A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Que bom saber, Ter o Sol hora marcada, Para nascer.
Que bom saber, Ter eu hora marcada, Para morrer.
Que bom saber, Não ter o vento hora certa, Para soprar.
Que bom saber, Não ter o vento direcção certa, A tomar.
Que bom saber, A alvorada preceder o dia nascer, Tão quente.
Que bom saber, A noite preceder a minha alma padecer, Tão demente.
Que bom não saber, Nada de nada, E vaguear na estrada.
Que bom não saber, Onde nos vai levar, Nem quando lá chegar.
Que bom não saber, Haver alguém a acenar, A vir-me esperar.
Que bom não saber, O caminho da entrada, Nem ter mapa de chegada.
Que bom não saber, A rudeza da caminhada, E de nunca ser lembrada.
Que bom não saber, Nada de nada, Só ver o dia nascer por nascer, Só ver o anoitecer por anoitecer, E o vento soprar por tudo e por nada.
Lx, 8-8-1999
787
Mundos
Terra, és o nosso Lar imenso, Quem me dera guardar teus segredos, Na minha biblioteca de bom senso, E desfolhá-los ao sabor dos meus dedos.
Gostava de a trazer arrumada, Na sua anarquia devastadora, Não deixá-la para sempre abandonada, A uma praga humana assustadora.
Terra, sufocas na tua atmosfera envolvente, Só falta proibirem-te a translação celestial, És trespassada por ultravioletas em torrente, Eu sei, sentes-te perdida neste Universo sideral.
Terra, és um paraíso perdido, Viste partir os Deuses do Olimpo, Por biliões de parasitas és agora varrido, Só te resta a Lua fiel como um pirilampo.
Terra bendita, Tão ultrajada, Acredita, Serás ajudada. Lx, 25-7-1995
680
Identidades
Por fim deixarei de existir, Num destes dias iguais, Deixarei de pensar e sentir, Incluirei apenas manadas de animais.
Tão só me sinto, E tão acompanhado, Sucumbirei pressinto, Mas tão desamparado.
Dias inteiros de desespero, Tardes de sufocar o coração, Noites a soluçar traição, Manhãs de acordar tão áspero.
A mesquinhez das pessoas, Associada à sua ignorância, Distorce a melodia que entoas, Já só te identifico pela tua fragrância.
Vem e salva-me, Se ainda tiver cura, Enluta-me, Se não estiveres à altura.
Sou eu apenas, De que estão à espera, Não tenho escamas, não tenho penas, Sou de carne e osso e alma austera.
Queriam-me fútil, Queriam-me boneco, Mas eu quero ser inútil, E passar por sem tecto.
Lx, 17-11-1995
598
Seara
Uma seara me sorriu, Foi hoje de manhazinha, Ondulava ao vento que partiu, Ficou tão sozinha,
Tão triste ela ficou, Pelo vento abandonada, Pisquei-lhe um olho e ela corou, Ficou por mim enamorada.
Lx, 21-9-2000
657
Esvoaçar
Asas anseiam abrir-se ao vento, Partilhando com ele a vida, Voam sob grande tormento, E a Lua reflecte-se impávida.
Voam por montes e campanários, Por riachos, vales e feiras, Matam a sede em fontanários, De exaustão caiem nas beiras.
Voam ao sabor das correntes, Ascendentes e descendentes pelo ar, Asas planam transcendentes, A tempestade murmura ao chegar.
Asas batem leve levemente, A chuva não tarda enfim, A enxurrada cai livremente, A minha Alma poisa por fim.
Lx. 12-9-1999
640
Sentirei falta Um dia
As montanhas desaparecidas, As noites de Verão esquecidas, O pão nosso de cada dia, Conversas até hora tardia.
Os ribeiros nascem dos rios, Dos pardais ouvem-se os pios, Da fonte jorra água pura, O Sol põe-se, o céu perdura.
Campos verdes ao relento, Ensombrados por nuvens ao vento, Árvores esquecidas ao centro, Com troncos ocos por dentro.
Vales húmidos lacrimejantes, Geram terras ricas e pujantes, O luar reflecte-se no orvalho, A noite acaba mais um dia de trabalho.
Abrupta a falésia precipita-se no mar, Azul tingido pelo céu a estrelar, As ondas afagam a areia doirada, Chamam ofegantes pela alvorada.
Lx, 23-3-1998
653
O Fim
Pareço viver desde o início dos tempos, As minhas lágrimas criaram os mares, Porque me abandonaste sem alentos, Valia mais me cruxificares.
Deixaste-me angustiadamente só, Nem o vento me acaricia os cabelos, Nem o sol me aquece a alma em dó, Nem a fonte sacia os meus apelos.
Trago a Humanidade aos ombros, Nasci Poeta fatalista, Sofro pela Humanidade aos tombos, Morro Poeta idealista.
Nem as colinas do monte, Nem as ondas do mar, Nem a moça de fronte, Me fazem encantar.
Lx, 24-7-2000
670
Só
Novamente só me encontro, Numa solidão triste e duradoura, à que persistir para por fim, Talvez não desistir em pranto, Vencido por uma sociedade enganadora, Simplesmente à espera dum sim pronto, Todos os dias continua a chover só para mim, Todas as noites recolho ao meu antro, Onde afogo as mágoas já gastas, Chega de carências inclementes, basta.
Lx, 23-2-1996
642
Cena de Ódio 2
Odeio quando abro a janela ao acordar, E deparo com um mar de gente a trotar, Pela rua abaixo, pela rua acima, Cientes da sua bestialidade ouvem-se zurrar, São esgoto a céu aberto a caminho do mar, Uns em baixo, outros por cima, Como odeio ter a eles de me juntar, Como é possível com eles ainda me desapontar, Odeio a plebe porque é acéfala, Odeio os doutores porque andam de mala, Odeio os drogados porque cheiram mal, Odeio a novela porque não é semanal, Odeio horários de partida e chegada, Odeio os filhos da madrugada, Odeio mulheres brutas e sensuais, Odeio os filhos delas como tais, Odeio a velhice senil, Odeio a juventude febril, Odeio uma criança com uma pomba branca na mão, Odeio comemorar os laços eternos de união, Odeio as montras da vossa tentação, Odeio as vossas conversas de café e perversão, O vosso pecado original foi não terem todos morrido ao nascer.
Lx, 8-12-1996
659
Morte Amiga
Morte fiel e amiga de ar fraterno, Geraste-me no teu ventre materno, Assim já tão provecto cansado de sofrer, Deste-me uma morte lenta a viver, Anseias por me ver na cova a jazer, Sigo os teus chamamentos de dor e tormentos, Embalo nos teus braços a soluçar lamentos, Dás-me de beber o sangue de doentes, Preteres-me à custa de crianças inocentes, Porque sustentas minhas aflições lancinantes, Pela noites incestuosas da minha dor, Leva-me de vez contigo como prova de amor.