A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
O meu tempo esvai-se escorrendo impiedosamente e irreversível, ora docemente, ora amarguradamente transversal à risível existência. Aqueles tempos imemoriais, ávidos intemporais absortos pelo momento singular emotivo e puro, lampejos arrebatadores do âmago intangível. Aquele determinado quadro sensitivo apreciado, retido como um instantâneo e vivido num certo tempo preenchido do essencial, e hoje sonhado apenas como tal de tão especial, arrebatador, único e pessoal. Encarnação do personificado código primordial, talvez da felicidade. Avulsos e raros momentos perdidos na imensidão da memória dos sonhos, num pesadelo vitalício de insignificâncias hoje inenarráveis, apagados eternamente nas frugais encíclicas incertezas do amanhã.
Lx, 16-8-2006
652
Áurea Solar
O Sol brilha quente, Lisonjeador e afortunado, Aquece as almas doridas, Afaga-nos o corpo desnudado.
Ente querido criador, Dás esperanças esperançado, Às vidas que permitiste gerar, Deambulando sob alçado.
Pela Terra a quem poupaste, Ser teu regaço de chamas, Agora esventrada à dor atroz, Lancinante em voraz agonia.
Decalcada de almas sós, Embriagadas com mil quimeras, Voláteis sentimentalistas, Vagueiam proscritas e infames.
Rogamos-te ó Sol, Carrasco de primogénitos, Tal como outrora precioso, Ergamos as mãos ao alto.
Em uníssono suplicamos, A luz da tua indulgência, Apaziguadora e terna, Sobre os nossos corações.
Frios e cansados, Há muito quebrados, Ansiosos pela fulgura, De estrela mãe tão pura.
Lx, 3-10-2008
681
Anseio Primaveril
O frenesim dos pardais, Perfeito. O desabrochar das flores, Perfeito. As andorinhas ao alto, Perfeito. O bafo quente do Sol, Perfeito. Os odores exalados do campo, Perfeito. O vestir das árvores tão verde, Perfeito. A brisa fresca ao fim do dia, Perfeito. A Primavera chegou uma vez mais, Perfeita, desejada e bela. Tocou indelével no meu coração, E ele chorou de alegria, Ao abrir a janela à vida, Inundando de aura luz, A alma perdida, De comoção.
Lx, 23-3-2009
698
Estórias Da Carochinha
As estórias de embalar, Os medos incutidos, A ficção da realidade, O impingir gratuito, As manipulações mesquinhas, A roupa da moda, A religião da moda, A praia da moda, A música da moda, O bar da moda, O detergente da moda, O actor da moda, O cantor da moda, A modelo da moda, Os ídolos, Os totens, Os deuses, Recuso-me a participar nesta manada de indigentes mentais que coiceiam, pisam e procriam inebriados como escravos manipulados às mãos dum deus menor. A tudo isso, não, mil vezes não. Prezo a minha integridade mental e a minha Liberdade individual acima de tudo e de todos.
Lx, 16-8-2006
656
A Doença Do Corpo – A Morte
Quando a força se esvai, Aos poucos e poucos, Lentamente, devagar. Quando ainda ontem podia andar, Enérgico, esbelto e assaz, Egocêntrico, egoísta e jovem, Inteligente, equilibrado e mordaz, Atlético, imortal e feliz. Hoje jaz deitado e entrevado, Impotente, enfezado e sujo, Indesejado, insalubre e dorido, Introvertido, Infeliz e mortal. Desiste ingloriamente resignado, Desmiolado, rejeitado e esquecido, Desonrado, desconhecido e cansado, Autómato não autónomo, Monótono de olhar estarrecido, Vazio, baço e sem claridade. A carne já em chaga, Purulenta e decomposta, Exposta aos elementos finais, Putrefacta, Pela terra a arfar, E o cheiro Deus meu, E o cheiro que exala!
Lx, 8-9-2009
743
Inutilidades
Inútil andar amparado, E viver aprisionado.
Inútil correr a viver, E angustiado morrer.
Inútil questionar, Sem nunca perguntar.
Inútil vir a amar, Sem nunca ter odiado.
Inútil ter acordado, E jamais ter sonhado.
Inútil ter nascido, Para não ser preciso.
Inútil trabalhar, Para o tempo passar.
Inútil ser indulgente, E cair no esquecimento.
Inútil o quotidiano, Fugaz e boçal.
Inútil ter ganho a batalha, Sem altruísmo na partilha.
Inútil a conversa fiada, Sem uma face encarada.
Inútil um réquiem, A uma alma finada.
Lx, 24-4-2008
626
Cansado
Cansado ao acordar, À noite cansado de estar, Cansado de mim, E de vós acima de tudo. Cansado do tempo a passar, E do senhor sisudo, Cansado da bonança, Dos dias correntes, E dos meus membros dormentes. Cansado do fiel da balança, E da consoada, Cansado de fazer anos, Em desalmada. Cansado de sorrir, Amestrado, Cansado tão cansado, De lamúrias suplicantes. Cansado de choros e prantos, Desencantos ofegantes, Cansado de desencontros, Oníricos latentes. Cansado do passado, Insipiente, E do futuro poluente, Cansado do sim e do não, De ser testemunho vidente.
Lx, 19-4-2009
689
Que Pena
Que pena não poder correr, Desalmado pela areia da praia, Que pena não poder nadar, Abençoado pelo sal do mar.
Que pena não poder amar, O amor duma vida a brincar, Que pena a luz se apagar, Aos poucos irreversivelmente.
Que pena o destino vingar, Não dar tréguas a ninguém, Que pena este pesadelo arcar, Sem direito a segunda via.
Os lamentos da minha alma, Exasperam lancinantes a soluçar, Os sonhos desmoronaram-se, Desvanecendo-se com a noite.
Noite longa de desespero, Onde vagueio acordado, Ciente de tudo deambulo, Pelo fio da navalha da vida.
O rei vai nu, A rua apinhada, O orgulho morreu, A forca sorriu, À minha passagem.
Lx, 7-1-2008
676
Viagens Celestiais
Quando a mente entra em estágio reflexivo, e se expande para além do corpo extra-sensorial, como que hibernando da razão. Divagando escorreito para o infinito onde se esconde o vazio. Desligado do mundo de encontro aos grandes espaços onde o vácuo é reinante e o silêncio inquebrável. O sibilar da mente letárgica a entrar no cosmos épico, onde forças telúricas povoam intervalos ocos, criando novos mundos do todo primordial. O sentir diluir-se na torrente plasmática universal, como parte integrante e interactiva, como consciência do tempo, do espaço e da matéria. Interagindo como reflexo da sua própria existência. Sou apenas a imagem do Universo no espelho da vida, para afastar definitivamente a dúvida da sua própria identidade. Desaparecendo num incerto dia na inatingibilidade dos elementos desprofanados.