A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Nascer todos os dias e morrer sempre à noitinha, Uma cabrinha a pastar com os lobos a deambular, Vaguear todo o dia mas voltar sempre à tardinha, Montar um cavalo selvagem sem nunca o amansar.
Amar ardentemente sem o fogo conseguir apagar, Naufragar na tempestade para vir morrer na praia, A tristeza triste duma criança órfã a soluçar, Quando uma pobre catraia no mar se espraia.
Uma garrafa vazia à tona com a maré, Uma caixa de música com a corda partida, Uma mulher bonita no meio da ralé, Um teólogo velho e de alma perdida.
O segredo dos Deuses à solta no manicómio, Mil prisões e toda a fúria nelas contida, Um adolescente carente à beira do promontório, Uma fonte do caminho de água esquecida.
A solidão atroz das multidões em corrupio, Lamentos e consolos sofridos afim, As andorinhas na Primavera morrerem ao frio, Esperar pacientemente a Morte ao fim.
Lx, 12-9-2001
628
Monte Estremunhado
Tão branca como as salinas, A névoa embala as colinas, Transpiram algo mais que a vida, Muito para além da já tida, Contam ao vento as mágoas, Tão sentidas e choradas pelas lagoas.
O dia estremunhou devagar, Levantam-se as trevas a bradar, Escondem-se os espíritos ociosos, Diluem-se pelos montes tortuosos, As sombras imperam ao norte, Ouvem-se sussurros de morte.
Lx, 10-1-2001
616
Desencontros
Porque vieram á cidade, Quando Eu andava a escalar montanhas, A navegar em mar alto, A pescar no rio, A passear no bosque, A correr por montados, A ouvir as aves, A sentir o vento soprar, Porque foram embora agora, Quando fico sentado na tumba pela noite fora, Alvoroçado pelo alvorecer da aurora.
Lx, 21-7-2000
647
A Ti
Ao contemplar-te, Fiquei encantado, Ao ouvir-te, Fiquei inspirado.
Como ficarei ao tocar-te, Talvez um petiz, Como estarei ao sentir-te, Talvez feliz.
Não te conheço, Não me conheces, Tentar juntos um começo, São Deus as minhas preces.
Idolatrar-te como Rainha, Só por mim cobiçada, Morreria contigo minha andorinha, Doce alma ao vento seria lançada.
Lx, 22-9-1996
740
O Último Baile
Tristes valsas dançantes, Violinos tocam sonantes, Bailarinos bailem, bailem, A última dança, a do Além.
A sala do baile esvaziou, O anfitrião sussurrou, Violinos calaram-se roucos, As portas fecharam-se aos poucos.
A festa acabou há muito tempo, O salão arruinado com o tempo, Os foliões finaram-se há tempos, Esquecidos ao longo dos tempos.
Que bom saber ao nascer, Saber-mos ir morrer, Todos os dias um pouco mais, E não haver excepção aos demais.
Lx, 22-10-1999
619
Vida
Vida anunciada, Por todos desejada, Sorte almejada, Nasceu amparada, Cresce idolatrada, Bem tratada, Brinca endiabrada, Bem acompanhada, Sonha acordada, Face dourada, Acorda frustrada, Consciencializada, Dorme assustada, Mente esvaziada, Vida atormentada, Chora cansada, Raiva amargurada, Grita silenciosa, Alma viciada, Trepidez idealizada, Razão esgotada, Saudade apagada, Pele encrespada, Esquecida ultrajada, Mingua definhada, Pelo mundo usada, Por Deus enganada, Padece angustiada, Morte anunciada, Por todos esperada, Livre desencarcerada, Vazia eternizada.
Lx, 19-9-1999
714
Amante Esquecida
Meu amor, minha amiga, Silencioso na tua dor, Espero que a tua alma diga, Meu confessor, meu senhor.
Não me obrigues mais a falar, O silêncio diz-me mais que tudo, Deixa-me observar-te só a arfar, E transcrever-te num poema-mudo.
Abandonaste-me à sorte sem te perceber, Não ouviste sequer os meus versos, Desapareceste na neblina ao amanhecer, Deixaste-me aos meus sentimentos perversos.
Elas passam por mim tão perto, Inatingíveis na sua promiscuidade, Esticam-me a mão para um aperto, Mas estou tão longe, já fora da cidade.
Espero ansioso pelo raiar do dia, Só nasce quando surges no horizonte, Radiosa e quente com o sol à porfia, Misteriosa como o luar no monte.
Exalas ao passar doces fragrâncias, Das mais lindas flores do campo, Tens o sorriso leve de mil infâncias, Que guardarei na alma ao longo do tempo.
Exaltas-me os sentidos quando te observo, Tão calma e serena de gestos tão meigos, Cativaste meu coração para sempre teu servo, Encarnaste em ti toda a filosofia dos gregos.
Tenho passado a vida a te procurar, Paro e escuto para te ouvir a sonhar, O próximo indignado irá vociferar, Mas eu apenas e só te queria amar.
Lx, 21-4-1996
769
Contemplando
No cimo dum cume contemplo, A paisagem enche-me a alma, O Sol beija o granito do templo, O vento acorda a seara calma,
Inspiro profundamente a brisa pura, Deleito-me com os odores doces no ar, Confundo-me com o Todo que perdura, A água dos ribeiros anseia pelo mar.
As nuvens esbatem-se nas colinas, Como um teatro velho de sombras, As personagens são tão antigas, Repara bem Deus não te lembras.
Começa a chover cada vez mais, Os pardais albergam-se onde podem, As crias desaparecem nos matagais, Nos rios correntes de água sobem.
O vento esmorece e a noite cai, A tempestade já lá vai e o sono vem, A Lua calma resplandecente sai, E embala-me ao relento num vai vem.
Lx, 25-10-1999
582
Só Em Corpo e Alma
I
Onde estás tu sinto-me tão só, Tanta dor chego a meter dó, Vem afagar-me com carinhos, Vestida de fada com brancos linhos, És a minha Estrela Polar, A mais brilhante ao luar, Ofuscas tudo ao teu redor, Uma rainha no seu esplendor, Cabelos dourados soltos ao vento, Como trigais maduros ao relento, Olhos azuis de águas cristalinas, Saltitam como duas bailarinas, Peitos altivos anseiam criar vida, Pululam no teu corpo dão guarida,á A tua boca de lábios tumescentes, Procuram os meus saudosos e carentes, A tua pele macia de um branco divinal, Espera por mim para a acariciar como tal, Cintura fina de linhas esbeltas, Precede ancas largas de paixões maternas, E pernas torneadas sempre alertas, Encontra-me e satisfaz meus anseios perenes.