Lista de Poemas

Sociedade Cruel


Mergulhado num ninho de vespas estou,
Aterrorizado com todas as gentes fico,
Sob o peso do mundo minha alma vergou,
O semblante do meu ser desiste pacífico.

As ruas exalam carências sencientes,
Amor gratuito demora a encontrar-se,
Os corações resistem deprimentes,
E a sua jovialidade volátil esvai-se.

Como fantoches pavoneiam-se enfim,
Como bonecos com a corda partida,
Como escravos vagueiam até ao fim,
Até quando rastejar sob gente pervertida.

Lx, 5-11-1994
658

Prostração Ténue


Nem sempre quis ver o sol raiar,
Minha alma aflita desentronizada,
Decidiu com a pesada existência arcar,
Manter-se para sempre alheada.

Quando eu apenas queria amar,
Encontrei cumes de neves eternas,
Altas e distantes com quem sonhar,
Situam-se tão distantes e serenas.

Ansioso pelo prazer máximo desfrutar,
Neste pouquinho tempo que me resta,
Que tristeza vê-lo pelos dedos escapar,
Afinal o pouco que sobrou não presta.

Não sei como tudo isto aconteceu,
Estendi meus braços e bradei aos céus,
Nas minhas barbas o destino se teceu,
Quando de repente rasguei meus véus.

Porque não florir numa Primavera,
Como todas as flores sumptuosas,
Porque foste para mim tão severa,
Afogar-me em ideias perniciosas.

Minha alma não sabe por quem chamar,
Quando me apetece apenas gritar alto,
Já não consigo ouvir o vento a sussurrar,
Guiando meus passos neste último salto.

Lx, 8-10-1994
670

Introspectivamente

Continuarei sempre a lamentar-me,
Culpando-me sempre do sucedido,
Jamais quererei lembrar-me,
Do tempo que passei entristecido.

As lembranças não me têm movido,
São vazias de poder sentimental,
Já me lembrei de ter morrido,
Mas era sonho de mente serviçal.

Lx, 7-10-1993
734

A Alguém Querido


Agrada-me o teu largo sorriso gratuito,
Capaz de quebrar o coração mais duro,
Acompanhado dum meigo olhar fortuito,
Faz exalar mil Primaveras de ar puro.

Quando entristeces o Sol encobre-se,
Faz-se sombra e as cores esvaem-se,
As andorinhas vão como de Outono se tratasse,
As flores morrem como se o Inverno chegasse,

Continua a cantarolar músicas de Verão,
Quentes e românticos fados de Amor,
As tuas palavras inocentes perdurarão,
Nos meus ouvidos em momentos de dor.

Que prazer me dás ao saíres desoprimida,
Ver-te libertina depois de enclausurada,
Esvoaçares bem alto como ave de rapina,
Planando lá longe pelo vento libertada.

Ao mesmo tempo que pena te ver partir,
Deixar de te poder contemplar enamorado,
Nunca mais irá meu penoso coração florir,
Com saudades do teu olhar servil encantado.

Lx, 4-8-1996
737

O Horror

Murmúrios e lamentos vivem comigo,
Lado a lado e por todo o lado,
Vagueiam pelo mundo atolado,
A minha alma oferece-lhes abrigo,
São gerados em silêncio gelado,
Pelas lágrimas do meu chorado,
Libertei de mim o horror guardado.

Gritos dementes ecoam em glória,
Dor lancinante percorre a terra,
Incansável e com vida própria,
Emergindo atroz duma cratera,
Corrompendo tudo à sua passagem,
Tornando o Homem numa miragem,
O horror preencheu toda a paisagem.

A penumbra cobriu-me a esperança,
E os meus sonhos jazem esventrados,
Esconjurei-vos a todos agora degolados,
Que alguém ousou criar à minha semelhança,
Larguei os meus pesadelos ao vento,
Como os vossos carrascos sendo,
O genocídio deu à morte um alento.

Lx, 16-7-2004
650

Vagabundos


Tão profunda a dor eles sentem,
Morrer é apenas mais um idem,
Desalinhados e pobres pelos becos,
Jamais ouvirão os puros ecos,
Porque as lágrimas não mentem,
Quando pelas faces vertem,
Com a alma presa em paredes,
Corações quebrados dormentes,
Infelizes apenas geram ascos,
Neste mundo pleno em vácuos,
Que pena serem como eu,
Um ingénuo e mero plebeu.


