Lista de Poemas

Identidades


Por fim deixarei de existir,
Num destes dias iguais,
Deixarei de pensar e sentir,
Incluirei apenas manadas de animais.

Tão só me sinto,
E tão acompanhado,
Sucumbirei pressinto,
Mas tão desamparado.

Dias inteiros de desespero,
Tardes de sufocar o coração,
Noites a soluçar traição,
Manhãs de acordar tão áspero.

A mesquinhez das pessoas,
Associada à sua ignorância,
Distorce a melodia que entoas,
Já só te identifico pela tua fragrância.

Vem e salva-me,
Se ainda tiver cura,
Enluta-me,
Se não estiveres à altura.

Sou eu apenas,
De que estão à espera,
Não tenho escamas, não tenho penas,
Sou de carne e osso e alma austera.

Queriam-me fútil,
Queriam-me boneco,
Mas eu quero ser inútil,
E passar por sem tecto.

Lx, 17-11-1995
588

Contemplando


No cimo dum cume contemplo,
A paisagem enche-me a alma,
O Sol beija o granito do templo,
O vento acorda a seara calma,

Inspiro profundamente a brisa pura,
Deleito-me com os odores doces no ar,
Confundo-me com o Todo que perdura,
A água dos ribeiros anseia pelo mar.

As nuvens esbatem-se nas colinas,
Como um teatro velho de sombras,
As personagens são tão antigas,
Repara bem Deus não te lembras.

Começa a chover cada vez mais,
Os pardais albergam-se onde podem,
As crias desaparecem nos matagais,
Nos rios correntes de água sobem.

O vento esmorece e a noite cai,
A tempestade já lá vai e o sono vem,
A Lua calma resplandecente sai,
E embala-me ao relento num vai vem.

Lx, 25-10-1999
571

Só Em corpo e Alma (2ª Parte)


II

Agradam-me os teus sorrisos em código,
Unicamente e só para mim decifráveis,
Quero despertar eternamente contigo,
Envelhecendo juntos por anos inviáveis,
Quero acompanhado por ti sonhar acordado,
Desejar-te platonicamente endiabrado,
Acaba com a minha ansiedade febril,
Preenche-me a vida estéril e senil,
Com os teus gestos meigos,
E lábios de mulher leigos,
Cativas meu coração comprometido,
Com a luz aureolar do teu corpo prometido,
Confessar-te-ei a essência do meu "Eu",
E tu acolher-me-ás, meu espírito renasceu,
E jurou amor eterno com fervor,
És a minha diva e meu mentor,
Seremos almas gémeas afortunadas,
Na paixão mútua enclausuradas,
Seremos somente nós dois apenas,
Guiados pelo vento como duas leves penas,
Partilharemos as dores e tormentos,
Pareceremos em prantos e lamentos.

Lx, 13-7-1995

642

Monotonamente Escrevendo


Farto-me de Ser simplesmente,
De viver o que não quero ser,
De nascer tão fluentemente,
Para no fim morrer sem querer.

Ansioso por vida complexa e completa,
E vergando-me perante o seu peso,
Acabo por ser uma alma discreta,
Liberto-me gritando .

Nada me faz andar,
Nada me faz correr,
Continuarei até quando a pensar,
Se continua eternamente a chover.

Lx, 12-6-1994
628

Impaciência


Um barco ao longe vi navegar,
E meu amor nele ouvi cantar,
Não consegui definir o seu destino,
Ficando o meu coração em desalinho,
Para sempre à espera irá ficar,
Até a sua grande paixão retornar,
Até amanhecer um dia vespertino,
E voar no horizonte um passarinho,
Que as boas novas me venha dar,
Regressou o teu carinho além-mar.


Lx, 7-10-1993
826

Adoração


Idolatrai-me com os vossos olhares,
Castrai-me com os vossos desejos,
Oferecei-me perfumados campos de flores,
Esperai obcecadamente pelos meus ensejos.

Lx, 29-12-1994
676

A Ti


Ao contemplar-te,
Fiquei encantado,
Ao ouvir-te,
Fiquei inspirado.

Como ficarei ao tocar-te,
Talvez um petiz,
Como estarei ao sentir-te,
Talvez feliz.

Não te conheço,
Não me conheces,
Tentar juntos um começo,
São Deus as minhas preces.

Idolatrar-te como Rainha,
Só por mim cobiçada,
Morreria contigo minha andorinha,
Doce alma ao vento seria lançada.

Lx, 22-9-1996
719

Como Um Raio De Sol


Não sei se haverá poema capaz algum,
De mostrar o que na minha alma vêem,
Não sei se valerá apenas escrever um
Quando só nostalgia e solidão saem.

Brilham ao sol teus cabelos doirados,
Guiando-me por caminhos agrestes,
Consolam-me os lamentos irados,
O calor de mil estrelas ardentes.

Passeias-te como uma fresca brisa,
Deixas no ar cheiros de fantasia,
Refrescas-me a mente submissa,
Sonhos ao luar com maresia.

Bela e formosa de olhar apelativo,
Serei para sempre teu até ao fim,
Assim meu coração ficou cativo,
Perdurando a tua imagem em mim.

Encanta-me a tua jovialidade carnal,
Esteticamente pura e ilusória,
Deixa-me contemplar-te trivial,
Platonicamente desejar-te peremptória.

Como andorinha-do-mar te vi chegar,
Perdido no Oceano vieste-me encontrar,
Levaste-me para tua casa a pernoitar,
Como sereia aos meus braços vieste pousar.

Lx, 7-9-1994
689

Incógnitas Viagens

Pela estrada fora meus olhos cintilam,
Em busca de paragens onde deambular,
À porta do céu azul em espanto ficam,
Esperando contemplar a minha alma voar.

Pelos montes irei sobrevoar emplumado,
Pelas pontes altas saltar até cair,
Jamais um dia me verão embarcado,
Em qualquer onda ao submergir.

Por velhas sombras eu me seguirei,
Estampadas em rostos de pedras graníticas,
Minhas preces pela serra proclamarei,
Aos ouvidos mudos d'almas paralíticas.
Lx, 8-11-1993
681

Uma Deusa Menor


No calor do teu regaço só quero descansar,
Ser afagado por cabelos longos perfumados,
Imergir no azul profundo dos teus olhos,
Como num lago espelhado onde me lançar,
Aveludada a tua pele em tons bronzeados,
Com travos florais onde percorro atalhos,
Apelas-me com tuas mãos para amar,
Sob o céu estrelado juntos pernoitados,
Afagos, caricias e beijinhos aos molhos,
Odes e cantigas de amor te quero rogar,
Largos sorrisos soltas dos teus lábios molhados,
O vento testemunha é um para o outro talhado.

Lx, 28-3-1995
690

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.

Para Comprar:
http://www.lulu.com/shop/search.ep?type=&keyWords=paulo+gil&sitesearch=lulu.com&q=&x=8&y=9

Reservados Todos os Direitos de Autor

“ Poesia Eterna Parte I”
Registado em www.safecreative.org sob o nº 1208142122416

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.