A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Nas nuvens imaculadas, onde se diluía o meu pensar, em tons esbatidos, de mil e uma quimeras. Esvoaçavam transfiguradas ao vento, pelo seu toque gentil, de mil e uma penas. Translúcidas e cristalinas, de cor alva e pura, expressavam o seu âmago incorruptível. Eram assim as nuvens da minha infância, como que de algodão doce, com figuras pitorescas, que me fizeram sonhar enternecido, sonhos fabulosos de histórias míticas. Os heróis recriados no céu, ao sabor do bulício isobárico. As nuvens da minha meninice, onde param elas? Hoje são tão diferentes ao meu olhar, tão cerradas, escuras como breu, carregadas de tempestivas veracidades, ofegantes e opressivas erram além-mar. Transfigurado nelas, deixei-me levar ao sabor do vento forte e sussurrante, consigo ouvir os fantasmas dos meus pesadelos deambular, cantando em uníssono, num aliviado trovejar.
Lx, 19-11-2006
705
Áurea Solar
O Sol brilha quente, Lisonjeador e afortunado, Aquece as almas doridas, Afaga-nos o corpo desnudado.
Ente querido criador, Dás esperanças esperançado, Às vidas que permitiste gerar, Deambulando sob alçado.
Pela Terra a quem poupaste, Ser teu regaço de chamas, Agora esventrada à dor atroz, Lancinante em voraz agonia.
Decalcada de almas sós, Embriagadas com mil quimeras, Voláteis sentimentalistas, Vagueiam proscritas e infames.
Rogamos-te ó Sol, Carrasco de primogénitos, Tal como outrora precioso, Ergamos as mãos ao alto.
Em uníssono suplicamos, A luz da tua indulgência, Apaziguadora e terna, Sobre os nossos corações.
Frios e cansados, Há muito quebrados, Ansiosos pela fulgura, De estrela mãe tão pura.
Lx, 3-10-2008
675
Viagens Celestiais
Quando a mente entra em estágio reflexivo, e se expande para além do corpo extra-sensorial, como que hibernando da razão. Divagando escorreito para o infinito onde se esconde o vazio. Desligado do mundo de encontro aos grandes espaços onde o vácuo é reinante e o silêncio inquebrável. O sibilar da mente letárgica a entrar no cosmos épico, onde forças telúricas povoam intervalos ocos, criando novos mundos do todo primordial. O sentir diluir-se na torrente plasmática universal, como parte integrante e interactiva, como consciência do tempo, do espaço e da matéria. Interagindo como reflexo da sua própria existência. Sou apenas a imagem do Universo no espelho da vida, para afastar definitivamente a dúvida da sua própria identidade. Desaparecendo num incerto dia na inatingibilidade dos elementos desprofanados.
Lx, 26-11-2006
771
Não-Humanos
Escoam os impropérios, Pelos interstícios das suas vidas. O boçal vil poluto, Procria incessantemente, Funestas crias, Anti Darwinistas, Mediático-dependentes, Mentecaptos insalubres. A verdade absoluta, Encarnada nas suas cabeças, Absortas e indigentes, Desalmadas, Imberbes de razão, Pululam subservientes, Afogadas na sua frugalidade primária. Despidos de Arte e Beleza, Desprovidos de consciência, Subjugados pelos impulsos primitivos, Incomodam o outrem, Incessantemente e exaustivamente. Um contágio de morte, Subsiste na cidade.
Lx, 6-8-2010
688
Loucura
Desespero ansioso, Desânimo sepulcral, Espectro num abismo, De olhar fixo e vazio, De coração selado, Quebrado.
Alma arreada fugida, Os gritos de terror, Contínuos e lancinantes, Ecoam em arrepios, Alma presa na masmorra, Da vã intolerância.
Os pesadelos reais, Fantasmas de preto, A deambularem, Na escuridão estéril, Onde a luz se esvaiu, Há muito tempo.
O labirinto onde jaz, Perdida a consciência, Numa viagem de ida sem volta, Ao avesso da humanidade, Agora desvendado, Desencarnado.
Os segredos escondidos, Agora violados, esventrados, Aviltados pela demência, Engolidos de vez pelo todo, Diluídos no esquecimento dos elementos, No caos telúrico existencial, Mergulhados na matéria negra, Da metafísica sensorial.
