A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Inútil ter ganho a batalha,
Sem altruísmo na partilha.
Inútil a conversa fiada,
Sem uma face encarada.
Inútil um réquiem,
A uma alma finada.
Lx, 24-4-2008
619
O Homem e o Mundo
A complexidade da consciência à mercê da imaginação humana, do sonho ao pesadelo, fomenta toda a dialéctica metafísica inerente ao ser humano como pessoa una e indivisível.
O mundo é visto e sentido consoante as consciências dos biliões de Homens que dele fazem parte, cada um interpreta-o à sua maneira reproduzindo um quadro único e irrepetível do Universo.
Assim sendo, o Universo como entidade única é simples apesar do seu caminho para o infinito.
O Homem apesar da sua natureza finita, transcende e extrapola em todas as variações cognitivas possíveis de interacção com o Mundo, centralizando em si mesmo a razão de existência do próprio Cosmos.
Partindo do princípio de que o caminho para a resolução de problemas é geralmente o mais lógico e simples, questiono a excessiva verborreia existencialista que faz parte da vida do homem ao longo do seu trajecto efémero.
Em que acredita piamente que a luz que carrega é eterna, com a singularidade de tentar antropomorfizar a própria alma divina em quem confia.
Está assim também a própria essência do espírito a ser moldada tal e qual o Mundo à imagem de cada ser humano e a espalhar-se exponencialmente na retórica implícita das religiões.
O Homem existencialista livre de corpo, mente e espírito devia dominar toda a panóplia de entendimentos intrapessoais, e cada qual também à sua maneira, ou de forma pacífica e sóbria, ou tempestiva e pretensiosa.
O homem nasceu do acaso e não o acaso foi criado para que o Homem irrompesse. A causa efeito está nitidamente invertida. O Homem é filho do caos.
O Homem cria as leis, as penas a cumprir, define o Bem e o Mal, e é Ele próprio o juiz no dia do julgamento final.
Lx, 16-4-2006
674
O Meu Tempo
O meu tempo esvai-se escorrendo impiedosamente e irreversível, ora docemente, ora amarguradamente transversal à risível existência.
Aqueles tempos imemoriais, ávidos intemporais absortos pelo momento singular emotivo e puro, lampejos arrebatadores do âmago intangível.
Aquele determinado quadro sensitivo apreciado, retido como um instantâneo e vivido num certo tempo preenchido do essencial, e hoje sonhado apenas como tal de tão especial, arrebatador, único e pessoal. Encarnação do personificado código primordial, talvez da felicidade.
Avulsos e raros momentos perdidos na imensidão da memória dos sonhos, num pesadelo vitalício de insignificâncias hoje inenarráveis, apagados eternamente nas frugais encíclicas incertezas do amanhã.
Lx, 16-8-2006
649
Nuvens
Nas nuvens imaculadas, onde se diluía o meu pensar, em tons esbatidos, de mil e uma quimeras.
Esvoaçavam transfiguradas ao vento, pelo seu toque gentil, de mil e uma penas.
Translúcidas e cristalinas, de cor alva e pura, expressavam o seu âmago incorruptível.
Eram assim as nuvens da minha infância, como que de algodão doce, com figuras pitorescas, que me fizeram sonhar enternecido, sonhos fabulosos de histórias míticas.
Os heróis recriados no céu, ao sabor do bulício isobárico. As nuvens da minha meninice, onde param elas?
Hoje são tão diferentes ao meu olhar, tão cerradas, escuras como breu, carregadas de tempestivas veracidades, ofegantes e opressivas erram além-mar.
Transfigurado nelas, deixei-me levar ao sabor do vento forte e sussurrante, consigo ouvir os fantasmas dos meus pesadelos deambular, cantando em uníssono, num aliviado trovejar.
Lx, 19-11-2006
702
Contraditório
A humildade dum Poeta,
A arrogância dum tolo.
Uma paisagem natural,
Um subúrbio engavetado.
Um belo corpo nu,
Um doente acabado.
Um dia primaveril,
Outro de estio doentio.
A elegância sensual,
O mau-gosto vulgar.
A cultura eloquente,
A ignorância latente.
A leveza do ser,
O pesar da alma.
Gente feliz,
Outra maltratada.
Silêncio dourado,
Retórica presidiária.
Linhas direitas,
Caos existencial.
Jardins suspensos,
Muros de pedra.
Canções de embalar,
Beijos de traição.
Amor desprotegido,
Liberdade condicional.
O lugar perdido,
Sorte avarenta.
Alma a divagar,
Corpo subserviente.
