Paulo Jorge

Paulo Jorge

n. 1970 PT PT

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

n. 1970-07-17, Lisboa

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Nascido





Jamais me esquecerei,

Que me fizeram,

Nascer um Dia,

Simplesmente,

Infindável.



Lx, 18-7-2000
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Biografia
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.

Poemas

114

O Horror

Murmúrios e lamentos vivem comigo,
Lado a lado e por todo o lado,
Vagueiam pelo mundo atolado,
A minha alma oferece-lhes abrigo,
São gerados em silêncio gelado,
Pelas lágrimas do meu chorado,
Libertei de mim o horror guardado.

Gritos dementes ecoam em glória,
Dor lancinante percorre a terra,
Incansável e com vida própria,
Emergindo atroz duma cratera,
Corrompendo tudo à sua passagem,
Tornando o Homem numa miragem,
O horror preencheu toda a paisagem.

A penumbra cobriu-me a esperança,
E os meus sonhos jazem esventrados,
Esconjurei-vos a todos agora degolados,
Que alguém ousou criar à minha semelhança,
Larguei os meus pesadelos ao vento,
Como os vossos carrascos sendo,
O genocídio deu à morte um alento.

Lx, 16-7-2004
658

Luar

O Luar esbatia-se em mim,
Iluminando toda a seara,
De chuva prateada sem fim,
Rasgando-se em Noite clara.

O Luar dos amantes,
à beirinha dos portos,
O apego do navegantes,
O beijo dos poetas mortos.

O Luar caiu em mim,
Guardado pelas Estrelas,
Fez-me seu Delfim,
Encantado por todas elas.

O Luar dos montes,
Corre pelos caminhos,
Trás formosura às fontes,
Banhando ainda os moinhos.

O Luar da minha infância,
Era tão belo ao meu olhar,
Interpelava-me à distância,
Comovia-se ao ouvir chorar.

Lx, 1-4-2004
706

Acção, Reacção

As mil e uma verdades,
Para mim absolutas,
São mil e uma inverdades,
Para outro resolutas,
As certezas de hoje,
São incertezas amanhã,
A consciência de hoje,
É padecer no amanhã.

A razão de uma vida,
É a morte irracional,
Tudo nela contida,
É sorte transcendental,
Às vezes pura e genial,
Outras indigna e fútil,
Existência bela e emocional,
Ou sombria e inútil.

O ideal desvanecido em sonho,
Numa vida inteira diluído,
Acaba por não vir a ser estranho,
Estar pela sua própria essência possuído,
E que preencherá o meu vazio,
O meu silêncio doloroso,
O meu inconformismo ímpio,
Ao longo de todo o meu caminho tenebroso.

Lx, 12-10-2004
728

Holocausto


Famintas ali colocadas,
Tão cansadas,
Famílias destroçadas,
Ao frio largadas,
Humilhadas,
Mães e filhos,
Separados,
Despidos,
Açoitados,
À força levados,
Para a morte certa,
Gemidos,
Lamentos,
Gritos lancinantes,
Corpos caídos,
Silêncio estendido,
Loucos soldados,
O bem escarnecido,
Fornos cheios,
Lume acendido,
Fumo perdido,
Almas queridas,
Esvaziadas,
Hoje lembradas,
Amanhã esquecidas.

Lx, 12-5-2005
683

Singularidades


Na mais profunda singularidade vazia e ténue, onde se esbatem os desejos mais enternecedores e acolhedores, brota uma paz duradoura e fulminante.
Na mais ínfima fracção de tempo, vigora o nada remanescente e eterno, complemento de tudo, elemento absorvente e aniquilador de todas as existências erráticas.
No fim do horizonte apaziguador e terno, ciente do seu minimalismo singular e arrebatador, está inerte o silêncio filantrópico milenar, onde toda a acção se esbate e definha no infinito, eterno e incomensurável, sem consciência da sua própria identidade.
Na mais ínfima fracção da noite, ousou um dia fazer-se luz, que logo se fez sombra e se tornou pesadelo irreversível, apenas solúvel na paz arrebatadora do vazio transcendental.
Alucinação intemporal e paranóica do vazio relativo, fez-nos um certo dia ganhar consciência num circo de marionetas onde a tristeza reina absolutamente.
Uma exaltação do Cosmos deu-nos a conhecer a nossa irrelevância mesquinha, como resposta à sua própria irreverência metafísica.
Um dia espalhados os nossos elementos pelo vazio do Universo, tal e qual poeira cósmica ao sabor dos ventos solares, vagueando sem destino, sem rumo, sem história, sem recordações, nem desejos, nem ambições, apenas sós, errantes, eternos, apaziguados, serenos e inatingíveis.
Voltarão a ser sábios inatos, preenchidos pela ausência de porquês, onde os dias serão sempre iguais, silenciosos e distantes num sono idílico, purificador e criogénico, onde o Ser intrínseco hiberna rumo ao Infinito e com Ele se extinguirá, para se tornar em nada por Fim.

