Alienados
Jantares corridos,
Sob silêncios enaltecidos,
Encarcerados para sempre,
Cativos pelo Luar,
Vozes ecoam a soar,
Fora de abrigos,
São chilreios entristecidos.
Acordo embriagado,
Pela cabeça pendurado,
Degolado para sempre,
Puzzle dum último patamar,
Esquecido para amar,
Desprotegido sem afago,
Vestiram-me de camuflado.
Sons dum rio a chapinhar,
Avivam-me como um troar,
Por mim desfalecido chamam,
Andorinhas vagueiam nas margens,
Os campos parem verdes vagens,
Dissolvo-me em fétido ar,
A Natureza insiste em me purificar.
Lx, 13-4-1995
Só
Novamente só me encontro,
Numa solidão triste e duradoura,
à que persistir para por fim,
Talvez não desistir em pranto,
Vencido por uma sociedade enganadora,
Simplesmente à espera dum sim pronto,
Todos os dias continua a chover só para mim,
Todas as noites recolho ao meu antro,
Onde afogo as mágoas já gastas,
Chega de carências inclementes, basta.
Lx, 23-2-1996
Vida
Vida anunciada,
Por todos desejada,
Sorte almejada,
Nasceu amparada,
Cresce idolatrada,
Bem tratada,
Brinca endiabrada,
Bem acompanhada,
Sonha acordada,
Face dourada,
Acorda frustrada,
Consciencializada,
Dorme assustada,
Mente esvaziada,
Vida atormentada,
Chora cansada,
Raiva amargurada,
Grita silenciosa,
Alma viciada,
Trepidez idealizada,
Razão esgotada,
Saudade apagada,
Pele encrespada,
Esquecida ultrajada,
Mingua definhada,
Pelo mundo usada,
Por Deus enganada,
Padece angustiada,
Morte anunciada,
Por todos esperada,
Livre desencarcerada,
Vazia eternizada.
Lx, 19-9-1999
Cidades
Florestas de cimento, encheis meu horizonte,
De um vazio estonteante, assimétrico,
Quero apenas cardos e giestas pela frente,
Banhar-me em água cristalina, frenético.
Porque tenho de viver acompanhado,
De mil figuras ridículas e mesquinhas,
Quem me dera andar por aí largado,
Correr por montados, campas minhas.
Coberto de sombras sem luz natural,
Definho encarcerado em quatro paredes,
Anseio por céus estrelados e odor natural,
Longe destes fétidos e repugnantes enredos.
Inalo o cheiro a terra molhada,
Como se fosse a última vez,
Aguardo a derradeira alvorada,
Em que me entregarei de vez.
Lx. 1-6-1995
Ser Ou Não Ser
Sou assim,
Porque sou Eu,
Se fosse como qualquer outro,
Deixava de O ser,
Viveria angustiado,
Se me obrigassem a sê-lo,
Ficaria prisioneiro de Mim,
Assim como Sou,
Apenas vivo torturado,
Orgulhosamente Só,
Mas honrado,
Talvez infeliz,
Mas revoltado,
Sou assim,
Sou Poeta,
Fatalista,
Por favor.
Lx, 25-7-2000
Amante Esquecida
Meu amor, minha amiga,
Silencioso na tua dor,
Espero que a tua alma diga,
Meu confessor, meu senhor.
Não me obrigues mais a falar,
O silêncio diz-me mais que tudo,
Deixa-me observar-te só a arfar,
E transcrever-te num poema-mudo.
Abandonaste-me à sorte sem te perceber,
Não ouviste sequer os meus versos,
Desapareceste na neblina ao amanhecer,
Deixaste-me aos meus sentimentos perversos.
Elas passam por mim tão perto,
Inatingíveis na sua promiscuidade,
Esticam-me a mão para um aperto,
Mas estou tão longe, já fora da cidade.
Tão ignóbeis,
Tão imbecis,
Tão hábeis,
Tão pueris.
Lx, 23-6-1995
Vales Encantados
Vales verdes tão férteis e húmidos,
Recebeis todas as lágrimas vertidas,
De todos os cumes dos Mundos,
Tão enriquecidos de terras ávidas.
São o Paraíso verde Terrestre,
De tempo ameno e odores frescos,
À custa do cume estéril campestre,
Tão agreste e pobre de ventos secos.
Piscinas de água cristalina azul clara,
Com relvados bem conservados e verdes,
Com gente de bem regateando e cara,
Tão egocêntrica de tantas ignobilidades.
Sugam o próximo lentamente até ao tutano,
Escravizam o semelhante até à exaustão,
Mas é nos cumes altos que durante o ano,
Ao Sol as neves eternas resistem à combustão.
Que asco as pessoas tão quotidianas e fúteis,
Tão despovoadas na sua desprezibilidade,
Que dor as pessoas tão puritanas e inúteis,
Tão hostis e carentes na sua sociabilidade.
Lx, 28-6-1995
O Último Baile
Tristes valsas dançantes,
Violinos tocam sonantes,
Bailarinos bailem, bailem,
A última dança, a do Além.
A sala do baile esvaziou,
O anfitrião sussurrou,
Violinos calaram-se roucos,
As portas fecharam-se aos poucos.
A festa acabou há muito tempo,
O salão arruinado com o tempo,
Os foliões finaram-se há tempos,
Esquecidos ao longo dos tempos.
Que bom saber ao nascer,
Saber-mos ir morrer,
Todos os dias um pouco mais,
E não haver excepção aos demais.
Lx, 22-10-1999
Musa Divina
Musa divina envolvente e pura,
Inclui-me nos teus sonhos de mulher,
Luxúria de perfumes e carne prematura,
Do teu regaço brotem rosas para só eu colher.
Desejo saborear teus lábios maduros,
Pelo Sol radioso de mil Primaveras,
O vento trespassa teus cabelos dourados,
Desnudando teu rosto de mil quimeras.
Teus olhos de verde-esmeralda,
Enfeitiçaram-me eternamente,
Meu coração está cativo minha fada,
Liberta-me e recebe meu fogo envolvente.
Deleito-me com a tua figura esbelta,
Recortada onde quer que passes serena,
Curvilínea com formas de mulher feita,
Desejar-te-ei continuamente minha pequena.
Deixa-me desflorar-te todos os dias meu amor,
Embalar-te em meus braços até dormires,
Partilhar contigo todo o teu fervor,
Idolatrar-te para sempre até partires.
Lx, 16-5-1995
Esvoaçar
Asas anseiam abrir-se ao vento,
Partilhando com ele a vida,
Voam sob grande tormento,
E a Lua reflecte-se impávida.
Voam por montes e campanários,
Por riachos, vales e feiras,
Matam a sede em fontanários,
De exaustão caiem nas beiras.
Voam ao sabor das correntes,
Ascendentes e descendentes pelo ar,
Asas planam transcendentes,
A tempestade murmura ao chegar.
Asas batem leve levemente,
A chuva não tarda enfim,
A enxurrada cai livremente,
A minha Alma poisa por fim.
Lx. 12-9-1999