Contemplação,
Linha de montagem.
Verdade,
Encenação.
Dia febril,
Noite calma.
A tua vida,
A minha morte.
Lx, 25-11-2006
626
Estórias Da Carochinha
As estórias de embalar,
Os medos incutidos,
A ficção da realidade,
O impingir gratuito,
As manipulações mesquinhas,
A roupa da moda,
A religião da moda,
A praia da moda,
A música da moda,
O bar da moda,
O detergente da moda,
O actor da moda,
O cantor da moda,
A modelo da moda,
Os ídolos,
Os totens,
Os deuses,
Recuso-me a participar nesta manada de indigentes mentais que coiceiam, pisam e procriam inebriados como escravos manipulados às mãos dum deus menor.
A tudo isso, não, mil vezes não. Prezo a minha integridade mental e a minha Liberdade individual acima de tudo e de todos.
Lx, 16-8-2006
649
Um Dia De Verão
Deitado na areia quente,
Fina e delicada como seda,
Paradigma tão eloquente,
Rodeado de Estrelas no Céu,
Como grãos infinitos na praia,
Aconchegados ao monte.
Saúdam o Mar calmo,
Sereno com reflexos de luar,
Onde me banho à Noite,
Ao fim de um dia de Verão.
Ouço soluçar a minha Alma,
Confusa mas serena,
Ansiosa pelo Sol raiar,
Virtuosa e livre,
Como a nuvem que passa só,
De passagem imperceptível,
Orgulhosamente só.
Mar imenso onde se afogam,
As lágrimas do Mundo,
Escondes os segredos,
Que eu mais queria desvendar,
A calma que emanas,
Quando mergulho em ti,
O meu pensar.
Lx, 24-11-2005
628
O Pão Nosso
Cantares pela Seara ecoam,
Dão júbilos à fartura,
São o Povo de outrora,
As Almas que além Tejo povoam,
Saudosas do Sol sentir,
Quente a amadurecer o Pão,
Alimento para o corpo servir,
Cantares e lamentos de então,
Nostalgia saudosa febril,
São espectros deambulantes.
Trigais ao Vento ondulam,
Em uníssono e vigorosos,
Transmitem a calma à Vida,
De todos os que a procuram,
Ávidos de respostas sequiosas,
Eles lá continuarão pacientes,
Enamorados pelo Sol radioso,
Desvendarão o seu segredo,
Em farinha aos presentes,
Famintos no degredo.
E as avezinhas que pululam,
Por ali, por aqui, por aí felizes,
Depenicam o grão tal como,
Os petizes a jogar ao pião.
Serenos e livres vagueiam,
Dormitam à tardinha,
No estio do Verão,
Quentes e inocentes tal como,
O sonhar da ilusão.
Lx, 6-2-2006
671
Era Uma Vez
O Homem nasceu quando um dia o Cosmos se reconheceu ao espelho.
Do caos telúrico do Universo nasceu a ordem da evolução.
Da beleza da alma nasceu o sonho da arte.
Da sua contemplação nasceu a consciência do todo.
E a consciência gerou o caos metafísico.
A própria vida desenrola-se e esvai-se retoricamente ambivalente.
Só vindo a encontrar respostas ao se extinguir.
Quando os seus elementos primordiais se diluírem na fonte do esquecimento.
Eterno e omnisciente Mundo longínquo que ousou um dia sonhar acordado.
Encarnar um planeta azul de mil e uma personagens liliputianas únicas, perdidas no labirinto do seu egocentrismo.
Lx, 17-2-2006
692
Ser Poeta Pode Ser
Nascer todos os dias e morrer sempre à noitinha,
Uma cabrinha a pastar com os lobos a deambular,
Vaguear todo o dia mas voltar sempre à tardinha,
Montar um cavalo selvagem sem nunca o amansar.
Amar ardentemente sem o fogo conseguir apagar,
Naufragar na tempestade para vir morrer na praia,
A tristeza triste duma criança órfã a soluçar,
Quando uma pobre catraia no mar se espraia.
Uma garrafa vazia à tona com a maré,
Uma caixa de música com a corda partida,
Uma mulher bonita no meio da ralé,
Um teólogo velho e de alma perdida.
O segredo dos Deuses à solta no manicómio,
Mil prisões e toda a fúria nelas contida,
Um adolescente carente à beira do promontório,
Uma fonte do caminho de água esquecida.
A solidão atroz das multidões em corrupio,
Lamentos e consolos sofridos afim,
As andorinhas na Primavera morrerem ao frio,
Esperar pacientemente a Morte ao fim.