Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

Perfil
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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

114

O Fim


Pareço viver desde o início dos tempos,
As minhas lágrimas criaram os mares,
Porque me abandonaste sem alentos,
Valia mais me cruxificares.

Deixaste-me angustiadamente só,
Nem o vento me acaricia os cabelos,
Nem o sol me aquece a alma em dó,
Nem a fonte sacia os meus apelos.

Trago a Humanidade aos ombros,
Nasci Poeta fatalista,
Sofro pela Humanidade aos tombos,
Morro Poeta idealista.

Nem as colinas do monte,
Nem as ondas do mar,
Nem a moça de fronte,
Me fazem encantar.

Lx, 24-7-2000
674

Sentirei falta Um dia


As montanhas desaparecidas,
As noites de Verão esquecidas,
O pão nosso de cada dia,
Conversas até hora tardia.

Os ribeiros nascem dos rios,
Dos pardais ouvem-se os pios,
Da fonte jorra água pura,
O Sol põe-se, o céu perdura.

Campos verdes ao relento,
Ensombrados por nuvens ao vento,
Árvores esquecidas ao centro,
Com troncos ocos por dentro.

Vales húmidos lacrimejantes,
Geram terras ricas e pujantes,
O luar reflecte-se no orvalho,
A noite acaba mais um dia de trabalho.

Abrupta a falésia precipita-se no mar,
Azul tingido pelo céu a estrelar,
As ondas afagam a areia doirada,
Chamam ofegantes pela alvorada.


Lx, 23-3-1998
655

Seara


Uma seara me sorriu,
Foi hoje de manhazinha,
Ondulava ao vento que partiu,
Ficou tão sozinha,

Tão triste ela ficou,
Pelo vento abandonada,
Pisquei-lhe um olho e ela corou,
Ficou por mim enamorada.

Lx, 21-9-2000
661

Vales Encantados


Vales verdes tão férteis e húmidos,
Recebeis todas as lágrimas vertidas,
De todos os cumes dos Mundos,
Tão enriquecidos de terras ávidas.

São o Paraíso verde Terrestre,
De tempo ameno e odores frescos,
À custa do cume estéril campestre,
Tão agreste e pobre de ventos secos.

Piscinas de água cristalina azul clara,
Com relvados bem conservados e verdes,
Com gente de bem regateando e cara,
Tão egocêntrica de tantas ignobilidades.

Sugam o próximo lentamente até ao tutano,
Escravizam o semelhante até à exaustão,
Mas é nos cumes altos que durante o ano,
Ao Sol as neves eternas resistem à combustão.

Que asco as pessoas tão quotidianas e fúteis,
Tão despovoadas na sua desprezibilidade,
Que dor as pessoas tão puritanas e inúteis,
Tão hostis e carentes na sua sociabilidade.

Lx, 28-6-1995
635

Horas Certas



Que bom saber,
Ter o Sol hora marcada,
Para nascer.

Que bom saber,
Ter eu hora marcada,
Para morrer.

Que bom saber,
Não ter o vento hora certa,
Para soprar.

Que bom saber,
Não ter o vento direcção certa,
A tomar.

Que bom saber,
A alvorada preceder o dia nascer,
Tão quente.

Que bom saber,
A noite preceder a minha alma padecer,
Tão demente.

Que bom não saber,
Nada de nada,
E vaguear na estrada.

Que bom não saber,
Onde nos vai levar,
Nem quando lá chegar.

Que bom não saber,
Haver alguém a acenar,
A vir-me esperar.

Que bom não saber,
O caminho da entrada,
Nem ter mapa de chegada.

Que bom não saber,
A rudeza da caminhada,
E de nunca ser lembrada.

Que bom não saber,
Nada de nada,
Só ver o dia nascer por nascer,
Só ver o anoitecer por anoitecer,
E o vento soprar por tudo e por nada.

Lx, 8-8-1999
788

Esvoaçar



Asas anseiam abrir-se ao vento,
Partilhando com ele a vida,
Voam sob grande tormento,
E a Lua reflecte-se impávida.

Voam por montes e campanários,
Por riachos, vales e feiras,
Matam a sede em fontanários,
De exaustão caiem nas beiras.

Voam ao sabor das correntes,
Ascendentes e descendentes pelo ar,
Asas planam transcendentes,
A tempestade murmura ao chegar.

Asas batem leve levemente,
A chuva não tarda enfim,
A enxurrada cai livremente,
A minha Alma poisa por fim.

Lx. 12-9-1999
642

Indignas


Não sois dignas dos meus poemas finados sentidos,
Antes deixá-los amarelecer podres aos bichos-de-conta,
Afastai dos meus versos vossos corpos pervertidos,
Não quero vê-los cobiçados como roupa de montra,
São sublimes e luxuriantes como peles de lontra,

Eles são os tormentos pela minha alma auferidos,
Afogados em dor e solidão submergiram numa onda,
Senti-me só e os meus olhos choraram entristecidos,
Quem me dera ser eterno pastor de mitos antigos,
Abandonado ter só a chuva e o vento como abrigos.

Lx, 29-12-1994
697

Anónima


Espero ansioso pelo raiar do dia,
Só nasce quando surges no horizonte,
Radiosa e quente com o sol à porfia,
Misteriosa como o luar no monte.

Exalas ao passar doces fragrâncias,
Das mais lindas flores do campo,
Tens o sorriso leve de mil infâncias,
Que guardarei na alma ao longo do tempo.

Exaltas-me os sentidos quando te observo,
Tão calma e serena de gestos tão meigos,
Cativaste meu coração para sempre teu servo,
Encarnaste em ti toda a filosofia dos gregos.

Tenho passado a vida a te procurar,
Paro e escuto para te ouvir a sonhar,
O próximo indignado irá vociferar,
Mas eu apenas e só te queria amar.

Lx, 21-4-1996
772

Amante Esquecida


Meu amor, minha amiga,
Silencioso na tua dor,
Espero que a tua alma diga,
Meu confessor, meu senhor.

Não me obrigues mais a falar,
O silêncio diz-me mais que tudo,
Deixa-me observar-te só a arfar,
E transcrever-te num poema-mudo.

Abandonaste-me à sorte sem te perceber,
Não ouviste sequer os meus versos,
Desapareceste na neblina ao amanhecer,
Deixaste-me aos meus sentimentos perversos.

Elas passam por mim tão perto,
Inatingíveis na sua promiscuidade,
Esticam-me a mão para um aperto,
Mas estou tão longe, já fora da cidade.

Tão ignóbeis,
Tão imbecis,
Tão hábeis,
Tão pueris.


Lx, 23-6-1995
871

A Vida Por Um Fio


Ansioso por ver o tempo escoar,
Desconfiado por ele me vir a faltar,
Desconheço o meu futuro próximo,
Sei que não darei o meu máximo.

A vida desvanece corporeamente,
Concisa, lenta e impiedosamente,
Não tenho saudades para reter,
Mas choros ébrios latentes a tecer.

Deixei passar tudo ao meu lado,
Dei o destino como um achado,
Porfiarei só a caminho do eterno,
Não cobiçarei um só coração terno.

Sons ecoam na mente inebriante,
Delicados e suaves com semblante,
Estonteiam-me a alma fugaz e vil,
Enlouquecem-me o espírito senil.

Deixei o tempo correr impiedoso,
Já se cumpriu o meu ser lastimoso,
Sentado na tumba espero recolher,
À noite a espera fez-me entristecer.

Lx, 20-6-1999
652

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