Pesadelos
O Cosmos ousou sonhar,
Encarnou o Homem,
Em pesadelo se tornou,
à consciência largada.
Eu cidadão do Mundo,
Feito de Estrelas a estrear,
Percorro o caminho,
Esbatido ao luar,
Onde as sombras,
Abordam o meu passar,
Largando estridentes uivos,
De pesar.
Ladeiam-me constantes,
Vomitam jactos de fogo,
Das entranhas infernais,
O caminho em ponto de fuga,
A estrada da vida empinada.
Noite cerrada e escura,
As cores perdidas em parte incerta,
Ofegante percorro desalmado,
Este labirinto malfadado.
Ansioso pelo acordar,
Luminoso dum raio de Sol,
Por mim encarnado.
Lx, 7-3-2010
Anseio Primaveril
O frenesim dos pardais,
Perfeito.
O desabrochar das flores,
Perfeito.
As andorinhas ao alto,
Perfeito.
O bafo quente do Sol,
Perfeito.
Os odores exalados do campo,
Perfeito.
O vestir das árvores tão verde,
Perfeito.
A brisa fresca ao fim do dia,
Perfeito.
A Primavera chegou uma vez mais,
Perfeita, desejada e bela.
Tocou indelével no meu coração,
E ele chorou de alegria,
Ao abrir a janela à vida,
Inundando de aura luz,
A alma perdida,
De comoção.
Lx, 23-3-2009
O Medo
Não tenhas medo pequeno,
é só o perfume das flores do campo,
Não temas,
São um jardim de cores apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só a chuva a cair lá fora,
Não temas,
São gotas de água apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só o céu estrelado,
Não temas,
São pirilampos celestiais apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só um choro abafado,
Não temas,
São fados ancestrais apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só uma andorinha a voar,
Não temas,
São suspiros de liberdade apenas.
Não tenhas medo pequeno,
é só uma cova aberta,
Não temas,
São saudades tuas apenas.
Lx, 9-5-2010
Que Pena
Que pena não poder correr,
Desalmado pela areia da praia,
Que pena não poder nadar,
Abençoado pelo sal do mar.
Que pena não poder amar,
O amor duma vida a brincar,
Que pena a luz se apagar,
Aos poucos irreversivelmente.
Que pena o destino vingar,
Não dar tréguas a ninguém,
Que pena este pesadelo arcar,
Sem direito a segunda via.
Os lamentos da minha alma,
Exasperam lancinantes a soluçar,
Os sonhos desmoronaram-se,
Desvanecendo-se com a noite.
Noite longa de desespero,
Onde vagueio acordado,
Ciente de tudo deambulo,
Pelo fio da navalha da vida.
O rei vai nu,
A rua apinhada,
O orgulho morreu,
A forca sorriu,
À minha passagem.
Lx, 7-1-2008
Cansado
Cansado ao acordar,
À noite cansado de estar,
Cansado de mim,
E de vós acima de tudo.
Cansado do tempo a passar,
E do senhor sisudo,
Cansado da bonança,
Dos dias correntes,
E dos meus membros dormentes.
Cansado do fiel da balança,
E da consoada,
Cansado de fazer anos,
Em desalmada.
Cansado de sorrir,
Amestrado,
Cansado tão cansado,
De lamúrias suplicantes.
Cansado de choros e prantos,
Desencantos ofegantes,
Cansado de desencontros,
Oníricos latentes.
Cansado do passado,
Insipiente,
E do futuro poluente,
Cansado do sim e do não,
De ser testemunho vidente.
Lx, 19-4-2009
A Morte Bateu À Porta
Senti um arrepio na espinha,
Pressenti algo familiar,
Entrei em casa e logo a vi.
Instalada paciente e fria,
Sorriu-me pela escuridão,
E o sofrimento atroz dela brotou,
Em rodos inundando o silêncio.
Eu vi-a enredada no meu seio,
Embalando meu ente querido.
Eu conheço-a desde sempre,
Por mim há muito idolatrada,
Ela chegou com as trevas,
E o sol recolheu-se nas sombras.
Eu olhei-a nos olhos vazios,
E ela cobriu com o seu manto,
Os seus escolhidos de negro,
Como pertences inalienáveis,
Presos pela dor constante.
Eu hoje vi-a brincando às vidas,
Soltou os anjos negros à noite,
Os condenados dão-lhes guarida,
E suspirando todos vão de partida.
Donde imperam tristeza e solidão,
Vem lamentosa a Morte amiga,
Dar-vos a mão de fugida.