Lx, 18-8-2003
667

Partida

Partirei um dia qualquer,
Triste e dorido com a vida,
Não sei se poderei ousar sequer,
Levar para a morte a alma perdida.

Cedo ou mais tarde estarei de partida,
Levarei comigo o silêncio da vida,
Com certeza lembranças da música ouvida,
O verde dos bosques e o mar de guarida.

Montanhas que ousaram chegar ao céu,
Cobertas de neves eternas geladas,
Contaram-me um segredo quando anoiteceu,
Para lá das nuvens de chuva carregadas.

Que as estrelas todo o dia brilhavam,
Fazendo sempre muita companhia,
Ora duma roda de fogo nasciam,
Ora morriam num buraco negro em agonia.

Com as estrelas irei ter um dia,
Quando o destino reunir a irmandade,
De acordo com tudo o que previa,
Encarnarei um raio de luz em liberdade.


Lx, 1-4-2004
646

O Meu Sonho

Sonho a dormir,
Sonho acordado,
Da consciência sair,
Do mundo acabado.

Sonho com Terra,
Com o Vento e o Mar,
O Sol nunca erra,
De manhã ao raiar.

Sonho com a Noite,
Ao longe a chegar,
Carrega uma foice,
Vem a minha vida cegar.

Sonho com Música,
Arpas e violino,
Só o Silêncio fica,
E o badalar do sino.

Sonho a sonhar,
Com a partida,
Sem nunca chegar,
Só com viagem de ida.

Sonho Eu existir,
Apenas um engano,
Insisto persistir,
Em nódoa de pano.

Sonhei contigo um Dia,
Radiosa e sensual,
Seguias noutra via,
Contrária ao ideal.

Sonhei com algo,
Perdido e vago,
Jogava ao alvo,
Padeceu trespassado.

Sonhei com uma fada,
Sem trono nem luz,
Chorava desalentada,
Pelo Menino Jesus.

Sonhei com Luas distantes,
Num Espaço longínquo a brilhar,
Como gotas de Lágrimas persistentes,
Pousadas na minha face a brincar.

Sonhei com Terra húmida,
Fria de odor pérfido,
Uma cova aberta à medida,
Comigo lá dentro perdido.


Lx, 3-12-2003
730

Lá longe em casa

Dos confins do Universo,

Ouço um ligeiro fervilhar,

Gerou-se um dia adverso,

Ousou o horizonte perfilhar.

Matéria incandescente por moldar,

A eternidade dos elementos sós,

Energia em rodos por soltar,

Perdeu-se algures o feiticeiro de Oz.

Os Planetas rodopiam sem cessar,

Em redor do Sol tão iluminados,

Sabem o caminho a tomar,

Até que de Luz fiquem inundados.

Sistemas bi-Solares,

Luas prateadas,

Ou de cor grená,

Ventos solares,

Montanhas paradas,

Calotes Polares,

Por Mar cercadas,

Florestas ancestrais,

Coros angelicais,

Não reparais.

LX, 19-3-2002

771

Rapaziadas

Porque te deram consciência um dia,

Não seria para teres noção de ti mesmo,

Porque te encharcas de perfume,

O mau cheiro que exalas não alivia,

Porque olhas de soslaio tão pasmo,

Não tens a escola toda dos energúmenos.

Continuas a ver novelas baratas,

E a tua vida já vai no enésimo episódio,

Continuas a defecar nas matas,

Não o levas contigo por lhe teres ódio,

Continuas a cantar-lhes serenatas,

Não vês que já todos chegaram ao pódio.

Conduzes-te de carro até ao café,

Mas não vês da tua casa,

Que ainda não fizeram Drive in,

Levei-te comigo ao pontapé,

Fiz-te uma cova abrigada,

Acreditaste idiota ser o Holiday in.

LX, 19-3-2002

753

Andorinhas



Andorinhas da Primavera,

Deambulam a cantar,

Anunciam uma nova era,

Trazem notícias além Mar.

Andorinhas dos beirais,

Ouviram os meus lamentos,

Voaram pelos trigais,

Voam aos sete ventos.

Andorinhas nos ninhos,

Criam os pequeninos,

Todos muito juntinhos,

Ouvem tocar os sinos.

Andorinhas ao vento,

Saúda-vos um amigo,

Descansam ao relento,

Uma cova por abrigo.

Andorinhas da Cidade,

Senhoras da Liberdade,

Irradiam a Luz da Verdade,

Tenhais por nós piedade.

LX, 11-6-2002

855

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