A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Nascer todos os dias e morrer sempre à noitinha, Uma cabrinha a pastar com os lobos a deambular, Vaguear todo o dia mas voltar sempre à tardinha, Montar um cavalo selvagem sem nunca o amansar.
Amar ardentemente sem o fogo conseguir apagar, Naufragar na tempestade para vir morrer na praia, A tristeza triste duma criança órfã a soluçar, Quando uma pobre catraia no mar se espraia.
Uma garrafa vazia à tona com a maré, Uma caixa de música com a corda partida, Uma mulher bonita no meio da ralé, Um teólogo velho e de alma perdida.
O segredo dos Deuses à solta no manicómio, Mil prisões e toda a fúria nelas contida, Um adolescente carente à beira do promontório, Uma fonte do caminho de água esquecida.
A solidão atroz das multidões em corrupio, Lamentos e consolos sofridos afim, As andorinhas na Primavera morrerem ao frio, Esperar pacientemente a Morte ao fim.
Lx, 12-9-2001
631
Só
Novamente só me encontro, Numa solidão triste e duradoura, à que persistir para por fim, Talvez não desistir em pranto, Vencido por uma sociedade enganadora, Simplesmente à espera dum sim pronto, Todos os dias continua a chover só para mim, Todas as noites recolho ao meu antro, Onde afogo as mágoas já gastas, Chega de carências inclementes, basta.
Lx, 23-2-1996
645
Desencontros
Porque vieram á cidade, Quando Eu andava a escalar montanhas, A navegar em mar alto, A pescar no rio, A passear no bosque, A correr por montados, A ouvir as aves, A sentir o vento soprar, Porque foram embora agora, Quando fico sentado na tumba pela noite fora, Alvoroçado pelo alvorecer da aurora.
Lx, 21-7-2000
650
Monte Estremunhado
Tão branca como as salinas, A névoa embala as colinas, Transpiram algo mais que a vida, Muito para além da já tida, Contam ao vento as mágoas, Tão sentidas e choradas pelas lagoas.
O dia estremunhou devagar, Levantam-se as trevas a bradar, Escondem-se os espíritos ociosos, Diluem-se pelos montes tortuosos, As sombras imperam ao norte, Ouvem-se sussurros de morte.
Lx, 10-1-2001
617
Cena de Ódio 2
Odeio quando abro a janela ao acordar, E deparo com um mar de gente a trotar, Pela rua abaixo, pela rua acima, Cientes da sua bestialidade ouvem-se zurrar, São esgoto a céu aberto a caminho do mar, Uns em baixo, outros por cima, Como odeio ter a eles de me juntar, Como é possível com eles ainda me desapontar, Odeio a plebe porque é acéfala, Odeio os doutores porque andam de mala, Odeio os drogados porque cheiram mal, Odeio a novela porque não é semanal, Odeio horários de partida e chegada, Odeio os filhos da madrugada, Odeio mulheres brutas e sensuais, Odeio os filhos delas como tais, Odeio a velhice senil, Odeio a juventude febril, Odeio uma criança com uma pomba branca na mão, Odeio comemorar os laços eternos de união, Odeio as montras da vossa tentação, Odeio as vossas conversas de café e perversão, O vosso pecado original foi não terem todos morrido ao nascer.
Lx, 8-12-1996
661
Só Em corpo e Alma (2ª Parte)
II
Agradam-me os teus sorrisos em código, Unicamente e só para mim decifráveis, Quero despertar eternamente contigo, Envelhecendo juntos por anos inviáveis, Quero acompanhado por ti sonhar acordado, Desejar-te platonicamente endiabrado, Acaba com a minha ansiedade febril, Preenche-me a vida estéril e senil, Com os teus gestos meigos, E lábios de mulher leigos, Cativas meu coração comprometido, Com a luz aureolar do teu corpo prometido, Confessar-te-ei a essência do meu "Eu", E tu acolher-me-ás, meu espírito renasceu, E jurou amor eterno com fervor, És a minha diva e meu mentor, Seremos almas gémeas afortunadas, Na paixão mútua enclausuradas, Seremos somente nós dois apenas, Guiados pelo vento como duas leves penas, Partilharemos as dores e tormentos, Pareceremos em prantos e lamentos.
Lx, 13-7-1995
655
Só Em Corpo e Alma
I
Onde estás tu sinto-me tão só, Tanta dor chego a meter dó, Vem afagar-me com carinhos, Vestida de fada com brancos linhos, És a minha Estrela Polar, A mais brilhante ao luar, Ofuscas tudo ao teu redor, Uma rainha no seu esplendor, Cabelos dourados soltos ao vento, Como trigais maduros ao relento, Olhos azuis de águas cristalinas, Saltitam como duas bailarinas, Peitos altivos anseiam criar vida, Pululam no teu corpo dão guarida,á A tua boca de lábios tumescentes, Procuram os meus saudosos e carentes, A tua pele macia de um branco divinal, Espera por mim para a acariciar como tal, Cintura fina de linhas esbeltas, Precede ancas largas de paixões maternas, E pernas torneadas sempre alertas, Encontra-me e satisfaz meus anseios perenes.
Lx, 4-7-1995
660
Mundos
Terra, és o nosso Lar imenso, Quem me dera guardar teus segredos, Na minha biblioteca de bom senso, E desfolhá-los ao sabor dos meus dedos.
Gostava de a trazer arrumada, Na sua anarquia devastadora, Não deixá-la para sempre abandonada, A uma praga humana assustadora.
Terra, sufocas na tua atmosfera envolvente, Só falta proibirem-te a translação celestial, És trespassada por ultravioletas em torrente, Eu sei, sentes-te perdida neste Universo sideral.
Terra, és um paraíso perdido, Viste partir os Deuses do Olimpo, Por biliões de parasitas és agora varrido, Só te resta a Lua fiel como um pirilampo.
Terra bendita, Tão ultrajada, Acredita, Serás ajudada. Lx, 25-7-1995
684
Morte Amiga
Morte fiel e amiga de ar fraterno, Geraste-me no teu ventre materno, Assim já tão provecto cansado de sofrer, Deste-me uma morte lenta a viver, Anseias por me ver na cova a jazer, Sigo os teus chamamentos de dor e tormentos, Embalo nos teus braços a soluçar lamentos, Dás-me de beber o sangue de doentes, Preteres-me à custa de crianças inocentes, Porque sustentas minhas aflições lancinantes, Pela noites incestuosas da minha dor, Leva-me de vez contigo como prova de amor.
Lx, 27-10-1996
612
Ser Ou Não Ser
Sou assim, Porque sou Eu, Se fosse como qualquer outro, Deixava de O ser, Viveria angustiado, Se me obrigassem a sê-lo, Ficaria prisioneiro de Mim, Assim como Sou, Apenas vivo torturado, Orgulhosamente Só, Mas honrado, Talvez infeliz, Mas revoltado, Sou assim, Sou Poeta, Fatalista, Por favor.