Lx, 23-6-1993
620

Holocausto


Famintas ali colocadas,
Tão cansadas,
Famílias destroçadas,
Ao frio largadas,
Humilhadas,
Mães e filhos,
Separados,
Despidos,
Açoitados,
À força levados,
Para a morte certa,
Gemidos,
Lamentos,
Gritos lancinantes,
Corpos caídos,
Silêncio estendido,
Loucos soldados,
O bem escarnecido,
Fornos cheios,
Lume acendido,
Fumo perdido,
Almas queridas,
Esvaziadas,
Hoje lembradas,
Amanhã esquecidas.

Lx, 12-5-2005
672

Singularidades


Na mais profunda singularidade vazia e ténue, onde se esbatem os desejos mais enternecedores e acolhedores, brota uma paz duradoura e fulminante.
Na mais ínfima fracção de tempo, vigora o nada remanescente e eterno, complemento de tudo, elemento absorvente e aniquilador de todas as existências erráticas.
No fim do horizonte apaziguador e terno, ciente do seu minimalismo singular e arrebatador, está inerte o silêncio filantrópico milenar, onde toda a acção se esbate e definha no infinito, eterno e incomensurável, sem consciência da sua própria identidade.
Na mais ínfima fracção da noite, ousou um dia fazer-se luz, que logo se fez sombra e se tornou pesadelo irreversível, apenas solúvel na paz arrebatadora do vazio transcendental.
Alucinação intemporal e paranóica do vazio relativo, fez-nos um certo dia ganhar consciência num circo de marionetas onde a tristeza reina absolutamente.
Uma exaltação do Cosmos deu-nos a conhecer a nossa irrelevância mesquinha, como resposta à sua própria irreverência metafísica.
Um dia espalhados os nossos elementos pelo vazio do Universo, tal e qual poeira cósmica ao sabor dos ventos solares, vagueando sem destino, sem rumo, sem história, sem recordações, nem desejos, nem ambições, apenas sós, errantes, eternos, apaziguados, serenos e inatingíveis.
Voltarão a ser sábios inatos, preenchidos pela ausência de porquês, onde os dias serão sempre iguais, silenciosos e distantes num sono idílico, purificador e criogénico, onde o Ser intrínseco hiberna rumo ao Infinito e com Ele se extinguirá, para se tornar em nada por Fim.

Lx, 18-8-2003
657

Acção, Reacção

As mil e uma verdades,
Para mim absolutas,
São mil e uma inverdades,
Para outro resolutas,
As certezas de hoje,
São incertezas amanhã,
A consciência de hoje,
É padecer no amanhã.

A razão de uma vida,
É a morte irracional,
Tudo nela contida,
É sorte transcendental,
Às vezes pura e genial,
Outras indigna e fútil,
Existência bela e emocional,
Ou sombria e inútil.

O ideal desvanecido em sonho,
Numa vida inteira diluído,
Acaba por não vir a ser estranho,
Estar pela sua própria essência possuído,
E que preencherá o meu vazio,
O meu silêncio doloroso,
O meu inconformismo ímpio,
Ao longo de todo o meu caminho tenebroso.

Lx, 12-10-2004
719

Luar

O Luar esbatia-se em mim,
Iluminando toda a seara,
De chuva prateada sem fim,
Rasgando-se em Noite clara.

O Luar dos amantes,
à beirinha dos portos,
O apego do navegantes,
O beijo dos poetas mortos.

O Luar caiu em mim,
Guardado pelas Estrelas,
Fez-me seu Delfim,
Encantado por todas elas.

O Luar dos montes,
Corre pelos caminhos,
Trás formosura às fontes,
Banhando ainda os moinhos.

O Luar da minha infância,
Era tão belo ao meu olhar,
Interpelava-me à distância,
Comovia-se ao ouvir chorar.

Lx, 1-4-2004
697

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.

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“ Poesia Eterna Parte I”
Registado em www.safecreative.org sob o nº 1208142122416

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.