Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

Perfil
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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

114

Uma Deusa Menor


No calor do teu regaço só quero descansar,
Ser afagado por cabelos longos perfumados,
Imergir no azul profundo dos teus olhos,
Como num lago espelhado onde me lançar,
Aveludada a tua pele em tons bronzeados,
Com travos florais onde percorro atalhos,
Apelas-me com tuas mãos para amar,
Sob o céu estrelado juntos pernoitados,
Afagos, caricias e beijinhos aos molhos,
Odes e cantigas de amor te quero rogar,
Largos sorrisos soltas dos teus lábios molhados,
O vento testemunha é um para o outro talhado.

Lx, 28-3-1995
708

Contemplando


No cimo dum cume contemplo,
A paisagem enche-me a alma,
O Sol beija o granito do templo,
O vento acorda a seara calma,

Inspiro profundamente a brisa pura,
Deleito-me com os odores doces no ar,
Confundo-me com o Todo que perdura,
A água dos ribeiros anseia pelo mar.

As nuvens esbatem-se nas colinas,
Como um teatro velho de sombras,
As personagens são tão antigas,
Repara bem Deus não te lembras.

Começa a chover cada vez mais,
Os pardais albergam-se onde podem,
As crias desaparecem nos matagais,
Nos rios correntes de água sobem.

O vento esmorece e a noite cai,
A tempestade já lá vai e o sono vem,
A Lua calma resplandecente sai,
E embala-me ao relento num vai vem.

Lx, 25-10-1999
586

Versos de Lamentação

Contigo nasci para amar,
Sob o leito da dor,
Vou para sempre encarnar,
A dúvida num mito incolor.

A terra a lamentar me chama,
Glorioso de sonhos proclamo,
Não somos mais do que lama,
Lançada pelo vento ao nosso Amo.

Todos nascemos para morrer,
Gozar a vida a sonhar,
Vamos com certeza renascer,
Para divinalmente a utopia adorar.

Ao alvorecer acordamos em busca de alguém,
Objectivamente tentamos esculturar belezas,
Em faces e corpos que julgamos ser do além,
Mas as suas almas há muito caíram nas profundezas.

A chuva cai fria pela madrugada,
Anseio por braços quentes ao meu regresso,
A chuva impiedosa cai desalmada,
Continuo à tua espera sem sucesso.

Uma história inesquecível eu tinha para contar,
Com ela muitos iriam sorrir,
Acabaram por me interpelar,
E perguntar se era verdade o que iriam ouvir.

A noite cai uma vez mais escura,
Com ela a vida parece hibernar,
Para quê torná-la ainda mais obscura,
Se dela não nos podemos alienar.


Lx, 17-12-1990
986

Impaciência


Um barco ao longe vi navegar,
E meu amor nele ouvi cantar,
Não consegui definir o seu destino,
Ficando o meu coração em desalinho,
Para sempre à espera irá ficar,
Até a sua grande paixão retornar,
Até amanhecer um dia vespertino,
E voar no horizonte um passarinho,
Que as boas novas me venha dar,
Regressou o teu carinho além-mar.


Lx, 7-10-1993
850

Vagabundos


Tão profunda a dor eles sentem,
Morrer é apenas mais um idem,
Desalinhados e pobres pelos becos,
Jamais ouvirão os puros ecos,
Porque as lágrimas não mentem,
Quando pelas faces vertem,
Com a alma presa em paredes,
Corações quebrados dormentes,
Infelizes apenas geram ascos,
Neste mundo pleno em vácuos,
Que pena serem como eu,
Um ingénuo e mero plebeu.


Lx, 23-6-1993
633

Uma Gota de


Uma gota de chuva,
Caída do Céu,
Em Liberdade,
Chorava,
Desencantada.

Uma gota de Luz,
Caída das Estrelas,
Ofuscada,
Vagueava,
Perdida.

Uma gota de mel,
Caída da flor,
Cheia de amor,
Desamparada,
Sonhava,
Angustiada.

Uma gota de fel,
Caída da Alma,
Magoada,
Cansada,
E só.

Lx, 10-11-2007
767

Opacidade Emocional

A monotonia de existir,
Logo ao acordar se instala,
O tédio não me deixa dormir,
E já é de madrugada.

A dor abrigou-se na minha alma,
E o silêncio preencheu a minha vida,
Devagarinho e com muita calma,
Sussurrou-me a morte ao ouvido.

Tão cansado de olhar,
Sentir e pensar,
Sonhar acordado,
Em tudo dar,
Como acabado.

Tão abalado fiquei,
Ao persistir e tentar,
Em vão testemunhei,
Sem nunca ter achado,
O segredo maior,
Tão bem guardado,
O céu à noite,
Estrelado.
Lx, 16-7-2004
778

Acção, Reacção

As mil e uma verdades,
Para mim absolutas,
São mil e uma inverdades,
Para outro resolutas,
As certezas de hoje,
São incertezas amanhã,
A consciência de hoje,
É padecer no amanhã.

A razão de uma vida,
É a morte irracional,
Tudo nela contida,
É sorte transcendental,
Às vezes pura e genial,
Outras indigna e fútil,
Existência bela e emocional,
Ou sombria e inútil.

O ideal desvanecido em sonho,
Numa vida inteira diluído,
Acaba por não vir a ser estranho,
Estar pela sua própria essência possuído,
E que preencherá o meu vazio,
O meu silêncio doloroso,
O meu inconformismo ímpio,
Ao longo de todo o meu caminho tenebroso.

Lx, 12-10-2004
733

O Meu Sonho

Sonho a dormir,
Sonho acordado,
Da consciência sair,
Do mundo acabado.

Sonho com Terra,
Com o Vento e o Mar,
O Sol nunca erra,
De manhã ao raiar.

Sonho com a Noite,
Ao longe a chegar,
Carrega uma foice,
Vem a minha vida cegar.

Sonho com Música,
Arpas e violino,
Só o Silêncio fica,
E o badalar do sino.

Sonho a sonhar,
Com a partida,
Sem nunca chegar,
Só com viagem de ida.

Sonho Eu existir,
Apenas um engano,
Insisto persistir,
Em nódoa de pano.

Sonhei contigo um Dia,
Radiosa e sensual,
Seguias noutra via,
Contrária ao ideal.

Sonhei com algo,
Perdido e vago,
Jogava ao alvo,
Padeceu trespassado.

Sonhei com uma fada,
Sem trono nem luz,
Chorava desalentada,
Pelo Menino Jesus.

Sonhei com Luas distantes,
Num Espaço longínquo a brilhar,
Como gotas de Lágrimas persistentes,
Pousadas na minha face a brincar.

Sonhei com Terra húmida,
Fria de odor pérfido,
Uma cova aberta à medida,
Comigo lá dentro perdido.


Lx, 3-12-2003
736

Luar

O Luar esbatia-se em mim,
Iluminando toda a seara,
De chuva prateada sem fim,
Rasgando-se em Noite clara.

O Luar dos amantes,
à beirinha dos portos,
O apego do navegantes,
O beijo dos poetas mortos.

O Luar caiu em mim,
Guardado pelas Estrelas,
Fez-me seu Delfim,
Encantado por todas elas.

O Luar dos montes,
Corre pelos caminhos,
Trás formosura às fontes,
Banhando ainda os moinhos.

O Luar da minha infância,
Era tão belo ao meu olhar,
Interpelava-me à distância,
Comovia-se ao ouvir chorar.

Lx, 1-4-2004
711

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