Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

Perfil
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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

114

Contraditório




A humildade dum Poeta,
A arrogância dum tolo.

Uma paisagem natural,
Um subúrbio engavetado.

Um belo corpo nu,
Um doente acabado.

Um dia primaveril,
Outro de estio doentio.

A elegância sensual,
O mau-gosto vulgar.

A cultura eloquente,
A ignorância latente.

A leveza do ser,
O pesar da alma.

Gente feliz,
Outra maltratada.

Silêncio dourado,
Retórica presidiária.

Linhas direitas,
Caos existencial.

Jardins suspensos,
Muros de pedra.

Canções de embalar,
Beijos de traição.

Amor desprotegido,
Liberdade condicional.

O lugar perdido,
Sorte avarenta.

Alma a divagar,
Corpo subserviente.

Contemplação,
Linha de montagem.

Verdade,
Encenação.

Dia febril,
Noite calma.

A tua vida,
A minha morte.

Lx, 25-11-2006
629

O Meu Tempo



O meu tempo esvai-se escorrendo impiedosamente e irreversível, ora docemente, ora amarguradamente transversal à risível existência.
Aqueles tempos imemoriais, ávidos intemporais absortos pelo momento singular emotivo e puro, lampejos arrebatadores do âmago intangível.
Aquele determinado quadro sensitivo apreciado, retido como um instantâneo e vivido num certo tempo preenchido do essencial, e hoje sonhado apenas como tal de tão especial, arrebatador, único e pessoal. Encarnação do personificado código primordial, talvez da felicidade.
Avulsos e raros momentos perdidos na imensidão da memória dos sonhos, num pesadelo vitalício de insignificâncias hoje inenarráveis, apagados eternamente nas frugais encíclicas incertezas do amanhã.

Lx, 16-8-2006
652

Áurea Solar




O Sol brilha quente,
Lisonjeador e afortunado,
Aquece as almas doridas,
Afaga-nos o corpo desnudado.

Ente querido criador,
Dás esperanças esperançado,
Às vidas que permitiste gerar,
Deambulando sob alçado.

Pela Terra a quem poupaste,
Ser teu regaço de chamas,
Agora esventrada à dor atroz,
Lancinante em voraz agonia.

Decalcada de almas sós,
Embriagadas com mil quimeras,
Voláteis sentimentalistas,
Vagueiam proscritas e infames.

Rogamos-te ó Sol,
Carrasco de primogénitos,
Tal como outrora precioso,
Ergamos as mãos ao alto.

Em uníssono suplicamos,
A luz da tua indulgência,
Apaziguadora e terna,
Sobre os nossos corações.

Frios e cansados,
Há muito quebrados,
Ansiosos pela fulgura,
De estrela mãe tão pura.

Lx, 3-10-2008
681

Anseio Primaveril




O frenesim dos pardais,
Perfeito.
O desabrochar das flores,
Perfeito.
As andorinhas ao alto,
Perfeito.
O bafo quente do Sol,
Perfeito.
Os odores exalados do campo,
Perfeito.
O vestir das árvores tão verde,
Perfeito.
A brisa fresca ao fim do dia,
Perfeito.
A Primavera chegou uma vez mais,
Perfeita, desejada e bela.
Tocou indelével no meu coração,
E ele chorou de alegria,
Ao abrir a janela à vida,
Inundando de aura luz,
A alma perdida,
De comoção.

Lx, 23-3-2009

698

Estórias Da Carochinha


As estórias de embalar,
Os medos incutidos,
A ficção da realidade,
O impingir gratuito,
As manipulações mesquinhas,
A roupa da moda,
A religião da moda,
A praia da moda,
A música da moda,
O bar da moda,
O detergente da moda,
O actor da moda,
O cantor da moda,
A modelo da moda,
Os ídolos,
Os totens,
Os deuses,
Recuso-me a participar nesta manada de indigentes mentais que coiceiam, pisam e procriam inebriados como escravos manipulados às mãos dum deus menor.
A tudo isso, não, mil vezes não. Prezo a minha integridade mental e a minha Liberdade individual acima de tudo e de todos.

