Lista de Poemas

Ser Poeta Pode Ser



Nascer todos os dias e morrer sempre à noitinha,
Uma cabrinha a pastar com os lobos a deambular,
Vaguear todo o dia mas voltar sempre à tardinha,
Montar um cavalo selvagem sem nunca o amansar.


Amar ardentemente sem o fogo conseguir apagar,
Naufragar na tempestade para vir morrer na praia,
A tristeza triste duma criança órfã a soluçar,
Quando uma pobre catraia no mar se espraia.


Uma garrafa vazia à tona com a maré,
Uma caixa de música com a corda partida,
Uma mulher bonita no meio da ralé,
Um teólogo velho e de alma perdida.


O segredo dos Deuses à solta no manicómio,
Mil prisões e toda a fúria nelas contida,
Um adolescente carente à beira do promontório,
Uma fonte do caminho de água esquecida.


A solidão atroz das multidões em corrupio,
Lamentos e consolos sofridos afim,
As andorinhas na Primavera morrerem ao frio,
Esperar pacientemente a Morte ao fim.

Lx, 12-9-2001
618

Horas Certas



Que bom saber,
Ter o Sol hora marcada,
Para nascer.

Que bom saber,
Ter eu hora marcada,
Para morrer.

Que bom saber,
Não ter o vento hora certa,
Para soprar.

Que bom saber,
Não ter o vento direcção certa,
A tomar.

Que bom saber,
A alvorada preceder o dia nascer,
Tão quente.

Que bom saber,
A noite preceder a minha alma padecer,
Tão demente.

Que bom não saber,
Nada de nada,
E vaguear na estrada.

Que bom não saber,
Onde nos vai levar,
Nem quando lá chegar.

Que bom não saber,
Haver alguém a acenar,
A vir-me esperar.

Que bom não saber,
O caminho da entrada,
Nem ter mapa de chegada.

Que bom não saber,
A rudeza da caminhada,
E de nunca ser lembrada.

Que bom não saber,
Nada de nada,
Só ver o dia nascer por nascer,
Só ver o anoitecer por anoitecer,
E o vento soprar por tudo e por nada.

Lx, 8-8-1999
775

Mundos

Terra, és o nosso Lar imenso,
Quem me dera guardar teus segredos,
Na minha biblioteca de bom senso,
E desfolhá-los ao sabor dos meus dedos.

Gostava de a trazer arrumada,
Na sua anarquia devastadora,
Não deixá-la para sempre abandonada,
A uma praga humana assustadora.

Terra, sufocas na tua atmosfera envolvente,
Só falta proibirem-te a translação celestial,
És trespassada por ultravioletas em torrente,
Eu sei, sentes-te perdida neste Universo sideral.

Terra, és um paraíso perdido,
Viste partir os Deuses do Olimpo,
Por biliões de parasitas és agora varrido,
Só te resta a Lua fiel como um pirilampo.

Terra bendita,
Tão ultrajada,
Acredita,
Serás ajudada.
Lx, 25-7-1995
668

Cena de Ódio 2


Odeio quando abro a janela ao acordar,
E deparo com um mar de gente a trotar,
Pela rua abaixo, pela rua acima,
Cientes da sua bestialidade ouvem-se zurrar,
São esgoto a céu aberto a caminho do mar,
Uns em baixo, outros por cima,
Como odeio ter a eles de me juntar,
Como é possível com eles ainda me desapontar,
Odeio a plebe porque é acéfala,
Odeio os doutores porque andam de mala,
Odeio os drogados porque cheiram mal,
Odeio a novela porque não é semanal,
Odeio horários de partida e chegada,
Odeio os filhos da madrugada,
Odeio mulheres brutas e sensuais,
Odeio os filhos delas como tais,
Odeio a velhice senil,
Odeio a juventude febril,
Odeio uma criança com uma pomba branca na mão,
Odeio comemorar os laços eternos de união,
Odeio as montras da vossa tentação,
Odeio as vossas conversas de café e perversão,
O vosso pecado original foi não terem todos morrido ao nascer.


