A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
Partirei um dia qualquer, Triste e dorido com a vida, Não sei se poderei ousar sequer, Levar para a morte a alma perdida.
Cedo ou mais tarde estarei de partida, Levarei comigo o silêncio da vida, Com certeza lembranças da música ouvida, O verde dos bosques e o mar de guarida.
Montanhas que ousaram chegar ao céu, Cobertas de neves eternas geladas, Contaram-me um segredo quando anoiteceu, Para lá das nuvens de chuva carregadas.
Que as estrelas todo o dia brilhavam, Fazendo sempre muita companhia, Ora duma roda de fogo nasciam, Ora morriam num buraco negro em agonia.
Com as estrelas irei ter um dia, Quando o destino reunir a irmandade, De acordo com tudo o que previa, Encarnarei um raio de luz em liberdade.
Lx, 1-4-2004
648
O Meu Sonho
Sonho a dormir, Sonho acordado, Da consciência sair, Do mundo acabado.
Sonho com Terra, Com o Vento e o Mar, O Sol nunca erra, De manhã ao raiar.
Sonho com a Noite, Ao longe a chegar, Carrega uma foice, Vem a minha vida cegar.
Sonho com Música, Arpas e violino, Só o Silêncio fica, E o badalar do sino.
Sonho a sonhar, Com a partida, Sem nunca chegar, Só com viagem de ida.
Sonho Eu existir, Apenas um engano, Insisto persistir, Em nódoa de pano.
Sonhei contigo um Dia, Radiosa e sensual, Seguias noutra via, Contrária ao ideal.
Sonhei com algo, Perdido e vago, Jogava ao alvo, Padeceu trespassado.
Sonhei com uma fada, Sem trono nem luz, Chorava desalentada, Pelo Menino Jesus.
Sonhei com Luas distantes, Num Espaço longínquo a brilhar, Como gotas de Lágrimas persistentes, Pousadas na minha face a brincar.
Sonhei com Terra húmida, Fria de odor pérfido, Uma cova aberta à medida, Comigo lá dentro perdido.
Lx, 3-12-2003
735
Canta Para Mim
Canta só mais uma vez, Antes que tombe na valeta, Quando nascer o Sol talvez, Quando te der na veneta.
Uma vez mais somente, Já só ouço o troar lá fora, Tem piedade de mim doente, Porque a Lua já cá não mora.
Canta e assobia também, Não há mais ninguém a ouvir, Já não enxergo o além, Para onde hei-de eu partir.
Canta passarinho canta, Só uma vez mais sem falta, Sabes que o teu piar encanta, E a noite já vai longa.
Porque me abandonaste? É só uma tempestade, Não me achaste? E a chuva cai sem piedade.
Lx, 10-10-2003
730
Holocausto
Famintas ali colocadas, Tão cansadas, Famílias destroçadas, Ao frio largadas, Humilhadas, Mães e filhos, Separados, Despidos, Açoitados, À força levados, Para a morte certa, Gemidos, Lamentos, Gritos lancinantes, Corpos caídos, Silêncio estendido, Loucos soldados, O bem escarnecido, Fornos cheios, Lume acendido, Fumo perdido, Almas queridas, Esvaziadas, Hoje lembradas, Amanhã esquecidas.
Lx, 12-5-2005
684
Uma Gota de
Uma gota de chuva, Caída do Céu, Em Liberdade, Chorava, Desencantada.
Uma gota de Luz, Caída das Estrelas, Ofuscada, Vagueava, Perdida.
Uma gota de mel, Caída da flor, Cheia de amor, Desamparada, Sonhava, Angustiada.
Uma gota de fel, Caída da Alma, Magoada, Cansada, E só.
Lx, 10-11-2007
765
O Horror
Murmúrios e lamentos vivem comigo, Lado a lado e por todo o lado, Vagueiam pelo mundo atolado, A minha alma oferece-lhes abrigo, São gerados em silêncio gelado, Pelas lágrimas do meu chorado, Libertei de mim o horror guardado.
Gritos dementes ecoam em glória, Dor lancinante percorre a terra, Incansável e com vida própria, Emergindo atroz duma cratera, Corrompendo tudo à sua passagem, Tornando o Homem numa miragem, O horror preencheu toda a paisagem.
A penumbra cobriu-me a esperança, E os meus sonhos jazem esventrados, Esconjurei-vos a todos agora degolados, Que alguém ousou criar à minha semelhança, Larguei os meus pesadelos ao vento, Como os vossos carrascos sendo, O genocídio deu à morte um alento.
Lx, 16-7-2004
660
Singularidades
Na mais profunda singularidade vazia e ténue, onde se esbatem os desejos mais enternecedores e acolhedores, brota uma paz duradoura e fulminante. Na mais ínfima fracção de tempo, vigora o nada remanescente e eterno, complemento de tudo, elemento absorvente e aniquilador de todas as existências erráticas. No fim do horizonte apaziguador e terno, ciente do seu minimalismo singular e arrebatador, está inerte o silêncio filantrópico milenar, onde toda a acção se esbate e definha no infinito, eterno e incomensurável, sem consciência da sua própria identidade. Na mais ínfima fracção da noite, ousou um dia fazer-se luz, que logo se fez sombra e se tornou pesadelo irreversível, apenas solúvel na paz arrebatadora do vazio transcendental. Alucinação intemporal e paranóica do vazio relativo, fez-nos um certo dia ganhar consciência num circo de marionetas onde a tristeza reina absolutamente. Uma exaltação do Cosmos deu-nos a conhecer a nossa irrelevância mesquinha, como resposta à sua própria irreverência metafísica. Um dia espalhados os nossos elementos pelo vazio do Universo, tal e qual poeira cósmica ao sabor dos ventos solares, vagueando sem destino, sem rumo, sem história, sem recordações, nem desejos, nem ambições, apenas sós, errantes, eternos, apaziguados, serenos e inatingíveis. Voltarão a ser sábios inatos, preenchidos pela ausência de porquês, onde os dias serão sempre iguais, silenciosos e distantes num sono idílico, purificador e criogénico, onde o Ser intrínseco hiberna rumo ao Infinito e com Ele se extinguirá, para se tornar em nada por Fim.