficarem distantes do fogo infernal.
Cantai comigo todos cantai, O hino libertário da dor inglória, O términos chegou em pranto, O absurdo do ocaso vingou, Ficareis para sempre perdidos em mim.
Lx, 18-6-2012
677
A Falência Do Amor
Quando deixas de ser tu próprio, E só finges para agradares, Na rendição do Eu pensante, No contrato de mútuo acordo, De bajulações e hipocrisias, Para somente satisfazermos Egos.
Egos narcisistas insaciáveis, Que pela celebrada união de facto, Projectam o seu narcisismo, Para todo o sempre possível, Alimentando o nosso egocentrismo.
Eu diria o que tu gostarias de ouvir, Tu dirias o que eu sonharia em ouvir, Eu veria em ti o que eu desejaria ver, Tu verias em mim o que tu ansiarias ver, Eu faria o que tu planearias que eu fizesse, Tu farias o que eu aspiraria que tu viesses a fazer.
Diz-me quem é a mais bela? E eu respondo - Tu meu amor. Eu ouço as suas juras de amor, Coro e durmo descansado e feliz, Uma verdadeira simbiose idiossincrática.
Acordas um dia e não reconheces quem és, Nem tão pouco quem dorme contigo ao teu lado, O teu ente amado é só e apenas só, Uma projecção idílica da tua própria mente, Um fantasma com máscara do teu reflexo.
Lx, 23-6-2012
752
A Longa Caminhada
Unir-me-ei a todos vós um dia, A brisa trouxe a pestilência, Fétida e nauseabunda, Aos meus sonhos de menino, Arruinando a minha inocência, Que trucidada nas trevas jaz.
Unir-me-ei a todos vós um dia, O tempo reclama em voz alta, Em gritos lancinantes de dor, Pela carne outrora emprestada, E doravante mil vezes reclamada, Os seus uivos ecoam trespassantes.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Lacaios do destino atroz, Proscritos à minha simpatia, Na última e longa caminhada, A grande marcha da liberdade, A caminho do abismo inviável.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Na podridão dos corpos exauridos, Acompanhando vossas mentes vis, Perniciosas almas esquecidas, Perdidas errantes no vácuo denso, Hoje e para todo o sempre.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Tal como lampejos de luz saboreamos, Ao longo dos laivos de consciência, Verdadeiras encarnações do Cosmos, Que se reconheceram ao espelho, Nas nossas próprias imagens mortas, No reflexo incoerente das nossas vidas.
Unir-me-ei a todos vós um dia, A beleza extrema das percepções sentidas, Sensorialmente embriagadas de esplendor, Alquimistas da moral etilizada e petulante, De ética bacoca e presunçosa, Enforcados em mimetismos sem fim, Expiramos cativos em tédios virulentos.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Corpos desalmados correrão nus, Repetidos e iguais todos juntos, Largaremos os grilhões no caminho, Tombaremos levemente nas valas, Caídos de espíritos amortalhados, Virão todos ininterruptamente ali finar.
Unir-me-ei a todos vós um dia, Resignados sem esperança no destino, Na linha de montagem inimaginável, Onde os sonhos se extinguirão, Preteridos ao esquecimento eterno, Somos todos peças prescindíveis, Oleamos a engrenagem da máquina.
A infernal máquina Universal, Que nasceu infinitesimal, Empolou exponencialmente, E um dia implodirá em escuridão, Em treva total e absoluta, Anulando-se no zero, Infinitamente vazio.
Lx, 10-6-2012
840
O Homem e o Mundo
A complexidade da consciência à mercê da imaginação humana, do sonho ao pesadelo, fomenta toda a dialéctica metafísica inerente ao ser humano como pessoa una e indivisível. O mundo é visto e sentido consoante as consciências dos biliões de Homens que dele fazem parte, cada um interpreta-o à sua maneira reproduzindo um quadro único e irrepetível do Universo. Assim sendo, o Universo como entidade única é simples apesar do seu caminho para o infinito. O Homem apesar da sua natureza finita, transcende e extrapola em todas as variações cognitivas possíveis de interacção com o Mundo, centralizando em si mesmo a razão de existência do próprio Cosmos. Partindo do princípio de que o caminho para a resolução de problemas é geralmente o mais lógico e simples, questiono a excessiva verborreia existencialista que faz parte da vida do homem ao longo do seu trajecto efémero. Em que acredita piamente que a luz que carrega é eterna, com a singularidade de tentar antropomorfizar a própria alma divina em quem confia. Está assim também a própria essência do espírito a ser moldada tal e qual o Mundo à imagem de cada ser humano e a espalhar-se exponencialmente na retórica implícita das religiões. O Homem existencialista livre de corpo, mente e espírito devia dominar toda a panóplia de entendimentos intrapessoais, e cada qual também à sua maneira, ou de forma pacífica e sóbria, ou tempestiva e pretensiosa. O homem nasceu do acaso e não o acaso foi criado para que o Homem irrompesse. A causa efeito está nitidamente invertida. O Homem é filho do caos. O Homem cria as leis, as penas a cumprir, define o Bem e o Mal, e é Ele próprio o juiz no dia do julgamento final.