Lx, 8-12-1996
649

Sentirei falta Um dia


As montanhas desaparecidas,
As noites de Verão esquecidas,
O pão nosso de cada dia,
Conversas até hora tardia.

Os ribeiros nascem dos rios,
Dos pardais ouvem-se os pios,
Da fonte jorra água pura,
O Sol põe-se, o céu perdura.

Campos verdes ao relento,
Ensombrados por nuvens ao vento,
Árvores esquecidas ao centro,
Com troncos ocos por dentro.

Vales húmidos lacrimejantes,
Geram terras ricas e pujantes,
O luar reflecte-se no orvalho,
A noite acaba mais um dia de trabalho.

Abrupta a falésia precipita-se no mar,
Azul tingido pelo céu a estrelar,
As ondas afagam a areia doirada,
Chamam ofegantes pela alvorada.


Lx, 23-3-1998
632

Monte Estremunhado


Tão branca como as salinas,
A névoa embala as colinas,
Transpiram algo mais que a vida,
Muito para além da já tida,
Contam ao vento as mágoas,
Tão sentidas e choradas pelas lagoas.

O dia estremunhou devagar,
Levantam-se as trevas a bradar,
Escondem-se os espíritos ociosos,
Diluem-se pelos montes tortuosos,
As sombras imperam ao norte,
Ouvem-se sussurros de morte.

Lx, 10-1-2001
604

Só Em Corpo e Alma


I

Onde estás tu sinto-me tão só,
Tanta dor chego a meter dó,
Vem afagar-me com carinhos,
Vestida de fada com brancos linhos,
És a minha Estrela Polar,
A mais brilhante ao luar,
Ofuscas tudo ao teu redor,
Uma rainha no seu esplendor,
Cabelos dourados soltos ao vento,
Como trigais maduros ao relento,
Olhos azuis de águas cristalinas,
Saltitam como duas bailarinas,
Peitos altivos anseiam criar vida,
Pululam no teu corpo dão guarida,á
A tua boca de lábios tumescentes,
Procuram os meus saudosos e carentes,
A tua pele macia de um branco divinal,
Espera por mim para a acariciar como tal,
Cintura fina de linhas esbeltas,
Precede ancas largas de paixões maternas,
E pernas torneadas sempre alertas,
Encontra-me e satisfaz meus anseios perenes.

Lx, 4-7-1995
645

O Fim


Pareço viver desde o início dos tempos,
As minhas lágrimas criaram os mares,
Porque me abandonaste sem alentos,
Valia mais me cruxificares.

Deixaste-me angustiadamente só,
Nem o vento me acaricia os cabelos,
Nem o sol me aquece a alma em dó,
Nem a fonte sacia os meus apelos.

Trago a Humanidade aos ombros,
Nasci Poeta fatalista,
Sofro pela Humanidade aos tombos,
Morro Poeta idealista.

Nem as colinas do monte,
Nem as ondas do mar,
Nem a moça de fronte,
Me fazem encantar.

Lx, 24-7-2000
657

Desencontros




Porque vieram á cidade,
Quando Eu andava a escalar montanhas,
A navegar em mar alto,
A pescar no rio,
A passear no bosque,
A correr por montados,
A ouvir as aves,
A sentir o vento soprar,
Porque foram embora agora,
Quando fico sentado na tumba pela noite fora,
Alvoroçado pelo alvorecer da aurora.

Lx, 21-7-2000
636

Morte Amiga


Morte fiel e amiga de ar fraterno,
Geraste-me no teu ventre materno,
Assim já tão provecto cansado de sofrer,
Deste-me uma morte lenta a viver,
Anseias por me ver na cova a jazer,
Sigo os teus chamamentos de dor e tormentos,
Embalo nos teus braços a soluçar lamentos,
Dás-me de beber o sangue de doentes,
Preteres-me à custa de crianças inocentes,
Porque sustentas minhas aflições lancinantes,
Pela noites incestuosas da minha dor,
Leva-me de vez contigo como prova de amor.

Lx, 27-10-1996
597

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.

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“ Poesia Eterna Parte I”
Registado em www.safecreative.org sob o nº 1208142122416

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.