Lista de Poemas

O Meu Sonho

Sonho a dormir,
Sonho acordado,
Da consciência sair,
Do mundo acabado.

Sonho com Terra,
Com o Vento e o Mar,
O Sol nunca erra,
De manhã ao raiar.

Sonho com a Noite,
Ao longe a chegar,
Carrega uma foice,
Vem a minha vida cegar.

Sonho com Música,
Arpas e violino,
Só o Silêncio fica,
E o badalar do sino.

Sonho a sonhar,
Com a partida,
Sem nunca chegar,
Só com viagem de ida.

Sonho Eu existir,
Apenas um engano,
Insisto persistir,
Em nódoa de pano.

Sonhei contigo um Dia,
Radiosa e sensual,
Seguias noutra via,
Contrária ao ideal.

Sonhei com algo,
Perdido e vago,
Jogava ao alvo,
Padeceu trespassado.

Sonhei com uma fada,
Sem trono nem luz,
Chorava desalentada,
Pelo Menino Jesus.

Sonhei com Luas distantes,
Num Espaço longínquo a brilhar,
Como gotas de Lágrimas persistentes,
Pousadas na minha face a brincar.

Sonhei com Terra húmida,
Fria de odor pérfido,
Uma cova aberta à medida,
Comigo lá dentro perdido.


Lx, 3-12-2003
723

Uma Gota de


Uma gota de chuva,
Caída do Céu,
Em Liberdade,
Chorava,
Desencantada.

Uma gota de Luz,
Caída das Estrelas,
Ofuscada,
Vagueava,
Perdida.

Uma gota de mel,
Caída da flor,
Cheia de amor,
Desamparada,
Sonhava,
Angustiada.

Uma gota de fel,
Caída da Alma,
Magoada,
Cansada,
E só.

Lx, 10-11-2007
740

Versos de Lamentação

Contigo nasci para amar,
Sob o leito da dor,
Vou para sempre encarnar,
A dúvida num mito incolor.

A terra a lamentar me chama,
Glorioso de sonhos proclamo,
Não somos mais do que lama,
Lançada pelo vento ao nosso Amo.

Todos nascemos para morrer,
Gozar a vida a sonhar,
Vamos com certeza renascer,
Para divinalmente a utopia adorar.

Ao alvorecer acordamos em busca de alguém,
Objectivamente tentamos esculturar belezas,
Em faces e corpos que julgamos ser do além,
Mas as suas almas há muito caíram nas profundezas.

A chuva cai fria pela madrugada,
Anseio por braços quentes ao meu regresso,
A chuva impiedosa cai desalmada,
Continuo à tua espera sem sucesso.

Uma história inesquecível eu tinha para contar,
Com ela muitos iriam sorrir,
Acabaram por me interpelar,
E perguntar se era verdade o que iriam ouvir.

A noite cai uma vez mais escura,
Com ela a vida parece hibernar,
Para quê torná-la ainda mais obscura,
Se dela não nos podemos alienar.


Lx, 17-12-1990
969

Canta Para Mim

Canta só mais uma vez,
Antes que tombe na valeta,
Quando nascer o Sol talvez,
Quando te der na veneta.

Uma vez mais somente,
Já só ouço o troar lá fora,
Tem piedade de mim doente,
Porque a Lua já cá não mora.

Canta e assobia também,
Não há mais ninguém a ouvir,
Já não enxergo o além,
Para onde hei-de eu partir.

Canta passarinho canta,
Só uma vez mais sem falta,
Sabes que o teu piar encanta,
E a noite já vai longa.

Porque me abandonaste?
É só uma tempestade,
Não me achaste?
E a chuva cai sem piedade.

Lx, 10-10-2003

718

Opacidade Emocional

A monotonia de existir,
Logo ao acordar se instala,
O tédio não me deixa dormir,
E já é de madrugada.

A dor abrigou-se na minha alma,
E o silêncio preencheu a minha vida,
Devagarinho e com muita calma,
Sussurrou-me a morte ao ouvido.

Tão cansado de olhar,
Sentir e pensar,
Sonhar acordado,
Em tudo dar,
Como acabado.

Tão abalado fiquei,
Ao persistir e tentar,
Em vão testemunhei,
Sem nunca ter achado,
O segredo maior,
Tão bem guardado,
O céu à noite,
Estrelado.
Lx, 16-7-2004
768

Dunas


Dunas douradas esquecidas,
De areias mil,
A brilhar ao Sol perdidas,
Com o Mar de perfil.

Recebes a teus pés as ondas,
Coroadas de puro branco,
Trazem com elas as conchas,
Que te dão tanto encanto.

