A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
O frenesim dos pardais, Perfeito. O desabrochar das flores, Perfeito. As andorinhas ao alto, Perfeito. O bafo quente do Sol, Perfeito. Os odores exalados do campo, Perfeito. O vestir das árvores tão verde, Perfeito. A brisa fresca ao fim do dia, Perfeito. A Primavera chegou uma vez mais, Perfeita, desejada e bela. Tocou indelével no meu coração, E ele chorou de alegria, Ao abrir a janela à vida, Inundando de aura luz, A alma perdida, De comoção.
Lx, 23-3-2009
692
És tu
Onde estás? Onde moras? O que me tens para dizer? Quando irás aparecer para me afagar, com o teu corpo quente, perfumado a mel, tão doce e gracioso a latejar cheio de vida. Pousada numa nuvem branca, surgirás jovial, preenchendo de contentamento o deserto do meu ser, varrido pelo vento norte. Cairás como chuva fecunda, no meu tapete de pétalas de malmequeres amarelos, ansioso pela tua chegada na bruma da madrugada. A cor do sol nos teus cabelos dourados e raiosos, ondulados onde me afogaria no azul-marinho do teu olhar carinhoso e cristalino. Senil e inebriado nos teus braços prostrado, seria para sempre o teu cúmplice apaixonadamente angustiado. Quando será minha flor? Quando virás minha amada? Minha amiga olvidada, Meu amor.
Lx, 15-4-2010
732
Que Pena
Que pena não poder correr, Desalmado pela areia da praia, Que pena não poder nadar, Abençoado pelo sal do mar.
Que pena não poder amar, O amor duma vida a brincar, Que pena a luz se apagar, Aos poucos irreversivelmente.
Que pena o destino vingar, Não dar tréguas a ninguém, Que pena este pesadelo arcar, Sem direito a segunda via.
Os lamentos da minha alma, Exasperam lancinantes a soluçar, Os sonhos desmoronaram-se, Desvanecendo-se com a noite.
Noite longa de desespero, Onde vagueio acordado, Ciente de tudo deambulo, Pelo fio da navalha da vida.
O rei vai nu, A rua apinhada, O orgulho morreu, A forca sorriu, À minha passagem.
Lx, 7-1-2008
671
Contraditório
A humildade dum Poeta, A arrogância dum tolo.
Uma paisagem natural, Um subúrbio engavetado.
Um belo corpo nu, Um doente acabado.
Um dia primaveril, Outro de estio doentio.
A elegância sensual, O mau-gosto vulgar.
A cultura eloquente, A ignorância latente.
A leveza do ser, O pesar da alma.
Gente feliz, Outra maltratada.
Silêncio dourado, Retórica presidiária.
Linhas direitas, Caos existencial.
Jardins suspensos, Muros de pedra.
Canções de embalar, Beijos de traição.
Amor desprotegido, Liberdade condicional.
O lugar perdido, Sorte avarenta.
Alma a divagar, Corpo subserviente.
Contemplação, Linha de montagem.
Verdade, Encenação.
Dia febril, Noite calma.
A tua vida, A minha morte.
Lx, 25-11-2006
628
Relatividades
Branco ou preto, Verde ou vermelho, Tanto faz para mim. Só o azul do mar infinito, Me acalma os sentidos. Só os horizontes longínquos, Me enchem a alma. Esta ou aquela, Loira ou morena, Tanto faz para mim. São adorno de festa, À porta da minha ermida. Só as loucas proscritas, Me cativam o coração, Nostálgico do seu olhar, Perdido e vago tardio. Deuses à escolha, Árbitro ou vilão sádico, Tanto faz para mim, Só a perenidade da morte, E a estética inusitada, Me envolvem o ser, No todo existencialista. Só a bonança da irrelevância, Me inunda de paz o discernimento.
Lx, 19-6-2010
667
Só Mais Uma Vez
Só mais um olhar enternecido, Só mais um. Só mais um par de mãos entrelaçadas, Só mais um. Só mais um suspiro, Só mais um. Só mais uma última dança, Só mais uma. Só mais um arfar no meu ouvido, Só mais um. Só mais um beijo meigo, Só mais um. Só mais um entardecer juntos, Só mais um. Só mais uma música no ar, Só mais uma. Só mais um abraço apertado, Só mais um. Só mais um afago, Só mais um. Só mais um poema murmurado, Só mais um. Só mais uma noite de luar, Só mais uma.
Lx, 15-4-2010
663
Até Quando
Quando o corpo arrefecer, Quando não conseguir correr, Quando só houver dor, E já nenhum louvor.
Quando os sentidos desvanecerem, Quando os sonhos se perderem, Quando só houver mar, E mais beijo nenhum a dar.
Quando a memória falhar, Quando já não pensar, Quando no fim me calar, E só houver a brisa no ar.
Que pena vou ter, Não ter ido, por não poder, Que pena vou ter, Não ter conseguido ser, Que pena vou ter, De tudo um dia esquecer, Que pena vou ter, Ter recusado viver, Que pena vou ter, Quando morrer, Sem valer.
Lx, 20-6-2007
724
Ao Longe
Estou tão longe, E cada vez mais longe.
Estou longe da dúvida, Estou tão longe, Estou submerso nas profundezas, Do mar calmo e silencioso, Cada vez mais longe.
Estou longe da luz, Estou tão longe, Estou longe do Alfa, Da razão existencial, Cada vez mais longe.
Estou longe do berço estelar, Estou tão longe, Estou longe da realidade, Mecânica e promiscua, Cada vez mais longe.
Estou longe do próximo, Reflexo da minha intolerância, Estou tão longe, Longe dos sorrisos, Há tanto esquecidos, Cada vez mais longe.
Estou longe do paraíso, Estou tão longe, Cada vez mais longe, Do sonho um dia, Idealizado e terno, Tão longínquo Eu Sou.
Lx, 12-6-2010
801
Pesadelos
O Cosmos ousou sonhar, Encarnou o Homem, Em pesadelo se tornou, à consciência largada. Eu cidadão do Mundo, Feito de Estrelas a estrear, Percorro o caminho, Esbatido ao luar, Onde as sombras, Abordam o meu passar, Largando estridentes uivos, De pesar. Ladeiam-me constantes, Vomitam jactos de fogo, Das entranhas infernais, O caminho em ponto de fuga, A estrada da vida empinada. Noite cerrada e escura, As cores perdidas em parte incerta, Ofegante percorro desalmado, Este labirinto malfadado. Ansioso pelo acordar, Luminoso dum raio de Sol, Por mim encarnado.
Lx, 7-3-2010
664
Insignificâncias
Incógnitas insignificâncias, Pululam perdidas por aí, Nascem e morrem todos os dias, Com egos inconscientes, Cegos à falta de razão, Na sua singela existência. Falsos demagogos hipócritas, Escondidos no medo, Da sua mortalidade, Aprendizes ignotos, Da essência natural, Letargia moral e de carácter, A rodos no seu bestial pensar. Eles e elas, grandes e pequenos, Novos e velhos, sábios e idiotas, Todos prisioneiros cativos, Da metafísica da boçalidade. Se é esse o preço para vencer, Deixai-me na minha parca indigência, Se é esse o preço para ser feliz, Deixai-me na minha doce tristeza taciturna, Deixai-me na melancolia nostálgica, Da minha própria insignificância.