Lx, 16-8-2006
656

A Doença Do Corpo – A Morte



Quando a força se esvai,
Aos poucos e poucos,
Lentamente, devagar.
Quando ainda ontem podia andar,
Enérgico, esbelto e assaz,
Egocêntrico, egoísta e jovem,
Inteligente, equilibrado e mordaz,
Atlético, imortal e feliz.
Hoje jaz deitado e entrevado,
Impotente, enfezado e sujo,
Indesejado, insalubre e dorido,
Introvertido, Infeliz e mortal.
Desiste ingloriamente resignado,
Desmiolado, rejeitado e esquecido,
Desonrado, desconhecido e cansado,
Autómato não autónomo,
Monótono de olhar estarrecido,
Vazio, baço e sem claridade.
A carne já em chaga,
Purulenta e decomposta,
Exposta aos elementos finais,
Putrefacta,
Pela terra a arfar,
E o cheiro Deus meu,
E o cheiro que exala!

Lx, 8-9-2009
743

Inutilidades




Inútil andar amparado,
E viver aprisionado.

Inútil correr a viver,
E angustiado morrer.

Inútil questionar,
Sem nunca perguntar.

Inútil vir a amar,
Sem nunca ter odiado.

Inútil ter acordado,
E jamais ter sonhado.

Inútil ter nascido,
Para não ser preciso.

Inútil trabalhar,
Para o tempo passar.

Inútil ser indulgente,
E cair no esquecimento.

Inútil o quotidiano,
Fugaz e boçal.

Inútil ter ganho a batalha,
Sem altruísmo na partilha.

Inútil a conversa fiada,
Sem uma face encarada.

Inútil um réquiem,
A uma alma finada.

Lx, 24-4-2008
626

Cansado



Cansado ao acordar,
À noite cansado de estar,
Cansado de mim,
E de vós acima de tudo.
Cansado do tempo a passar,
E do senhor sisudo,
Cansado da bonança,
Dos dias correntes,
E dos meus membros dormentes.
Cansado do fiel da balança,
E da consoada,
Cansado de fazer anos,
Em desalmada.
Cansado de sorrir,
Amestrado,
Cansado tão cansado,
De lamúrias suplicantes.
Cansado de choros e prantos,
Desencantos ofegantes,
Cansado de desencontros,
Oníricos latentes.
Cansado do passado,
Insipiente,
E do futuro poluente,
Cansado do sim e do não,
De ser testemunho vidente.

Lx, 19-4-2009
689

Que Pena




Que pena não poder correr,
Desalmado pela areia da praia,
Que pena não poder nadar,
Abençoado pelo sal do mar.

Que pena não poder amar,
O amor duma vida a brincar,
Que pena a luz se apagar,
Aos poucos irreversivelmente.

Que pena o destino vingar,
Não dar tréguas a ninguém,
Que pena este pesadelo arcar,
Sem direito a segunda via.

Os lamentos da minha alma,
Exasperam lancinantes a soluçar,
Os sonhos desmoronaram-se,
Desvanecendo-se com a noite.


Noite longa de desespero,
Onde vagueio acordado,
Ciente de tudo deambulo,
Pelo fio da navalha da vida.

O rei vai nu,
A rua apinhada,
O orgulho morreu,
A forca sorriu,
À minha passagem.

Lx, 7-1-2008

676

Viagens Celestiais



Quando a mente entra em estágio reflexivo, e se expande para além do corpo extra-sensorial, como que hibernando da razão.
Divagando escorreito para o infinito onde se esconde o vazio.
Desligado do mundo de encontro aos grandes espaços onde o vácuo é reinante e o silêncio inquebrável.
O sibilar da mente letárgica a entrar no cosmos épico, onde forças telúricas povoam intervalos ocos, criando novos mundos do todo primordial.
O sentir diluir-se na torrente plasmática universal, como parte integrante e interactiva, como consciência do tempo, do espaço e da matéria. Interagindo como reflexo da sua própria existência.
Sou apenas a imagem do Universo no espelho da vida, para afastar definitivamente a dúvida da sua própria identidade.
Desaparecendo num incerto dia na inatingibilidade dos elementos desprofanados.


Lx, 26-11-2006
775

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