Lx, 21-1-2011
Não-Humanos
Escoam os impropérios,
Pelos interstícios das suas vidas.
O boçal vil poluto,
Procria incessantemente,
Funestas crias,
Anti Darwinistas,
Mediático-dependentes,
Mentecaptos insalubres.
A verdade absoluta,
Encarnada nas suas cabeças,
Absortas e indigentes,
Desalmadas,
Imberbes de razão,
Pululam subservientes,
Afogadas na sua frugalidade primária.
Despidos de Arte e Beleza,
Desprovidos de consciência,
Subjugados pelos impulsos primitivos,
Incomodam o outrem,
Incessantemente e exaustivamente.
Um contágio de morte,
Subsiste na cidade.
Lx, 6-8-2010
A Longa Caminhada
Unir-me-ei a todos vós um dia,
A brisa trouxe a pestilência,
Fétida e nauseabunda,
Aos meus sonhos de menino,
Arruinando a minha inocência,
Que trucidada nas trevas jaz.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
O tempo reclama em voz alta,
Em gritos lancinantes de dor,
Pela carne outrora emprestada,
E doravante mil vezes reclamada,
Os seus uivos ecoam trespassantes.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Lacaios do destino atroz,
Proscritos à minha simpatia,
Na última e longa caminhada,
A grande marcha da liberdade,
A caminho do abismo inviável.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Na podridão dos corpos exauridos,
Acompanhando vossas mentes vis,
Perniciosas almas esquecidas,
Perdidas errantes no vácuo denso,
Hoje e para todo o sempre.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Tal como lampejos de luz saboreamos,
Ao longo dos laivos de consciência,
Verdadeiras encarnações do Cosmos,
Que se reconheceram ao espelho,
Nas nossas próprias imagens mortas,
No reflexo incoerente das nossas vidas.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
A beleza extrema das percepções sentidas,
Sensorialmente embriagadas de esplendor,
Alquimistas da moral etilizada e petulante,
De ética bacoca e presunçosa,
Enforcados em mimetismos sem fim,
Expiramos cativos em tédios virulentos.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Corpos desalmados correrão nus,
Repetidos e iguais todos juntos,
Largaremos os grilhões no caminho,
Tombaremos levemente nas valas,
Caídos de espíritos amortalhados,
Virão todos ininterruptamente ali finar.
Unir-me-ei a todos vós um dia,
Resignados sem esperança no destino,
Na linha de montagem inimaginável,
Onde os sonhos se extinguirão,
Preteridos ao esquecimento eterno,
Somos todos peças prescindíveis,
Oleamos a engrenagem da máquina.
A infernal máquina Universal,
Que nasceu infinitesimal,
Empolou exponencialmente,
E um dia implodirá em escuridão,
Em treva total e absoluta,
Anulando-se no zero,
Infinitamente vazio.
Lx, 10-6-2012
O Meu Tempo
O meu tempo esvai-se escorrendo impiedosamente e irreversível, ora docemente, ora amarguradamente transversal à risível existência.
Aqueles tempos imemoriais, ávidos intemporais absortos pelo momento singular emotivo e puro, lampejos arrebatadores do âmago intangível.
Aquele determinado quadro sensitivo apreciado, retido como um instantâneo e vivido num certo tempo preenchido do essencial, e hoje sonhado apenas como tal de tão especial, arrebatador, único e pessoal. Encarnação do personificado código primordial, talvez da felicidade.
Avulsos e raros momentos perdidos na imensidão da memória dos sonhos, num pesadelo vitalício de insignificâncias hoje inenarráveis, apagados eternamente nas frugais encíclicas incertezas do amanhã.
Lx, 16-8-2006
Viagens Celestiais
Quando a mente entra em estágio reflexivo, e se expande para além do corpo extra-sensorial, como que hibernando da razão.
Divagando escorreito para o infinito onde se esconde o vazio.
Desligado do mundo de encontro aos grandes espaços onde o vácuo é reinante e o silêncio inquebrável.
O sibilar da mente letárgica a entrar no cosmos épico, onde forças telúricas povoam intervalos ocos, criando novos mundos do todo primordial.
O sentir diluir-se na torrente plasmática universal, como parte integrante e interactiva, como consciência do tempo, do espaço e da matéria. Interagindo como reflexo da sua própria existência.
Sou apenas a imagem do Universo no espelho da vida, para afastar definitivamente a dúvida da sua própria identidade.
Desaparecendo num incerto dia na inatingibilidade dos elementos desprofanados.
Lx, 26-11-2006