A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Pareço viver desde o início dos tempos, As minhas lágrimas criaram os mares, Porque me abandonaste sem alentos, Valia mais me cruxificares.
Deixaste-me angustiadamente só, Nem o vento me acaricia os cabelos, Nem o sol me aquece a alma em dó, Nem a fonte sacia os meus apelos.
Trago a Humanidade aos ombros, Nasci Poeta fatalista, Sofro pela Humanidade aos tombos, Morro Poeta idealista.
Nem as colinas do monte, Nem as ondas do mar, Nem a moça de fronte, Me fazem encantar.
Lx, 24-7-2000
674
Sentirei falta Um dia
As montanhas desaparecidas, As noites de Verão esquecidas, O pão nosso de cada dia, Conversas até hora tardia.
Os ribeiros nascem dos rios, Dos pardais ouvem-se os pios, Da fonte jorra água pura, O Sol põe-se, o céu perdura.
Campos verdes ao relento, Ensombrados por nuvens ao vento, Árvores esquecidas ao centro, Com troncos ocos por dentro.
Vales húmidos lacrimejantes, Geram terras ricas e pujantes, O luar reflecte-se no orvalho, A noite acaba mais um dia de trabalho.
Abrupta a falésia precipita-se no mar, Azul tingido pelo céu a estrelar, As ondas afagam a areia doirada, Chamam ofegantes pela alvorada.
Lx, 23-3-1998
655
Seara
Uma seara me sorriu, Foi hoje de manhazinha, Ondulava ao vento que partiu, Ficou tão sozinha,
Tão triste ela ficou, Pelo vento abandonada, Pisquei-lhe um olho e ela corou, Ficou por mim enamorada.
Lx, 21-9-2000
661
Vales Encantados
Vales verdes tão férteis e húmidos, Recebeis todas as lágrimas vertidas, De todos os cumes dos Mundos, Tão enriquecidos de terras ávidas.
São o Paraíso verde Terrestre, De tempo ameno e odores frescos, À custa do cume estéril campestre, Tão agreste e pobre de ventos secos.
Piscinas de água cristalina azul clara, Com relvados bem conservados e verdes, Com gente de bem regateando e cara, Tão egocêntrica de tantas ignobilidades.
Sugam o próximo lentamente até ao tutano, Escravizam o semelhante até à exaustão, Mas é nos cumes altos que durante o ano, Ao Sol as neves eternas resistem à combustão.
Que asco as pessoas tão quotidianas e fúteis, Tão despovoadas na sua desprezibilidade, Que dor as pessoas tão puritanas e inúteis, Tão hostis e carentes na sua sociabilidade.
Lx, 28-6-1995
635
Horas Certas
Que bom saber, Ter o Sol hora marcada, Para nascer.
Que bom saber, Ter eu hora marcada, Para morrer.
Que bom saber, Não ter o vento hora certa, Para soprar.
Que bom saber, Não ter o vento direcção certa, A tomar.
Que bom saber, A alvorada preceder o dia nascer, Tão quente.
Que bom saber, A noite preceder a minha alma padecer, Tão demente.
Que bom não saber, Nada de nada, E vaguear na estrada.
Que bom não saber, Onde nos vai levar, Nem quando lá chegar.
Que bom não saber, Haver alguém a acenar, A vir-me esperar.
Que bom não saber, O caminho da entrada, Nem ter mapa de chegada.
Que bom não saber, A rudeza da caminhada, E de nunca ser lembrada.
Que bom não saber, Nada de nada, Só ver o dia nascer por nascer, Só ver o anoitecer por anoitecer, E o vento soprar por tudo e por nada.
Lx, 8-8-1999
788
Esvoaçar
Asas anseiam abrir-se ao vento, Partilhando com ele a vida, Voam sob grande tormento, E a Lua reflecte-se impávida.
Voam por montes e campanários, Por riachos, vales e feiras, Matam a sede em fontanários, De exaustão caiem nas beiras.
Voam ao sabor das correntes, Ascendentes e descendentes pelo ar, Asas planam transcendentes, A tempestade murmura ao chegar.
Asas batem leve levemente, A chuva não tarda enfim, A enxurrada cai livremente, A minha Alma poisa por fim.
Lx. 12-9-1999
642
Indignas
Não sois dignas dos meus poemas finados sentidos, Antes deixá-los amarelecer podres aos bichos-de-conta, Afastai dos meus versos vossos corpos pervertidos, Não quero vê-los cobiçados como roupa de montra, São sublimes e luxuriantes como peles de lontra,
Eles são os tormentos pela minha alma auferidos, Afogados em dor e solidão submergiram numa onda, Senti-me só e os meus olhos choraram entristecidos, Quem me dera ser eterno pastor de mitos antigos, Abandonado ter só a chuva e o vento como abrigos.
Lx, 29-12-1994
697
Anónima
Espero ansioso pelo raiar do dia, Só nasce quando surges no horizonte, Radiosa e quente com o sol à porfia, Misteriosa como o luar no monte.
Exalas ao passar doces fragrâncias, Das mais lindas flores do campo, Tens o sorriso leve de mil infâncias, Que guardarei na alma ao longo do tempo.
Exaltas-me os sentidos quando te observo, Tão calma e serena de gestos tão meigos, Cativaste meu coração para sempre teu servo, Encarnaste em ti toda a filosofia dos gregos.
Tenho passado a vida a te procurar, Paro e escuto para te ouvir a sonhar, O próximo indignado irá vociferar, Mas eu apenas e só te queria amar.
Lx, 21-4-1996
772
Amante Esquecida
Meu amor, minha amiga, Silencioso na tua dor, Espero que a tua alma diga, Meu confessor, meu senhor.
Não me obrigues mais a falar, O silêncio diz-me mais que tudo, Deixa-me observar-te só a arfar, E transcrever-te num poema-mudo.
Abandonaste-me à sorte sem te perceber, Não ouviste sequer os meus versos, Desapareceste na neblina ao amanhecer, Deixaste-me aos meus sentimentos perversos.
Elas passam por mim tão perto, Inatingíveis na sua promiscuidade, Esticam-me a mão para um aperto, Mas estou tão longe, já fora da cidade.