A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Novamente só me encontro,
Numa solidão triste e duradoura,
à que persistir para por fim,
Talvez não desistir em pranto,
Vencido por uma sociedade enganadora,
Simplesmente à espera dum sim pronto,
Todos os dias continua a chover só para mim,
Todas as noites recolho ao meu antro,
Onde afogo as mágoas já gastas,
Chega de carências inclementes, basta.
Lx, 23-2-1996
639
Contemplando
No cimo dum cume contemplo,
A paisagem enche-me a alma,
O Sol beija o granito do templo,
O vento acorda a seara calma,
Inspiro profundamente a brisa pura,
Deleito-me com os odores doces no ar,
Confundo-me com o Todo que perdura,
A água dos ribeiros anseia pelo mar.
As nuvens esbatem-se nas colinas,
Como um teatro velho de sombras,
As personagens são tão antigas,
Repara bem Deus não te lembras.
Começa a chover cada vez mais,
Os pardais albergam-se onde podem,
As crias desaparecem nos matagais,
Nos rios correntes de água sobem.
O vento esmorece e a noite cai,
A tempestade já lá vai e o sono vem,
A Lua calma resplandecente sai,
E embala-me ao relento num vai vem.
Lx, 25-10-1999
580
Só Em corpo e Alma (2ª Parte)
II
Agradam-me os teus sorrisos em código,
Unicamente e só para mim decifráveis,
Quero despertar eternamente contigo,
Envelhecendo juntos por anos inviáveis,
Quero acompanhado por ti sonhar acordado,
Desejar-te platonicamente endiabrado,
Acaba com a minha ansiedade febril,
Preenche-me a vida estéril e senil,
Com os teus gestos meigos,
E lábios de mulher leigos,
Cativas meu coração comprometido,
Com a luz aureolar do teu corpo prometido,
Confessar-te-ei a essência do meu "Eu",
E tu acolher-me-ás, meu espírito renasceu,
E jurou amor eterno com fervor,
És a minha diva e meu mentor,
Seremos almas gémeas afortunadas,
Na paixão mútua enclausuradas,
Seremos somente nós dois apenas,
Guiados pelo vento como duas leves penas,
Partilharemos as dores e tormentos,
Pareceremos em prantos e lamentos.
Lx, 13-7-1995
651
Cidades
Florestas de cimento, encheis meu horizonte,
De um vazio estonteante, assimétrico,
Quero apenas cardos e giestas pela frente,
Banhar-me em água cristalina, frenético.
Porque tenho de viver acompanhado,
De mil figuras ridículas e mesquinhas,
Quem me dera andar por aí largado,
Correr por montados, campas minhas.
Coberto de sombras sem luz natural,
Definho encarcerado em quatro paredes,
Anseio por céus estrelados e odor natural,
Longe destes fétidos e repugnantes enredos.
Inalo o cheiro a terra molhada,
Como se fosse a última vez,
Aguardo a derradeira alvorada,
Em que me entregarei de vez.
Lx. 1-6-1995
683
Identidades
Por fim deixarei de existir,
Num destes dias iguais,
Deixarei de pensar e sentir,
Incluirei apenas manadas de animais.
Tão só me sinto,
E tão acompanhado,
Sucumbirei pressinto,
Mas tão desamparado.
Dias inteiros de desespero,
Tardes de sufocar o coração,
Noites a soluçar traição,
Manhãs de acordar tão áspero.
A mesquinhez das pessoas,
Associada à sua ignorância,
Distorce a melodia que entoas,
Já só te identifico pela tua fragrância.
Vem e salva-me,
Se ainda tiver cura,
Enluta-me,
Se não estiveres à altura.
Sou eu apenas,
De que estão à espera,
Não tenho escamas, não tenho penas,
Sou de carne e osso e alma austera.
Queriam-me fútil,
Queriam-me boneco,
Mas eu quero ser inútil,
E passar por sem tecto.
Lx, 17-11-1995
597
Anónima
Espero ansioso pelo raiar do dia,
Só nasce quando surges no horizonte,
Radiosa e quente com o sol à porfia,
Misteriosa como o luar no monte.
Exalas ao passar doces fragrâncias,
Das mais lindas flores do campo,
Tens o sorriso leve de mil infâncias,
Que guardarei na alma ao longo do tempo.
Exaltas-me os sentidos quando te observo,
Tão calma e serena de gestos tão meigos,
Cativaste meu coração para sempre teu servo,
Encarnaste em ti toda a filosofia dos gregos.
Tenho passado a vida a te procurar,
Paro e escuto para te ouvir a sonhar,
O próximo indignado irá vociferar,
Mas eu apenas e só te queria amar.
Lx, 21-4-1996
767
Introspectivamente
Continuarei sempre a lamentar-me,
Culpando-me sempre do sucedido,
Jamais quererei lembrar-me,
Do tempo que passei entristecido.
As lembranças não me têm movido,
São vazias de poder sentimental,
Já me lembrei de ter morrido,
Mas era sonho de mente serviçal.
Lx, 7-10-1993
743
Prostração Ténue
Nem sempre quis ver o sol raiar,
Minha alma aflita desentronizada,
Decidiu com a pesada existência arcar,
Manter-se para sempre alheada.
Quando eu apenas queria amar,
Encontrei cumes de neves eternas,
Altas e distantes com quem sonhar,
Situam-se tão distantes e serenas.
Ansioso pelo prazer máximo desfrutar,
Neste pouquinho tempo que me resta,
Que tristeza vê-lo pelos dedos escapar,
Afinal o pouco que sobrou não presta.
Não sei como tudo isto aconteceu,
Estendi meus braços e bradei aos céus,
Nas minhas barbas o destino se teceu,
Quando de repente rasguei meus véus.
Porque não florir numa Primavera,
Como todas as flores sumptuosas,
Porque foste para mim tão severa,
Afogar-me em ideias perniciosas.
Minha alma não sabe por quem chamar,
Quando me apetece apenas gritar alto,
Já não consigo ouvir o vento a sussurrar,
Guiando meus passos neste último salto.
Lx, 8-10-1994
679
Monotonamente Escrevendo
Farto-me de Ser simplesmente,
De viver o que não quero ser,
De nascer tão fluentemente,
Para no fim morrer sem querer.
Ansioso por vida complexa e completa,
E vergando-me perante o seu peso,
Acabo por ser uma alma discreta,
Liberto-me gritando .
Nada me faz andar,
Nada me faz correr,
Continuarei até quando a pensar,
Se continua eternamente a chover.
Lx, 12-6-1994
637
Indignas
Não sois dignas dos meus poemas finados sentidos,
Antes deixá-los amarelecer podres aos bichos-de-conta,
Afastai dos meus versos vossos corpos pervertidos,
Não quero vê-los cobiçados como roupa de montra,
São sublimes e luxuriantes como peles de lontra,
Eles são os tormentos pela minha alma auferidos,
Afogados em dor e solidão submergiram numa onda,
Senti-me só e os meus olhos choraram entristecidos,
Quem me dera ser eterno pastor de mitos antigos,
Abandonado ter só a chuva e o vento como abrigos.