Lx, 10-11-2007
635
O Homem e o Mundo
A complexidade da consciência à mercê da imaginação humana, do sonho ao pesadelo, fomenta toda a dialéctica metafísica inerente ao ser humano como pessoa una e indivisível. O mundo é visto e sentido consoante as consciências dos biliões de Homens que dele fazem parte, cada um interpreta-o à sua maneira reproduzindo um quadro único e irrepetível do Universo. Assim sendo, o Universo como entidade única é simples apesar do seu caminho para o infinito. O Homem apesar da sua natureza finita, transcende e extrapola em todas as variações cognitivas possíveis de interacção com o Mundo, centralizando em si mesmo a razão de existência do próprio Cosmos. Partindo do princípio de que o caminho para a resolução de problemas é geralmente o mais lógico e simples, questiono a excessiva verborreia existencialista que faz parte da vida do homem ao longo do seu trajecto efémero. Em que acredita piamente que a luz que carrega é eterna, com a singularidade de tentar antropomorfizar a própria alma divina em quem confia. Está assim também a própria essência do espírito a ser moldada tal e qual o Mundo à imagem de cada ser humano e a espalhar-se exponencialmente na retórica implícita das religiões. O Homem existencialista livre de corpo, mente e espírito devia dominar toda a panóplia de entendimentos intrapessoais, e cada qual também à sua maneira, ou de forma pacífica e sóbria, ou tempestiva e pretensiosa. O homem nasceu do acaso e não o acaso foi criado para que o Homem irrompesse. A causa efeito está nitidamente invertida. O Homem é filho do caos. O Homem cria as leis, as penas a cumprir, define o Bem e o Mal, e é Ele próprio o juiz no dia do julgamento final.
Lx, 16-4-2006
678
Era Uma Vez
O Homem nasceu quando um dia o Cosmos se reconheceu ao espelho. Do caos telúrico do Universo nasceu a ordem da evolução. Da beleza da alma nasceu o sonho da arte. Da sua contemplação nasceu a consciência do todo. E a consciência gerou o caos metafísico. A própria vida desenrola-se e esvai-se retoricamente ambivalente. Só vindo a encontrar respostas ao se extinguir. Quando os seus elementos primordiais se diluírem na fonte do esquecimento. Eterno e omnisciente Mundo longínquo que ousou um dia sonhar acordado. Encarnar um planeta azul de mil e uma personagens liliputianas únicas, perdidas no labirinto do seu egocentrismo.
Lx, 17-2-2006
695
Um Dia De Verão
Deitado na areia quente, Fina e delicada como seda, Paradigma tão eloquente, Rodeado de Estrelas no Céu, Como grãos infinitos na praia, Aconchegados ao monte. Saúdam o Mar calmo, Sereno com reflexos de luar, Onde me banho à Noite, Ao fim de um dia de Verão. Ouço soluçar a minha Alma, Confusa mas serena, Ansiosa pelo Sol raiar, Virtuosa e livre, Como a nuvem que passa só, De passagem imperceptível, Orgulhosamente só. Mar imenso onde se afogam, As lágrimas do Mundo, Escondes os segredos, Que eu mais queria desvendar, A calma que emanas, Quando mergulho em ti, O meu pensar.
Lx, 24-11-2005
631
O Pão Nosso
Cantares pela Seara ecoam, Dão júbilos à fartura, São o Povo de outrora, As Almas que além Tejo povoam, Saudosas do Sol sentir, Quente a amadurecer o Pão, Alimento para o corpo servir, Cantares e lamentos de então, Nostalgia saudosa febril, São espectros deambulantes.
Trigais ao Vento ondulam, Em uníssono e vigorosos, Transmitem a calma à Vida, De todos os que a procuram, Ávidos de respostas sequiosas, Eles lá continuarão pacientes, Enamorados pelo Sol radioso, Desvendarão o seu segredo, Em farinha aos presentes, Famintos no degredo.
E as avezinhas que pululam, Por ali, por aqui, por aí felizes, Depenicam o grão tal como, Os petizes a jogar ao pião. Serenos e livres vagueiam, Dormitam à tardinha, No estio do Verão, Quentes e inocentes tal como, O sonhar da ilusão.
Lx, 6-2-2006
671
Ser Ou Não Ser
Sou assim, Porque sou Eu, Se fosse como qualquer outro, Deixava de O ser, Viveria angustiado, Se me obrigassem a sê-lo, Ficaria prisioneiro de Mim, Assim como Sou, Apenas vivo torturado, Orgulhosamente Só, Mas honrado, Talvez infeliz, Mas revoltado, Sou assim, Sou Poeta, Fatalista, Por favor.