Deixas-te pelo vento acariciar,
Quando te sussurra paixão,
Vergas-te à nortada polar,
Quando cometes traição.

E de noite ao luar,
Com o céu iluminado,
De mil estrelas a brilhar,
Recebeste meu corpo inanimado.

Cansado de tanto esperar,
Tão frio e desencantado,
Que até a dor fez chorar,
No meu coração desvanecido.

Lx, 28-6-2005
663

Partida

Partirei um dia qualquer,
Triste e dorido com a vida,
Não sei se poderei ousar sequer,
Levar para a morte a alma perdida.

Cedo ou mais tarde estarei de partida,
Levarei comigo o silêncio da vida,
Com certeza lembranças da música ouvida,
O verde dos bosques e o mar de guarida.

Montanhas que ousaram chegar ao céu,
Cobertas de neves eternas geladas,
Contaram-me um segredo quando anoiteceu,
Para lá das nuvens de chuva carregadas.

Que as estrelas todo o dia brilhavam,
Fazendo sempre muita companhia,
Ora duma roda de fogo nasciam,
Ora morriam num buraco negro em agonia.

Com as estrelas irei ter um dia,
Quando o destino reunir a irmandade,
De acordo com tudo o que previa,
Encarnarei um raio de luz em liberdade.


Lx, 1-4-2004
639

Antítese

Um certo dia nasceu a luz,

Antecedeu-lhe a sua identidade,

Gerada das trevas como pus,

Fez jus à sua luminosidade.

Um certo dia nasceu a música,

Desafiou o silêncio instalado,

Ecoou por aí evasiva e mítica,

Quebrou o meu coração gelado.

Um certo dia nasceu a consciência,

Ávida por respostas a tudo,

Criou o entendimento da aparência,

Vingou o caos do existencialismo mudo.

A vida não passa duma ilusão Universal,

Um certo dia extinguir-se-á sozinha,

A noite eterna virá silenciosa como tal,

O sonho da criação desvanece e definha.

As trevas instalar-se-ão devagar,

A música deixará de se ouvir,

Os músicos há muito deixaram de tocar,

E a vela do candelabro deixou de luzir.

LX, 17-11-2001
792

Rapaziadas

Porque te deram consciência um dia,

Não seria para teres noção de ti mesmo,

Porque te encharcas de perfume,

O mau cheiro que exalas não alivia,

Porque olhas de soslaio tão pasmo,

Não tens a escola toda dos energúmenos.

Continuas a ver novelas baratas,

E a tua vida já vai no enésimo episódio,

Continuas a defecar nas matas,

Não o levas contigo por lhe teres ódio,

Continuas a cantar-lhes serenatas,

Não vês que já todos chegaram ao pódio.

Conduzes-te de carro até ao café,

Mas não vês da tua casa,

Que ainda não fizeram Drive in,

Levei-te comigo ao pontapé,

Fiz-te uma cova abrigada,

Acreditaste idiota ser o Holiday in.

LX, 19-3-2002

743

Ser ou não Ser

Inquietude que me tormentas,

Dia e noite, de manhã, à noitinha,

Sob o peso da consciência lamentas,

Invocaram-me numa ladainha.

Alma enclausurada e escondida,

Com medo da luz das trevas,

Insultada, ultrajada e perdida,

Diluiu-se numa aurora em névoa.

Fui à sua procura um dia,

Demorei tempos afim, uma vida,

Procurei em vales onde me perdia,

Só, chorei a perda sofrida.

Deixaste-me para sempre só,

Não levaste contigo o pensar,

Ele vai-me consumir até ser pó,

Pensamentos o Fim hão-de lembrar.

A cambalear o caminho prossigo,

Não sei o destino, ao que vou,

Implorei ao vento um abrigo,

Sussurrou e as folhas com ele levou.

Continuo a minha busca incessante,

Subo montes, procuro-te no céu,

Os passos conduzem-me avante,

O vento cessou, só a chuva permaneceu.

O corpo envelheceu devagar,

Coberto de sofrimento atroz,

Cansado de tanto procurar,

Ousou um dia ser um albatroz.

Para poder voar sobre o Mar,

Vaguear por entre as nuvens,

Eternamente sustentado pelo ar,

Apelei à Lua por ti, mas não vens.

Por fim o pavio esfumou-se,

Por fim o trilho esgotou-se,

Por fim a alma esgueirou-se,

Por fim a resposta materializou-se.

Afinal a Alma era Eu próprio,

Final era Eu a sombra existencial,

Afinal era Eu poeira sideral,

Afinal Deus era Eu próprio.

LX, 7-9-2001

760

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.

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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.